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XXXVIII MEMORIAS E LOUVORES

dos tan perfetamente, como fi a cada uno hablara en fa milma lengua, comunicandole Dios a efte gran Santo da gracia, que avia dado a fus Apoftoles, que lo proprio hazian. Y aunque el entonces no pre- dicó en Portugues, con todo, es grau honra nueftra ayer dado Dios tan loberano don a una lengua Por- tugues, y oy fe conferva incorrupta que mayor excelencia! D baby FR. ANTONIO, DA PURIFICAÇÃO. filho por fucceffor de Portugal. E ultimamente a mefma mercé nos offereceo e concedeo elRei D. Filippe o 2.° de Caftella, quando entrou na occu- pação delle, e á inftancia das primeiras Cortes, a confirmou em Thomar, como nota Manoel Severim de Faria no feu difcurfo fegundo, aonde avifadamen- te conclue, dizendo, que pois efta he, a opinião de todo o Reino, não deve liaver nenhum particular, que tenha a contraria; porque d'outro modo (accre- Acenta elle) ficará a parte defunida do todo, e não poderá fer contado entre os verdadeiros Portuguezes. Prologo da primeira parte da Chronica da antiquif- E he tanta a autoridade defte digniffimo Chantre de fima Provincia de Portugal da Ordem dos Ere- Evora, que quando não houvera outras razões pe- Amitas de S. Agostinho, cap. 10. ora eu efcrever efta hiftoria em Portuguez, fó por efcapar de fua prudente e jufta cenfura, o fizera. A fegunda rezão he porque a lingoa Portugueza tem to las as condições, que fe requerem pera huma lin- goa fer boa, e digna de que nella fe efcreva, e trate qualquer materia por mais larga e grave, que feja as quaes de commum confentimento são cin- co; que feja copiofa de palavras, facil de pronun- ciar, breve no dizer, que efcreva o que diz, e que feja apta para todos os eftilos. A cópia de palavras he neceflaria pera não caufar faftio aos ouvintes a muita repetição dos mefmos vocabulos. E por efta re- zão ten a lingoa Hebraica o ultimo lugar entre to- das, e a Grega o primeiro. A boa pronunciação re- querefe pera a gravidade, e fuavidade no fallar: e nefta parte fe pode dar o ultimo lugar á Bifcainha, a qual he tão difficil de pronunciar, que fe quei- xa Pomponio Mela no liv. 3. de nunca lhe fer poffivel pronunciar, ou efcrever os nomes das Cida- des, e rios de Bifcaia. A brevidade he conforme ao dictame natural, que não confente, fe diga por mui- tas palavras, o que fe póde dizer em poucas. O po- derfe efcrever com toda a perfeição, he parte ne- ceffaria pera que a lingoa fe conferve, ainda que fe perca o ufo della. E a aptidão pera todos os ef- tilos ferve pera que nella fe pofsão tratar, e não feja neceffario pera algum delles ufar de alguma ef- tranha. E que a lingoa Portugueza tenha todas eftas condições em gráo perfeitiffimo o provão muitos au- tores evidentemente, entre os quaes com mais lar- gueza Manoel Severim de Faria no lugar allegado, e Antonio de Soufa nas Flores de Helpanha parte 1. cap. 22., aonde moftrão a primeira, que he a cópia de palavras, apontando oito e nove rocabulos finonymos e fignificativos de huua fó coufa, a qual em todas as outras lingoas fe fignifica com hum ou dous vocabulos fómente e confirmafe. efta verdade com os muitos objectos, que nella fe declarão com palavras proprias, como fio faudades, alvoroço, & outras de que fazem menção os Autores citados: objectos, que nas outras lingoas não tem palavra pro- pria, e fó fe declarão per circumloquios e rodéosu A bondade da pronunciação fe ve nefta lingoa com vantagem a todas as outras, porque nenhum voca- bulo finaliza nas letras B. C. D. F. on T. que são as letras, que fazem afpereza na pronunciação, quan- do