Futuros Imaginários/Capítulo 5

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SUPREMACIA CIBERNÉTICA

 

EMBORA MUITO POPULAR em sua época, a hiper-realidade da Feira Mundial de 1964 não envelheceu bem. Durante os 25 anos subseqüentes, nenhuma das previsões feitas na exposição sobre as tecnologias-chave da Guerra Fria foi realizada. A energia ainda era medida, turistas não visitavam a Lua e computadores jamais se tornaram inteligentes. Na Feira Mundial de 1964, os futuros imaginários tiveram êxito em encobrir do público estadunidense a proposta primária das três principais tecnologias da Guerra Fria. Instrumentos de genocídio foram perfeitamente mascarados como benfeitores da humanidade. No entanto, esse subterfúgio só poderia ser temporário. Cedo ou tarde, até mesmo a melhor e mais hábil propaganda não seria capaz de encobrir perigosos valores de uso. Quando a década de 1990 finalmente chegou, produzir uma significativa quantidade de energia a partir da fusão nuclear ainda era impraticável. À época, também se tornou óbvio que os reatores de fissão eram um desastre econômico e ambiental. A explosão da usina de Chernobyl em 1986 na Ucrânia demonstrou dramaticamente os perigos inerentes desse exótico método de gerar eletricidade.[1] No começo dos anos 1990, a maior parte das pessoas também percebeu que vôos tripulados ao espaço permaneceriam por um bom tempo um caríssimo luxo. Duas décadas se passaram após a aterrissagem dos astronautas da Nasa pela última vez na Lua e não havia mais planos para reiniciar o programa.[2] No momento em que a Guerra Fria eventualmente terminou em 1991, até a maior parte das aplicações militares para energia nuclear e viagens espaciais pareciam extremamente redundantes. Diferentemente das visões prévias sobre automóveis para as massas na Feira Mundial de 1939, as profecias sobre esses dois ícones tecnológicos na exposição de 1964 pareciam quase absurdas após um quarto de século. A época do fim da medição da eletricidade e de feriados na Lua foi indefinidamente prorrogada. A hiper-realidade colidiu com a realidade – e perdeu.

Assim como reatores nucleares e foguetes espaciais, a exibição dos computadores na Feira Mundial de 1964 também desfocava totalmente a direção do progresso tecnológico. Lideradas pela IBM, as corporações estadunidenses visualizavam o triunfo da inteligência artificial. Porém, como mais e mais pessoas passaram a utilizar computadores pelos 25 anos seguintes, o mito das máquinas pensantes perdeu grande parte de sua credibilidade. Como a eletricidade quase gratuita da energia nuclear e o turismo lunar das viagens espaciais, a iconografia da inteligência artificial só poderia esconder temporariamente o delineamento do valor de uso da computação. Entretanto, havia uma diferença crucial entre o colapso das duas primeiras profecias e o desta última. O que eventualmente desacreditou as previsões de uma energia incontável e de feriados na Lua foi sua falha em se concretizar ao longo do tempo. Ao contrário, o ceticismo sobre o futuro imaginário da inteligência artificial foi encorajado exatamente pelo fenômeno oposto: a familiaridade crescente de humanos com experiências pessoais em computadores. Após usarem essas ferramentas imperfeitas para manipular informação, era muito mais difícil acreditarem que máquinas de calcular poderiam evoluir para seres superconscientes. A inteligência artificial foi exposta como uma contradição em termos.[3]

Apesar do aumento do ceticismo sobre sua profecia favorita, a IBM não sofreu dano algum. Em oposição total à energia nuclear e as viagens espaciais, a computação foi uma tecnologia da Guerra Fria que escapou da Guerra Fria com sucesso. Desde o início, máquinas feitas para militares dos Estados Unidos eram também vendidas para clientes comerciais. Ao final dos anos 1940, a IBM desenvolveu seus computadores CPC para uma contratada da área da defesa poder calcular a trajetória de mísseis. Contudo, pelos próximos anos, essa máquina tornou-se o produto mais vendido da empresa no mercado corporativo.[4] Mais do que qualquer coisa, a difusão da computação na sociedade civil foi encorajada pela crescente burocratização tanto das forças armadas quanto da economia.[5] O que se originou como uma arma da Guerra Fria rapidamente evoluiu em uma tecnologia com múltiplas aplicações comerciais. Em 1962, um dos analistas pioneiros dos impactos sociais dos computadores explicou que:

