Antissistema

Manifestante contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, junho de 2013.

Antissistema[1][2][3][4] e antiestablishment[5] (em inglês: anti-establishment) são adjetivos usados para designar um indivíduo, grupo ou ideia que é contra as instituições oficiais,[6] sejam elas políticas, económicas ou sociais, da forma vigente da sociedade. Em português, também se usa a expressão "contra a ordem estabelecida".

Antissistema é definido como uma ideologia que rejeita completamente o sistema econômico, político e/ou social vigente e busca derrubar os próprios fundamentos do status quo. O mesmo termo também é usado para se referir a indivíduos ou movimentos políticos que se identificam com essa ideologia.[7][8][9][10]

O poder estabelecido aborda a questão num espectro que vai da inclusão à tolerância, chegando até à ação penal, dependendo da metodologia que o partido antissistema escolher para defender as suas ideias.

Uso do termo

O termo surgiu em 1717,[11] quando os quatro irmãos Pâris (Antoine, Claude, Joseph e Jean) de Grenoble, tentaram combater o sistema especulativo do financista John Law, uma iniciativa que, apoiada pelo parlamento inglês, terminou em 28 de outubro de 1719.[12]

Segundo o historiador Nicolas Lebourg, a denúncia do Systemzeit pelos nazistas alemães da década de 1920, que apresentava a República de Weimar como homogênea e maligna, também deve ser retomada neste ponto.[13]

Para descrever o advento da Quinta República, em 1960, Jean Maze deu a um de seus livros o título L'anti-système ("O antissistema"), enquanto em 1973 foi o Partido Comunista Francês (PCF) que usou o termo "antissistema" com um significado político.[14]

Finalmente, o termo entrou para a ciência política graças a Giovanni Sartori, em 1976.[15]

No Brasil, o termo popularizou-se a partir da segunda década do século XXI, a princípio imputado às manifestações de junho de 2013, sendo posteriormente apropriado pela extrema direita dentro da tese da polarização (que propõe uma equivalência entre bolsonarismo e lulismo).[16]

Características

Manifestantes bolsonaristas durante os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília.

Embora o termo "antissistema" não tenha necessariamente uma conotação negativa, a mídia às vezes o usa pejorativamente para se referir a qualquer posição dissidente ou subversiva contra o sistema vigente, fora da corrente política ou social dominante. Não é surpreendente, portanto, que a mídia simplifique demais seu significado, interpretando-o como um movimento único, organizado, violento e radical. Assim, sob o termo "antissistema", o atributo de violento é inconscientemente implícito, mesmo que não o seja necessariamente.[17]

O partido político antissistema

O conceito clássico de um partido antissistema "está ligado à obra magistral de Giovanni Sartori, Partiti e sistemi di partito ("Partidos e Sistemas Partidários"), que oferece a seguinte definição: 'Um partido pode ser definido como antissistema sempre que mina a legitimidade do regime ao qual se opõe'".[18]

Vocação constituinte

Uma mudança na forma de Estado ou governo pode representar o impacto institucional de um partido ou movimento antissistema. Em uma democracia, isso representa uma forte ênfase na natureza inclusiva da ordem constitucional, porque o valor da participação e da tolerância deve ser equilibrado com o da repressão criminal de crimes contra a personalidade do Estado: um elemento crucial em um Estado de direito – o equilíbrio entre os dois valores – é a natureza violenta ou não violenta dos meios escolhidos pelo partido antissistema para atingir seus objetivos.

Uma declaração específica sobre os métodos, que não colocam em risco a sobrevivência da democracia, vem de Karl Loewenstein: «um partido pode conduzir uma campanha a favor de alterações legislativas ou das próprias estruturas constitucionais do Estado sob duas condições: (1) os meios utilizados para esse fim devem ser, em todos os aspetos, legais e respeitosos do princípio democrático; (2) as alterações propostas devem ser compatíveis com os princípios democráticos fundamentais».[19]

Democracia militante

Existem sistemas jurídicos mais rigorosos na avaliação dos critérios para responder a ameaças antissistema: a "democracia militante" ou democracia protegida (Streitbare Demokratie) é a forma de governo democrático em que o sistema político se equipa com ferramentas para proteger sua sobrevivência (recursos governamentais, obediência às suas diretrizes) e funcionalidade (eleições, assembleias eleitas, decisões por elas tomadas) por meio de ações preventivas contra indivíduos e grupos de pessoas (partidos, associações e organizações) que rejeitam sua legitimidade e contestam suas ações.[20]

Teorizada por exilados alemães na década de 1930 como uma reação à ascensão dos nazistas ao poder,[21] implica na possibilidade de dissolução de partidos que não atendam a essas condições, embora com as máximas garantias jurisdicionais: o Parteiverbot (a proibição do Partido Comunista da Alemanha, decidida pelo Tribunal Constitucional Federal Alemão em agosto de 1956) foi inspirado por essa teoria, aceita a proibição de associações que lutam contra a Constituição (nos termos do artigo 9.º, n.º 2, da Lei Fundamental) e a possibilidade do Tribunal Constitucional intervir se for demonstrado que uma das partes pretende eliminar ou enfraquecer a República (artigo 21.º, n.º 2, da Lei Fundamental).

