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IV

PLANTA DO DICCIONARIO.

mo, que directamente toca á lingoa Portugueza. E deſta ſorte ficaria a toda a luz manifeſto, que a referida lingoa não ſe acha atégora enriquecida, como por inadvertencia ſuppoſerão os Academicos Heſpanhoes ([1]) com hum perfeitiſſimo Diccionario.


PLANTA DO DICCIONARIO.
I.

O Diccionario da Lingoa Portugueza, cujo projecto ſe offerece, deverá conter os vocabulos puramente Portuguezes em todas as ſuas ſignificações, aſſim proprias, como translatas, declarandoſe em cada huma dellas a ſua natureza, propriedade é força, juntamente com o uſo regular ou anomalia das palavras e fraſes, fixado tudo pelos exemplos dos Autores claſſicos da ſobredita lingoa, e conſtruido, ſegundo parece, pelo methodo ſeguinte.

II.

Começarſcha a leitura dos Autores Portuguezes, que conſervamos, pelos primeiros Eſcritores, que principiárão a formar a noſſa lingoa. Taes são o Nobiliario do Conde D. Pedro, as Chroni- cas de Fernão Lopes, Gomes Eannes d'Azurara, a anonyma do Condeſtavel D. Nuno Alvares Pereira, a Vita Chriſti, que ſe diz ſer de Fr. Bernardo de Alcobaça, a Regra e Perfeição da converſação dos Monges pela Senhora Infanta D. Catharina, o Cancioneiro geral, publicado por Garcia de Refende, a Menina e Moça e mais obras de Bernardim Ribeiro, as de Gil Vicente, e quaeſquer outras, que estiverem impreſſas, aindaque ſejão da mais remota antiguidade; poisque a eſta em todas as lingoas ſe conſagra huma eſpecie de culto, como a reſpeito de Ennio diz Quintiliano. ([2]) Todas as palavras antiquadas dos referidos eſcritos entrarão no Diccionario, da meſma ſorte as dos antigos monumentos, como eſcrituras, doações, teſtamentos, &c. que eſtiverem impreſſos, ajuntandoſelhes a declaração do anno ou ſeculo, a que pertencem, e citandoſe o Autor ou livro, onde ſe encontra o tal monumento. Continuarſeha a meſma leitura deſde Franciſco de Sá de Miranda, o primeiro dos noſſos polidos e elegantes Claſſicos, o mais chronologicamente, que for poſſivel por todo o decurſo do XVI e XVII ſeculos, em cujo fim, ſe lhes fixará o termo. ([3])

III.

Darſeha ſempre a preferencia para autorizar os vocabulos áquelles dos noſſos Autores, que indiſputavelmente ſe reputão Claſſicos. E poſtoque neſte numero ſe devão contar todos quantos decorrem deſde o meio do XVI ſeculo até fim deſte meſmo ſeculo, e ainda alguns primeiros do outro immediato; ([4]) aquelles porém, que mais conſtantemente caſtigárão as ſuas obras, e tem mais reconhecido e provado credito por cauſa da elegancia de ſeu eſtilo, ſerão tambem com mais frequencia citados, não ſe havendo tanto conſideração ao tempo, como ao intrinſeco merecimento de ſeus eſcritos.

IV.

Da meſma ſorte ſe procederá com os Autores, que ſe ſeguem a Fr. Luiz de Souſa até ao fim do ſeculo paſſado. Delles ſe fará porém ſelecção, admittindo ſómente os que por ſua lingoagem e estilo ſe julgarem diſſo merecedores. Guidarſeha em ajuntar algum deſtes aos precedentes,


[5]

  1. (a) Hiſt. da Acad. Heſpanh. tom. I. do Diccionario, §. 4.
  2. (b) Ennium ſicut ſacros vetuſtate lucos adoremus, in quibus grandia et antiqua robora iam non tantam habent ſpeciem, quantam religionem. Inſt. Orat. lib. X. c. 1.
  3. (c) Quando ſe fecha o numero dos Eſcritores, que autorizão as vozes do Diccionario, no fim do ſeculo XVII não he porque ſe entenda, que deſde então até ao preſente deixára de haver entre nós quantidade de bons eſcritores em differentes generos. Porém como, particularmente do meio do paſſado ſeculo por diante, os eſtudos eſcolaticos, e o eſpirito commum de ſubtilizar, começarão a corromper a arte de bem dizer; e a maior parte dos Literatos, empregada em erudições, ſe foi deſcuidando de praticar os primores da noſſa lingoa, vindo eſta depois com exceſſo a eſtragarſe quaſi de todo pela leitura de livros eſtrangeiros, eſpecialmente Francezes, em que muitos ſó ſe occuparão, e mais que tudo pelas peſſimas traducções dos ditos livros, fique por iſſo para tempo mais remoto do noſſo, graduar o merecimento daquellas obras, que ſouberão preſervarſe de huma tal infecção. Semelhante juizo, como feito impune e livremente ſem reſpeitos, nem parcialidade, ficará ſendo, como he já por conſenſo univerſal o dos Autores, de que nos ſervimos, recto, ſólido e inalteravel. Outro tanto fez a Real Academia Heſpanhola no ſeu Diccionario, o que tambem já antes havia praricado a de Cruſca, e varias outras.
  4. (d) A idade mais elegante da pureza da noſſa lingoa poderá (parecendo) contarſe deſde o anno de 1540, em que começarão a ler na Universidade de Coimbra os inſignes Meſtres, que elRei D. João III. nella eſtabeleceo; e terminarſe no anno de 1626, na qual ſahio a luz a primeira parte da Hiſtoria de S. Domingos por Fr. Luiz de Souſa, por ſer esta a ultima obra, que o Autor em ſua vida publicou.
  5. [continuação da nota 5 da página anterior] creverſe deſta maneira: E na ida e vinda té tornar á Ilha das Garças fazer carnagem, per vezes que ſabirão na terra firme, tomarão cincoenta almas; o Bluteau o cita aſſim: Se tornar à Ilha fazer carnagens, por vezes, que ſabirão na terra firme.