 

O crescimento de uma grande civilização, que é complexa em termos de conhecimento de engenharia e tecnologia, de um lado, e complexa em termos de conhecimento de negócios e indústrias, de outro, produziu um enorme aumento na informação a ser manipulada e operada. Isso gera o empurrão, a energia, a urgência por trás do grande desenvolvimento do manejo automático da informação, expressa nos computadores e sistemas processadores de dados, a Revolução Computacional.[6]

 

Para a IBM construir seu pavilhão para a Feira Mundial de 1964, o futuro imaginário dos cérebros eletrônicos deveria esconder mais do que as desagradáveis aplicações militares da computação. Essa ideologia fetíchica também realizou sua função clássica de ofuscar todo trabalho humano contido na produção. Computadores eram descritos como "pensantes", então o trabalho duro que envolvia o desenho, a construção, a programação e a operação poderia ser descontado. Esse processo de fetichismo tecnológico não modelou apenas as atitudes sociais daqueles que trabalhavam para a corporação em si. Acima de tudo, o futuro imaginário da inteligência artificial desviou a atenção para longe da dura economia que dirigia a informatização dos locais de trabalho nos Estados Unidos da década de 1950 e do início da de 1960. De volta ao final do século XIX, os pioneiros da IBM iniciaram seus negócios como produtores de tabuladores, máquinas de escrever e outros tipos de equipamentos de escritório. Mesmo sem a facilidade dos contratos militares dos Estados Unidos, a empresa teve obrigatoriamente que rumar para a computação a fim de proteger-se da obsolescência tecnológica. Em meados da década de 1950, o que era calculado por hordas de operadoras de tabuladores poderia agora ser feito de uma maneira muito mais barata e rápida por alguns poucos engenheiros e um mainframe.

A introdução de computadores nos locais de trabalho veio em um momento oportuno. Durante a primeira metade do século XX, grandes corporações tornaram-se as instituições dominantes da economia estadunidense. Mais do que qualquer coisa, essa centralização sem precedentes do capital foi guiada pela necessidade de aumentar a produtividade do trabalho. No momento em que a competição de mercado foi substituída pela autoridade gerencial, os custos de organização de um grande número de trabalhadores poderiam ser substancialmente reduzidos.[7] Com muitos indivíduos diferentes com investimentos na mesma companhia, as despesas em inovação tecnológica eram facilmente sanadas.[8] Já que as empresas familiares perderam essas vantagens, capital e trabalho tornaram-se crescentemente concentrados sob o controle de grandes corporações. A associação indireta foi substituída pela supervisão direta. Conforme o século XX progredia, a reestruturação corporativa da economia foi largamente imitada na política, nas artes e na vida cotidiana. A gigante automobilística de Henry Ford tornou-se o símbolo epônimo do novo paradigma social: o fordismo.[9]

