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XIV

PLANTA DO DICCIONARIO.
VIII.

Os nomes proprios das peſſoas e lugares, que pertencem á Hiſtoria, á Fabula e á Geographia por commum acordo de todos os bons Criticos, e autoridade dos mais reſpeitaveis Diccionariſtas devemſe excluir dos Diccionarios das lingoas. ([1]) Os motivos, que para iſto ſe eſpecificão, tem tão innegavel efficacia, que he de força hajamos de os abraçar. Porém quando os ditos nomes proprios particularmente os mythologicos ou em virtude de translação entre os Poetas, ou pelo uſo commum, paſſarem a ter ſignificação geral, como ſe Amphitrite ou Neptuno ſe tomarem pelo mar, &c. confervarſchão neſte ſentido, depois de ſe lhes declarar o proprio, e ſe autorizarão ſómente as accepções metaphoricas, e de que procedem fraſes particulares. Admittirſehão tambem as vozes peculiares ás Sciencias, ás Artes liberaes e mechanicas, ſe eſtas vozes ſe acharem impreſſas nos Autores approvados e Diccionarios Portuguezes. As autoridades tomadas deſtes ultimos ſó terão lugar, quando não houver outra alguma, que ſe poſſa produzir. Por conclusão alguns dos termos novos, que ſe entender eſtão univerſalmente recebidos com pública approvação, ſe podem igualmente admittir; pois que a falta de autoridade antiga, e o ſignal us., que tanto val, como voz uſada ou ſó do uſo commum, ſerão per ſi baſtantes para lhes indicar o caracter. Mas neſta adopção de vocabulos modernos e eſtrangeiros ſe guarde ſempre aquella judicioſa economia, que a Crítica recommenda, por quanto como bem nos aſſegura o eloquentiſſimo Padre Antonio Vieira, ([2]) » ſó os mendigão de outras lingoas, os que » são pobres de cabedaes da noſſa, tão rica e bem dotada, como filha primogenita da Latina.

IX.

O numero das autoridades, que houverem de confirmar cada hum dos ſignificados ou uſos. das vozes, ſerá aquelle, que ſe julgar ſufficiente para vua inteira certeza e ſegurança. ([3]) Eſtas taes autoridades não ſerão prolixamente diffuſas, iſto he, não ſe tranſcreverá hum comprido periodo, nem huma eſtancia, quarteto, terceto, &c. mas ſimpleſmente aquella oração, membro ou ainda coma, por que com abſoluta independencia do texto ſe poſſa, ſem recorrer a elle, alcançar a perfeita intelligencia, e total força da voz, que ſe qualifica. E no caſo de haver algum penſamento intermedio hum pouco extenſo, ſe ſupprimirá eſta tal oração ſubjunctiva, reſervando unicamente illeſa e clara aquella parte, que baſte a explicar a genuina ſignificação da palavra ou fraſe, que deve authenticarſe. Porém a fim de ſe evitar a deſconfiança, de que houve omissão em trasladar a autoridade, ſe com ella ſe conferir o texto, convém pôr no lugar das palavras ſupprimidas tres pontinhos... Eſte mefmo ſignal ſupprirá a voz dominante do artigo, quando eſta tambem ſe omittir; a qual voz, e qualquer outra, que ſe houver poſto ao principio ou da regra ou da oração precedente, ſe entenderá repetida com huma linha lançada ao comprido. Havendo ſobejo numero de autoridades, que moſtrem o valor das expreſsões em cada hum dos ſeus ſentidos, a ſerem aquellas de eſcritor de igual toque, ou muitas em hum meſmo autor, ſe preferirão ſempre as mais proprias, adequadas, e terminantes, e entre eſtas as que contiverem algum grave e engenhoſo penſamento, ou maxima e documento moral. Nunca para confirmação de huma ſó couſa ſe allegará da meſma obra de algum Eſcritor ſegunda autoridade; e apenas ſendo voz deſconhecida ou deſuſada, e nelle ſingular, ſe lhe ajuntará outra ſua, ſe a houver, tanto para lhe aclarar o ſentido, como para fazer certo não ſe dar erro no primeiro lugar citado, pois a dira voz ſe acha repetida.

X.

Para abbreviar os lugares de longa extensão onde alguma voz, de que depende o ſentido completo do penſamento, eſtá muito remota, e na oração ſó ſe acha verbo, adjectivo, pronome

  1. (a) Far. e Souſ. Comment. alas Rim. de Cam. Cent. 1. ſon. 100. p. 189. col. 1. Geſner. Praef. ling. et erudit. Rom. Theſaur. e outros. 22
  2. (b) Approv. da III. part. da Hiſt. de S. Dom. por Fr. Luiz de Souſa. Eſta meſma deſneceſſatia introdução de vozes novas na noſſa lingoa reprova justamente o douro e elegantiſſimo P. Manoel Bernardes (Floreſt. 4, 16, 251) dizendo aſſim: Eſte vicio de curioſidade e affeição a conſas novas paſſa tambem aos trages, aos edificios, aos comeres, e até meſmo ás palavras; porque não fáltão novelleiros, que querem emendar, ou illuſtrar o idioma commum introduzindo palavras exoticas, e termos, que lhes parecem mais elegantes, ſendo na verdade mais ridiculos.,, O Abbade João Salgado de Araujo (Suceſſ. 3, 8.) tambem á eſte reſpeito eſcreve o ſeguinte:,, Horacio diz que o povo a tem [autoridade] para introduzir novas palavras, mas he certo aſea muito ao autor dellas. O que eſcreve ha de uſar das que uſa a commum gente, porém com eloquencia.,, Manoel de Faria e Souſa, Fuent. de Aganip. Part. I. Prol. num. 10. diz: Porque dieron los hombres en buſcar palabras modernas, i no terminos vereranos, que ſon los finos.,,
  3. (c) Julgouſe ſufficiente, que em cada hun dos ſignificados não paſſaſſem de tres as autoridades; que ſe puſeſſem duas ao mais nas fraſes, e huma nos epitheros, ou quando muito huma de proſa, e outra de verſo. Se porém as differentes regencias dos verbos ſuffem mais de tres, ſe excedeſſe ſó então por tal motivo eſte prefixo numero.