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maſculas vulgarmente chamadas zangáos (fuci) são menos compridas do que as femeas, porém mais groſſas do que as operarias; as ſuas antennas tem ſómente onze peças; os olhos são muito maiores do que os das operarias; o peito mais felpudo, e o ventre mais lizo; não tem ferrão, e em lugar delle tem o genital deſtinado á fecundação dos ovos. As operarias são as mais pequenas de todas; as ſuas anténnas conſtão de quinze peças, como as das femeas, mas os ſeus olhos são mais pequenos tem ferrão e ſete ſegmentos ou anneis no ventre; além diſto podem ainda ſer reconhecidas por terem humas certas eſcovinhas na parte interior das ſuas coxas poſteriores, as quaes lhes fervem para ajuntar a materia da cera: eſtas eſcovinhas são maiores nas operarias do que nas maſculas, e faltão nas femeas. Todas eſtas abelhas tem na cabeça lateralmente dous queixos, e entre elles huma eſpecie de tromba ou lingoa acompanhada de duas laminas duras e eſcamoſas; eſta tromba com os ſeus eſtojos he mais comprida nas operarias do que nas maſculas. As femeas; e maſculas ſervem unicamente para a propagação da eſpecie. Comtudo as maſculas não tem cóito algum com as abelhas meftras, nem conſtituem o ſeu ſerralho, como alguns Naturaliſtas penſárão, os ſeús deveres ſexuaes limirãoſe meramente a fecundar os ovos por hum modo analogo ào dos peixes. Na primavera a femea ou femeas vão correndo pelos favos de cellula em cellula, e no fundo de cada huma dellas põe hum ovo. As maſculas cuidão com toda a brevidade em fecundar eſtes óvos, eſparzindo ſobre cada hum delles o líquido eſpermatico. Dentro de poucos dias ſahe de cada ovo hum bichinho branco, a que os Entomologistas chamão larva. As operarias poe em continente todo o cuidado em alimentar eſtas larvas, até que ellas ſe poſsão mudar em nymphas, iſto he, em abelhinhas brancas, molles, e tenrinhas. Chegado eſte periodo, as operarias põe huma tampa no orificio de cada cellula, encerrando aſſim as nymphas, até que eſtas, cobrando força e conſiſtencia, poſsão com ſeus queixos romper a ſobredita tampa, e ſahir já formadas abelhas perfeitas das tres differentes fortes acima mencionadas. As larvas deſtas diverſas ſortes de abelhas são nutridas e alojadas em differentes cellulas, as quaes as operarias por hum inſtincto particular ſabem fabricar de figura, grandeza, e numero adequado. As cellulas, em que devem ſer poſtos os óvos de que hão de ſahir as larvas das maſculas, são exagonas, como as das operarias, porém maiores e ſituadas ordinariamente na borda dos favos. As que são deſtinadas para as femeas (chamadas vulgarmente cellulas reaes) são ainda maiores, mais fortes, e de figura redonda. As cellulas das larvas, de que devem ſahir as operarias, são as mais eſtreitas e mais pequenas de todas. As larvas das abelhas meſtras são tiradas pelas operarias deſtas ultimas cellulas, e poſtas nas cellulas reaes, cuja deſaſogada largueza contribue tanto para lhes fazer perfeitamente deſenvolver os orgãos ſexuaes femineos, quanto a eſtreiteza das cellulas das larvas das neutras concorre para fazer obliterar os meſmos orgãos nas ditas neutras, até ficarem inteiramente inviſiveis. Em quanto as maſculas são neceſſarias para a propagação da eſpecie, são tratadas pelas operarias com ſummo deſvélo, mas apenas são reconhecidas oneroſas e inuteis, eſte deſvélo he mudado em crueldade. Desde o mez de Junho ou principio de Julho as operarias começão a matar com ferroadas todas as maſculas da colmêa, ſem perdoar nem ainda meſmo ás ſuas nymphas e larvas. Acabada eſta cruel mortandade, operarias tornão aos ſeus coſtumados trabalhos. A abelha meſtra vai continuando a pôr, e dos ſeus óvos ſe vão renovando os machos, e femeas. A's vezes ſuccede haver duas ou tres femeas em huma colmêa; ſe eſta não he demaſiadamente numeroſa, ellas vivem ſem perturbação; mas ſe ella he numeroſa, e ſe as operarias temem grande multiplicação, principalmente ſendo na entrada do inverno, matão então todas as femeas, como tinhão feito aos machos, e deixão ſó huma, que baſta para a propagação futura. Se eſta perece, as operariás, perdendo toda a eſperança de multiplicação, deſanimão de ſeus trabalhos, e morrem todas em breve tempo. Como os óvos de huma ſó femea são numeroſos, ſe eſta continúa a viver, os habitantes, da colmêa, não podendo dentro de certo eſpaço de tempo caber nella, são obrigados a deixala, e ir buſcar novo domicilio. Eſtas novas colonias são chamadas enxames.. Sáo todos compoſtos de operarias novas, e velhas, de huma femea, e de alguns machos. Logo que eſcolherão lugar de habitação, as operarias começão ſuas lidas da meſma forte, que as das colmêas, de que são originarias, tinhão praticado. FERN. Lor. Chr. de D. J. I.2, 144 Ca das abelhas naturalmente vemos, que huma ſó he principal e regedor dellas. CAM. Ecl. 2, 39 Nem as hervas das agoas deſejadas Se fartão nem de flores as abelhas. VIEIR. Serm. 6, 3, 6. n. 98 He proprio da abelha, em picando, cahir morta.