Grandes corporações dependiam de uma casta especializada de burocratas para tocar suas organizações. Eles implantaram o "panóptico" gerencial que assegurou que empregados obedecessem às ordens impostas por seus superiores.[10] Eles supervisionavam a finança, a manufatura, a venda e a distribuição dos produtos da corporação. Acima de tudo, eles eram responsáveis por melhorar os métodos de trabalho e introduzir novas tecnologias. Como demonstravam os manuais de Frederick Winslow Taylor, o "gerenciamento científico" poderia forçar as pessoas a trabalharem mais."[11] Como as linhas de montagem de Henry Ford demonstraram, a maquinaria poderia determinar o passo do trabalho.[12] Essa pressão para separar a concepção da execução levou à coleta de mais e mais informação. Burocratas corporativos queriam saber o que acontecia dentro dos locais de trabalho e do mercado. Eles deviam gerenciar faturas, folhas de pagamento, suprimentos e estoques. Tinham que organizar dados de consumo, desenvolvimento de produtos, pesquisa de mercado, negociações políticas e campanhas publicitárias. Enquanto a demanda por informação continuava a crescer, as corporações recrutavam uma maior quantidade de trabalhadores de escritório.[13] Conforme os contra-cheques dos empregados de colarinho branco continuamente cresciam, gerentes adquiriam crescentes quantidades de equipamento a fim de aumentar a produtividade dentro do escritório. Muito antes da invenção do computador, as burocracias das corporações fordistas participavam de uma economia informacional com tabuladores, máquinas de escrever e outros tipos de equipamento de escritório.[14] No início da década de 1950, a mecanização do trabalho escriturário estancou. O aumento da produtividade no escritório ficava bem atrás daquele apresentado na fábrica. Ao aparecerem os primeiros computadores no mercado, os gerentes corporativos rapidamente perceberam que a nova tecnologia oferecia uma solução para esse problema cada vez mais grave. Comprar um mainframe poderia aumentar o lucro de suas companhias.[15] Assim como novas máquinas para a fábrica, computadores eram — antes de tudo — adquiridos para substituir o trabalho especializado dentro do escritório. Melhor ainda, a nova tecnologia da computação permitiu aos capitalistas aprofundar seus controles sobre suas organizações. Assim como os grandes governos, os grandes negócios estavam extremamente satisfeitos, já que muito mais informação sobre uma mais ampla variedade de tópicos poderia agora ser coletada e processada de maneiras progressivamente complexas. Os gerentes eram mestres de tudo aquilo que vistoriavam.

Desde suas primeiras aparições nos locais de trabalho, o mainframe foi caricaturado — com boas razões como a perfeição mecânica da tirania burocrática: "o panóptico informacional".[16] Pela primeira vez desde o começo da década de 1940, a visão otimista da inteligência artificial de Asimov foi amplamente questionada. Em suas histórias de ficção científica, máquinas pensantes eram bens de consumo assim como carros motorizados. O Sr. e a Sra. Padrão eram os proprietários de servos robôs. Mas, assim que os primeiros computadores chegaram às fábricas e aos escritórios estadunidenses, a realidade econômica contradisse o futuro imaginário de Asimov. A nova tecnologia era um servo dos chefes, não dos trabalhadores. Em 1952, Kurt Vonnegut publicou um romance de ficção científica que ironizava a ambição autoritária do panóptico informacional. Em seu futuro distópico[NT1], a elite dominante terceirizou o gerenciamento da sociedade para uma inteligência artificial onisciente.

 

EPICAC XIV... decidia quanto [de] tudo os Estados Unidos e seus clientes poderiam ter e quanto custaria. E... decidiria quantos engenheiros e gerentes e pesquisadores e empregados civis, e quais habilidades seriam necessárias para entregar os bens; e qual QI e níveis de aptidão separariam o homem útil do inútil, e quantas [mulheres] e homens [nos esquemas dos serviços públicos] e quantos soldados poderiam ser incluídos em qual nível de pagamento...[17]

 

Para os grandes negócios mais do que para o alto governo, o pesadelo de Vonnegut era o sonho acordado da computação. Na Feira Mundial de 1964, o pavilhão da IBM prometia que máquinas pensantes seriam os servos de toda a humanidade. Ainda assim, e ao mesmo tempo, seu pessoal de vendas contava aos chefes das grandes corporações que os computadores conectavam a autoridade burocrática na sociedade moderna. Herbert Simon — um antigo colega de von Neumann — acreditava que o aumento do poder dos mainframes permitiria às empresas automatizarem mais e mais as tarefas de escritório.[18]

Para suas novas máquinas System/360, a IBM construiu a mais avançada linha de montagem controlada por computadores do mundo, com o intuito de aumentar a produtividade de seus funcionários altamente qualificados e bem pagos.[19] Assim que a inteligência artificial chegasse, os mainframes poderiam substituir quase que completamente o trabalho burocrático e técnico dentro da manufatura. O objetivo final era a criação de uma economia totalmente automatizada. As companhias não precisariam mais dos trabalhadores de colarinho branco ou azul para fazerem produtos ou oferecerem serviços. Até a maioria dos gerentes tornariam-se secundários.[20] Ao invés disso, máquinas pensantes controlariam as fábricas e escritórios dos Estados Unidos. No futuro imaginário da inteligência artificial, a corporação e o computador seriam um só e a mesma coisa. As firmas capitalistas tornariam-se autômatos celulares.

