Suspiros poéticos e saudades (1865)/As Ruinas de Roma

 
XXII.
 
AS RUINAS DE ROMA,
AO CLARÃO DA LUA.
 
Oh, que espectaculo funebre e sublime!Aqui foi Roma! — Aqui erguêo-se altiva   A Senhora do Mundo!E de tanta grandeza eis o que resta!
Quantas trombetas no Universo soam,E os fastos marciaes da augusta Roma     Sonorosas proclamam!Quantas vozes de Roma o nome entoam!Mas uma vista só destas reliquias,Estas columnas, qu’inda se sustentamMeias fóra das covas, meias dentro,Como espectros alçados dos sepulchros;Este mesmo silencio, tudo falla,Sem turbar os sentidos assombrados!Oh grandezas, quão perto estais do nada!
Eu saudei-vos, ruínas, quando o diaSobre vós seus fulgores entornava,Vosso florido manto realçando;    Quão longe então estaveisDesta mystica, horrivel majestade!Oh, que não é o sol o astro dos mortos!Nem se cóbre de purpura o cadaver!
Tu és, oh lua, o astro das ruínas!No páramo celeste solitariaPlacida alvejas, de pallor tingindo    Estes negros destroços.Qual a tremula lampada suspensa    No asylo dos finados,Que só das trevas o horror aclara,Para mais realçar o horror da morte.
Como uma ave de agouro em clima estranho,De tão longiquas plagas transportado,Plagas á culta Europa ainda ignotasQuando já isto tudo eram ruínas,Eis-me aqui sobre o monte Palatino!E amanhã? — Onde irei? só Deos o sabe.
Oh pó erguido! oh pedras! oh ruínas!Que sublimes lições estais dictandoNessa muda linguagem dos sepulchros!Oh, desgraçado o povo que as não ouve!Desgraçado quem não as comprehende!   Vós sois mais eloquentesQue os vossos oradores, cujas vozesVezes mil n’outros tempos echoastes:Vossa vóz só nos seios d’alma sôa,Como a terrivel voz da consciencia,Ou como o gelo, que entorpece o corpo,E a vida toda ao coração concentra.
O que ha-hi mais sublime que esse Mario,Genio de morte, um homem curvo á morte,Sentado nas ruínas de um Imperio?Seu rosto baço… seu olhar sombrio…Que idéa o pensamento lhe revolve?Quem não dirá que em torno d’elle gyram,   Dos destroços erguidos,Milhões de espectros, cujas negras sombrasEm seu feroz semblante se desenham?   Quem não dirá que elle ouve   Carpidores gemidos,   Magoados queixumesDe angustiadas mães, de tristes órfans,Que lhe pedem seu pão, e o amaldiçoam?
Da Humanidade inteira és symb’lo, oh Mario!Do pó tirada pela mão do Eterno,Desde o berço do sol té seu sepulchro,Quantas soffrido tem vicissitudes?Quantas phases tem tido? E marcha ainda!Quantas vezes na marcha tortuosa,Qual no mar o baixel, que o vento busca,Longas calmas soffrêo, longas tormentas?
E qual o fim será da Humanidade?Que porto lhe destina a Providencia?Mas quem póde do seio do futuro   Arrancar este arcano?Confia, Humanidade, em teu PilotoConfia; a Providencia é quem te guia.
Oh Deos, Mario tambem serás um dia!A vista espraiarás pelo Universo,   E só verás ruínas!…E todos esses luminosos Mundos,Do sanctuario teu fanaes brilhantes,   Ter-se-hão extinguido!E a quem dirás então? — Eis-me sozinhoSentado sobre o exicio do Universo,Concentrado em mim mesmo, no infinito;Dei fim á Humanidade: eil-a em poeira;Um sopro de meus labios sumio tudo!
Quem te ouvirá, oh Deos? — A Eternidade!Oh futuro, oh futuro inaccessivelAos mortaes olhos, só a Deos presente?
Oh pó erguido! oh pedras! oh ruínas!Ah! quantas gerações aqui passaram.Cujos rastos impressos na poeiraO vento os dissipou, como seus nomesPela esponja do tempo extinctos foram!De quantas scenas testemunhas fostes!Que infamias vistes, que crueis delictos   Inda aos homens occultos!   Que batalhas! que horrores!
Que milhões de cadaveres cahiram.Entre estes sete montes, como pedrasDespegado se teem destes fragmentos!   Tudo isto era um só monte,Era um vasto redil de armentio gado. 1
Que accesa lava em borbotões fervendo   Engulio estes Templos?Que estragador, ardente meteóro,Despejado do Inferno, talou tudo?Oh Guiscard! oh Guiscard! estas muralhasEscapadas do incendio, e enfumaçadas,Inda te chamam fero, inda te accusam! 2
   Lá stá o Capitolio!Quantos captivos Reis, ao carro atadosDo seu triumphador, alli subiram!Alli Manlio morou; dalli a um passo[1]Foi as aguas mortaes beber do Tibre 3.Aquelles muros Catilina viram,E aos accentos de Cicero tremeram.Alli se decretava a liberdade,A escravidão dos Reis, e dos Imperios.Alli entre punhaes expirou Cesar,Só por querer cingir a calva fronteCo’ o diadema real, depondo os louros;Mas o que ao grande Cesar foi negado,Tiberios, e Caligulas tiveram!Tanto dos homens a injustiça póde,Ou tanto a corrupção que o brío extingue.
