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XXX MEMORIASE Ante fuum ferret, nec tam Romana theatra Plautinofve faleis, lepidi vel fcripta Terenti Jactarent; tanto nam Gillo praeiret vtrifque, Quanto illi reliquis inter qui pulpita rore Oblita corycio, digitum meruere faaentem, &c. LOUVORES de lingoa Latina, e não deffem noutra, refpofta al- guma pública. Os Carthaginenfes prohibírão, que nin- guem apprendeffe outra lingoa mais que a da Patria. (d) Os Efcocezes enfinão na lua ás fciencias, e pera iffo tem traduzido nella todas as artes, e muitos dos ex- A shqypofitores dellas. (e) Vlid, celebre Miramolim dos Por eftes e outros exemplos conclue Duarte Nunes Arabes (porque foi 0 primeiro que tomou Damal- de Leão (a) hum largo difcurfo fobre efta materia, co) mandou que em todos os feus Reinos não fe dizendo: Não ha para que fe negue a facilidade e efcreveffe mais que na lingoa Arabiga. (f) O mef fuavidade da lingoa Portugueza, que para tudo tem ino publicou por lei elRei Duarte IIII. de Inglater- graça e energia, e he capaz de nella fe efcreverem ra, ordenando que as coufas públicas fe não trataf- todas as materias digniffimamente, affi em profa, fem ou efcreveffem fenão na lingoa Anglicana. (g) como em verfo &c. Os Principes Othomanos tem tanto refpeito à fua, que as promeffas, que não hão de cumprir, mandão dar em lingoa eftrangeira, e as que hão de obfervar, na propria. (b) E nelte Reino fe vio outro não pe- queno exemplo em Raix Xarafo, Guafil de Ormuz, o qual tendo muita noticia da lingoa Portugueza, e tratando feu livramento diante delRei D. João III. nunca lhe quiz fallar fenão por interprete por não deixar a lingoa de fua Patria. () ElRei D. João I. de Caftella mandou tambem, que nas coufas públicas fe ufalle da lingoa Caftelhana; donde parece que de então pera cá deixárão os Caftellanos de compor os verfos na noffa Portugucza, e illuftrárão mais a fua. Grande affronta fora certo pera efte Reino, fe contra tantos exemplos, pelo extravagante, gofto de poucos mal contentes, fe entendera que fó Portugal defprezava a lingoa propria; porem não he afli, an tes nefta materia podemos tambem. fer exemplo. aos outros todos pois além das autoridades allegadas de tantos varões noffos naturaes, infignes em letras, que em tanta eftima tem a lingoa Portugueza, o mel- mo Reino por decreto commum, pedio nas capitu- lações do cafamento del Rei D. João I. de Caftella com a Infanta D. Brites, filha do noffo Rei D. Fernando, que vindo efta provincia a fe unir com aquella, os Reis, que nella fuccedeffem, farião ef crever todas as coufas do governo público, na lin- goa Portugueza. O proprio fe alcançou pelos tres eftados, quando, elRei D. Manoel fez jurar o Prin- cipe D. Miguel feu filho por fucceffor de Portugal. E ultimamente a mefina mercê nos offereceo e con cedeo elRei D. Filippe I. quando entrou na fuccef- fão defta Coroa, e á inftancia das primeiras Cortes, a confirmou em Thomar. Pelo que pois efta he a opinião de todo Reino, não deve haver nenhum pai- ticular, que tenha a contraria; porque doutro modo ficará a parte defunida do todo, e não poderá ler. contado entre os verdadeiros Portuguezes. Concluamos logo (*) que fe na lingoa Por tugueza fe acha tanta conformidade com a Latina, que fe póde efcrever em verfo e profa pelas mefmas pa- lavras em ambas as lingoas? Se he tão copiofa, que a nenhum genero de Poetas ou Oradores faltou com fumma elegancia? Se os mefmos Eftrangeiros