Essa profecia foi fundada sobre a apropriação conservadora da cibernética. Durante os anos 1950, Simon perseguiu uma carreira de dois caminhos. Por um lado, ele trabalhou em projetos de pesquisa em inteligência artificial para a Força Aérea dos Estados Unidos. Por outro, ele foi pioneiro na aplicação da teoria dos sistemas no contexto dos estudos econômicos.[21] No começo dos anos 1960, Simon combinou suas duas áreas de conhecimento em uma. Como ambos eram sistemas cibernéticos, a fusão do computador com a corporação era inevitável. Ao fazer essa previsão, Simon atualizou os objetivos originais de Turing para a inteligência artificial. De volta ao final dos anos 1940, esse matemático de Cambridge argumentou que sua máquina universal ocasionalmente substituiria a maior parte das formas rotineiras de trabalho mental.[22] Na versão original de Turing, a hierarquia burocrática do estado britânico fornecia o modelo para a estrutura ordenada do computador inteligente. A máquina governamental evoluía para uma máquina física. O fetichismo político inspirava o fetichismo tecnológico.

Em sua teoria gerencial, Simon substituiu o serviço civil britânico pela corporação estadunidense. As operações de um computador lembravam agora o funcionamento de uma empresa. Ambos eram sistemas cibernéticos que processavam informações. Como na psicologia de McCulloch e Pitt, essa identificação foi feita em duas direções. Gerenciar trabalhadores foi equiparado à programação de computadores. Escrever programas era como traçar um plano de negócios. Tanto funcionários quanto maquinário eram controlados por ordens ditadas de cima para baixo. Ironicamente, a credibilidade da ideologia gerencial de Simon dependia de seus leitores esquecerem as duras críticas da computação corporativa feitas pelo pai fundador da cibernética. Similar a Marx, Wiener alertou que o papel da nova tecnologia sob o capitalismo era intensificar a exploração dos trabalhadores. Ao invés de criar mais tempo de lazer e melhorar os padrões de vida, a informatização da economia sob o fordismo aumentaria o desemprego e cortaria os salários.[23] Se a distopia de Vonnegut fosse para ser evitada, os sindicalistas e ativistas políticos estadunidenses deveriam mobilizar-se contra o Golem[NT2] corporativo.[24] De acordo com Wiener, a cibernética provava que a inteligência artificial ameaçava as liberdades da humanidade. "Vamos lembrar que a máquina automática... é o equivalente preciso do trabalho escravo. Qualquer trabalho que dispute com o trabalho escravo deve aceitar as condições econômicas do trabalho escravo".[25]

Como os militares dos Estados Unidos, os acadêmicos motrizes das corporações estadunidenses também precisavam de um novo guru. Como von Neumann mostrou, intelectuais espertos sabiam como criar cibernética sem Wierner. O movimento decisivo foi reescrever as origens históricas dessa metateoria. Se alguém mais ajudasse a inventar a cibernética, as opiniões subversivas de Wierner poderiam ser seguramente menosprezadas. Ao se apropriar do conceito de inteligência artificial de Turing, von Neumann assumiu o papel de primeiro profeta. Na teoria gerencial, foi dado ao herói húngaro um assistente estadunidense: Claude Shannon. No começo dos anos 1940, esse engenheiro da Bell usou as metáforas cibernéticas de Wierner para melhorar a transmissão de mensagens por meio das redes telefônicas. Ao registrar a deterioração de sinais a longas distâncias, a retroalimentação mostrou como criar mecanismos de correção de erro. Ao quantificar o tráfego numa rede telefônica, a informação fornecia uma unidade exata de medida.[26] Assim como ajudou a resolver os problemas técnicos da Bell, a análise de Shannon também forneceu uma interpretação da cibernética compatível aos negócios. Ao aprender como engenheiros controlavam a rede telefônica, os empregadores podiam aplicar os conceitos abstratos de retroalimentação e informação para melhorar o gerenciamento de seus empregados. Em ambos os casos, eles otimizavam o uso eficiente de recursos escassos. Na economia fetíchica do capitalismo, a informação sobre o trabalho era indistinguível do trabalho implicado na informação.

