Futuros Imaginários/Capítulo 3

3
A COMPUTAÇÃO DA GUERRA FRIA

PARA A MAIOR PARTE DOS VISITANTES da Feira Mundial de Nova lorque de 1939, esse futuro imaginário de prosperidade do consumidor pode ter parecido um sonho utópico. A economia estadunidense ainda se recuperava da pior recessão na história da nação. A Europa estava na eminência de outra devastadora guerra civil e o leste da Ásia já estava profundamente envolvido em conflitos mortais. Entretanto, ao considerar a época em que a Feira Mundial de 1964 abriu as portas, a mais famosa previsão da exposição de 1939 se realizara. Os dioramas Democracidade e Futurama retratavam um futuro em que a maioria dos trabalhadores viveria em casas de família nos subúrbios e transitaria até seus trabalhos em seus próprios carros motorizados. Muito embora alguns céticos visitantes revisitassem 1939, essa profecia parecia incrivelmente apurada 25 anos depois. Na verdade, como outras cidades estadunidenses, a própria Nova Iorque foi construída em torno de uma vasta rede de rodovias expressas. Assim como os dioramas Democracidade e Futurama previram em 1939, um grande número de trabalhadores da cidade eram proprietários de carro e viviam nos subúrbios. O futuro imaginário tornou-se uma realidade cotidiana.[1]

Já que a mais famosa profecia da exposição de 1939 visivelmente se tornara realidade, os visitantes da Feira Mundial de Nova Torque de 1964 seriam perdoados ao pensarem que dessa vez seus três principais futuros imaginários poderiam também ser realizados nos próximos 25 anos. Ao considerar o que havia sido cumprido, tais previsões de alta tecnologia não pareciam fantasias insanas. Durante as últimas duas décadas e meia, o alto governo e os grandes negócios tinham repetidamente provado sua habilidade em transformar sonhos de ficção científica em mercadoria barata. Quem poderia duvidar que — pelo menos até 1990 — a maioria dos estadunidenses degustaria as delícias do turismo espacial e da eletricidade sem custo? E o melhor de tudo, eles viveriam em um mundo em que máquinas cônscias seriam suas servas devotas. A Era do Robô tinha a distância de apenas uma geração.

A confiança do público estadunidense nesses futuros imaginários era baseada em um errôneo senso de continuidade. Apesar de acontecer no mesmo lugar e de possuir os mesmos exibidores, a Feira Mundial de 1964 possuía uma iconografia tecnológica diferente da sua antecessora de 1939. Duas décadas e meia antes, a peça principal da exposição era o carro motorizado: um produto de consumo para produção em massa. Em oposição, as estrelas do espetáculo na Feira Mundial de 1964 eram foguetes espaciais, reatores atômicos e mainframes de alta-velocidade: tecnologias financiadas pelo Estado para lutar na Guerra Fria. Ao serem combinadas em mísseis nucleares guiados por computador, essas tecnologias tornavam-se armas horrendas capazes de destruir por inteiro cidades russas e seus desafortunados habitantes. Enquanto sua precursora de 1939 demonstrara o transporte motorizado para as massas, os ícones da Feira Mundial de 1964 eram as máquinas do Armagedom atômico. Em exposições anteriores, a mostra pública de novos produtos intensificara os efeitos do fetichismo mercantil. Ao adicionarem outro grau de separação entre criação e consumo, esses eventos concentravam a atenção do público para o papel simbólico das novas tecnologias. Dentro do pavilhão Futurama, em 1939, os estandes que mostravam os automóveis novinhos em folha da General Motors faziam o papel de co-adjuvantes no enorme diorama que retratava a ambição da corporação em transformar a maioria da população dos Estados Unidos em suburbanos consumidores de carros próprios. Essa vitrine de máquinas inspiradoras e produtos inovadores era desenhada para ganhar adeptos ao conceito dominante de sociedade hierárquica da elite. Já que existiam tantas coisas maravilhosas no presente, o sistema gerencial provou sua habilidade em construir o futuro imaginário. Contudo, apesar da priorização de seu papel simbólico, essa exposição não póde ignorar totalmente os valores de uso das novas tecnologias. Quase todas as pessoas na Feira Mundial de 1939 em algum momento já haviam viajado em um carro motorizado. Os futuros imaginários expressavam o potencial de um presente realmente existente.

