Abdias dos Oito Baixos
| Abdias dos Oito Baixos | |
|---|---|
| Nascimento | José Abdias de Farias 13 de outubro de 1932 Taperoá, PB |
| Morte | 3 de março de 1991 (58 anos) Rio de Janeiro, RJ |
| Cidadania | Brasil |
| Ocupação | compositor, produtor musical |
José Abdias de Farias (Taperoá, 13 de outubro de 1932[1] — Rio de Janeiro, 3 de março de 1991), mais conhecido como Abdias dos Oito Baixos, foi acordeonista, compositor e produtor musical brasileiro.[2]
Biografia
José Abdias de Farias nasceu em Taperoá, cidade do sertão da Paraíba, em 13 de outubro de 1933, filho primogênito de Abdias Alípio de Farias e Isabel de Farias.[3]
Abdias virou tocador dos oito baixos aos oito anos de idade. Desde criança, demonstrava habilidade em manusear o instrumento musical, sendo oriundo de uma família tradicional de tocadores de oito baixos.[4] Ajudou seu pai, que também era mestre em concertos de oito baixos na Paraíba. Durante sua infância, Abdias tocou em vários lugares como feiras e casas de fazendas do interior.
Cansado de passar tanta necessidade e fome, Abdias fugiu da seca aos 12 anos de idade, saindo de sua casa para ajudar sua família. A primeira cidade em que foi se aventurar foi Palmeira dos Índios, Alagoas. Nessa cidade, ele foi acolhido por uma senhora que não o conhecia e que deu a oportunidade dele tocar na feira em sua barraca de peixe seco, que lhe proporcionou muito prazer e lucros.
Percebendo seu talento, a senhora levou Abdias em um serviço de alto-falantes da cidade, que prestigiava jovens artistas locais em um programa que fazia audições após a transmissão da Ave Maria às 18 horas. A partir de sua apresentação, Abdias foi bem visto pelo prefeito e demais autoridades da cidade.
Nessa mesma época, um famoso radialista, Adhemar Paiva, de Maceió, estava na cidade de Palmeira dos Índios em uma apresentação em qual o solista do seu grupo teve problemas e não pôde se apresentar. Abdias foi chamado para substituir o músico e, após sua apresentação, foi convidado para fazer parte do grupo e seguir para Maceió.
Ao chegar à cidade de Maceió, foi contratado pela Rádio Difusora de Alagoas, onde ficou trabalhando por um bom tempo.
Após alguns anos de muita dedicação, Abdias veio a ser promovido a chefe do regional, tocando 120 baixos e substituindo o jovem Hermeto Paschoal que já estava de mudança para o Rio de Janeiro. Abdias foi então apelidado de "O Mago do D", fazendo muito sucesso na cidade. Além das apresentações na rádio, ele ministrava aulas de acordeon para a sociedade alagoana.
Ao ser premiado o melhor funcionário do ano, Abdias ganhou uma viagem para qualquer lugar do país patrocinado pela rádio, escolhendo voltar para a Paraíba. Conseguiu sua carteira assinada e comprou um acordeão de 120 baixos, uma bicicleta e meia dúzia de ternos.
Por exigência da Rádio Difusora de Alagoas, Abdias teria que fazer uma apresentação na coirmã, Rádio Difusora de Campina Grande, em sua chegada à rádio, esbarrou com a jovem cantora Marinês que era recém-contratada do Regional da Rádio. Teve início o namoro, seguido de noivado e casamento, em uma cerimônia coletiva. Abdias e Marinês voltam a Maceió formando a dupla Casal da Alegria e tocavam bolero, chorinhos, valsas e sambas nos bares, clubes e residências da cidade. É possível conhecer a trajetória do casal Marinês e Abdias na contribuição da história do forró.[5]
Nesta mesma época, conheceram o percussionista e zabumbeiro Miudinho, com quem formaram o trio Patrulha de Choque do Rei do Baião, caracterizados de cangaceiros. Marinês representava a Maria Bonita e, com a sua voz forte e afinada cantando o repertório do Rei do Baião, tornou-se a grande voz da mulher nordestina.