Ao final dos anos 1950, o processo de apagar Wierner da história da cibernética foi completado. Von Neumann e Shannon eram então os pais fundadores dessa teoria mestra. Ao minimizar a importância de Wierner, a sua interpretação socialista da cibernética foi marginalizada. Em substituição, a recombinação conservadora definia agora a ortodoxia acadêmica. Na teoria gerencial de Simon, as versões de von Neumann e Shannon eram fundidas numa hagiografia do fordismo cibernético. Assim como os computadores, as corporações eram protótipos da inteligência artificial. Como nas redes telefônicas, hierarquias gerenciais eram sistemas de retroalimentação de entradas de informação e execução de ações. Nessa atualização do final dos anos 1950 do teste de Turing, a forma mais racional de comportamento humano era fazer o que os computadores faziam.

A visão corporativa do fordismo cibernético significava esquecer a história do próprio fordismo. Esse paradigma econômico e social foi fundado sob a coordenação bem sucedida da produção em massa com o consumo em massa. A famosa fábrica de Henry Ford simbolizava esse imperativo de transformar caros luxos para poucos em mercadorias baratas para muitos. Na Feira Mundial de 1939, os dioramas de uma sociedade de consumo proprietária de carros, nos pavilhões de Democracidade e Futurama, retratavam um futuro imaginário extrapolado de uma interpretação otimista dos Estados Unidos contemporâneo. Mas na época em que a exposição de 1964 abriu, o pavilhão da IBM promovia a fantasia ficcional das máquinas pensantes. O futuro imaginário estava então desconectado dos Estados Unidos daquele momento. Ironicamente, desde que suas mensagens publicitárias estavam mais intimamente ligadas à realidade social, Democracidade e Futurama, em 1939, forneceram uma previsão muito mais precisa do caminho de desenvolvimento da computação do que o pavilhão da IBM em 1964. Assim como os automóveis 25 anos antes, essa nova tecnologia estava também lentamente transformando-se, de um raro artefato artesanal, em uma onipresente mercadoria industrializada. A própria série System/360 da IBM estava no limiar desse processo. Para o resto da indústria dos Estados Unidos, a corporação era a pioneira da produção automatizada controlada por computadores. Os mainframes da IBM eram usados para fazer mainframes IBM. Esses movimentos iniciais rumo à produção em massa de computadores anteciparam o que seria o avanço mais importante nesse setor 25 anos mais tarde: o consumo em massa de computadores. No seu desenho formal, o mainframe System/360 de 1964 era um protótipo caro e volumoso dos muito menores e mais baratos PCs da IBM dos anos 1980.

O futuro imaginário da inteligência artificial era uma forma de evitar o pensamento sobre as prováveis conseqüências sociais da propriedade maciça de computadores. No começo dos anos 1960, o Grande Irmão mainframe era a materialização tecnológica das estruturas hierárquicas do alto governo e dos grandes negócios. A retroalimentação era o conhecimento dos dominados, monopolizado pelos dominantes. No entanto, como o próprio Wierner destacara, a produção fordista inevitavelmente transformaria caros mainframes em mercadorias cada vez mais baratas.[27] Em troca, a crescente propriedade de computadores poderia perturbar a ordem social existente. Na retroalimentação de informação dentro de instituições humanas, existia um limite no momento em que a tomada de decisão era concentrada nas mãos de alguns poucos gerentes no topo. Ao invés disso, o método mais eficiente de trabalho era o fluxo desimpedido de duas vias de comunicação e criatividade por toda a organização. Ao reconectar concepção e execução, o fordismo cibernético ameaçava as hierarquias sociais que sustentavam o próprio fordismo.

