A Escrava
A escrava.
| |
|---|---|
| Autor | Maria Firmina dos Reis |
| Editor | Revista Maranhense. |
| Tema | escravatura, Brasil, negros |
| Data de publicação | 1887. |
A Escrava é um conto de autoria de Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra brasileira. Foi publicado originalmente na Revista Maranhense, em 1887.[1]
Poeta, romancista, compositora, folclorista e professora primária, Maria Firmina dos Reis lecionou Primeiras Letras de 1847 a 1881, alcançando o título de mestra régia[nota 1] na localidade de Maçaricó, em 1880. Nascida no Maranhão em 1825, era filha de uma mulher negra e de um homem de ascendência indígena. Em algumas de suas obras, utilizou o pseudônimo “Uma Maranhense” (M.F.R.).
Publicado em meio à campanha abolicionista, poucos meses antes da promulgação da Lei Áurea, o conto aborda o sistema de escravidão no Brasil e as condições degradantes às quais eram submetidas as pessoas negras escravizadas, com ênfase na situação específica da mulher negra.[2]
Enredo
A história tem início em um salão literário frequentado por pessoas da elite social, que conversam sobre diversos temas até chegarem à questão da escravidão. As opiniões divergentes sobre o assunto são, em geral, tratadas com tolerância, até que uma das presentes, identificada apenas como "uma senhora", decide expor sua posição contrária à escravidão.[3]
Ela relata o encontro que teve com Joana, uma mulher escravizada fugitiva, e com Gabriel, seu filho. A partir desse ponto, Joana torna-se a segunda narradora da trama, contando sua trajetória marcada por dores e perdas — em especial, a separação forçada de seus filhos, arrancados por senhores de escravos.[4]
A narrativa se desenvolve a partir desse encontro, entrelaçando a história de vida de Joana com o processo de alforria de Gabriel. Alternando entre a compaixão pelas vítimas e a denúncia do sistema escravagista, o conto constrói uma crítica social contundente à ordem que legitima a escravidão. [5]
Estratégia narrativa
O conto articula três camadas narrativas: o salão da elite, onde se debate a escravidão; o relato de uma senhora branca que acolhe Joana; e o depoimento da própria Joana. O uso de uma narradora branca pode ter sido uma estratégia para legitimar a denúncia em uma sociedade marcada pelo racismo, tornando a mensagem mais aceitável ao público leitor branco da época.[6]
Ainda assim, é Joana quem assume a palavra e retoma o controle de sua própria história — um gesto de resistência que antecipa debates contemporâneos sobre lugar de fala e escrita de si.
Contexto
Redigido em meio ao auge da campanha abolicionista, A Escrava é um conto de cunho combativo que traz a perspectiva do oprimido e expressa indignação contra a elite da época. A escravidão é apresentada como um entrave ao progresso nacional, enquanto a liberdade é defendida como um direito de todos os seres humanos, independentemente de cor, religião ou raça.[7][8]
Sua publicação em 1887, poucos meses antes da promulgação da Lei Áurea, insere Maria Firmina dos Reis no centro do movimento abolicionista brasileiro. Reconhecida como a primeira romancista negra do país, Firmina utilizou a literatura como forma de denúncia contra o sistema escravagista, antecipando discussões sobre interseccionalidade — ou seja, a maneira como raça, gênero e classe social se entrelaçam na produção de desigualdades.[9]
Para a escritora Conceição Evaristo, a escrita de Firmina se aproxima do conceito de escrevivência, pois nasce da experiência concreta de uma mulher negra no século XIX, transformando a palavra em instrumento de resistência política.[10]
Além de A Escrava, Firmina publicou Úrsula (1859), considerado o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher em língua portuguesa e possivelmente o primeiro publicado por uma mulher negra na América Latina.
Análise crítica
O conto rompe com os paradigmas da literatura brasileira do século XIX ao recusar estereótipos como o da “mãe preta” submissa ou da “mulata” hiperssexualizada — estigmas discutidos por Lélia Gonzalez.[11]
A protagonista Joana, mulher negra escravizada, tem sua maternidade instrumentalizada, e seus filhos são vendidos — uma realidade que revela múltiplas violências: física, sexual e simbólica. Maria Firmina dá voz à personagem, que narra sua própria história mesmo à beira da morte. Esse gesto subverte o silenciamento histórico da população negra e explicita o caráter político da literatura: a dor de Joana denuncia o sistema escravista e reumaniza quem foi historicamente tratado como mercadoria. Críticos e estudiosos reconhecem nesse recurso um gesto pioneiro de empatia com o sujeito negro, ainda raro na literatura do período. Firmina combina elementos do romantismo com uma denúncia contundente da violência colonial.[12]
Personagens e interseccionalidade
A personagem Joana representa as mulheres negras escravizadas cujas experiências foram atravessadas por múltiplas formas de opressão interseccionais — de raça, gênero e classe social. Seu testemunho revela como a maternidade negra foi violada pelo mercado escravista e denuncia o racismo estrutural que define seu lugar social.