A Feira Mundial de Nova Iorque de 1964 precisava de um nível muito mais alto de fetichismo. Pela primeira vez, a iconografia teve que negar o principal valor de uso das novas tecnologias. Apesar das controvérsias, os carros motorizados proviam muitos benefícios para o público geral. Ao contrário, foguetes, reatores nucleares e computadores mainframes eram inventados para um propósito diabólico: assassinar milhares de pessoas. Apesar da hegemonia imperial depender de armas nucleares, essa ameaça de aniquilação mútua tornou a posse das mesmas cada vez mais problemática. As elites regentes dos Estados Unidos e da Rússia tiveram dificuldades em admitir para si mesmas — e ainda mais para seus cidadãos — a profunda irracionalidade da nova forma de competição militar. A Guerra Fria nunca se tornou uma guerra quente entre as duas superpotências porque ambas poderiam se destruir com armas nucleares. Nenhuma nação “venceria” se a maioria de seus cidadãos estivessem mortos e todas as suas grandes cidades transformadas em destroços radioativos. Na lógica bizarra da Guerra Fria, a prevenção de um confronto militar total entre as duas superpotências dependia de um crescimento contínuo do número de armas nucleares de ambos os lados. Retaliação significava escalonamento. A paz perpétua era a guerra permanente. Num raro momento de lucidez, analistas estadunidenses inventaram um irônico acrônimo dessa estratégia de Destruição Mútua Garantida (Mutually Assured Destruction): MAD. (louco).[2]

Naturalmente, propagandistas de ambos os lados justificaram o enorme desperdício de recursos na corrida armamentista ao promover as aplicações pacíficas das tecnologias da Guerra Fria. Na época em que a Feira Mundial de Nova lorque de 1964 abriu, a artilharia genocida foi, com êxito, reempacotada como produtos amigáveis. Reatores nucleares eram geradores de eletricidade barata, e não fábricas de bombas atômicas. Foguetes eram construídos para levar heróicos astronautas para o espaço, não para lançar ogivas nucleares em cidades russas. No momento em que eram colocados em exibição pública, quase todas as pistas de suas origens militares desapareciam. Como os reatores nucleares e os foguetes espaciais, os computadores mainframe na Feira Mundial de Nova Iorque de 1964 eram também progênitos da Guerra Fria. Durante as duas décadas anteriores, o militarismo estadunidense dominou cada estágio do desenvolvimento dessa nova tecnologia. O Eniac — o primeiro ícone midiático da era da computação nos Estados Unidos — era uma máquina de calcular tabelas para melhorar a precisão da artilharia e determinar o poder explosivo de bombas nucleares.[3] Ao começar a fazer mainframes no final dos anos 1940, a estratégia corporativa da IBM estava focada em ganhar encomendas militares. Pesquisas caríssimas tinham de ser subsidiadas com a participação na corrida armamentista da Guerra Fria. Em 1952, a dependência da IBM frente aos militares estadunidenses era simbolizada pelo nome patriótico dado ao seu novo computador 701: a Calculadora da Defesa. Esse apelido era preciso. Os militares estadunidenses e seus fabricantes de armamentos eram os únicos compradores desse mainframe.[4]

Em 1953, a IBM fechou um contrato para construir computadores para o Comando de Defesa Área: o centro de controle para combater uma guerra nuclear com a Rússia. Ao longo dos cinco anos seguintes, a corporação construiu o sistema Sage, que poderia rastrear uma aeronave russa e ordenar bombardeios estadunidenses para destruir cidades do inimigo. Entupida de dinheiro do governo, a IBM tinha recursos para desenvolver com pioneirismo o controle de computadores por meio de terminais em rede e interfaces gráficas para os usuários.[5]

Com a sobrevivência da nação em risco, a excelência tecnológica não era constrita por limitações financeiras. Na época em que a Feira Mundial de 1964 teve início, os produtos da IBM cumpriam um papel central no confronto entre as duas superpotências. Ao simular uma guerra nuclear total com jogos de computador, estrategistas estadunidenses planejaram a gélida estratégia de uma destruição mútua garantida.[6] Com os mainframes da IBM, os militares estadunidenses poderiam planejar a destruição de cidades russas, organizar a invasão de países “não-amigáveis”, bombardear diretamente alvos inimigos, pagar os soldos de suas tropas e gerenciar seus recursos logísticos.[7] Melhor que isso, os generais estavam sempre ansiosos para comprar a última versão de máquinas da empresa para estarem à frente dos oponentes russos. Graças à generosidade do contribuinte estadunidense, a IBM tornou-se a líder tecnológica da indústria de computação global.