 

[A] simples coexistência de dois itens de informação é de valor relativamente pequeno, a menos que esses dois itens possam ser efetivamente combinados em alguma mente... que seja capaz de fertilizar um através do outro. Isso é o oposto da organização na qual todos os membros viajam por um caminho pré-determinado...[28]

 

Na Feira Mundial de 1964, essa possibilidade definitivamente não fazia parte do futuro imaginário da IBM. Muito mais do que querer produzir um número cada vez maior de máquinas mais eficientes a preços mais baratos, a corporação focara em aumentar continuamente as capacidades de seus computadores e assim preservar seu quase total monopólio sobre o mercado militar e corporativo de mainframes. Ao invés de máquinas do tamanho de uma sala que encolhiam em computadores pessoais, portáteis e, ocasionalmente, telefones celulares, a IBM estava convencida de que os computadores seriam sempre grandes e volumosos mainframes.[29] Se esse caminho de progresso tecnológico fosse extrapolado, a inteligência artificial certamente seria a resultante. Após duas décadas de melhorias, o número de conexões na máquina estava a ponto de ultrapassar o número de neurônios no cérebro. Como Turing e von Neumann previram, os computadores logo tornariam-se poderosos o suficiente para replicar todas as funções da consciência. Numa economia fetíchica, essa visão de computadores autogeridos inspirou-se na realidade social. Uma vez que as mercadorias já determinavam o destino de seus criadores, o inanimado deveria ser capaz de superar os vivos. A separação fordista entre concepção e execução estava prestes a atingir sua apoteose tecnológica. Essa profecia de superseres conscientes em substituição à humanidade foi a falha existencial no âmago do futuro imaginário da inteligência artificial. Sob o fordismo cibernético, as pessoas seriam formas de vida inferiores às máquinas. Ironicamente, a fantasia otimista dos gurus dos computadores dos anos 1960 confirmou o pesadelo pessimista dos escritores de ficção científica dos anos 1930: a inteligência artificial era o inimigo da humanidade.

Naturalmente, a IBM estava determinada a responder a essa interpretação desconcertante de sua própria propaganda futurista. Na Feira Mundial de 1964, o pavilhão da corporação enfatizou as possibilidades utópicas da computação. No entanto, apesar de seus melhores esforços, a IBM não poderia evitar completamente a ambigüidade inerente ao futuro imaginário da inteligência artificial. Essa ideologia fetichica só poderia comover a todos os setores da sociedade estadunidense se os computadores cumprissem os desejos mais profundos de ambos os lados do local de trabalho. Portanto, nas exposições em seu pavilhão, a IBM promoveu uma visão única do futuro imaginário, que combinou duas interpretações incompatíveis de inteligência artificial. De um lado, aos trabalhadores foi dito que todas as suas necessidades seriam satisfeitas por robôs conscientes: serviçais que nunca se cansavam, reclamavam ou questionavam ordens. Por outro lado, foi prometido aos capitalistas que suas fábricas e escritórios seriam gerenciados por máquinas pensantes: produtores que nunca relaxariam, expressariam opiniões ou fariam greves. Robby, o robô se tornou indistinguível do EPICAC XIV. Mesmo que apenas no campo ideológico, a IBM reconciliou as divisões de classe dos Estados Unidos dos anos 1960. No futuro imaginário, os trabalhadores não precisariam mais trabalhar e os empregadores não precisariam mais de empregados. Assim como os góticos inventaram as tradições da Inglaterra vitoriana, o futuro imaginário computadorizado dos Estados Unidos da Guerra Fria atuava como uma defesa ideológica contra a ruptura social desencadeada pela modernização perpétua. Depois de visitar o pavilhão da IBM na Feira Mundial de 1964, era muito fácil acreditar que todos ganhariam quando as máquinas adquirissem consciência.

 

Notas:

 

^ 1. Ver Arjun Makhijani e Scott Saleska, The nuclear power deception.

^ 2. A última missão lunar estadunidense Apolo aconteceu em dezembro de 1972.

^ 3. Ted Nelson apontou que: "... inteligência artificial é uma fronteira em permanente recuo: conforme as técnicas tornam-se bem conhecidas e trabalhadas, essas manifestações de inteligência, para o sofisticado, continuamente retrocedem." Ted Nelson, Computer lib, seção Dream machines, página 120.