com ellas fe acaba qualquer palavra, no que pa- decem muito as outras lingoas, principalmente a Ingreza, Alemãa, Franceza, e Latina, e tambem as acompanha a Caftelhana com a fua ciudad, amistad, e outras infinitas. Tambem nenhuma fyllaba expri- me na garganta, que he o que faz a pronúnciação difficultofa; trabalho de que muito usão os Bifcair nhos, e Mouros. Pois quão feja breve fe convence claramente dos muitos livros, que andão, traduzi dos do Latim em Portuguez, e de Portuguez en La- tim e Francez aonde fe ve que o mefmo livro não he maior em huma lingoa que na outra. A quar- ta condição, que he efcrever o que diz, fe acha na lingoa Portugueza com grande excellentía; pois he Pudera efta Chronica ir efcrita em lingoa Hef- panhola ou Latina penfamento que alguns zelo fos da Religião me communicárão. E bem vejo que já o P. M. Fr. Luiz dos Anjos fendo Portuguez o teve, e fe deixou vencer delle, começando as Chró nicas da Ordem em Latim, e depois confiderando melhor a materia, e que efcrevendo em Hefpanhol ferião mais conhecidas de varias nações, e de toda a forte de gente, doutos e idiotas; deixou o La- tim, e fe valeo do Caftellano. E teve muita razão no primeiro acordo, e muita mais no fegundo; por- que como fazia Chronicas geraes, fe as efcreyéra na lingoa Portugueza não poderião fer entendidas do Francez, nem do Italiano, nem de outras nações eftrangeiras, aonde eltá plantada a nofla Religião; nas quaes com tudo fão conhecidas as lingoas La- tina e Caftelhana: aquella porque toda a nação po- lida fe preza de a faber, e efta, por occafião dos muitos e grandes prefidios, que os Reis Catholicos tem continuamente em diverfas partes da Europa e fóra della; nas eu nunca tive penfamento de ef- crever efta hiftoria, fenão na lingoa materna defte Reino. E fe fizera o contrario, entendo que fora digno de grande nota, por muitas rezões. A pri meira, e a meu ver, menor de todas feja, porque toda a nação polida deve celebrar a lingoa da Pa- tria, em que naceo, e cftimala como primeiro e principal inftrumento de toda fua boa creação e dou- trina, e principio exterior, com que fe fez differen- te dos brutos e mudos animaes. Bem cahirão no co- nhecimento defta verdade, os antigos Romanos, quando ordenárão com rigorofas Leis, que todos os Magiftrados, que tinhão nas Provincias eftranhas affi do Oriente, como do Occidente ufaflem da lin- goa Latina e nenhuma refpofta pública deffem em outra lingoa. E delRei Dom Duarte o 4. de Ingla- terra fe, conta, que mandou que as coufas públicas) fe não trataffem, nem efcreyeffem fenão na lingoa Ingreza. O mefmo fe lê que ordenou da Caftelhar na elRei Dom João o primeiro de Caftella e fe- gundo refere Diogo do Couto na principio da fex- ta Decada, os Principes. Othomanos tinhão, tanta re- verencia á fua lingoa, que quando fazião alguma promeffa, fem animo de a cumprir, a fazião em lin- goa eftranha. E a efte propofito trazem alguns Au- tores muitos exemplos de Egypcios, Caldeos, He breos, Phenices, Gregos, Arabes, e Latinos, prin- palmente Bobadilha no proemio da fua Politica. Nem no noflo Portugal, falta, com que fejamos exemplo ás outras gentes nefta materia: porque por commum decreto do Reino fe pedio nas capitulações do cafa- mento del Rey D. João 1. de Caftella com a Infanta D. Brites, filha do noflo Rei D. Fernando, que, vindo efta provincia a fe unir com aquella Os Reis, que nella fuccedeffem, farião, efcrever todas as cousas, do governo público na lingoa Portuguefa. O mefmo fe alcançou pelos tres eftados, quando el Rei D. Manoel fez jurar o Principe D. Miguel feu , f Cer