Assassinatos de Harry e Harriette Moore
| Assassinatos de Harry e Harriette Moore | |
|---|---|
![]() Casa dos Moore após o atentado na noite de Natal | |
| Local | Mims (Flórida) |
| Data | 25 dezembro 1951 Noite (EST) |
| Tipo de ataque | Duplo assassinato por explosão |
| Alvo(s) | Harry e Harriette Moore |
| Arma(s) | Dinamite |
| Vítimas |
|
| Responsável(is) | Nenhum condenado |
| Suspeito(s) | Joseph N. Cox Earl J. Brooklyn Tillman H. Belvin Edward L. Spivey |
| Motivo | Retaliação contra Harry Moore por suas atividades em prol dos direitos civis |
Harry T. Moore e sua esposa, Harriette V. S. Moore, foram pioneiros e líderes do Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, sendo considerados os primeiros mártires desse movimento. Na noite de Natal, 25 de dezembro de 1951, uma bomba colocada sob o assoalho do quarto do casal, em sua casa em Mims, Flórida, explodiu.[1] Naquele dia, eles haviam comemorado seu 25º aniversário de casamento.[2] Harry faleceu na ambulância a caminho do hospital, e Harriette não resistiu aos ferimentos nove dias depois, em 3 de janeiro de 1952.[1] Suas mortes marcaram o primeiro assassinato de ativistas durante o Movimento dos Direitos Civis e foram o único caso em que um casal foi morto na história do movimento.[3][4]
Contexto
Harry Moore e Harriette Simms casaram-se em 25 de dezembro de 1926 e mudaram-se para a casa da família Simms no outono seguinte.[5] Harry era educador, enquanto Harriette, ex-professora, trabalhava como corretora de seguros.[3] Em 1927, Harry foi promovido a diretor escolar da Titusville Colored School, uma escola local.[5] O sistema escolar da cidade era segregado racialmente, como muitos outros nos Estados Unidos na época.[5][1] Harry lecionava para o nono ano (a escola atendia do primeiro ao nono ano) e supervisionava a equipe de professores.[5] No primeiro ano de sua gestão, a escola foi fechada após apenas seis meses pelo conselho escolar local, como parte de uma prática sistêmica de discriminação contra crianças negras.[5][1][3] Em 1928, os Moore tiveram sua primeira filha e mudaram-se para uma casa própria, em um terreno de um acre doado pelos pais de Harriette.[5][6] A segunda filha nasceu em 1930.[3][6] Harriette retornou à educação no ano seguinte e, posteriormente, passou a lecionar na mesma escola de Harry.[6]
Em 1934, Harry fundou a filial do condado de Brevard, Flórida, da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP).[7][3][8] Mais tarde, ele se tornou o primeiro Secretário Executivo da NAACP no estado da Flórida.[8] A filial trabalhou pela igualdade salarial para professores de qualquer etnia, lutou pela punição de linchamentos e buscou registro eleitoral para eleitores negros na região.[8][1]
O ativismo de Moore era altamente controverso no condado, dominado pela comunidade branca.[8] Em 1946, isso resultou na demissão de Harry e Harriette de seus cargos de professores pelas autoridades estaduais.[8][3] Harry então passou a trabalhar em tempo integral para a NAACP.[8]
Assassinato
Na noite de 25 de dezembro de 1951, após celebrarem o Natal e seu 25º aniversário de casamento, os Moore retiraram-se para seu quarto.[9] Uma bomba explodiu, ferindo Harry e Harriette, mas deixando sua filha, que estava em casa (a outra filha estava em outro local), ilesa.[10] O dispositivo explosivo improvisado, feito de dinamite, havia sido colocado diretamente sob o assoalho do quarto do casal.[3] Eles foram levados ao hospital mais próximo que atendia afro-americanos, em Sanford, Flórida, a cerca de 48 km de carro.[9] Harry faleceu durante o transporte, e Harriette, que viveu para ver o enterro do marido, morreu nove dias depois devido aos ferimentos.[9]
Investigações e motivo
Ao longo dos anos, vários motivos foram sugeridos para as mortes dos Moore. Todos compartilham um tema comum — retaliação contra Harry Moore por suas atividades em prol dos direitos civis. — Charlie Crist, 35º Procurador-Geral da Flórida[1]
Desde a explosão em 1951, cinco investigações criminais distintas foram iniciadas e concluídas.[10] A primeira, conduzida pelo FBI, começou na noite do atentado e terminou em 1955.[10] A segunda foi uma investigação conjunta do Gabinete do Xerife e da Procuradoria do Condado de Brevard em 1978.[10] A terceira, realizada em 1991 pelo Departamento de Aplicação da Lei da Flórida (FDLE), foi seguida por uma quarta investigação em 2004, conduzida pelo Escritório de Direitos Civis do Procurador-Geral da Flórida.[10] Em 2008, o FBI reabriu o caso como parte da Iniciativa de Casos Frios do Departamento de Justiça.[10]
As cinco investigações revelaram evidências que implicaram quatro suspeitos no atentado.[10] Todos eram membros de alto escalão da Ku Klux Klan na região central da Flórida.[10] O primeiro, Earl J. Brooklyn, era um klansman conhecido por sua extrema violência, descrito como "renegado" após ser expulso de uma seção da Klan na Geórgia por atos de violência não autorizados.[10] Brooklyn possuía plantas da casa dos Moore e estaria recrutando voluntários para o atentado.[10] O segundo, Tillman H. "Curley" Belvin, também era um membro violento da Klan e amigo próximo de Brooklyn.[10] Joseph N. Cox, outro klansman, foi citado por um quarto conspirador, Edward L. Spivey.[10]