^ 4. Ver Emerson Pugh, Building IBM, páginas 153–155.

^ 5. A primeira aplicação comercial da computação nos Estados Unidos era gerenciar a folha de pagamento da General Electric. Ver Ceruzzi, Modern computing, páginas 33-34.

^ 6. Edmund Berkeley, The computer revolution, página 41.

^ 7. Ver R.H. Coase, The nature of the firm.

^ 8. Ver Karl Marx, Capital, volume 3, páginas 566–573.

^ 9. Ver Michel Aglietta, A theory of capitalist regulation, páginas 215-272; e Alain Lipietz, Mirages and miracles, páginas 29-46.

^ 10. De acordo com Michel Foucault, o panóptico — uma prisão do final do século XVIII construída para manter seus prisioneiros sob vigilância constante — foi pioneiro no modelo disciplinar que mais tarde foi usado para controlar os trabalhadores das fábricas e escritórios do fordismo. Ver Michel Foucault, Discipline and punish.

^ 11. Ver Frederick Winslow Taylor, The principles of scientific management.

^ 12. Ver Henry Ford, My life and work, páginas 77-90.

^ 13. Ver Fritz Machlup, The production and distribution of knowledge in the United States, páginas 381-400.

^ 14. Ver James Beniger, The control revolution, páginas 291-425.

^ 15. Ver Robert Sobel, IBM, páginas 95-184.

^ 16. Ver Shoshana Zuboff, In the age of the smart machine, páginas 315–361.

^ 17. Kurt Vonnegut, Player piano, página 106.

^ 18. Ver Herbert Simon, The shape of automation for men and management.

^ 19. Ver Emerson Pugh, Lyle Johnson e John Palmer, IBM՚s 360 e Early 370 systems, páginas 87-105, 204-210.

^ 20. Ver Simon, Shape of automation, página 47.

^ 21. Ver Herbert Simon, Administrative behaviour; e Paul Edwards, The closed world, páginas 250-256.

^ 22. Ver Alan Turing, Lecture on the automatic computing engine, páginas 391-394; Intelligent machinery, a heretical theory, páginas 474-475.

^ 23. Ver Norbert Wiener, Cybernetics, páginas 36-39; The human use of human beings, páginas 206-221.

^ 24. Ver Norbert Wiener, God & Golem, Inc., páginas 54-55.

^ 25. Ver Wiener, Human beings, página 220.

^ 26. Ver Claude Shannon e Warren Weaver, The mathematical theory of communication, páginas 31-125.

^ 27. Ver Wiener, Human beings, páginas 210-211.

^ 28. Wiener, Human beings, página 172.

^ 29. Em 2001, de Stanley Kubrick, o herói astronauta flutua dentro dos imensos bancos de memória de HAL 9000: uma máquina cônscia. Por uma coincidência marcante, HAL é IBM transpondo uma letra anterior no alfabeto.

 

^ NT 1 — Distopia — Em oposição ao conceito de utopia, distopia refere-se a uma “ansiedade sombria que toma conta de uma pessoa subitamente confrontada às crescentes e velozes mudanças da sociedade". Segundo o sítio da Universidade de Georgetown (EUA), foi inicialmente usada pelos escritores cataclísmicos do final do século XIX em sua paixão pelas catástrofes, podendo da mesma maneira ter sua importância também em outras literaturas contemporâneas, notadamente os ciberpunks.

 

^ NT 2 Golem — Na tradição judaica, refere-se a um ser mítico que é trazido à vida por meio de um processo mágico, muitas vezes visto como um gigante de pedra. No hebraico moderno, a palavra golem significa “tolo”, “imbecil” ou "estúpido", uma derivação da palavra gelem, que significa "matéria prima". Segundo o sítio www.chabad.org.br/interativo/FAQ/golem.html, o Golem teria sido criado no ano de 1580 em Praga por Rabi Yehuda Loevy, conhecido como o Maharal de Praga. Acesso em fevereiro de 2008.

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