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Abaeté (pag. 194).
Tem duas significações inteiramente contrarias; ambas vêm no omo VII dos A. Bibl. e são: 1.º, aba-eté “homem real, verdadeiro, positivo” litteralmente, e “illustre distincto, honrado”, por translação; 2º abá-ité “homem desfigurado, feio, descomposto, horrivel, temeroso”. Este segundo tambem suppozemos poder interpretar-se a-bai-eté ou a-mbai-eté “pessoa má muito, homem muito ruim”. Cumpre-nos afinal notar que não só neste, como em muitos outros vocabulos, podem e parecem coincidir duas significações antitheticas, dependendo só do tom, com que se diz o vocabulo, a determinação do sentido, que se lhe attribue. Nas linguas cultas mesmo se diz: “é um temivel” podendo “temivel” ter significados oppostos. Diz-se ironicamente “és um santo homem, és um anjo”. Não é ironia, mas a ideia se enuncia do mesmo modo que na ironia, quando se diz com ternura “és um diabrete, és um demoninho”.
Abarê (pag. 198).
É o vocabulo com que no Abañeênga se ficou designando “o padre catholico ou christão” , porém tambem servindo para designar em geral “sacerdote, vigario, clerigo”. Montoya dá uma explicação desse vocabulo que vem na pag. 177 (§ 14) da “Conquista do Paraguay” reimpressa no Tomo VI dos “Annaes da Bibliotheca Nacional”. A explicação dada por Montoya é abá-homem, ré-diverso (por guardar castidade). Notando-se porém que “diverso” se exprime por é; que o absoluto té (errar, divergir) perde o t mas não apresenta exemplo de mudar esse t em r, h, gu, parece que antes conviria considerar ré como um suffixo, o qual valendo por vezes o mesmo que kuer deve e póde ter as mesmas significações. Deste modo o suffixo ré serve de dar força ao vocabulo do mesmo modo que kuer em tantanguer (os esforçados, os valentes) derivado de tantã