Garoto (músico)

Garoto
Garoto em 1956
Informações gerais
Nome completoAníbal Augusto Sardinha
Nascimento28 de junho de 1915
São Paulo
Morte3 de maio de 1955 (39 anos)
Rio de Janeiro
Nacionalidadebrasileiro
Gênero(s)Música instrumental, Choro
Instrumento(s)Violão, violão tenor, banjo, cavaquinho, guitarra elétrica
Período em atividade1927 - 1955

Aníbal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto (São Paulo, 28 de junho de 1915Rio de Janeiro, 3 de maio de 1955), foi um compositor e multi-instrumentista brasileiro,[1] que tocava uma ampla variedade de instrumentos de cordas dedilhadas, incluindo violão, violão tenor, violão de sete cordas, banjo, cavaquinho e bandolim.[2]

Foi um importante intérprete e compositor de choro brasileiro, com influências do jazz americano, onde antecipou o desenvolvimento da bossa nova. Também foi cantor em vários dos conjuntos musicais; e colaborou com muitos músicos de destaque, incluindo os violonistas Paraguassú, Aimoré, Serelepe, Armando Neves (Armandinho) e Laurindo Almeida, além de Carmen Miranda e Radamés Gnattali.[2][3]

Gravou por vários selos, como Parlophone (Brasil), Odeon, Continental e RCA-Victor, e se apresentou em diversas emissoras de rádio, entre elas Rádio Educadora Paulista (São Paulo), Rádio Cosmos (São Paulo), Rádio Cruzeiro do Sul, Rádio Record, Rádio Mayrink Veiga, Rádio Tupi e Rádio Nacional.[2][3]

Biografia

Aníbal Augusto Sardinha era filho do casal de imigrantes portugueses, Antônio Augusto Sardinha e Adosinda dos Anjos. Era o quinto filho do casal e o primeiro nascido no Brasil. Cresceu no bairro operário de Vila Economizadora. Aprendeu música em casa: seu pai e seus irmãos mais velhos, Inocêncio e Batista, tocavam uma variedade de instrumentos de cordas dedilhadas.[4]

Garoto, Radamés Gnatalli, Chiquinho e Billy Blanco, 1955. Arquivo Nacional.

Assim, além de violonista, Aníbal foi um músico multi-instrumentista, dominando também o banjo, cavaquinho, bandolim, violão tenor, guitarra elétrica, havaiana, portuguesa, além de compor e fazer arranjos para estes instrumentos. Foi um dos maiores violonistas brasileiros de todos os tempos, sendo influência para músicos do calibre de Carlos Lyra, João Gilberto, Raphael Rabello, Dino 7 Cordas, Baden Powell.[4]

Aníbal começou a carreira bastante cedo. Aos 11 anos, já era suficientemente habilidoso no banjo e no violão para tocar em conjuntos locais, especialmente no grupo Conjunto dos Sócios, onde ganhou o apelido de “Moleque do Banjo” e, posteriormente, Garoto. No final de 1952, a partir do programa "Música em Surdina", da Rádio Nacional, o diretor musical Paulo Tapajós formou o Trio Surdina, com Fafá, Garoto e Chiquinho do Acordeom.[5]

Sob a orientação do violonista Paraguassú, as oportunidades de Garoto em São Paulo se ampliaram, incluindo gravações com Paraguassú e participações em trilhas sonoras de filmes. Gravou com artistas do calibre de Carmen Miranda, Dorival Caymmi, Ary Barroso.[4]

A vida profissional de Garoto floresceu após 1930, quando passou a trabalhar com os conjuntos Verde e Amarelo e Chorões Sertanejos, que se apresentavam amplamente na região de São Paulo, em cafés, teatros e cinemas. Nesse mesmo ano, teve a oportunidade de gravar duas de suas composições para dueto de violão e banjo, Bichnho de queijo e Drublando, pelo selo Parlophone, sob a direção artística de Francisco Mignone.[4]

Sua carreira coincidiu com o surgimento da difusão da música popular urbana no rádio brasileiro, que até então era voltado principalmente para a música clássica ocidental. Os dois gêneros passaram a conviver no ambiente radiofônico, influenciando-se mutuamente e contribuindo para o desenvolvimento de novos estilos musicais no Brasil. Como multi-instrumentista talentoso, Garoto tornou-se um dos músicos mais requisitados para concertos ao vivo, programas de rádio e gravações em estúdio.[4]