Spivey acusou Cox em uma confissão no leito de morte enquanto sofria de câncer em estágio terminal em 1978.[10] Cox cometeu suicídio em 30 de março de 1952, um dia após ser confrontado pelo FBI. Brooklyn e Belvin morreram durante a investigação inicial do FBI — Belvin de causas naturais em agosto de 1952, e Brooklyn, também de causas naturais, em 25 de dezembro de 1952, exatamente um ano após o atentado.[10] Nenhuma prisão foi realizada.[10]
As investigações confirmaram que o ativismo de Harry pelos direitos civis o tornava um alvo conhecido da Klan.[10] A Divisão de Direitos Civis do Departamento de Justiça encerrou o caso em 2011.[10]
Reação pública
Na madrugada de 26 de dezembro de 1951, homens indignados dos bairros negros de Titusville espalharam a notícia do atentado pelas ruas.[11] Nas horas seguintes, homens e mulheres do condado de Brevard, muitos ainda de pijama, caminharam ou dirigiram até Mims para protestar nas ruas.[11] A maioria conhecia Moore pessoalmente, seja por seu trabalho na educação, na NAACP ou por suas campanhas de registro eleitoral.[11]
O assassinato desencadeou protestos nacionais, com comícios, memoriais e outros eventos realizados após a notícia do atentado.[11][12] O presidente Harry S. Truman e o governador Fuller Warren receberam inúmeros telegramas e cartas em protesto contra o assassinato dos ativistas em Mims, Flórida. Em Nova Iorque, algumas semanas depois, em 5 de janeiro de 1952, Jackie Robinson realizou um culto memorial que reuniu cerca de 3.000 pessoas.[13] A NAACP organizou um memorial em março de 1952 no Madison Square Garden, com a presença de 15.000 pessoas, e oradores como Langston Hughes prestaram suas homenagens.
E isso diz ele, nosso Harry Moore,
Como se do túmulo gritasse:
Nenhuma bomba pode matar os sonhos que tenho,
Pois a liberdade nunca morre!And this he says, our Harry Moore
As from the grave he cries
For freedom never dies!"
No bomb can kill the dreams I hold
— Langston Hughes, (1951), [13] (em inglês)
Prêmios e tributos
Em 1952, após suas mortes, Harry recebeu postumamente a Medalha Spingarn da NAACP.[14] Em 1999, o local da casa dos Moore em Mims, onde ocorreu o atentado, foi designado como um Marco do Patrimônio Histórico do Estado da Flórida.[12] Cinco anos depois, o governo local do condado de Brevard inaugurou o "Parque Memorial e Centro Interpretativo Harry T. e Harriette Moore".[12]
Ver também
Referências
- ↑ a b c d e f Crist, Charlie; Procurador-Geral (16 de agosto de 2006). «The Christmas 1951 Murders of Harry T. and Harriette V. Moore; Results of the Attorney General's Investigation: Executive Summary» (PDF) (em inglês). Consultado em 27 de fevereiro de 2018
- ↑ «Christmas 1951: Murder of a civil rights pioneer». Daily Kos (em inglês). Consultado em 27 de fevereiro de 2018
- ↑ a b c d e f g «PBS – Freedom Never Dies: The Story of Harry T. Moore». www.pbs.org (em inglês). Consultado em 27 de fevereiro de 2018
- ↑ Schudel, Matt (28 de outubro de 2015). «Evangeline Moore, daughter of slain civil rights workers, dies at 85». Washington Post (em inglês). ISSN 0190-8286. Consultado em 27 de fevereiro de 2018
- ↑ a b c d e f Green 1999, p. 27.
- ↑ a b c Green 1999, p. 28.
- ↑ Green 1999, p. 45.
- ↑ a b c d e f Newton 2014, p. 335.
- ↑ a b c «Florida Frontiers: Remembering Harry T. Moore». Florida Today (em inglês). Consultado em 1 de março de 2018
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q Departamento de Justiça (13 de julho de 2011). «Harry T. Moore, Harriette V. Moore – Notice to Close File». www.justice.gov (em inglês). Consultado em 1 de março de 2018
- ↑ a b c d Green, Ben. «Before His Time». New York Times (em inglês). Consultado em 3 de março de 2018
- ↑ a b c «Black History Fact A Day Series». Orange County Democratic Black Caucus (em inglês). Consultado em 3 de março de 2018. Arquivado do original em 3 de março de 2018
- ↑ a b «Moore, Harry T. 1905–1951 – Dictionary definition of Moore, Harry T. 1905–1951». www.encyclopedia.com (em inglês). Consultado em 3 de março de 2018
- ↑ «NAACP - Spingarn Medal Winners: 1915 to Today». NAACP (em inglês). Consultado em 3 de março de 2018. Arquivado do original em 1 de outubro de 2016
Fontes
- Green, Ben (1999). Before His Time: The Untold Story of Harry T. Moore, America's First Civil Rights Martyr (em inglês). [S.l.]: Simon and Schuster. ISBN 9780684854533
- Newton, Michael (2014). Famous Assassinations in World History: An Encyclopedia [2 volumes] (em inglês). [S.l.]: ABC-CLIO. ISBN 9781610692861
Este artigo incorpora texto de uma publicação atualmente em domínio público: Department of Justice (13 de julho de 2011). «Harry T. Moore, Harriette V. Moore – Notice to Close File;». www.justice.gov (em inglês). Consultado em 1 de março de 2018
