Página:Futuros Imaginarios.pdf/114
tomaram a interpretação mais otimista da análise e a transformaram em uma posição ideológica bem distinta: o mcluhanismo.[28]
De acordo com essa nova ortodoxia, a história humana foi uma sucessão de sistemas cibernéticos criados a partir da retroalimentação de diferentes tipos de mídia. O fenômeno moderno de fetichismo de mercadorias transformou-se no princípio universal de fetichismo tecnológico. Todo salto na evolução social foi identificado com a invenção de um novo tipo de mídia. Por acabar com o domínio da palavra falada, a invenção da imprensa levou ao crescimento do nacionalismo, do individualismo e do capitalismo industrial. Depois de quatro séculos de modernidade, a convergência da televisão, das telecomunicações e da computação novamente transformava o ambiente da mídia. O mcluhanismo foi identificado, sobretudo, com essa previsão de que a Internet criaria o novo — e muito melhor — sistema social da aldeia global. Sob seu novo arranjo sensorial, os males da Galáxia de Gutenberg que afligiam a humanidade por gerações — guerra, egoísmo e exploração — desapareceriam. A chegada iminente da Internet significava que as pessoas em breve viveriam, pensariam e trabalhariam numa civilização pacífica, igualitária e participativa.
Para os mcluhanistas, essa visão do futuro explicava o que acontecia aqui e agora. Cinco anos antes de ser inventada, sinais da Internet já podiam ser vistos no presente. Na Feira Mundial de Nova Iorque em 1964, aparelhos de televisão coloridos da RCA, satélites de comunicação da Telstar e computadores mainframe da IBM eram os profetas da maravilhosa sociedade da alta tecnologia que estava por vir. Por sua vez, o pleno potencial dessas máquinas só poderia ser compreendido na visualização de uma humanidade em um mundo onde o processo libertador da convergência à Internet fosse completo. Enquanto os profetas da inteligência artificial olhavam em direção à emergência do indivíduo sintético, os mcluhanistas acreditavam que
a informatização recriaria toda a humanidade. Por viverem em uma