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tes, DA LINGOA PORTUGUEZA Mirar e dizendo, Mirar, não chama aos olhos, Miros, no que fe conhece notoria impropriedade. Da quarta e ultima demonftração das palavras, que fe não achão nas outras lingoas, fenão fó na Por- tugueza, feja exemplo, (*) Aderencia, Agala- lhar, Alvoroço, Atinar, Bonina, Enxergar, En- campar, Encarar, Geito, Inçar, Lembrança, Ma goar, Maviofo, Praguejar, Pairo, Pairar, Pri- mor, Tomarje de alguma coufa, Mano, Saudade, Sofrego, e outros inuitos, que deixamos de trazer, por não eftender efte difcurfo mais, e por que o fazemos particularmente em huma cópia de palavras Portuguezas, onde fe vê por extenfo a abundancia de vocabulos, e excellentes modos de fallar, de que lie dotada e enriquecida a nofla lingoa com muita ventagem de outras. E porque não pareça que efte conceito he fómente meu, ou achado de novo, trarei huma autoridade, que o confirma de hum Au- tor, affas conliecido por douto nas lingoas celo- quencia que foi o Bifpo de Leiria Dom Antonio Pinheiro, eruditiffimo Commentador de Quintiliano, o qual traduzindo em Portuguez o Panegyrico de Plinio a Trajano (a) (que he huma das orações mais ornadas de figuras rhetoricas, e das flores da eloquencia de toda a antiguidade) diz affi na Dedicatoria fallando com elRei D, João III. Além defte fubftancial pre- ceito, trabalhei nas horas furtadas de vinte dias, que paffarão defque levei a V. A. o tratado fobre os Pfalmos, atégora, por enfraquecer a falfa e vaa opinião, que da moffa lingoa conceberão mui- tachandoa de pobre, não copiofa, dura, e não ornada; injuriandaa de barbara e groffeira, aggra- vandoa com a gabarem em trovas leves, em compa- rações, e apodaduras de bomens com abatimento de fua peffoa, graciosos. E pois eu pela criação em terras eftranhas, e não muita lição de noffos Au- tores, de tal maneira pas em nosso commum fallar, eftilo tão Jubtil, tão baflo de figuras, tão cfpeffo em fentenças, tão luzido de bons ditos, tão dif- creto em avifos, e fiado tão delgado; não fomente com me nunca ver ein affronta de neceffidade (fe nom foi de efcolher) mas ainda com raftejar todos os primores do Latim, quanto mais eloquentes de vem fer, e fão, os que afão do mel do Paço, da doçura cortezaa e no thefouro de fuas lembranças tem feitas provifões de palavras em abaftança &c. A pronunciação (**) perfeita confifte no bom Tom das palavras, que le fórma do ajuntamento das letras em fyllabas, e das fyllabas em dicções, as quaes na lingoa Portugueza são fuaves, porque nem tem vehementes afpirações, nem a afpereza dos Ale- mães, nem acabio nenhumas finaes em t, f, c, ou b, que são letras afperas', de que usão os France- zes e Latinos; nem menos, em d, como tem os Caf- tellanos em todos os Imperativos do Plural, como: Hazed, Amad. E em muitos nomes, como: Mer- ced, Ciudad. E com fer a lingoa Portugueza em todas as fyllabas facil, fica participando de maior gravidade nas palavras, que a Italiana, a qual por acabar todas em vogal, tem huma apparencia pueril. Sómente huma coufa nos podem tachar, que he ufar- mos frequentemente de diphthongos nos finaes. Porém havemos de confiderar, que na noffa lingoa ha huns diphthongos commús ás outras, e outro noffo par- ticular. Os conimus são, ai, ae, au, ei, eu, oe, ou, ui, e eftes tiverão os Gregos e Romanos, co- mo moftrão largamente Francifco Sanches Brocen- fe, (b) e Angelo Policiano; (c) e fe hoje fe não pronuncião nefta fórma, he por negligencia dos mo- dernos como o prova com muitos exemplos na ' XXVII mefma lingoa Portugueza o Brocenfe, tratando dos Gregos, e fe