O trio Patrulha de Choque aventurou-se por todo o Nordeste, tocando em bares, restaurantes e residências particulares em troca de comida, dormida e alguns trocados para prosseguirem suas jornadas em outras cidades.
Depois de um logo tempo, já com nome conhecido, tocaram na cidade de Propriá em Sergipe, cujo Prefeito era muito amigo de Luiz Gonzaga, comentou que havia uma Maria Bonita que cantava e tocava triângulo em um trio chamado Patrulha de Choque, todos caracterizados tocando todo o repertório de Gonzaga com muita dignidade.
Após Gonzaga saber, combinou que, na inauguração da praça Luiz Gonzaga em Propriá, a Patrulha de Choque fosse convidada para se apresentar na Prefeitura. Quando viu a apresentação, imediatamente os convidou a formarem um conjunto para acompanhá-lo em gravações e shows por todo o país, juntando-se a Zito Borborema (Pandeiro e voz) e ao Miudinho (zabumbeiro) já contratados.
Gonzaga, percebendo a grande desenvoltura do jovem Abdias, permitiu que o acompanhasse ao acordeão para que ele ficasse mais à vontade para cantar e dançar o xaxado. Neste momento, Abdias passou a influenciar fortemente nos shows e nas gravações do Rei do Baião.
Em 1957, Abdias foi procurado pela gravadora Sinter (Philips), para produzir o primeiro disco solo de sua esposa Marinês, onde colocou todo seu talento como produtor que estourou como sucesso nacional ("Pisa na Fulô" e "Peba na Pimenta", ambas de João do Vale, compositor descoberto por Abdias) junto a Marinês.
Dois anos depois a convite, Abdias assume o departamento regional da gravadora Columbia (CBS, Sony Music) recém-implantada no Brasil. Como diretor e produtor, Abdias lançou 80% de todos os artistas nordestinos já conhecidos e também influenciou na Jovem Guarda e cantores românticos, hoje chamados como bregas. Pela Columbia, Abdias gravou "Quadrilha no Arraiá", de sua autoria, e atuou junto com o Trio Nordestino, de Jackson do Pandeiro, e de Marinês e sua Gente[6].
Seu álbum Sai do Sereno (1965, CBS) continha sucessos que chegaram a integrar o repertório de outros grandes nomes da música brasileira, mas não recebeu o tratamento de um clássico, mesmo décadas após seu lançamento. A faixa que batiza a obra foi incluída no primeiro disco que o músico baiano Gilberto Gil gravou depois que voltou ao Brasil, Expresso 2222 (1972). Poucos anos depois, esteve presente na trilha sonora da novela Saramandaia a faixa "Pra não morrer de tristeza"[7] gravada por Luiz Gonzaga, João Bandeira e Zé Cantor se tornou nacionalmente conhecida quando entrou no álbum Bandido (1976), de Ney Matogrosso[8].
Nos dias de hoje, todos os conceitos de gravação criados por Abdias são usados frequentemente em todos os estilos. Essa herança foi deixada ao seu filho Maestro Marcos Farias, que o acompanhou em boa parte de sua história musical e que, desde seus 10 anos de idade, trabalhou junto com o pai, virando músico, assistente, produtor e maestro de todos os artistas aos quais o pai dirigiu. Alguns deles: Jacinto Silva, Oswaldo Oliveira, João do Pife, Banda de Pífano Zabumba Caruaru, Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, Coronel Ludugero, Jacinto Limeira, Messias Holanda, Elino Julião, Jackson do Pandeiro, Genário do Acordeon, Edson Duarte, Marlene Vidal, Dominguinhos e muitos outros.
Após 28 anos como diretor e produtor, a pedido da Sony Music, Abdias se viu obrigado a extinguir o departamento regional. O cantor e compositor paraibano Vital Farias compôs, em 1982, em parceria com Livardo Alves, a música "Forrófunfá" em sua homenagem ao sanfoneiro, que participou da gravação, tocando o seu famoso fole de oito baixos.[6]
Abdias passou a produzir vários outros artistas em outras gravadoras como produtor freelance.
