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DA LINGOA PORTUGUEZA. nhas, e muitas eftranhas, que a ella vierão: como forão os Gregos, Latinos, e Godos.
Affi que ficando muitos Gregos na noffa Lu- fitania, que vierão em companhia de Hercules, que veio per duas vezes governar a Hefpanha os com- panheiros de Ulyffes que fundou e povoou Lis- boa e delle tomou o nome, que hoje em Latim tem Ulyffipo: os companheiros de Baccho, que derão o nome á noffa Lufitana do nome de hum delles mais principal, chamado Lufo : que vierão por diverfos tempos, e tomamos delles muitos vo- cabulos, que hoje em dia temos no inefino fer, e outros pouco corruptos. " Depois delles vierão os Romanos, de que to- mámos muita parte da lingoa Latina com que fi- cou limada e aperfeiçoada de maneira, que tem as cinco qualidades, que fe requerem para fer perfeita huma lingoa. Porque he copiofa de palavras : boa na pronunciação, pois não acaba em confoantes jun- tas, como a Franceza e outras: efcreve o que fal- la, o que não tem a Tudefca, nem o Vafconco, e lingoagem dos Vizcainhos, que He tal, que fe não póde efcrever he apta para todos os eftilos de com- pôr: e fobre tudo he tão breve, que em algumas coufas o he mais que a Latina e no derivar de huma palavra muitas he mais copiofa: he mais com- pendiofa que outras lingoas em muitas palavras; co- mo Alvoroço, Adherencia e fobre todas efta Sau- dades, que com muitas palavras d'outras lingoas fe não póde explicar. Deixando efte argumento de palavras, quero por outro de exemplos. Todas as nações de Euro- pa reconhecem por aventejada a lingoa Latina, e lo- go aquella, que mais della participa. Se eu moftar por exemplos que a lingoa Portugueza he tão copio- fo de vocabulos Latinos, que podemos compor mui- tas orações e periodos, que juntamente são Latinos e Portuguezes, darão ventajem á noffa? Sim por cer- to. Pois vejão primeiro efta oração, que merece o primeiro lugar; não por fer coufa minlia, mas por fer feita a Noffa Senhora. XXXIII Soneto de Jofeph Barrofo d'Almeida em lonvor do que commentou as Georgicas de Virgilio em Portuguez. De Cantando te per modos eminentes (Quando glorias adornas Mantuanas) Tanto excufando eftás mufas humanas, Quanto a divino ftylo differentes. Phebo fpera tu palmas florentes, De cujo folo, o bella Aurora, manas, Ante confufas nubes virgilianas, Manifeftando luces reflugentes. Eternamente docta, Phanix rara, Vivas felix, per modos peregrinos Mantuanas reliquias renovando. cuja gloria es Lufitania clara Mantua, dando ftylos tam divinos Parthenope memorias confervando. A > Verfos feitos em louvor de Portugal pelo Illuftrif- fimo Senhor D. Miguel da Silva. O quam divinos acquiris terra triumphos, Tam fortes animos alta de forte creando. Per numeros fanctos gentes tu firma refervas. Per longos annos vivas, tu terra beata: Contra non fanctos te armas furioja paganos. Vivas tu fempre, gentes maclando feroces Ethiopes, Turcos fortes, Indos das falvos, De Jefu Chrifto fanctos monftrando Prophetas. Profa, e verfos, que achei em Manoel Severim.. de Faria a efte mefimo intento. > O quam gloriofas memorias publico, confi- derando quanto vales, nobiliffima lingua Lufitana; cum tua facundia exceffivamente nos provocas, ex- citas inflammas quam altas victorias procuras, quam celebres triumphos fperas ,quam excellentes oofábricas fundas, quam perverfas furias caftigas, quam feroces infolencias rigorosamente domas, inanifeftan- do de profa, de metro tantas elegancias Latinas. O gloriofiffima Maria tu, que tantas miferi- cordias exercitas , que tantos favores divinos com- municas, que tantos mundanos (intercedendo) re- paras, reconciliane, animame, reparame, fuftenta- ine contra mundauas infolencias. O Deipara Maria tu, que recreas puriffimos fpiritus, catholicos prophetas, victoriofos martyres, devotos confeffores, caftas fanétas; tu, que reges il- luftres choros, muficas Angelicas, voces divinas, melodias fuaves, cantores fanctos, recreame com mu- fica tam clara, tam divina. Tu (o Phoenix rara) que es perfectamente docta, excufando ftas meos ftilos imperfectos, regeme per modos excellentes, cantandote itarei æternamente. Roma infinitos fanctiffima vive per anncs, Pacifica gentes (vive quieta) tuas. Caftiga grandes violenta morte tyrannos Ingratos animos (es generofa) fuge. Acquire infignes varia de gente triumphos: Diftantes terras imperiofa rege. Tanto maiores titulos Bethlem alta celebra, Quanto Romano maior es imperio. Maior amor, maior es magnificentia, maior Fame, tuas Chrifto dando benigna cafas. Verfos que hum Religiofo fez em louvor de verfos, que lidos em Latim ferão Latinos, e lidos Santa Urfula. dem Canto tuas palmas, famofos canto triumphos, Urfula divinos. Martyr concede favores. Subjectas facra nympha feros animofa tyrannos. Tu Phenix vivendo ardes, ardendo triumpbas, Illuftres generofa choros das Urfula, bellas Das rofa bella rofas, fortes das Janela columnas. Eternos vivas annos, 6 regia planta, Devotos cantando bymnos, vos invoco fanétas, Tam puras nymphas amo, adoro, canto, celebro. Per vos felices annos, o candida turba, Per vos innumeros de Chrifto fpero favores. Defta maneira fe podia encher muito papel de Portuguez são Portuguezes. E inda que nelles a lingoagem pareça, que vai fóra do ufo, ferá para aquelle, que não entende, que affi fe requere por razão da medida dos verfos, e rigor das fyllabas. E he tão natural a lingoa Latina aos Portu- guezes, que affirmão varios autores (como são Fran- cifco de Monção no Efpelho do Principe Chriftão, D. Manoel de Gufmão de Vera no Epitome do Em- perador Carlos V. Manoel de Faria de Soufa no Epitome das hiftorias Portuguezas) que dous-meni- nos de tres annos fallavão Latim perfeitamente dian- vote delRei D. João III. E huma menina irmãa dos mefmos meninos, que não tinha oito mezes, fe lhe fallava Latim, o entendia, e refpondia alguma palavra Latina a pro- pofito. O que certifica o dito Francifco de Monção como teftemunha de vifta. E no tempo delRei Doni 9
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