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XXXIV MEMORIAS E LOUVORES Manoel na cidade d'Evora houve hum menino, que de dous annos (idade, em que meninos d'outras na- ções começão à fallar a fua) fallava além da fua lingoa Portugueza a Latina perfeitamente. Tem outra grandeza a lingoa Portugueza, que pronuncia melhor a Latina, que qualquer outra, porque lhe dá a pronunciação conforme a força c vigor das letras. O que não tem a Caftelhana, que todas as dicções acabadas em M pronuncião á ma- neira de N, e as comecadas por V, como fe fora B, dizeudo bolverin, mufan, amaban, probervio, por mufam, amabam, volverim, proverbio, &c. Por esta razão muitos autores Caftelhanos con- feffão-fer a noffa lingoa aventejada, não fómente a outras muitas, mas ainda á Latina e Tofcana. Affi diz o excellente Poeta Lopo da Vega Carpio, na fua defcripção da Tapada, célebre bofque dos Duques de Bragança. Onde introduzindo certas nynfas can- tando eftancias em varias lingoas, diz da noffa, que fe feguio á Latina, e Italiana, eftes verfos: Affi cantando fue la Portuguefa a Con celebrado aplaufo larga biftoria, A quien por la dulcura, que profeffa, Entrambas concedieron la victoria. O E quanto á fuavidade da pronunciação, e boa graça na lingoagem ; e de fer deleitofa aos ouvi- dos, (mas não dos Portugnezes enfaftiados) o con- feffa o eloquentiffimo Miguel de Cervantes (de quem fe diffe que defcobrio a alteza da lingoa Caftelha- na) fallando das excellencias de Valença, e da boa graça da lingoageni da terra, a encarece defta ma- neira: Con quien fola la Portuguefa puede competir en fer dulce y suave. Caftellano por fer lingoa mais geral, lhe direi que eftá cégo de cobiça, pois não vê, nem conhece a excellencia dos nolfos elcritores, quaes forão João de Barros, Tito Livio Lufitano, cujas Decadas forão a fegunda vez impreflas em Cafteila na lingoa Portu- gueza e o infigne Poeta Luiz de Camões, que anda traduzido em muitas lingoas, e ultimamente em La- tim, que he o mais que le faz aos melhores livros Latinos ou Gregos e na lingoa Portugueza foi im- preffo doze vezes commentado huma; duas em Caf- telhano, e o mesmo em Italiano, e Francez. Os Dialogos de Frei Hector Pinto impreffos por duas vezes em Portuguez, e traduzidos nas lin goas Italiana, Caftelhana, Franceza, e Ingleza. O inefmo fe fará ainda ao famofo Pocta Francifco Ro- drigues Lobo, que affás he bem moderno., e conhe- cidas fuas obras. E o que mais he de efpantar, que não fómen- te fuftentão efte parecer (feudo tão mal fundado) fenão que perfuaden a muitos, que havendo de com- por alguma coufa feja em Caftelhano, e não na Por- tugueza, porque a não entendem todos, e afli náo dá tanto proveito. No que bem moftrão feus ani- mos cheios d'intereffe, e não honra da impreffão. Ifto mefmo diffe o Padre Frei Bernardo de Brito aos que o perfuadião não efcreveffe em Portu- guez (as fuas Monarquias Lufitanas, e as mais obras, que tão doutamente efcreveo) como diz per eftas pa- lavras: Como efta opinião era tão mal fundada, nunca fiz rofto a quem ma perfuadia, vendo que a primeira razão me arguia de intereffeiro em pre- tender gafto da imprefsão, e a fegunda de indigno do nome Portuguez, em ter tão pouco conhecimen- to da lingoa propria, que a julgaffe por inferior á Caftelhana. Sendo tanto pelo contrario, que não ha lingoa em Europa (tomada nos termos, hoje a vemos mais digna de fer eftimada para hif toria, que a Portugueza: pois ella entre as mais he a que em menos palavras defcobre móres conceitos, e a que com menos rodeios, e mais graves termos dá no ponto da verdade. em que Defte mefmo parecer são os Portuguezes, que conhecem a grandeza da lingoa Portugucza, porque a fabem fallar, e outras muitas lingoas; e não os ingra- tos barbaros em todas, que deixão de fallar na fua, para dizerem mil erros na eftranha. Ifto aconteceo a hum defte Reino, que fallando com el Rei Dom Fi- lippe Prudente, diffe ao que vinha, em Caftelhano. Concluo com dizer, que, pois efta he a opi- ElRei lhe refpondeo em Portuguez. Ao que vendo- fe atalhado parou no que hia dizendo, fem faber co- mo fallafle. Polo elRei lhe diffe: Hablad en buef tra lengua, que bien la entiendo. que Por efta razão os Principes, que são fenho- res, de muitas provincias e differentes nações, ap- prendem. com a Latina varias lingoas. Porque he par- ticular contentamento a hum eftrangeiro ouvir a feu Principe, e fer ouvido em fua lingoa, natural. Affi o fez Mithridates Rei do Ponto, que entendia e fallava vinte e duas lingoas differentes, com que era amado e obedecido de outras tantas provincias, por fallar a cada hum fem interprete, nem terceiro. Por efta mefma razão fugindo de Grecia, aquel- le fempre leal a ella Themiftocles, para elRei de Per- fia (diz Plutarco en fua vida) apprendeo primei- ro a lingoa d'aquella terra, com que affeiçoou os animos de todos ao feu. Porque fão os homens (-não os Portuguezes tão amigos de fuas, coufas que em ouvindo o Francez ao Hefpanhol fallar a fua lin- goa, e o Italiano ao Alemão, e efte ao Turco ou barbaro, logo refpondeo o coração com novo amor, que aos raes fe cobra. Até as aves e animaes tem feus particulares termos para elles fignificativos, cu- jos reclamos ainda que fejão falfos, o chama de mui longe, fem os quaes não fe podem tratar nem s,quaes converfar. nião dos eftranhos e naturaes, que o melhor enten- dem, não deve haver quem o contradiga, fuppena não fer contado entre os verdadeiros Portuguezes. Porque por elles fós fe póde dizer que tem a me- lhor e mais ditofa lingoa (excepta a Latina) de to- do o univerfo pois por ella fe annunciou e mani- feftou a tantas gentes de tão remotas e eftranhas pro- vincias (como fão as da India, Ethiopia, Brazil, e partes d'Africa) a Fé Catholica, prégandofe o Evan- gelho pelos Portuguezes ao mundo todo, penetran- do tudo o que o mar Oceano cerca, não ficando ilha, que não conheça, e ouça a voz da nação Por- tugueza. E affi podemos accommodar (como muita razão) aos Portuguezes o que diz Propheta Rei no Pfalmo 18. In omnem terram exivitfonus eorum, et in fines orbis terrae verba eorum. DUARTE RIBEIRO DE MACEDO. Advertencia à vida da Emperatriz Theodora. O Autor defejou efcrevela [a fobredita vida] em lingoa puramente Portugueza, porque fe lafti- ma de que fendo pela confiisão dos Eftraugeiros ele- gante, copiofa, e clara, a efcureção os naturaes com termos peregrinos; fundando a elegancia na, novidade de verbos e nomes defufados, enfaftiando- E fe ifto ha nos brutos, que obrigração ha- fe de beber as agoas puras e claras da elegancia, verá nos homens, que tem ufo de razão? upcom que efcrevco João de Barros, que he o mais Se me differ algum deftes, que compõe em feguro exemplar da eloquencia Portugueza. JA