Essa dependência de recursos estatais teve uma excelente linhagem. No início do século XIX, o governo inglês subsidiara o pioneirismo de Charles Babbage para pesquisar uma máquina de cálculo mecânico. Prover o melhor equipamento para a Marinha Real era o preço para manter a hegemonia britânica sobre o sistema internacional de comércio.[8] No momento em que o projeto de Babbage fracassou, outros inventores de máquinas de calcular logo emergiram para tomar seu lugar. Além de melhorar suas capacidades militares, o estado moderno também necessitava de um maquinário matemático para administrar uma economia industrial de crescente complexidade. No final do século XIX, Herman Hollerith fundou a precursora da IBM ao vender tabuladores que processavam os resultados do censo nacional. Com isso, o governo estadunidense descobriu, no início da década de 1890, que adotar essa nova tecnologia era a única maneira de entregar os resultados dessa pesquisa em tempo.[9] Com uma resolução bem-sucedida do problema, as máquinas de calcular de Hollerith rapidamente tornaram-se ferramentas essenciais para a administração pública no mundo desenvolvido. Enquanto o estado era forçado a assumir cada vez mais responsabilidades para regular a economia e promover o bem-estar, sua burocracia coletava e organizava crescentes amontoados de dados. A fria racionalidade da “máquina de governar” era simbolizada pelo trabalho suave do maquinário do governo: índices de cartões, sistemas de formulários, máquinas de escrever, telefones e, como uma premonição das coisas que viriam, tabuladores de Hollerith.[10]

Durante a primeira metade do século XX,a mobilização de recursos para bens industrializados consolidava a ascendência do Estado sobre o mercado. De volta à era vitoriana, a ortodoxia liberal enfatizou que a iniciativa individual era o único método eficiente de organização da economia. Esse dogma foi rapidamente abandonado no momento em que vencer a batalha pela produção se tornou o pré-requisito para uma vitória militar. Durante a época dos bens mecanizados, a nação que equipasse suas forças armadas com o maior número dos mais avançados armamentos eventualmente prevaleceria.[11] Com muito a perder, a liderança política era necessária para impor as prioridades do campo de batalha na iniciativa privada. Enquanto o conflito se arrastava, a intervenção do Estado continuamente estendia-se para além do direcionamento diário da economia. Após usurpar as funções gerenciais da classe capitalista, a burocracia do governo também começava a avançar sobre seu papel empreendedor. Aos planejadores do Estado era dada a responsabilidade de conceber e implementar uma estratégia de longo prazo para o crescimento da economia nacional. Seu objetivo era maximizar as saídas ao organizar uma otimização de alocação de trabalho especializado e recursos escassos.[12] Ficou dramaticamente provado, entre 1914 e 1918, que a habilidade do Estado em organizar a produção tornara-se a fundação da supremacia geopolítica.

Durante o recomeço da guerra entre potências européias, em 1939, os combatentes estavam bem cientes de que a força militar dependia de uma grande especialização industrial. Como um de seus objetivos primários, os estrategistas priorizariam o desenvolvimento de novas tecnologias. Cientistas na retaguarda inventariam as armas que garantiriam a vitória dos soldados nas linhas de frente. Nos primeiros campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, os militares alemães demonstraram sua grande habilidade sobre as novas táticas de equipamentos de guerra mecanizados ao render os exércitos da Polónia e da França. No entanto, no momento em que sua força aérea tentou tomar controle do sul da Inglaterra, seus pilotos logo descobriram que seus oponentes agora possuíam a supremacia tecnológica. Durante a década de 1930, da mesma maneira que desenvolviam os melhores aviões de guerra, os cientistas britânicos inventaram os sistemas de detecção por radar. Nessa vital batalha aérea, a superioridade na coleta de dados, análise e disseminação da informação deu a vitória ao lado em desvantagem numérica. A supremacia da tecnologia barrara o avanço nazista na Europa.[13]

