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XVIII
differentes ſignificados ſe collocarão as fraſes mais notaveis ou principaes idiotiſmos, que conſtituem a elegancia da noſſa lingoa. Se forem irregulares, apontarſehão os tempos e peſſoas, em que ſe dá a dita anomalía; como: Arço e arça em Arder, val em valer, trouxe ou trove ant. em trazer, &c. Outro tanto ſe praticará com os defectivos, eſpecificandoſe as peſſoas ou tempos, conhecidamente e com certeza carecem. Tambem ſe fará menção daquelles tempos, em que que os Antigos guardavão regularidade, e o contrario ſe uſa ao preſente; como: Imos, acude, fuge, pida, impida, &c. Todas as vezes, que houver nos verbos varias regencias, ou diverſidade de prepoſições e particulas, que os acompanhem, ſe notarão; poisque daqui procede a parte mais eſſencial da noſſa ſintaxe; aſſim em Fugir: Fugir alguem ou alguma couſa, fugir de, fugir para, fugir com; em Rir: Rir de alguem ou de alguma couſa, rir á alguem ou para alguem, &c. Os adverbios e fórmulas adverbiaes, que frequentemente ſe lhes ajuntão, ſe porão immediatos ás ſiguificações, a que pertencem.
Quando ſe diz que as palavras hão de levar as ſuas definições, não ſe toma o termo definição no apertado ſentido da Logica. He pois ſabido haver quantidade de vocabulos, que fora impoſſivel definir por ſemelhante modo. Por definição ſómente e entende aqui o conhecimento claro e intelligivel do termo, que ſe quer explicar, dado com tal individuação, que a todos fique bem preceptivel o que elle ſignifica. Sendo aſſim (o que muito ſe deve procurar) pouco importa ſe lhe chame definição, deſcripção ou explicação. Se algum dos noſſos eſcritores a houver já feito, nunca eſta deverá omittirſe, e o ſeu meſmo exemplo ſerá ás vezes ſufficiente para dar a neceſſaria noção do vocabulo, cujo ſentido ſe explica. Ha occaſiões, em que a referida explicação ſe poderá fazer por alguma voz de igual ſignificado, a que de commum ſe chama ſynonymo, com tanto que ſe procure, ſegundo for poſſivel, a mais parecida e equivalente; e outras vezes até meſmo por palavra de contraria intelligencia. Nem tambem haja duvida em ſe receberem, as de Bluteau, ſe ſe julgarem merecedoras de acceitação. Todas ellas nas diverſas accepções de cada voz ſerão impreſſas em grifo; e aſſim meſmo os epíthetos, adverbios ou fórmulas adverbiaes, fraſes, e tudo mais que dentro dos artigos ſe julgar convém que ſeja diſtincto e bem ſenſivel á viſta na leitura. Nos termos antiquados, e que exprimem as couſas antigas de Portugal haverá particular cuidado em ſe moſtrar com exacção e clareza o que por elles ſe entendia no tempo paſſado. Aquelles porém, a que ſe não alcançar ſentido ſe porão ſem embargo diſſo, pois alguem haverá que poſſa deſcobrilo, ou quando ſe dé erro da impreſsão no lugar citado, tambem aſſim ſe poderá eſte mais facilmente emendar. Para intelligencia dos termos pertencentes á Hiſtoria Natural, ſe permittirá alguma deſcripção mais circunſtanciada, com que elles ſegundo a lingoagem technica dos modernos Naturaliſtas, ſe differenção e eſpecificão por ſeus ſinaes caracteriſticos.
As etymologias são materia, que depende de erudição e criterio, por ſer toda empeçada de dúvidas e cheia de difficuldades. Aſſim ſem ſe indagarem derivações violentas e eſquadrinhadas á força de engenho., logo que a voz tiver por lingoa matriz a Hebraica, Grega, Latina ou Arabiga, ([1]) ſe manifeſtará a raiz ou principio, de que immediatamente procede, ſem paſſar adiante, nem entrar em diſcuſsões philologicas ſobre a ſua nativa e primeira origem. Péloque ainda aquellas meſmas dicções, que ſabidamente ſe deduzem do Grego, ou de outra lingoa ainda mais remota, ſe os Romanos ou até meſmo os eſcritores da baixa Latinidade, as houverem feito ſuas, ſe lhes declarará ſómente a raiz Latina, ſem apontar a Grega ou qualquer outra, como couſa já tratada pelos Etymologiſtas Latinos. E ſó no caſo, em que de todo ſeja incerto, como em muitos termos technicos, ſe elles nos vierão ou do Grego ou do Latim, ſe notará huma e
- ↑ (a) As etymologias Arabigas ſe tirárão do livro dado modernamente á luz com o titulo: Veſtigios da Lingua Arabica em Portugal, ou Lexicon Etymologico das palavras, e nomes Portuguezes, que tem origem Arabica, compofto por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa, por Fr. João de Souſa, Correfpondente de Numero da meſma Sociedade, e interprete de S. Mageſtade para a lingua Arabica. Lisboa, na Officina da Academia Real das Sciencias. Anno M. DCC. LXXXIX. 4.
- ↑ [continuação da nota 1 da página anterior] como: Abraçarſe, acutilarſe, ajudarſe, &c. Tambem o pronome ſe ſe ajunta ás terceiras peſſoas e infinitos dos meſmos verbos, que ficão deſta ſorte fazendo vezes de paſſivos; como: amaſe a traição, aborreceſ e o traidor. Em todos eſtes caſos o verbo fica tão activo, como era, e aſſim ſe deve meramente conſiderar ſem que forme artigo ſobre ſi. Ha porém verbos, que ſe usão já com o pronome ſe, já ſem elle, conſervando de ambos os modos a meſma natureza e ſentido; como Aclarar e Aclararſe, Anoitecer e Anoitecerſe; eſtes taes bastará polos ſeparadamente debaixo do artigo principal, declarandoſe que tem eſte uſo, o qual ſe autorizará, aſſi como ſe faz aos activos, que ás vezes ſe usão como neutros. E ſe acontecer que com o pronome paſſem de activos a neutros, ou mudem de ſignificação, tudo iſto ſe advertirá, e ſe porão tantas accepções de novo, quantas forem as que com aquelle adjuncto, differem das que ſem elle tem. Finalmente aquelles verbos, que nunca ou rariſſimas vezes apparecem ſem pronome, ainda aſſim meſmo ſe não denominarão reciprocos, mas ſim activos ou neutros, advertindo, que ſempre ou de ordinario ſe lhes ajunta pronome peſſoal; como: Arrependerſe, atreverſe, compadecerſe, &c.