collige da mefma etymologia do no- me, porque diphthongo fe diffe de, Dis, dicção Gre ga, que quer dizer dous, e Phthongos, que he fom: quafi dizendo, dobrado fom de duas vogaes, e não de huma fó, como o moftra Terenciano neftes verfos : Porro vocalem fecuta, vim tenet vocalium, Et fonos utrosque iungit, unde diphthongos eas Graeciae dicunt magiftri, quod duae iunctae fimul Syllabam fonant in unam, vique a praeditae, &c. Daqui infere Aldo Manucio (d) que os diphthon- gos fe pronuncião corruptamente ha muitos annos: Quandoquidem, vel hinc colligi poteft, aetate nof tra, et maiorum abhinc annos oltingentos, perperam. diphthongos omnes, et pronuntiari, et pronuntiatas effe &c. De maneira que eftes diphthongos, que lio- je temos na lingoa Portugueza, são os mesmos, que antigamente pronunciavão os Gregos, c Latinos, e agora usão os Francezes. E não temos algum táo proprio, que fe não ache nas outras nações, pofto- que não falta quem affirme o contrario. Só o diph- thongo, ão, he proprio noffo, e o corrompemos do oin Francez e Gallego, eni que não ha muitos an- nos acabavão as mais das dicções, que hoje termina- mos ei, ão, por fe pronunciar efte diphthongo por, a, com mais brandura e fuavidade, que não por, o. Donde não ficou a lingoa peiorada com efta mudan- ça, mas antes com notavel melhoria; peloque he facil de tomar e apprender a todas as nações, tiran do á Caftellana. Porque os Francezes, Inglezes, Hi- bernios, Flamengos, Alemães, Catalães, Valencia- nos, e Bifcainhos, com tanta facilidade a pronun- cião, como podem teftemunhar as Cidades de Lis- boa, Evora, e Coimbra, onde modernamente muitos Religiofos deftas nações prégárão e eufinárão publi- camente na nolla lingoa vulgar. E a rezão de os Caftellanos a não pronunciarem com facilidade, he, porque onde nós terminamos as palavras em, ni, acabão elles com, n, c tão familiar lhe he cfta le- tra, que nas terceiras pefloas do plural a usão em todos os tempos dos verbos, como: Aman, Ama- ban, &c. E nos nomes a tem frequentemente, co- mo: Pan, Capitan: e nos participios, como: Com- paracion; e nas prepofições, como: En, Sin. Eltas dicções todas nós acabamos em, m, ou no noffo diphthongo: o qual he quafi como o, am, que os Latinos usão nos accufativos da primeira declinação, como: Mufam, Famam, e nas primeiras peffoas dos plusquam perfeitos do Indicativo dos verbos, como: Amaveram, Legeram, e noutras palavras, que aca- bão na muefna terminação, quaes são, Coram, Qui- nam, Quifpiam, &c. E ainda que o noffo, áo, e, m, dos finaes feja menos fuave, que o, n, dos Caftelhanos, fegundo Quintiliano, (e) que por iffo o louva aos Gregos; com tudo elle mefmo acode pelo, m, dos Latinos, dizendo: Non poffumus effe tam graciles, fimus fortiores, fubtilitate vincimar valeamus pondere, &c. E afli podemos dizer que a nofla lingoa nefta parte fica menos fuave, que fi- ca mais grave. E como coula nella muito notoria, lhe dão efte honrofo epítheto, João de Barros, Duar- te Nunes, Pero de Magalhães, Jorge de Monte Maior, Francifco Rodrigues Lobo c Lopo da Ve- ga Carpio, e outros; e com tudo efta natural gra- vidade não he de algum impedimento á noffa lin- goa para deixar de fe exercitar em qualquer genero de efcritura, como bem diz João de Barros: A lin- goagem Portugueza, que tenha efta gravidade, não , fe (*) Palavras Portuguezas, que fe não achão noutra lingoa. (a) O original eftá na Livraria da Cartuxa de Evora. (**) Boa pronunciação da lingoa Portugueza. (b) Brocenf. in Grammatic. Gracc. et Minerva. (c) Polician. Mifcél. 4. 43. (d) Aldus de vocalium vitiata prolat. (e) Lib. 12. c. 10. per-