Abdias casou-se duas vezes. Seu primeiro casamento foi com a cantora Marinês, que durou 18 anos, e teve um filho, o maestro Marcos Farias. Seu segundo casamento foi com a Maria das Dores (Dorinha), com quem teve sua segunda filha Márcia Farias e assumiu os dois filhos de sua então esposa, os meninos Rubens e Rogério.
Abdias faleceu em 3 de março de 1991 no Rio de Janeiro.[3]
Trajetória e legado no forró
A sanfona de oito baixos e o estilo
A sanfona de oito baixos, também conhecida como "pé de bode" ou "concertina", foi um instrumento fundamental na formação do forró e do baião. A maestria de Abdias residia em sua habilidade de extrair uma riqueza sonora completa de um instrumento com limitações técnicas, focando em ritmos como xote, arrasta-pé, e quadrilha.[9]
Seu estilo musical, profundamente enraizado na cultura nordestina, é marcado por:
- Preservação do Forró de Raiz: Abdias manteve a essência do forró pé de serra, com melodias envolventes e sincopadas, contribuindo para a preservação do gênero autêntico contra as novas tendências.
- Domínio Técnico: Embora utilizasse um instrumento simples (8 baixos), seu talento o levou a ser promovido a chefe do regional na Rádio Difusora de Alagoas, onde tocava inclusive a sanfona de 120 baixos.
Reconhecimento e legado póstumo
Ao lado de Marinês (sua esposa e parceira), a dupla foi convidada por Luiz Gonzaga para integrar sua comitiva e seguir para o Rio de Janeiro. Abdias teve um papel crucial como produtor musical e diretor artístico da gravadora CBS, onde levou uma leva de forrozeiros nordestinos de peso para a cidade, como Trio Nordestino e Jackson do Pandeiro.[10]
Sua discografia inclui clássicos como "Quadrilha no Arraiá" e "Oito Baixos pra Frente". O cantor e compositor Vital Farias compôs em 1982 a música "Forrófunfá" em homenagem a Abdias, participou da gravação, tocando seu famoso fole.[11]
A sua morte, em 1991, em Bangu, aos 57 anos, gerou comoção na comunidade do forró, que reconheceu nele um dos últimos grandes mestres da sanfona de oito baixos.
Discografia
- 1960 - Quadrilha no Arraiá/Roedeira Dor do Amor (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1960 - Abdias no Forró (LP, Columbia) - Abdias
- 1960 - Deixa Comigo (LP, Harmony) - Abdias
- 1960 - Tarrabufado (LP, Harmony) - Abdias
- 1961 - Ensaio de São João/Forró de Chico Gato (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1961 - Pai Abdias no Forró/Pulando o Frevo (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1962 - Carraspana/Ramalho no Frevo (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1962 - Festa com 8 Baixos (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1962 - Forró do Chico Gato/Rechaço do Brigé (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1962 - Xique-Xique/Catingueira (78 rpm, Columbia) - Abdias
- 1963 - Arrasta-pé LP Abdias e Sua Sanfona de 8 Baixos (78 rpm, CBS) - Abdias
- 1963 - Besouro Mangangá/Forró no Marruá (78 rpm, CBS) - Abdias
- 1963 - Forgueto de Viano/Bode Chiné (78 rpm, CBS) - Abdias
- 1963 - Rechaço de Brigué/Fogosa (78 rpm, CBS) - Abdias
- 1963 - Zé Pereira/Ó Abre Alas/Beliscando (78 rpm, CBS) - Abdias
- 1964 - Arrasta-pé no Surrão/Tocando borá (78 rpm, CBS) - Abdias
- 1965 - Sai do Sereno (LP, CBS) - Abdias
- 1966 - Forró em Fim de Feira (LP, CBS) - Abdias