Ah! saiámos daqui, que profanadoFoi este monte, habitação dos Gracchos,E do immortal philosopho de Tusculo [2],    Pelo mais ruím tyranno.   Eis seu palacio de ouro.Nero aqui se entregava aos seus delirios.Lá pallideja ao longe aquella torre 4Como um phantasma ao clarear da lua!   Alli ria-se NeroCom satanicos olhos scintillantes,Nos quaes de Roma a imagem se pintavaEnvolta em crepitantes labaredas,E o povo que expirava emmaranhadoEntre as ondas de fogo, e de fumaça.Cantor do inferno, o monstro, o parricidaTanto horror celebrava ao som da Lyra!   O que não mancha um monstro?…Oh! que o seu coração era de ferro!   Os horridos gemidos,   Os gritos d’agoniaDas moribundas víctimas das chammas,Aos ouvidos de Nero acordos eram!
Triste Jerusalem, co’ os teus despojosErguêo-se este arco a Tito triumphante.   Este outro a Constantino, Vencedor de Maxencio, e de Licinio,Heroe que a Cruz alçou no Capitolio,Aras pagans a Christo consagrando.
Mas silencio… Silencio… Ouço gemidos,Que se escapam dalli, entre as arcadas   Do Flavio amphitheatro![3]   Quem a esta hora geme?Estas pedras serão? espectadorasOutr’ora de crueis, sangrentas scenas,Que doídas talvez inda hoje chorem,Quando homens, que as pizavam, applaudiam   O espectaculo infame?
Não, não; são os christãos, são penitentes,Que abraçados co’ a Cruz, prostrados jazem,E choram sobre o chão de pó, e sangue,As palavras ouvindo do Eremita, 5Que n’ alma lhes embebe a Eternidade.Orai, christãos, orai; pedí ao Eterno,Por vós, por vossos pais, por vossos filhos.
Que sons funéreos de sagrados bronzes   Longos vão reboandoNestas immensas, lugubres arcadas?Oh meu Deos, que terrivel pensamentoEstes sons repetidos me despertam!Aquella vasta cupula, que o genioNos ares collocou em gloria tua,E ás egypcias pyramides supera;Aquella torre, d’onde agora partemOs sons que estas abóbadas retumbam;Todo aquelle suberbo monumento,Rico de mil prodigios espantosos,Tudo isso cahirá!… serão ruínas!Futuras gerações sobre seus combrosDe mausoléos, de estatuas, de columnas.Subirão, oh meu Deos, e a essas pedrasPerguntarão: Que mãos vos elevaram?   Que mãos vos destruíram?
Ind’ hoje eu vi o sol, n’um lago de ouro,Entre montanhas de rubins accesos,Atrás daquella cupula occultar-se.Pois bem, oh sol, tu passarás um dia Nesse mesmo logar onde declinas;Não ouvirás os sons religiosos   Dos orgãos que hoje escutas;Descoberto verás o sanctuario,Prostradas as columnas em pedaços,   Quebrados os altares,Aberto, e destruído o Vaticano;Ahi se aninharão nocturnas aves,Reptis passearão na relva e musgo,E apenas ouvirás seus tristes guinchos!E o que dirás, oh sol, de tanto estrago?..Dirás, sem suspender a marcha tua:   „Mais que as obras dos homens,   De Deos duram as obras.Tudo o que é dos mortaes a morte o sella.Jamais minguei de luz, tanta luz dandoDesde que Jehová do cáhos tirou-me.   Porque cahíste, oh Templo?Tu, que espanto do mundo outr’ora foste?   Tu, que outr’ora suberboMeu luminoso oceano dividias,Erguendo tua sombra até meu rosto?“
Quantas vezes o filho piza a terraQue o cadaver do pai, ou mãe encobre,Inda enfeitado co’ as herdadas joias?Assim da prisca Roma a filha, herdeiraDa pompa sua, majestosa se ergueSobre o immenso esqueleto mutilado   Da augusta soberana.Filha de Roma, cahirás como ella?
Estes desenterrados obeliscos,Que agora entre teus muros se levantam,Arrancados do Egypto, quantas quédasDe cidades teem visto, e terão indaNovos leitos no pó de Imperios novos!Filha de Roma, cahirás como ella!
As obras dos mortaes como elles morrem;Nem duram as cidades mais que os cedros,Que espontanea produz a Natureza;Nova planta da extincta se alimenta;   Phenix é o Universo,Que, morrendo, renasce a cada instante;Tudo o que o homem vê morte respira; E si tu, oh meu Deos, não és eterno,O que é eterno então? o que? o Nada?Transitorio será tudo no Mundo?E o dever, e a justiça em que se firmam?Oh Razão, o que és tu? — Impios, calai-vos.   Loucos sois delirantes!   Não, oh sabio Spinosa,Tu não eras atheo, não te entenderam; 6Um Deos ha sempiterno, — o Ser dos seres.
Filha de Roma, cahirás como ella;Outra herdará teu nome, e teus thesouros,E com tuas riquezas adornada,Seu estrado fará do teu sepulchro.Mas quando este Universo se aniquile,Na memoria de Deos serás eterna.
Roma, 25 de Janeiro de 1835.
 
