Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Consolação
XVI.
A CONSOLAÇÃO.
Que tens? De que te queixas, desgraçado?É da Patria a saudade que te afflige?São os erros dos homens? São teus erros,Que pesam sobre ti? És criminoso?Aborreces a vida? A morte queres?
O qu’ hei de eu responder? Não, oh meus labios,Não reveleis arcanos de minha alma, Não crimineis os homens;Queixas inuteis são; labios, calai-vos.A quem não sente o mal, que importa o alheio?
Não; não sou desgraçado. Estas profundasDôres que me aguilhoam d’ alma os seios,São os signaes de uma lição do mundo.Sinto a dôr, mas sou grato á Providencia,Que dest’arte me instrue, como mãe terna,Que só para ensinar o filho pune.
No mais íntimo d’ alma o virtuosoAcha quem o console na desgraça.Desgraçado és tu só, tu miseravel,Tu, que não do assassino o punhal temes,Mas o punhal da propria consciencia.
Lei é da Humanidade, e não do acaso;Soffrer, sempre soffrer é seu destino.A Natureza o homem bruto cria, O mundo o aperfeiçôa Com dôres e trabalhos.Como se brunem com o attrito os seixos, No revolver das ondas,Ou como no crisol, á chamma exposta, Se purifica a prata,Dest’ arte, entregue á dôr, doma-se o homem.
O templo da verdade o erro o escolta,Armado de punhaes, e de flagicios;E antes que a Humanidade entrever possaUm claro lume do seu divo rosto, Ah, quantos são primeiro Tristes victimas do erro,Servindo de degráos da luz ao ingresso!
Nossos olhos lancemos ao passado,E co’ o fanal da historia descubramosQuantos martyrios nossos pais soffreram.Tudo o que vemos nada é mais que a lucta Da verdade, e do erro.A verdade, que herdada hoje gozamos,Assás regada foi com sangue humano.Por nós dezoito seculos luctaram,E nós pelo porvir luctamos hoje.
Não é fóra do mundo,Engolfado em prazeres que embriagam,Em brando leito languido estendido,Rodeado de escrayas, que o incensam,Como um Rei do Oriente; nem na mesaDe esplendido banquete, qual Lucullo, Que se colhem lições da experiencia.Não; engana-se aquelle, que EpicuroMal interpreta, e diz: — Eia, gozemos;A vida no prazer cifra-se toda.
É nos carceres só, é nos perigos,Quando ao exilio marcha o justo Arístides,Quando Homero um chorado pão esmola,Quando no carcer Galileo medita,Quando do throno avito um Rei baqueia:A experiencia então a voz levanta;Solon, Solon, Solon, bem m’o dizias!
Do passado a lembrança é morta idéa;A experiencia só, a experiencia, Dura, severa mestra,Por caminhos de dôres, entre espinhos, Guia o incerto passoDo mortal que viaja sobre a terra.A dôr é da verdade companheira;Quem busca a experiencia, a dôr encontra.
Porque pois lamentar si a dôr é util?Si ella é nuncia de um mal, de que nos cumpre Fugir, ou evitar assaltos novos?O fogo que ao infante o dedo queima,A reflectir o ensina, emquanto os mimosDa terna mãe mil vezes o corrompem.
Oh, desgraçado aquelleQue jamais supportou uma só mágoa,E que de gôzo em gôzo vê seus dias Correr tranquillamente; Como a flor nasce, e morre,Mas como a flor tambem nada conhece; Existe, mas não vive,Que é, sem dôr, o prazer uma chimera.Para vermos a luz, que ancias, que dôresNão soffrem nossas mães? Mas nesse instanteAs dôres maternaes, nascendo, herdamos.Gloria, fama, saber dôres nos custam;Até o ultimo expiro a dôr nos segue;E quem sabe si á dôr põe termo a morte?
Como é feliz aquelle que levantaSeu espirito a Deos, e com fé pura, No meio da tormenta,Que o mundo sem cessar contra nós arma, Do céo auxilio espera,Emquanto sem conforto, entregue á raiva,Blasphema o impio contra Deos, e os homens.
Feliz quem assoberba a iniqua sorte,E, para o consolar, acha a virtude, Que benefica brilha,Como em negra soidão plácido lumeAlma esperança gera, promettendoAsylo ao peregrino afadigado.
Feliz, feliz mil vezes, quem tranquilloNão ouve o apuridar da consciencia, E um só crime exprobrar-lhe!E no leito da paz, ou na masmorra,Não vê punhaes em sonhos, nem phantasmas.Mesmo quando os ruíns dôres lhe causem,Como Guatemosino atado, e postoSobre estendidas, chammejantes brasas,Com os olhos no céo, sereno exclama: N’um leito estou de rosas!
Entre afiadas rodas, açoutado Com laminas de ferro; Na cadeia, no circo, e na fogueira, Ou alvo da calumnia,O justo não stá só, Deos é com elle.Cadeias, circo, infamia, fogo, e morte, Tudo supera o justo.
Como as nuvens pejadas de vapores Exhalados da terraDo coruscante sol a face cobrem,E por um pouco a Natureza enluctam;Mas depois da tremenda tempestade,De mais bello sétim o céo se arreia,E o sol raios dardeja mais brilhantes,Assim depois da angustia, e da calumniaA innocencia triumpha acrisolada.
Ah! não nos lamentemos;Que quanto mais se soffre mais se alcança.A dôr só para o iniquo é um tormento. De Zeno as leis seguindo,Como si a não sentissimos, vivamos;Deos existe, e nos vê; Deos só nos julga.
- Pariz, 5 de Septembro de 1834.