Isso se reflete na jurisprudência do Tribunal Constitucional Federal Alemão, que considera inconstitucionais as ações "que visam minar de forma agressiva e sistemática a ordem democrática fundamental e, em seguida, eliminá-la".[22] As proibições resultantes, no entanto, foram submetidas ao teste de proporcionalidade pelos tribunais europeus de direitos humanos, nem sempre com decisões favoráveis ​​à Alemanha.

Ver também

Referências

  1. «antissistema (adjetivo) -». www.portaldalinguaportuguesa.org. Consultado em 12 de novembro de 2016 
  2. «Oposição italiana tenta pegar carona na vitória de Trump». UOL Notícias 
  3. «A Trumpização da política americana». Valor Econômico 
  4. «Cresce preocupação com gesto considerado antissemita na França - Notícias - Internacional». Internacional 
  5. Portal da Língua Portuguesa
  6. «Antissistema - significado». Significados de Palavras. Consultado em 24 de janeiro de 2026 
  7. «Antisistèma in Vocabolario - Treccani». www.treccani.it (em italiano). Consultado em 7 de setembro de 2022 
  8. «Antisistema: significato e definizione - Dizionari». Dizionari - La Repubblica (em italiano). Consultado em 7 de setembro de 2022 
  9. «Dizionario italiano De Mauro». Internazionale (em italiano). Consultado em 7 de setembro de 2022 
  10. «Antisistema - Cos'è, definizione e concetto - 2021 - Economy-Wiki.com». it.economy-pedia.com (em italiano). Consultado em 7 de setembro de 2022 
  11. «Dizionario Littré, ad vocem» (em francês) 
  12. R. Velde, François (29 de janeiro de 2014). «Government Equity and Money: John Law's System in France» (PDF) (em inglês). Federal Reserve Bank of Chicago. Consultado em 22 de janeiro de 2026 
  13. Nicolas Lebourg, «Le Front national et la galaxie des extrêmes droites radicales», em Sylvain Crépon, Alexandre Dézé, Nonna Mayer, Les Faux-semblants du Front national: sociologie d'un parti politique, Presses de Sciences Po, 2015, p. 121-122. (Para este autor, o conceito penetrou nos círculos neofascistas franceses a partir de 1951 e, em 1954, foi encontrado no "Rassemblement national", que reunia cerca de vinte pequenos grupos políticos da extrema-direita francesa.)
  14. «Études: revue fondée en 1856 par des Pères de la Compagnie de Jésus» (em francês). 1 de fevereiro de 1973. p. 183 
  15. Entre os reconhecimentos da primazia científica do cientista político italiano, destaca-se a definição pertinente, v. Roger Antoine, «Les partis anti-système dans la Roumanie post-communiste», Revue d'études comparatives Est-Ouest, vol. 31, no 2, 2000, p. 101-136.
  16. Luiz Lima, Pedro; Chaloub, Jorge (2024). «SISTEMA E ANTISSISTEMA NA CRÍTICA DO BOLSONARISMO». Lua Nova (122). doi:10.1590/0102-001036pl/122 
  17. Francisco Fernández Buey y Jordi Mir. «¿Es tan malo ser antisistema?». Público (em espanhol) 
  18. Mattia Zulianello (12 de junho de 2018). «UN GOVERNO «ANTISISTEMA»?». Il Mulino (em italiano) 
  19. Karl Loewenstein, Democrazia militante e diritti fondamentali, em American Political Science Review, 31/1937, pp. 417-433 e pp. 638-658.
  20. Maddox, Graham (2021). Traduzido por Thiago Aguiar de Pádua. «Karl Loewenstein, Max Lerner e a democracia militante: um apelo à "democracia forte"». Revista da Advocacia Pública Federal: 43-61. Consultado em 23 de janeiro de 2026 
  21. Karl Loewenstein, Democrazia militante e diritti fondamentali, em American Political Science Review, 31/1937, cit.; Karl Mannheim, Diagnosi del nostro tempo. Saggi di un sociologo in tempo di guerra, Londres: 1943.
  22. Gero Neugebauer. «Extremismus – Rechtsextremismus – Linksextremismus: Einige Anmerkungen zu Begriffen, Forschungskonzepten, Forschungsfragen und Forschungsergebnissen» (PDF) (em alemão) 
  • Este artigo foi inicialmente traduzido, total ou parcialmente, do artigo da Wikipédia em italiano cujo título é «Antisistema», especificamente desta versão.

Ligações externas