Subſt Cortiço de abelhas. GOES, Chr. de D. Man. 3, 35. Enxame de ... SOVER. Hiſt. 3, 6. Segredo dá... BLUT. Vocab.

Epith. Artificioſa. BARRET. Flos Sanct. 2, 331, 2. Aſtuta. PER. Elegiad. 3, 37 y. Cuidadoſa. BARRET. Flos Sanct. 1, 187, 1. Diligente. S. ANN. Chr. I, 44, 263. Doce, CAM, Ecl. 5, 21. Engenhoſa. ALV. DA CUNH. Eſcol. 12, 9. Induſtrioſa. HEIT. PINT. Dial. 2, 2, 4. Mellifera.CAM, Eleg. 6, 5. Mellifica. CURV. Obſerv. 20, 5. Mimoſa. LOB. Primav. 2, 7. Proveitoſa. SEPULCHR. Refeiç. 1. Prol. I.; 5. Prudente. PER. Elegiad. 10, 135 . Pura. ESPER. Hiſt. 2, 6, 27. n. 4. Sábia. Ros. Hiſt. 2, 199, 3. Solicita. CAM Ecl. 5, 21. M. BERN. Paraiſ. 56.

Abelha meſtra. A maioral das abelhas, que rege e guia o enxame. HEIT. PINT. Dial. 2, 4, 2 A abelha meſtra, que rege todas as outras, ainda que tem aguilhão, não uſa delle, como o diz Plinio; ou ao menos, raramente. PER. Elegiad. 5, 63 O que viſto dos ſeus, a Todo o prigo Todos vão apos elle: como quando Deſgarra a meſtra abelha, o doce abrigo A outro tronco concavo mudando. ARR. Dial. 5, 1 A abelha meſtra; que governando as outras, não tem aguilhão, com que laſtime &c.

Met. FERR. DE VASC. Aulegr. 4, 5 E voſſa comadre, abelha mestra?

Rei das abelhas. O meſmo que Abelha meſtra. ARR. Dial. 5, Deſarmado criou a natureza o Rei das abelhas, e com menores azas. FERNAND. GALV. Serm. 1, 43, 3 Diz Seneca, que o Rei das abelhas não tem aguilhão, com que magoe. LEON. DA COST. Georg. 4, 115. not. a Ariſtoteles no livro quinTo, tratando dos Reis das abelhas, diz que ha dous generos; hum delles louro, e eſte he o melhor; e o outro negro e mais vario, e que são maiores duas vezes, que as outras abelhas.

Adag. Abelha e ovelha e a penna de traz da orelha e parte na Igreja deſejava para ſeu filho a velha. DELIC. Adag. 168.

Abelhas e ovelhas tem ſuas defezas. DELIC. Adag. 82.
Anno de ovelhas, anno de abelhàs. DELIC. Adag, 82.
De Deos vem o bem, e das abelhas o mel DELIC. Adag. 106.
Diz a abelha: trazeme cavalleira, dartehei mel e cera. DELIC. Adag. 21.
Miguel, Miguel, não tens abelhas e vendes mél. DELIC. Adag. 111.
Morta he a abelha, que dava mel è cera. DELIC. Adag. 22.
Morto por morto antes á abelha, que ao porco. HERN. Nun, Refran. 94.
Não morde a abelha, ſenão a quem trata com ella. BLUT. Vocab.
O Rei das abelhas não tem aguilhão. DELIC. Adag. 167.
Quando te vires (ou eſtiveres) morto tornate á abelha e ao porco. DELIC. Adag. 12. HERN. NUN. Refran. 94.
Quanto chupa a abelha, mel torna, e quanto a aranha; peçonha. DELIC. Adag. 12.
Quem tem abelha, ovelha, e moinho entra com el Rei em deſafio. DELIC. Adag. 14.
Vaiſe o bem para o bem, e as abelhas para o mel. DELIC. Adag. 15.

ABELHA., s. f. Certa planta. He huma das da familia natural das Orchideas, á qual algúns Botanicos modernos da eſcola de Linneo chamão Ophrys myodes, pela razão da ſua flor ſe aſſemelhar de algum modo a huma grande moſca ou abelha. Na ſua raiz ha hum bolbo baſtardo hum tanto redondo e compreſſo, ſemelhante ao Salepo. O ſeu caule tem quaſi meio pé de alto, he guarnecido de algumas folhas rentes e lanceoladas, e terminado ſimplesmente em huma eſpiga de cinco até oi-