Astisata

Astisata
Localização atual
Astisata está localizado em: Turquia
Astisata
Localização do sítio de Astisata
Coordenadas 🌍
País Turquia
Região Anatólia Oriental
Província Muxe

Astisata (em latim: Astisata; em armênio: Աշտիշատ; romaniz.: Aštišat) era uma cidade do planalto Armênio do cantão de Taraunitis, na província de Turuberânia. Foi um importante centro religioso pagão, com um celebrado templo tripartido dedicado a Vaagênio, Astlique e Anaíte. No começo do século IV, o templo foi destruído por Gregório, o Iluminador, que converteu o recinto na primeira sede cristã oficial do Reino da Armênia.

Nome

Astisata[1] é a forma latina de Astixata (Աշտիշատ, Aštišat), que é formado por Asti / Astarte + -xata (šat'), e significa "felicidade de Astarte". Seu nome foi corrompido popularmente como Iastixata (Յաշտիշատ, Yaštišat), que em um dos manuscritos de Agatângelo foi erroneamente derivado do iraniano yašt, "sacrifício", e do armênio šat, "muito, muitos", o que gerou o sentido de "[local] de muitos sacrifícios".[2]

História

De acordo com as fontes armênias, Astisata estava situada ao norte do Mel, o principal rio que fluía pelo distrito de Taraunitis, na província da Turuberânia do Reino da Armênia.[3] Geralmente se assume que estivesse no sítio do Convento de São Isaque, destruído por Tamerlão no século XIV, sobre uma colina ao norte da confluência dos rios Murate e Carasu, a norte de Muxe, perto da vila de Terque.[4] Suas reais dimensões e população são desconhecidas, haja vista as fontes flutuarem a respeito de sua caracterização. Fausto, o Bizantino e Moisés de Corene variadamente referem-se a ela como uma localidade (teł) ou vila (gewł) e em uma única ocasião, Fausto caracteriza-a como uma cidade eclesiástica (awan). Nina Garsoïan propôs, com base na menção em Fausto de que a igreja em Astisata era "fortificada", que o sítio não deveria ser protegido por uma unidade populacional maior.[5]

Durante a Antiguidade, Astisata foi um relevante templo pagão (mehean) tripartido dedicado a Anaíte, Astlique e Vaagênio,[6] que foi particularmente relevante para os reis arsácidas. Os vanúnidas, um possível ramo cadete dos orôntidas, serviam como sumo sacerdotes de Vaagênio em Astisata até a eventual cristianização da Armênia em 301.[7] O templo de Vaagênio foi destruído por Gregório, o Iluminador, sob autorização do rei Tiridates IV (r. 298–330). e em seu lugar construir-se-ia a Igreja de São João Batista e São Atenógenes, com os altares dos nomes da glória de Cristo e da Santíssima Trindade. Fausto reiteradamente referiu-se a essa igreja como "Igreja Matriz" (Mayr Ekełecʿi).[8] Diz-se que Gregório batizou 190 mil pessoas em Astisata.[4] Por volta de 314, Astisata foi incorporada ao patrimônio da Igreja Armênia, como posse pessoal de Gregório e seus descendentes.[9] Robert H. Hewsen propôs que o cantão de Aspacúnia pertencia a Astisata.[10]

Em certa ocasião, durante o reinado de Cosroes III (r. 330–339), o católico Vertanes I (r. 327/33–341/2), filho mais novo de Gregório, dirigiu-se a Astisata para celebrou a eucaristia acompanhado de reis, nobres e pelo povo. Depois, ao retornar a Astisata apenas acompanhado por alguns ajudantes, foi surpreendido por uma multidão de sectários pagãos que pertenciam às famílias e linhagens dos antigos sacerdotes pagãos, conhecidos como devoradores e destruidores do mundo. Eles foram enviados ali sob ordens da rainha da Armênia, que havia sido repreendida por Vertanes por seus modos dissolutos e por um adultério secreto. Alega-se que Vertanes foi protegido pela intervenção divida e seus agressores permaneceram presos por uma força invisível. Segundo alegações de Fausto, Vertanes pregou o Evangelho diante deles e suas orações permitiram que os invasores pudessem se mexer novamente. Arrependidos, prostraram-se diante dele, pedindo penitência, e o patriarca designou-lhes um tempo para isso. Depois disso, Vertanes batizou cerca de dois mil deles, além de suas mulheres e filhos.[11]