- 1967 - Segura o Pé de Bode (LP, CBS) - Abdias
- 1968 - Eu de Cá, Você de lá (LP, CBS) - Abdias
- 1969 - Forró ao Vivo (LP, CBS) - Abdias
- 1970 - Na Ginga do Merengue (LP, CBS) - Abdias
- 1970 - Um Oito Baixos Diferente (LP, CBS) - Abdias
- 1971 - Forró do Pé Rapado (LP, CBS) - Abdias
- 1971 - Oito Baixos pra Frente (LP, CBS) - Abdias
- 1971 - Seus Sambas de Sucesso (LP, CBS) - Abdias
- 1972 - Isso é Importante (LP, CBS) - Abdias
- 1973 - Forroriando (LP, CBS) - Abdias
- 1973 - Revivendo Sucessos (LP, Entré/CBS) - Abdias
- 1974 - Tem Fuzuê (LP, CBS) - Abdias
- 1975 - Botão Variado (LP, CBS) - Abdias
- 1976 - As 4 Melhores do Nordeste (Compacto, EPIC) - vários artistas
- 1976 - Forrófunfá (LP, CBS) -Abdias
- 1977 - Vou Nessa Leva (LP, CBS) -Abdias
- 1978 - Um Oito Baixos Sem Patim (LP, Uirapuru - Abdias
- 1979 - Questão de Honra (LP, Uirapuru) - Abdias
- 1980 - Do Jeito que Meu Pai Tocava (LP, Uirapuru) - Abdias
- 1981 - Meu Pai e a Sanfona (LP, Uirapuru) - Abdias
- 1982 - No Ano da Copa, Cabana (LP, Copacabana) - Abdias
- 1983 - Como Antigamente (LP, Copacabana) - Abdias
- 1984 - Sanfoneiro Desde Menino (LP, Copacabana) - Abdias
- 1988 - Sua Majestade o 8 Baixos com Abdias (LP, Chantecler) - Abdias
Coletâneas
- 1969 - As Melhores do Nordeste, vol. 1 (LP, CBS) - vários artistas
- 1970 - As Melhores do Nordeste, vol. 2 (LP, CBS) - vários artistas
- 1970 - Pau de Sebo, vol. 4 (LP, CBS) - vários artistas
- 1971 - Pau de Sebo, vol. 5 (LP, CBS) - vários artistas
- 1972 - Pau de Sebo, vol. 6 (LP, CBS) - vários artistas
- 1978 - Pau de Sebo VIII (LP, CBS) - vários artistas
- 1988 - Você Gosta de Música Nordestina? (LP, Tapecar) - vários artistas
- ? - O Melhor do Forró, 2 (LP, Veleiro) – vários artistas
Referências
- ↑ «Abdias dos Oito Baixos». dicionariompb.com.br. Consultado em 27 de dezembro de 2014
- ↑ «Abdias dos Oito Baixos». Dicionário Cravo Albin. Consultado em 10 de outubro de 2025
- ↑ a b «Abdias do Acordeom - Paraíba Criativa». https://paraibacriativa.com.br/. Consultado em 26 de outubro de 2025
- ↑ «Artista : Abdias (Acordeon 8 baixos)». Discografia Brasileira. Consultado em 26 de outubro de 2025
- ↑ Continente, Revista. «Forró: Emblema sonoro do Nordeste». Revista Continente. Consultado em 26 de outubro de 2025
- ↑ a b Agência de Notícias, Assembleia Legislativa do Ceará (12 de dezembro de 2014). «Brasilidade homenageia sanfoneiro Abdias dos Oito Baixos». Agência de Notícias da Assembleia Legislativa do Ceará. Consultado em 9 de outubro de 2025
- ↑ Hortencio, Luciano (26 de fevereiro de 2015). «Pra não morrer de tristeza». Jornal GGN. Consultado em 26 de outubro de 2025
- ↑ Paraíba, Jornal da (9 de setembro de 2015). «'Sai do Sereno', de Abdias dos Oito Baixos, faz 50 anos ignorado pela crítica | Jornal da Paraíba». Jornal da Paraíba • O Portal de Notícias da Paraíba. Consultado em 9 de outubro de 2025
- ↑ «Abdias dos baixos». Esses Incríveis Músicos e Seus Maravilhosos Instrumentos. 6 de outubro de 2014. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Abdias e sua sanfona de oito baixos - Oito baixos pra frente». Acervo Origens. 1º de julho de 2011. Consultado em 23 de outubro de 2025
- ↑ «Abdias dos Oito Baixos». Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Consultado em 23 de outubro de 2025