Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Vista de Roma
XX.
A VISTA DE ROMA.
É Roma! é Roma! é a cidade eterna! Lá sobre a cathedral do christão mundo De Buonarotti[1] o genio se levanta, Prodigio d’ arte, maravilha humana, Consagrada a Deos vivo.
Entre suas ruínas, majestosa Inda Roma se ostenta. Inda seu nome impõe respeito ao mundo, E enthusiasmo gera. Mas Roma entre ruínas se me antolha Como essa arrependida penitente, Que a van pompa do mundo desprezando, A cruz do Redemptor humilde abraça. Em vez de capacete, esparsa a côma; Em vez de sceptro, cruz; o marcio riso Não mai lhe habita os labios, Nem lampejantes olhos mais incutem Terror, vingança, e morte. Religiosa dôr hoje a sublima, E a veste de candura, e de belleza.
Rainha das Nações, eu te saúdo! Mãe illustre de heroes do mundo espanto! Eu te vejo, e minha alma inda duvída! E não sentida commoção me abala.
Esta vermelha terra, árida e sêcca, Qu’ inda exhala mortiferos vapores; Este inculto deserto, abandonado Dos homens, e das feras, Onde uma flor sequer não ri-se ao menos; Esta desolação, esta tristeza, Este horror sepulchral, que em torno gyra Da senhora do mundo, Tudo alfim aqui falla, e ós olhos mostra As sangrentas tragedias, que juncaram Estes campos outr’ora. De tanto sangue humano que a ensopára, De tanto ferro gasto que a cobríra, Conserva ainda a côr a terra esteril!
Porque nuvens de córvos esvoaçam Nestes ares pejados de vapores? Porque arrancam gemidos dolorosos, Que as carnes, e os cabellos arrepiam, Como si elles um mal tambem carpissem? Odor carnificino Ainda exhalarão de Roma os campos? É que não acham mais sangue que bebam! Cadaveres que os cevem!
Que Romano saído do sepulchro Reconhecer-te, oh Roma, poderia? Que viajor, entrando em tuas portas, Não dirá: Onde estou? onde está Roma? Si uma voz respondesse: Eis aqui Roma! Como não exclamar cheio de assombro: Que maldição do céo cahio sobre ella?!
Tambem teem as Nações suas idades! Joven já foste, oh Roma! Já guerreiro vigor armou-te o braço; Já tremeram de ti milhões de povos. Fatigada de gloria, e já curvada Entre tuas ruínas, Hoje tu tremes, como uma Rainha Annosa sobre o throno, Que em annos juvenis calcára ufana. Hoje só em teu Deos arrimo encontras; Só a Religião te ampara a fronte, Que co’ o peso dos seculos já pende.
Sem este novo Deos morta já fôras. Teus velhos deoses á paixões sujeitos, Teus senhores, teus Neros, e teus filhos, Degenerada raça Dos Brutos, e Catões, raça maldita, Nos mais nefandos crimes só nutrida, Tudo alfim te arrastava ao horror, e á morte, E te ía despenhar na sepultura. Mas um Deos novo te salvou do abysmo; Novas virtudes dêo-te, graças novas, E tu por elle só inda hoje vives.
Da guerra o Genio que nas pugnas véla, E o pacifico Genio que aos destinos Dos Imperios preside, Entorpecidos de fadigas tantas, Entre a poeira das ruínas tuas, Cobertos de laureis, prostrados jazem.
Co’ a espada o antigo mundo amedrontavas, Co’ a Sciencia, e a Razão guiaste o novo; Sim; a gloria perdeste dos combates, Mas alcançaste da Sciencia a gloria.
Ignora o mundo o teu porvir augusto, Que ao mundo occulta Deos seu pensamento; Mas tu despertarás á voz de um Genio, Do somno em que te abysmas. Dorme, dorme, que o Tempo não perece; Dorme, que um dia te erguerás mais bella; Dorme, até que a trombeta do teu Anjo No mausoléo resôe de Adriano[2]. Os designios de Deos serão cumpridos: Não, tu não morrerás, cidade eterna.
- Roma, Dezembro de 1834.