Em 1931, participou de um concurso promovido pela Rádio Educadora de São Paulo e pelo jornal A Gazeta. Julgado por voto popular, conquistou o sexto lugar na categoria “banjo”. No mesmo ano, começou a tocar nessa mesma rádio. Em 1933, iniciou estudos formais de violão clássico com Atílio Bernardini, o primeiro a estabelecer uma escola de violão baseada no método de Francisco Tárrega.[4]

Uma de suas colaborações musicais mais ativas foi com o violonista Aimoré (José Alves da Silva, nascido em 1908), seu colega nos Chorões Sertanejos. A dupla formou um dueto que se apresentou intensamente em São Paulo e no interior até 1938. Garoto viajou ao Rio de Janeiro pela primeira vez em 1936, quando ele e Aimoré foram convidados a tocar na Rádio Mayrink Veiga, ao lado de alguns dos melhores músicos cariocas.[4]

Trabalhou tocando em festas e concertos, além de se apresentar no rádio por vários meses, até que, exausto e com a saúde debilitada, retornou a São Paulo em dezembro. Passou 1937 e a maior parte de 1938 em São Paulo, tocando com Aimoré na Rádio Cruzeiro do Sul, Orquestra Columbia e Rádio Cosmos. Em 26 de outubro de 1938, Garoto deixou sua cidade natal para se mudar definitivamente para o Rio de Janeiro.[4]

Rio de Janeiro e Estados Unidos

Ao chegar à capital, Garoto retornou à Rádio Mayrink Veiga, onde conheceu Laurindo Almeida, com quem formou o quarteto Cordas Quentes e o Duo do Ritmo Sincopado. Uma relação ainda mais importante que estabeleceu na Rádio Mayrink Veiga foi com Carmen Miranda.; que o convidou a integrar seu conjunto, o Bando da Lua, em sua viagem aos Estados Unidos em 1939.[2]

A viagem começou com uma apresentação na Broadway, no espetáculo The Streets of Paris, e marcou o início da carreira de Carmen Miranda em Hollywood, onde ela participou de três filmes: Down Argentine Way (1940), That Night in Rio (1941) e Weekend in Havana (1941).[6] Nessas produções, Garoto tocou diversos instrumentos de cordas e também fez vocais de apoio. Como intérprete virtuoso, improvisava introduções musicais para vários números, atuava como número de abertura nos shows de Miranda e era tão destacado que frequentemente recebia crédito próprio.[2]

Carmen Miranda e seus músicos viajaram por Nova York, Washington, Toronto, Pittsburgh, Detroit, Chicago, St. Louis e São Francisco. Durante essa turnê, Garoto teve contato direto com o jazz americano. Comentou ter ficado impressionado com Bing Crosby, Tony Martin e Ella Fitzgerald, e relatou ter assistido à orquestra de Tommy Dorsey. Seu desempenho causou tanta impressão que Art Tatum e Duke Ellington o visitaram pessoalmente.[4]

A viagem também deu a Carmen Miranda, ao Bando da Lua e a Garoto a oportunidade de se apresentarem para o presidente Franklin D. Roosevelt, em celebração ao seu sétimo ano de mandato. Retornaram ao Brasil em 10 de julho de 1940. Quando voltou aos Estados Unidos, em outubro daquele mesmo ano, Carmen Miranda levou novamente o Bando da Lua, mas não convidou Garoto.[4]

Final de carreira

Garoto passou a carreira entre estúdios de rádio do Rio de Janeiro e de São Paulo, e esteve por algum tempo com o Bando da Lua, nos Estados Unidos, nos anos 1940. Mesmo assim, não conseguiu firmar-se lá. Vivendo sempre uma vida semifamélica, só ficou realmente famoso e conseguiu bastante dinheiro como compositor em 1954. Naquele ano, ganhou um concurso da Prefeitura de São Paulo, que queria uma música para o IV Centenário da Cidade. A vencedora foi o seu dobrado "São Paulo Quatrocentão", sua e de Chiquinho do Acordeon. O disco vendeu centenas de milhares de cópias, atingindo a marca de 700 mil exemplares vendidos. Contudo, como instrumentista, Aníbal recebeu, como era comum na época, apenas o dinheiro pela gravação, e não pelo copyright do disco.[7]

Faleceu em 1955 de ataque cardíaco, quando planejava uma excursão à Europa.

