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XL XX MEMORIAS E LOUVORES. privando do fruito de noffo trabalho as devotas Ma- tronas e Religiofas defte Reino e fuas conquiftas, as quaes nem fabem Latim, nem Caftelhano e fe- ria grande inconveniente , que efcrevellemos nós as vidas fantas, que fizeráo ieus antepaflados feus naturaes, e feus parentes, e alguns delles ainda co- nhecidos; as duras, penitencias e mortificações, em que de continuo fe exercitárão; as muitas batalhas. e tentações, que valerofamente vencerão contra fi mefmos, contra diverfos tyrannos, e contra o mef- ino Inferno; o ainor de Deos e do proximo, em que fempre ardérão; as confolações efpirituaes, com que forão celeftialmente confortados no meio dos maiores trabalhos e tormentos; as ditofas mortes, que tiverão, trocando efta vida mortal pela eterna; e todos eftes exemplos e incentivos lhes negaflemos c encobriffemos disfarçandoos debaixo de lingoa alhéa e eftranha. FR. MANOEL DO SEPULCHRO. Prologo da Refeição Efpiritual, §. 2. num. z. 4. 5. feus myfterios, como fuas propriedades; e são fuas propriedades feus mysterios; e não fe hão de deixar eftas por mais que aos Sciolos pareça que fe apar- tão da raiz Latina: como fe não fora bom Caftelha- no, Pablo, porque no Latim he Paulo, nem bom Italiano, fiore., porque no Latim he flore: affim nem bom Portuguez, gofto, porque no Latim be guftus, Agosto, e Agostinho, porque no Latim he Auguftus. E deftes taes fuperfticiofos pedantes, e per- fumidos Neophilos, vierão e vem muitos a dar em Cultos, fem fe fentirem: praga, que o tempo man- dou fobre as lingoas, principalmente Caftelhana c Portugueza, nem entre as do Egypto foi menor a dos tres dias de trévas e efcuridade, que os Cultos com tanto eftudo affectão. ANTONIO DE VILLAS BOAS E SAMPAYO. Nobiliarchia Portuguefa, cap. 9. Quanto mais que em Portugal e no mais refto de Hefpanha não he para eftranhar o acharemfe vo- zes eftrangeiras, pois effas duas hoccas do Oceano, por onde os dous celebrados Rios, Tejo e Douro, recolhem as riquezas da Afia e da America, po- derão referir a variedade das nações estrangeiras, a que derão entrada depois daquella fatal fecca, que durando vinte e feis annos infeflou toda a Hefpanha até o do novecentos e trinta antes de Chrifto. Os Gallos Celtas, os Rhodios, Gregos, Phrygios, Fe- nices, Caldeos., Perfas, Hebreos, Alemães, Carta- ginezes, e Romanos povoárão em diverfos tempos efta Provincia. E depois deftes os Godos, Mouros, Suevos e Alanos. E em tempos mais modernos muitas familias de Alemães, Inglezes, Francezes da- quella armada, que affiftio a elRei D. Affonfo Hen- riques na tomada de Lisboa, ficarão Defte Reino, e povoárão Almada, Atougia, Lourinhãa, Arruda, Villaverde, Azambuja, Caftanheira, e Villafranca. Com tanta communicação de gentes eftrangeiras fe adulterou a lingoa antiga de Heipanlia, e fe admit- tírão muitos vocabulos de nações diverfas, e houve tempo, em que fe fallárão em Hespanha além das naturaes, a lingoa Grega, Latina, Arabica, Cal- daica, e Hebréa, como o refere Saavedra na Coro- na Gotica fol. 147. E efta he a razão de acharmos com a noffa lingoa mifturadas muitas vozes eftranhas, como bar em Barcelos e de tanta variedade de na- ções, procedida a mudança e corrupção dos nomes proprios dos Rios, Villas, e Cidades, porque liu- inas lho davao novo, outras accommodando o nome antigo á fua pronunciação o fazião differente. elis O P. ANTONIO VIEIRA. E não ha duvida que daquelles tempos para cá [ vem a fer, do anno de 1495, em que faleceo elRei D. João II. ] houve na lingoa Portugueza no- tavel variação, por fe feguir gloriofo reinado, ou (para melhor dizer) fe fundar o novo imperio (co- mo diz o Poeta) (*) do feliciffimo Rei D. Ma- noel, cuja Corte, além de fer a de mais policia de nollos Reis, foi frequentadiffima de todas as na- ções, das quaes com a miftura dos idiomas, e com os polidos fugeitos, que dalli por diante fe come- çárão a crear, fahio a noffa lingoa mais elegante e fuave. Cafo que com a fua Tofcana aconteceo aos Italianos, pela entrada de differentes nações em Ita- lia. E não ha duvida, que maior mudança fez a lingoa Portugueza nos primeiros vinte annos do rei nado de D. Manoel, que em cento e cincoenta an- nos dahi para cá como o vemos pelos efcritos, em verfo e profa, de huus e outros tempos. O nefmo acontecerá uoutros feculos aos que neste cui- dão, que efcrevem mais atilados; porque he for- tuna, que corre toda a lingoa vulgar, por quanto depende do mcro ufo, e não de regras fixas, como as univerfaes Latina, Grega, Hebraica, &c. E com efta attenção da propriedade da lingoa materna, fui fugindo vocabulos eftrangeiros inttulos, (harto, ro- dilha, quiçá) e outros introduzidos por Sciolos e Neophilos amigos de novidades.) Defculpa tinlião os annos paffados; hoje menos, antes culpa de an- dar mendigando vocabulos eftrangeiros a huma lin- goa tão rica, e abundante dos naturaes; em tão lu- zida Corte, e famofas Universidades como provão melhor fuas infignes pocfias no galliardo e engra- çado das quaes defcobre melhor feus quilates quali quer lingoa.. Não nego, nem deixarei de ufar tere: inos, que noflos antigos de feffenta annos a efta par- te ufárão, como ninherias, tomado do Caftelhano ardimento, do Italiano, injucundo, inintelligivel, e outros, maiormente negativos, tomadosi do Latino porque o ufo ou a neceffidade os fará bem recebi dos mas havendoos na propriedade Portugueza ele- gantemente expreffivos do que fe quer dizer, vicio feria mendigalos, e efpecie de traição à patria linolo goa, querer defterrar fens idiotifmos no pronun- ciar e escrever, caftelhanando erlatinizando fuperfti- ciofamente, como fe não fora juftiffima coufa que houvelle lufitanifinos, como latinifimos, hebraifmos, liefpanholifmos, e italianifmos, &c. Cada lingoa tem (*) Cam. Cant. 1: zangui fio of hy mos d Approvação da terceira Parte da Hifloria de S. Domingos, particular do Reino de Portugal. niccol A lingoagem [da fobredita Hiftoria tanto nas palavras, como na frafe, he puramente da lin- goa em que [o Autor] profellou efcrever, fem miltura ou corrupção de vocabulos eftrangeiros: us quaés fó mendigão de outras lingoas os que são pc- bres de cabedaes da noffa, tão rica e bem dota- da, como filha primogenita da Latina. O P. MANOEL BERNARDES. scivo not in moup by chrosit Nova Florefta, tom. 3. tit.i7. pag. 383 Huma das muitas excellencias da lingoa Por tugue-