The confefsão a fuavidade da pronunciação? Se ef- creve fomente o que falla? Se he apta pera todo o eftilo? Que coufa fe lhe pode defejar que ella não tenha? como diz o noffo João de Barros. (b) Ou que parte lhe falta pera ler perfeita? Ou quem ha que contra a razão queira contrariar hunia coufa tão manifefta? Certo que contra eftes defcontentadiços podemos exclamar com as palavras de Tullio, di- zendo-lhe Vnde hoc tam infolens domefticarum re- rum faftidium? Quando enim aut Oratoribus bonis, aut Poetis, vllus orationis, vel copiofae, vel ele- gantis ornatus defuit? &c. E com o noffo Bifpo Dom Antonio Pinheiro (c) condemnalos por ingra- tos á Patria, onde nafcèrão, como elle o faz nef- tas palavras, dizendo: Defagradecidos Portuguezes, e defnaturaes são, os que por defculparem fua ne- gligencia culpão a pobreza da lingoa. Bem fei que Je na minha eloquencia lançarem prumo, que the acharão poucas braças; mas nunca tão desleal ferei á, terra, que na vida me fuftém, e na morte com- figo me ha de abraçar, que por me efcufar, a accu- fe, e por me livrar, a condemne; mas porque contra eftes domefticos inimigos da noffa lingoa efcrevi em hum tratado, que fiz da eloquencia Portugueza,. co- lbe por bora as velas, &c. Grande perda foi pera nós não. fahir a luz efta obra de tão erudito varão, porque refultára em grande proveito, e honra de noffa lingoa; á qual fo efta falta lhe podemos dar, que eftando a Latina, e outras vulgares tão chêas de volumes, de Traducções, de Copias, Frafes, Elegancias, e de Thefouros de fua eloqueucia, com que as vemos ornadas de tão ricos atavios, fó a nof- fa eftá pobre de todo artificio, e fem mais compof- tura que a fermofura natural. Porém nem ifto he de- feito nella; antes maior grandeza, pois fem eftes Advertencia ao principio do Commento à Lufiada affeites compete com a belleza das outras, e vence aos armados defarmada. E fe efta verdade não está até- gora conhecida de todos os Portuguezes, cuido cer- to que he, por não ponderarem as rezões, que por fi tem porém entendo que confideradas ellas, nin- guem haverá que queira obftinadamente fuftentar fua opinião, contra efta certeza e fer tão defconhecido á fua Patria, que aborreça o proprio por invejar o alhêo, e confinta fermos vencidos no amor da lin- goa materna de todas as outras gentes, affi barbaras, como politicas, que tanto as fuas proprias eftimá- rão. Dos Romanos fabemos que depois de eftabele- cido o Imperio, ordenárão com rigorofas leis, que todos os Magiftrados ulaffem nas provincias eftranhas MANOEL DE FARIA E SOUSA. de Camões O A cada eftancia [del Camões] fe figue lo que otros llaman explicación, e yo le llamo traduciou, tan al pie de la letra, que la palabra, que el Caftel- lano uia, o ha ufado, no la mudo (aunque oy fea humilde) folo por moftrar la poca differencia, que ay i huvo fiempre entre la lengua Caftellana, i Por- tuguefa confiderandofe, que quando ay alguna es para mejor en propriedad; paraque vean todos la poca razon, o caufa, con que fe les haze difi- cil nueftra lengua, i con que la quieren privar de la capacidad de efcrivirfe en ella todo affumpto gra- ve, e de la eftimacion, que realmente fe le deve. (a) Origem da lingoa Portugueza, c. 23. (*) Eftimação da lingoa Portugueza. (b) Vb. fupr. (c) Vb. fupr. (d), Alexand. ab Alexand. lib. 2. c. 30. (e). Boeth. in Scot. (f) Paulus Diaco. lib. 2. () Polid. lib. 19. (b) Bemb. lib. 4. Hift. Venet. (i) Couto, Decad. 6. lib. 1. c. 1. Com-