Depois que a invasão alemã da Grã-Bretanha foi abandonada, a criptografia tornara-se a principal linha de frente na guerra da informação. As transmissões de rádio ofereciam uma infraestrutura de comunicações para o comando e controle das forças militares que operavam sobre imensas distâncias. Entretanto, como o inimigo poderia interceptar essas mensagens, a segurança deveria ser protegida pela transmissão de informação em códigos invioláveis. No início da guerra, o alto comando alemão estava convencido de que sua máquina Enigma oferecia a solução tecnológica para esse problema. Determinado a provar que estava errado, o governo britânico criou organizações dedicadas a quebrar novas formas de criptografia: o Bletchley Park. Cara a cara com o problema de analisar um vasto montante de informação encriptada, times multidisciplinares de acadêmicos foram mobilizados para desenvolver máquinas com as quais poderiam decifrar códigos gerados por máquinas.[14]

Alan Turing foi o guru intelectual desse projeto tecnológico. Em 1936, esse matemático de Cambridge publicou um artigo que descrevia um modelo abstrato para um computador programável: a “máquina universal”.[15] No Bletchley Park, Turing teve a oportunidade de transformar sua teoria em realidade. Ao desenvolverem sofisticadas calculadoras mecânicas para processar suas fórmulas de quebra de encriptamento, seus colegas eram capazes não só de quebrar o código inviolável da Enigma, mas também, e tão importante quanto, decodificar uma vasta quantidade de sinais inimigos.[16] Frustrado pelas limitações dos tabuladores analógicos, Turing convenceu seus chefes a patrocinarem uma pesquisa dentro do cálculo eletrônico. Conduzido por Tommy Flowers, um grupo de engenheiros de telefonia assumiu a responsabilidade por completar esse projeto vital. Perto do final de 1943, esse time obteve sucesso na construção do seu protótipo de computador eletrônico: o Colossos.[17] A Grã-Bretanha recuperava sua liderança tecnológica na guerra da informação.

Para Turing, a invenção do Colossos provou que suas especulações teóricas poderiam ser transformadas em aplicações práticas. Cada aperfeiçoamento na tecnologia do tabulador era mais um passo rumo à criação da máquina universal.[18] Findada a guerra, Turing devotou-se a realizar esse sonho. Graças à sua experiência no Bletchley Park, cientistas britânicos estavam agora na dianteira da nova tecnologia da computação. Ao se mudar para Manchester, Turing juntou-se a um time de pesquisadores que construíam uma máquina programável. Tal como proposto em seu artigo de 1936, um programa seria usado para tornar possível a um equipamento executar uma variedade de diferentes tarefas. Em junho de 1948, antes mesmo que pudesse ocupar seu novo cargo, os colegas de Turing voltaram-se para o primeiro computador eletrônico armazenador de programas do mundo: o Baby. O conceito teórico descrito em um jornal acadêmico tomou forma material como uma enorme caixa de metal, preenchida com válvulas, chaveadores, cabos e potenciômetros.[19]

Turing estava convencido de que o computador Baby era muito mais do que uma versão melhorada do tabulador de Hollerith. Numa série de artigos seminais, ele argumentava que sua máquina matemática era a precursora de uma nova forma de vida completa: o matemático mecânico. Quando os programas controlassem os equipamentos, o ato de contar tornaria-se consciência. De volta à Inglaterra vitoriana, Charles Babbage promoveu as versões precursoras dessa visão de inteligência artificial. No momento em que seus sistemas de Diferença e Analítica carregassem cálculos, eles “pensariam” como humanos.[20] Inspirado pelo pensamento de Babbage, Turing definiu a inteligência humana como algo que os computadores poderiam ter. Já que calcular era um sofisticado modo de pensar, máquinas de calcular poderiam ser capazes de pensar. Se crianças adquiriam conhecimento pela educação, programas educacionais criariam computadores aprendizes. Como o cérebro humano trabalhava como uma máquina, era óbvio que uma máquina poderia se comportar como um cérebro eletrônico.[21]

De acordo com Turing, os computadores poderiam em breve adquirir a essência da subjetividade humana: "livre arbítrio". Ao usar geradores de escolha randômica, os mainframes eram também capazes de tomar decisões arbitrárias.[22] Tudo que é humano seria replicável pelas máquinas. Porém, como Turing enfatizou, levaria pelo menos cinco décadas até que o objetivo da inteligência artificial fosse alcançado. No início da década de 1950, computadores não eram poderosos o suficiente para mostrar seu verdadeiro potencial. Com sorte, aperfeiçoamentos contínuos nos equipamentos e programas poderiam — cedo ou tarde — transpor essas limitações. Na segunda metade do século XX, a tecnologia da computação rapidamente se dirigiu para um destino pré-ordenado: a inteligência artificial.