Por volta de 347/8, durante o reinado de Tigranes VII (r. 339–350), Atenógenes e Papa, filhos do católico Hesíquio I (r. 341/2–347/8), dirigiram-se a Astisata, onde realizaram um grande festim, regado em bebidas. Bêbados, entraram na residência episcopal com cantores e palhaços e profanaram o local com sua presença. Supostamente, quando reclinaram-se em sofás, um anjo surgiu e os incinerou com um raio. Todos os presentes abandonaram o recinto e os corpos deles foram deixados lá por meses até serem recolhidos e sepultados num vinhedo pertencente a uma igreja chamada Agaraque.[12] Jean-Pierre Mahé propôs que essa alegoria, como apresentada por Fausto, diz respeito ao assassinados deles, provavelmente por sua recusa a assumir a posição sacerdotal.[13] Na mesma época, servia como supervisor das igrejas de Taraunitis o corebispo Daniel, um sacerdote siríaco autônomo que atuou nas porções ao sul da Armênia à época, influenciado pela Igreja na Síria e centrado em Astisata.[14] Ele foi convidado a ocupar o trono catolicossal da Armênia por Tigranes, mas após ofender publicamente o rei, foi assassinado.[15] O trono seria ocupado por Farnarses (r. 347/8–352), que era nativo de Astisata.[4]

Expansão dos Mamicônios, com Taraunitis situada ao sul

De acordo com Fausto, pouco após 353, o eunuco Cílaces visitou Astisata para orar e receber as bênçãos do católico Narses (r. 353–373). Ao chegar, Narses e ele abençoaram um ao outro e Cílaces perambulou da residência episcopal às capelas dos santos. Quando voltou, entrou na sala de jantar, sentou-se e começou a comer e beber. Quando estava saciado e bêbado, falou arrogante e presunçosamente, insultando o rei Tiridates IV e os reis mortos e vivos da dinastia arsácida. Incomodado com sua postura, Narses ordenou que se retirasse.[16] Em 354/6, Narses conveniou o Concílio de Astisata, no qual o zoroastrismo, paganismo, os casamentos consanguíneos e ritos funerários antigos foram proibidos e muitas instituições voluntárias (leprosários, orfanatos, etc.) foram criadas.[17] Segundo João Mamicônio, as relíquias de Narses foram levadas para Astisata.[4] Desde a morte do católico Isaque I, o Grande (438/9), último descendente masculino de Gregório, Astisata foi recebida como propriedade por Amazaspes I da família Mamicônio por conta de seu casamento com a filha de Isaque.[9] No século VII, a mosteiro local foi destruída pelos árabes e em seu lugar foi erguida a Igreja de Isaque, que existiu até 1915, quando foi destruída durante o genocídio armênio. Em 1915, a vila de Terque possuía cerca de 600 habitantes armênios, devotos de São Isaque.[18]

Referências

Bibliografia

  • Butler, Alban (1997). Butler's Lives of the Saints: November. Nova Iorque: Continuum International Publishing Group. ISBN 978-0860122609 
  • Esbroeck, M. Van (1987). «Aštišat». Enciclopédia Irânica Vol. II, Fasc. 8. Nova Iorque: Columbia University Press 
  • Fausto, o Bizantino (1989). Garsoïan, Nina, ed. The Epic Histories Attributed to Pʻawstos Buzand: (Buzandaran Patmutʻiwnkʻ). Cambrígia, Massachusetts: Departamento de Línguas e Civilizações Próximo Orientais, Universidade de Harvard 
  • Garsoïan, Nina (2004). «The Aršakuni Dynasty (A.D. 12-[180?]-428)». In: Richard G. Hovannisian. Armenian People from Ancient to Modern Times, vol. I : The Dynastic Periods: From Antiquity to the Fourteenth Century. Nova Iorque: Palgrave Macmillan. ISBN 978-1-4039-6421-2 
  • Hakobyan, Tadevos X.; Melik-Baxšyan, Stepan T.; Barsełyan, Hovhannes X. (1988–2001). «Աշտիշատ». Hayastani ev harakitsʻ šrjanneri tełanunneri baṛaran Հայաստանի և հարակից շրջանների տեղանունների բառարան [Dicionário da Toponímia da Armênia e Territórios Adjacentes]. 3. Erevã: Yerevan State University Publishing House 
  • Hewsen, Robert H. (1992). The Geography of Ananias of Širak. The Long and Short Recensions. Introduction, Translation and Commentary. Wiesbaden: Dr. Ludwig Reichert Verlag 
  • Kurkjian, Vahan M. (1958). A History of Armenia. Nova Iorque: Armenian General Benevolent Union of America 
  • Mahé, Jean-Pierre (2007). «Affirmation de l'Arménie chrétienne (vers 301-590)». In: Gérard Dédéyan. Histoire du peuple arménien. Tolosa: Éd. Privat. ISBN 978-2-7089-6874-5 
  • Moisés de Corene (1736). Historiae Armeniacae libri III. Londres: Caroli Ackers 
  • Toumanoff, Cyril (1963). Studies in Christian Caucasian History. Washington: Georgetown University Press