A reação da senhora branca diante de Joana e seu filho Gabriel revela ambivalências raciais: há empatia, mas também paternalismo e medo. Essa dinâmica evidencia as hierarquias consolidadas pelo sistema escravista, como analisa bell hooks ao tratar da sexualização e exploração de mulheres negras.[13]
Recepção crítica e legado
A Escrava é reconhecida como uma obra pioneira da literatura afro-brasileira e referência fundamental para o feminismo negro. Sua força política inspira escritoras contemporâneas, como Conceição Evaristo, que identifica em Firmina um exemplo de escrevivência — uma escrita que emerge da dor, mas também da resistência.
A obra contribui para resgatar memórias coletivas, denunciar violências apagadas pela historiografia e afirmar a subjetividade negra. Maria Firmina enfrentou censura e racismo estrutural ao publicar sob pseudônimo, mas consolidou-se como figura central na luta por representatividade e justiça social na literatura brasileira.
Referências
- ↑ Diogo, Luciana (15 de junho de 2018). «Resenha - A Escrava». Memorial de Maria Firmina dos Reis. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ Zin, Rafael Balseiro (25 de agosto de 2017). «Maria Firmina dos Reis e seu conto "A escrava": consolidando uma literatura abolicionista». Revista XIX (4): 149. ISSN 2358-7822. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ Zin, Rafael Balseiro (25 de agosto de 2017). «Maria Firmina dos Reis e seu conto "A escrava": consolidando uma literatura abolicionista». Revista XIX (4): 150. ISSN 2358-7822. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ Zin, Rafael Balseiro (25 de agosto de 2017). «Maria Firmina dos Reis e seu conto "A escrava": consolidando uma literatura abolicionista». Revista XIX (4): 150. ISSN 2358-7822. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ Zin, Rafael Balseiro (25 de agosto de 2017). «Maria Firmina dos Reis e seu conto "A escrava": consolidando uma literatura abolicionista». Revista XIX (4): 150. ISSN 2358-7822. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ «Silva, Ana Cláudia. Estratégias de ocultação da autoria feminina na literatura do século XIX». Curitiba. Revista Letras. 34 (1): 29–45. 2022
- ↑ Pereira, José Gomes (21 de novembro de 2017). «Escravidão e loucura: uma leitura do conto "A escrava", de Maria Firmina dos Reis». Estudos Linguísticos (São Paulo. 1978) (3): 1143. ISSN 1413-0939. doi:10.21165/el.v46i3.1695. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ Araujo, Ana Carusa Pires; Souza, Elio Ferreira de (2015). «A narrativa abolicionista no conto "A escrava", de Maria Firmina dos Reis» (PDF). Anais do XIV Congresso Internacional da ABRALIC. ISSN 2317-157X. Consultado em 20 de abril de 2023
- ↑ Pereira, Joyce (2025). Interseccionalidade, escravidão e gênero: mulheres negras no Brasil oitocentista. Universidade Federal de Pernambuco (Dissertação de Mestrado em História). Recife
- ↑ Evaristo, Conceição (2009). Elogio da mulher negra: poemas. Belo Horizonte: Letramento
- ↑ Gonzalez, Lélia (2020). Rios, Flávia; Lima, Márcia (org.), ed. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar. pp. 163–176
- ↑ «FONSECA, Júlio Cezar de P. Maria Firmina dos Reis: raça e gênero, discutindo o conto "A Escrava" e subjetividades. In: GONÇALVES, Andressa; RIBEIRO, Fernanda (org.). Do silêncio à insurgência: percursos da literatura afro-brasileira. São Paulo: Ciclo Contínuo Editorial, 2021. p. 51–62.»
- ↑ hooks, bell (2019). E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. Traduzido por Lorrayne Ellen. São Paulo: Rosa dos Tempos
Notas
- ↑ Mestra régia era a professora nomeada pelo governo (rei ou imperador) para ensinar meninas nas chamadas aulas régias.