 

A capacidade de memória do cérebro humano é provavelmente da ordem de dezenas de milhões de dígitos binários. Entretanto, a maior parte disso é provavelmente usada para lembrar impressões visuais, e outras formas semelhantemente esbanjadoras. Uma pessoa poderia razoavelmente esperar ter algum progresso real [em direção à inteligência artificial] com alguns milhões de dígitos [de memória computacional].[23]

 

Em seu mais famoso artigo, Turing descreveu um teste para identificar o vencedor dessa corrida para o futuro. No Bletchley Park, ele ficou fascinado com a possibilidade de programar um computador para jogar xadrez. Ao considerar o fato de que os intelectuais gostam desse jogo, convenceu-se de que máquinas que pudessem jogar xadrez deveriam ser inteligentes.[24] Encantado pelo fetichismo tecnológico, Turing exclamava que o trabalho dos programadores desapareceria assim que o computador começasse a executar os programas escritos por ele mesmo. Além desse postulado, essa tese acadêmica possuía um teste idiossincrático próprio sobre a inteligência da máquina: o "jogo de imitação". Uma vez que o observador não conseguisse dizer se falava com um humano ou com uma máquina numa conversa on-line, então não haveria mais diferença substancial entre esses dois tipos de consciência. Se a imitação era indistinguível do original, então o computador havia passado no teste.[25]

No final da década de 1940 e no início dos anos 1950, Alan Turing se tornou o primeiro profeta do futuro imaginário da inteligência artificial. As inspirações de Babbage e as fantasias de Asimov transformaram-se em projetos de pesquisa científica. Desse ponto em diante, os computadores existiriam em duas zonas temporais simultaneamente. No presente, essas máquinas eram ferramentas práticas e mercadorias negociáveis. E, mais ainda, como os artigos de Turing haviam provado, computadores também eram dotados de um imenso valor simbólico. O futuro imaginário da inteligência artificial revelou um potencial transformador dessa nova tecnologia. Apesar de seus pequenos defeitos, esses modelos de computadores eram os precursores das máquinas com sentimentos que estavam por vir. A passagem pelo teste de Turing estava sempre iminente. Dentro da economia fetichística, as máquinas tornavam-se indistinguíveis dos seres humanos.

Por volta do final da década de 1940, o catecismo da inteligência artificial estava definido. Depois da computação, o que era e o que virá a ser eram uma única e mesma coisa. Apesar desse objetivo alcançado, Turing era um profeta cuja influência estava presente em todo o seu país. O computador podia ter sido inventado na Grã-Bretanha, mas o país sentia a falta de recursos para o desenvolvimento da tecnologia.[26] Do outro lado do Atlântico, a situação era bastante diferente. Durante a Segunda Grande Guerra, o governo dos Estados Unidos havia criado suas próprias equipes de pesquisa multidisciplinar para desenvolver armamento avançado. Ao depositar dinheiro no projeto Manhattan, esses cientistas militares foram capazes de construir a primeira bomba nuclear. Enquanto uma importante parte do esforço de guerra, o governo estadunidense também fornecia recursos generosos para pesquisas em cálculo eletrônico. Crucialmente, com a vitória sobre o fascismo, os cientistas que trabalhavam naqueles projetos não tinham que se preocupar em perder seus recursos. Se voltados para a Guerra Fria, os políticos estadunidenses não teriam problemas em justificar esses subsídios aos seus representados.[27] Desde o final da década de 1930, cientistas das principais nações industrializadas trabalhavam em paralelo para a realização do objetivo de Turing: a construção de uma máquina universal. Em diferentes momentos, britânicos, alemães e russos estiveram na linha de frente desse projeto coletivo. No início da década de 1950, a pesquisa acadêmica e corporativa dos Estados Unidos almejava a liderança da computação entre seus rivais. Acima de tudo, companhias estadunidenses como a IBM também aprenderam como transformar essa ciência de ponta em confiáveis produtos para clientes corporativos e militares. No meio da década de 1960, não restaram dúvidas de que as máquinas mais avançadas eram fabricadas nos Estados Unidos.[28]

