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são senhores dos matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação e costume de andarem pelos matos bravos tem os couros muito rijos, e para este effeito açoutão os meninos em pequenos com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravos; não têm roças, vivem de rapina pela ponta da frecha, comem a mandioca erua sem lhes fazer mal, e correm muito e HOS brancos não dão senão de salto, usão de uns arcos muito grandes, trazem uns paus feilicos muito grossos,[1] para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vem à peleja estão escondidos debaixo de folhas, e dali fazem a sua e são mui temidos, e não ha poder no mundo que os possa vencer; são muito covardes em campo, e não ousão sair, nem passão agua, nem usão de embarcações, nem são dades a pescar; toda a sua vivenda é do mato; são crueis como leões; quando tomão algnns contrarios cortão-lhe a Carne com uma canna de que fazem as frechas, e os esfolão, que lhes não deixão mais que os ossos e tripas: se lomão alguma criança e os perseguem, para que lha não tomem viva e dão com a cabeça em um pau, desentranhão as mulheres prenes para lhes comerem os filhos assados. Estes dão muito trabalho em Porto Seguro, Ilhéos e Camamu, e estas terras se vão despovoando por sua causa; não se lhes pode entender a lingua.
- ↑ Certaine stones made a purpose verie bigge (Purchas. ib.)