Discografia

  • 1955 - A Abelha e a Borboleta / João Viola • Odeon • 78
  • 1955 - Valsa do Adeus / Mazurka • Odeon • 78
  • 1955 - Garoto Revive em Alta Fidelidade • Odeon • LP
  • 1954 - Baião Paulista / Romântico • Odeon • 78
  • 1954 - Sob o céu de Paris / Oh! • Odeon • 78
  • 1954 - Arucaia (com Joel de Almeida) / Príncipe • Odeon • 78
  • 1954 - Baile da Camacha / Corridinho 1951 • Odeon • 78
  • 1954 - O Sino da Capelinha / Polquinha Sapeca • Odeon • 78
  • 1953 - Xaxadinho / Cavaquinho Boogie • Odeon • 78
  • 1953 - Cuco / Chegou a Hora • Odeon • 78
  • 1953 - Luzes da Ribalta / Le Lac de Come • odeon • 78
  • 1953 - São Paulo quatrocentão / Baião rouxinol • Odeon • 78
  • 1952 - Artigo do Dia / Guanabara • Odeon • 78
  • 1952 - Baião Caçula / Perigoso • Odeon • 78
  • 1952 - Um Baile em Catumbi / Sempre • Odeon • 78
  • 1952 - Vamos Acabar com o Baile / Paulistinha Dengosa • Odeon • 78
  • 1952 - Kalú / Melancolie • Odeon • 78
  • 1951 - Abismo de Rosas / Tristeza de um Violão • Odeon • 78
  • 1951 - Meu Coração / Triste Alegria • Odeon • 78
  • 1951 - Errei, Sim / Famoso • Odeon • 78
  • 1950 - Arranca Toco / Desvairada • Odeon • 78
  • 1950 - Dinorá / Beira-Mar • Odeon • 78
  • 1949 - 1 x 0 / Língua de Preto • Odeon • 78
  • 1949 - Puxa-Puxa / Caramelo • Continental • 78
  • 1946 - Sonhador / Celestial • Continental • 78
  • 1946 - Ameno Resedá / Meu Cavaquinho • Continental • 78
  • 1944 - Rato Rato / Fala, Bandolim! • Victor • 78
  • 1944 - Dor de um Coração / Os Patinadores • Victor • 78
  • 1943 - Amor-Cielito Lindo / Jalousie • Victor • 78
  • 1943 - Tico-Tico no Fubá / Carinhoso • Victor • 78
  • 1943 - Un Peu d'Amour / Amoreuse • Victor • 78
  • 1942 - Abismo de Rosas / Quanto Dói uma Saudade • Odeon • 78
  • 1942 - Maria Helena / Amoroso • Victor • 78
  • 1941 - Compromisso Para as Dez / Ingratidão • Victor • 78
  • 1939 - Dá-Me Tuas Mãos / Música Maestro Por Favor • Victor • 78
  • 1937 - Sobre o Mar / Quinze de Julho • Columbia • 78
  • 1936 - Moreninha / Dolente • Columbia • 78
  • 1930 - Bichinho-de-Queijo / Driblando • Parlaphon • 78

Referências

  1. «Garoto». dicionariompb.com.br. Consultado em 28 de dezembro de 2014 
  2. a b c d e Livingston, Tamara Elena (2005). Choro: A Social History of a Brazilian Popular Music. Thomas George Caracas Garcia. Bloomington: Indiana University Press. pp. 112–115. ISBN 0-253-34541-3. OCLC 56911832.
  3. a b Lima, Luciano (15 de dezembro de 2020). «Yvonne Rebello e Garoto: o Violão na Música de Radamés Gnattali antes da Tocata em Ritmo de Samba». Revista Vórtex (3): 1.5–1.5. ISSN 2317-9937. doi:10.33871/23179937.2020.8.3.1.5. Consultado em 29 de outubro de 2025 
  4. a b c d e f g h i j Antônio, Irati; Pereira, Regina (1982). Garoto, sinal dos tempos. Rio de Janeiro: Edição FUNARTE.
  5. JOANNI, Edson. «Trivial do Trio Surdina». Consultado em 19 de setembro de 2010 [ligação inativa]
  6. Mendonça, Ana Rita; Shaw, Lisa (2018). "Carmen Miranda: From National Star to Global Brand". In Shaw, Lisa (ed.). Stars and Stardom in Brazilian Cinema (1st ed.). Berghahn Books. pp. 77–78. ISBN 978-1785332982.
  7. Castro, Ruy (1991). Chega de Saudade 10º ed. Rio de Janeiro: Companhia das Letras. p. 153 

Ligações externas