 

Notas:

^ 1. Robert Moses, o chefe e organizador das Feiras Mundiais de 1939 e 1964, guiou o redesenvolvimento de Nova Iorque para ser a primeira cidade do mundo dominada por estradas desenhadas para um tráfico compartilhado. Ver Marshall Berman, All that is solid melts into air (Tudo o que é sólido desmancha no ar), páginas 287-312; e Ric Burns e James Sanders com Lisa Ades, New York, páginas 404-413, 456-465, 494-510, 518-519.

^ 2. Ver Jeremy Isaacs e Taylor Dowling, Cold War, páginas 230-243; e Herman Kahn, On thermonuclear war, páginas 119-189.

^ 3. Ver Paul Ceruzzi, A history of modern computing, página 15; e Mike Hally, Electronic Brains, página 227.

^ 4. Ver Paul Ceruzzi, A history of modern computing, páginas 34-36; e Emerson Pugh, Building IBM, páginas 167-172.

^ 5. Ver Pugh, Building IBM, páginas 199- 219.

^ 6. Ver Andrew Wilson, The Bomb and the Computer, páginas 91-117.

^ 7. Ver Edmund Berkeley, The computer revolution, páginas 56-7, 59-60, 137-145.

^ 8. Ver Philip Morrison e Emily Morrison, Introduction, in Charles Babbage, On the Principles and Development of the Calculator and Other Seminal Writings, Dover Publications, Nova York, 1961, pp. XI-XXXII.

^ 9. Ver Robert Sobel, IBM, página 322.

^ 10. Ver Jon Agar, Government machine, páginas 121-199.

^ 11. Ver Paul Kennedy, The rise and fall of great powers, páginas 330-354.

^ 12. Ver Eric Hobsbawm, Age of extremes, páginas 21-53; e Keith Middlemas, Politics in industrial society, páginas 68-151.

^ 13. Ver Jon Agar, Government machine, páginas 209-217.

^ 14. Ver Jon Agar, Government machine, páginas 203-206; em Jack Copeland, Enigma.

^ 15. Ver Alan Turing, On computable numbers; e Jon Agar, Turing and the universal machine, páginas 85-100.

^ 16. Ver Andrew Hodges, Alan Turing, páginas 160-241; e Michael Smith, Station X, páginas 52-53, 67-68, 110.

^ 17. Ver Andrew Hodges, Alan Turing, páginas 263-268, 277-278; Agar, Government machine, páginas 208-209; e Smith, Station X, páginas 147-151, 170.

^ 18. Ver Andrew Hodges, Alan Turing, páginas 289-305.

^ 19. Ver Alan Turing, Lecture on the automatic computing engine; Agar, Government machine, páginas 35, 113-124; e Hodges, Alan Turing, páginas 314-402.

^ 20. Ver Simon Schaffer, Babbage՚s dancer.

^ 21. Ver Alan Turing, Automatic computing engine; Intelligent machinery; Intelligent machinery, a heretical theory; can digital computers think?

^ 22. Ver Turing, Can digital computers think?, páginas 484-485.

^ 23. Ver Turing, Automatic computing engine, página 393.

^ 24. Ver Alan Turing, Chess; and Hodges, Turing, páginas 210-217.

^ 25. Ver Alan Turing, Computing machinery and intelligence, páginas 441 - 448; e Agar, Government machine, páginas 122-126.

^ 26. Ver Hodges, Turing, páginas 456-527; e Agar, Government machine, páginas 266-278.

^ 27. Ver Stuart Leslie, The Cold War and american science, página 113; e R.C. Lewontin, The Cold War and the transformation of the academy.

^ 28. Ver Ceruzzi, Modern computing, páginas 13-46.

O detentor dos direitos autorais deste arquivo autoriza o seu uso por qualquer pessoa, para qualquer finalidade, com a condição de que a sua autoria seja devidamente atribuída. Redistribuição, trabalhos derivados, uso comercial e todos os demais usos são permitidos.