 
  1. A rocha Tarpeia.
  2. Cicero.
  3. Mais conhecido com o nome de Coliseo.

AS RUINAS DE ROMA.
Nota 1. Pag. 156, v. 14.

Era um vasto redil de armentio gado.

Depois da destruição do Foro Romano, pelo fero Rober Guiscard, em 1084, toda esta parte da antiga Roma, desde S. João Laterano até o Capitolio, tão entulhada ficou, que a terra, pedras, e immundicias cobriram as ruínas, que ainda hoje se desencavam; ahi apascentavam rebanhos de vacas, e d’ahi veio o nome de Campo Vaccino, com que ainda hoje é conhecido.

 

 
Nota 2. Pag. 156, v. 21.

Inda te chamam fero, inda te accusam.

A destruição de Roma é devida, como vimos na antecedente nota, ao cavalleiro Rober Guiscard de Hauteville, filho de Tancrède, que, capitaneando os Normandos, entrára á testa de um formidavel exercito em Roma em 1804, fazendo recuar Henrique diante de sí, e pondo fogo na cidade, desde S. João de Laterano até o Colisêo. Depois do saque dos Normandos ficou a antiga Roma deserta, e a população transportou-se toda inteira alêm do Capitolio, que em outro tempo fôra o campo de Marte. (Vej. Hist. das Repub. Ital., por Sismondi, T. I, pag. 128, da Edic. Belga.)

 

 
Nota 3. Pag. 157, v. 5.

Foi as aguas mortaes beber do Tibre.

Chamo mortaes as aguas do Tibre, não que ellas venenosas sejam, mas porque ahi morriam afogados os condemnados de Estado, que da rocha Tarpeia se precipitavam, como Manlio, e outros, de que falla a Historia.

 

 
Nota 4. Pag. 158, v. 4.

Lá pallideja ao longe aquella torre.

Mostra-se ainda em Roma uma torre quadrada, que no meio da cidade se eleva, na qual, diz-se, Nero se abrigára, para gozar da horrivel scena do incendio de Roma. Ahi tangia elle a lyra, emquanto as chammas devoravam a cidade. O verbo pallidejar, de que me sirvo, creio que não vem nos Diccionarios, nem me lembra tel-o encontrado em nenhum auctor; si sou o primeiro que o introduzo na lingua, poderei allegar em seu favor, que tendo nós branquejar, negrejar, amarellejar, e outros de igual desinencia, nenhuma dúvida poderá este encontrar da parte de acanhados puristas; demais elle explica perfeitamente o effeito da torre em questão, esclarecida pelo clarão da lua. Aproveitando-me da natureza desta nota, direi que a Philosophia espiritualistica, que tantos progressos tem feito entre Allemães, e Francezes, tem adoptado novos termos, e dado a velhas palavras novas terminações, como por exemplo, idealidade, religiosidade, progressibilidade, etc. Estas palavras representam novas idéas, e d’ellas nos podemos servir sem escrupulo; de outra maneira condemnemos as Sciencias, e a lingua á immobilidade.

 

 
Nota 5. Pag. 159, v. 16.

As palavras ouvindo do Eremita.

Ha no recinto do amphitheatro Flavio (Colisêo) 14 altares, representando os martyrios de Jesus Christo, no meio uma Cruz; servem esses altares para as estações penitenciaes; ahi vimos na Quaresma quantidade de povo prostrado, escutando as pregações dos Missionarios.

 

 
Nota 6. Pag. 163, v. 7.

......... sabio Spinosa,
Tu nao eras atheo

Spinosa é considerado vulgarmente como atheo; philosophos modernos fazem-lhe justiça. Seu systema da mais alta Metaphysica não tem sido interpretado como devia, que mais pende elle para o pantheismo, que para o atheismo. De sua doctrina claramente se collige que elle concebia um Ser necessario, substancial e perfeito, que é Deos, e o resto só tem uma existencia phenomenal, e contingente. Póde dizer-se, rigorosamente fallando, que não ha atheos; pois que aquelles mesmos que parecem professar taes principios, ou dão existencia a uma substancia primaria, seja o nome qual for, ou se contradizem a cada passo.