A Wikimedia no Brasil/XIII
Bibliotecas universitárias brasileiras e projetos Wikimedia
A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES (ECA) E DO INSTITUTO DE MATEMÁTICA E ESTATÍSTICA (IME) NO GLAM BIBLIOTECAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)
lilian viana
stela do nascimento madruga
Introdução
Bibliotecas universitárias participam da ordenação social do conhecimento (Burke, 2003) desempenhando funções de seleção, organização, preservação e comunicação de informações e conhecimentos, incluindo aqueles produzidos pela comunidade acadêmica que atende. Seus processos incluem ações em torno de conhecimentos científicos, constituídos a partir de métodos distintos nos campos das ciências humanas, exatas e biológicas. Enquanto instância articuladora dessa ordem simbólica – junto às universidades e disciplinas –, a biblioteca universitária constitui-se em diálogo com as representações de conhecimento desenvolvidas ao longo da história, dissimulando concepções implícitas de cultura, memória e saber, assim como das funções que lhe correspondem na sociedade em que se inscreve (Jacob, 2008).
Atualmente, proposições sobre a atuação da biblioteca universitária pautadas na prerrogativa de que conhecimento e ciência são direitos inatos da humanidade levam à importância de considerar a ciência aberta e o conhecimento aberto[1] como faróis conceituais orientadores de práticas em torno das garantias de acesso, uso e participação dos sujeitos nos processos do conhecimento.
Caracterizada como um constructo inclusivo, a ciência aberta objetiva disponibilizar abertamente, por meio de movimentos e práticas, o conhecimento científico, tornando-o acessível e reutilizável para todos. Objetiva também “aumentar as colaborações científicas e o compartilhamento de informações para o benefício da ciência e da sociedade, e abrir os processos de criação, avaliação e comunicação do conhecimento científico a atores da sociedade, além da comunidade científica tradicional” (Unesco, 2022, p. 6), cabendo-lhe promover a inclusão e o intercâmbio de conhecimentos originários de grupos caracterizados como sub-representados ou excluídos (Unesco, 2022).
Já o conhecimento aberto – noção que não se vincula exclusivamente a conhecimento científico – é explícito e corresponde a qualquer tipo de informação inscrita em qualquer meio, frequentemente em um formato representável em computadores. É disponibilizado de forma que possa ser livremente utilizado, reutilizado e redistribuído (Swan, 2016). Os projetos Wikimedia[2], desenvolvidos no contexto on-line por uma comunidade global de colaboradores, são representativos desde circuito.
Ambos os conceitos, inscritos na World Wide Web (WWW), convidam as bibliotecas universitárias e seus profissionais ao desenvolvimento de ações, dado que a matéria simbólica é insumo central em suas práticas. A questão acentua-se ao abordarmos bibliotecas vinculadas a universidades, instituições que, além do ensino, são comprometidas com a pesquisa e geração de conhecimentos.
À luz dessas noções, este relato de experiência de caráter exploratório apresenta o GLAM Bibliotecas da USP[3][4], iniciativa de bibliotecas universitárias com projetos Wikimedia criada em 2020 a partir da atuação de três bibliotecárias vinculadas às bibliotecas da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP).
Elaborado por duas bibliotecárias que atuam na ECA e no IME, este relato contempla suas experiências com projetos Wikimedia no amplo contexto da USP e, em particular, das bibliotecas em que trabalham. A opção pela escrita colaborativa entre as duas bibliotecárias é reflexo da parceria construída e mantida entre ambas nesta iniciativa GLAM-wiki.
Objetivamos, com isso, sintetizar elementos-chave do desenvolvimento do GLAM Bibliotecas da USP para contribuir à constituição de sua memória e prover referenciais para discussões sobre possibilidades de atuação de bibliotecas, em especial, as universitárias com projetos Wikimedia, considerando especificidades e características próprias desses dispositivos que têm função informativa (memória científico-cultural) e educativa no contexto universitário.
A USP, universidade pública brasileira, está situada na cidade de São Paulo (SP) e foi fundada em 1934, sendo sustentada pelo tripé ensino, pesquisa e extensão, que delimita suas frentes de atuação. Conforme dados de 2019, possui oito campi e conta com 340 cursos de graduação e 264 de pós-graduação (mestrado e doutorado), sendo a maior universidade de pesquisa do Brasil. Sua comunidade acadêmica é composta por cerca de 97 mil estudantes, entre pós-graduação e graduação, 5.383 docentes e 13.638 funcionários técnico-administrativos, dentre os quais 221 são bibliotecários (Universidade de São Paulo, [2020]; Universidade de São Paulo, [2023]).
Nesse território, estão as 48 bibliotecas da USP, vinculadas às diferentes unidades de ensino e pesquisa – categoria em que se enquadram a ECA e o IME –, aos museus e órgãos administrativos. Suas bibliotecas desenvolvem práticas educativas junto à comunidade discente, ações de seleção, organização, preservação e comunicação de informações e conhecimentos, incluindo a produção intelectual da universidade. As bibliotecas da USP desenvolvem e mantêm catálogos on-line, bibliotecas digitais e repositórios, dispondo de um acervo de 8.418.903 obras físicas – distribuídas entre as diferentes instituições – e 17.180.177 obras eletrônicas (Universidade de São Paulo, [2021]).
Em meio a esse cenário institucional, surge e desenvolve-se o GLAM Bibliotecas da USP, apresentado a seguir num texto expositivo que aborda elementos relacionados à sua origem, bem como os principais eixos de atuação implementados nas bibliotecas da ECA e do IME, com diferentes projetos Wikimedia. Nesse sentido, inicialmente, apresentamos o contexto em que surge a iniciativa para, na sequência, abordar ações de organização e comunicação da informação científica no Wikidata, edição de artigos sobre docentes da USP na Wikipédia, uso da Wikipédia em práticas educativas e, por fim, práticas que visam o engajamento da comunidade bibliotecária. As questões postas encaminham para a seção seguinte, em que sistematizamos as limitações do projeto, num esforço para extrair elementos viabilizadores dessa iniciativa e, assim, contribuir para reflexões sobre ações de bibliotecas com projetos Wikimedia. Consideramos que os projetos Wikimedia são terreno fértil a ser explorado por bibliotecários em práticas orientadas pelo ideal de conhecimento aberto, em perspectiva crítica e rigorosa. Para tanto, é necessário que tais iniciativas sejam institucionalmente fomentadas no contexto das bibliotecas.
Criação do GLAM Bibliotecas da USP
Em novembro de 2019, o IME sediou o evento “Bibliotecários wikipedistas”, oficina que objetivou ensinar bibliotecários da USP a realizar edições básicas na Wikipédia e apresentar possibilidades de promover os acervos nessa enciclopédia digital. A iniciativa surgiu graças à mobilização de Antonio Galves, professor titular do Departamento de Estatística do IME e pesquisador responsável pelo Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Cepid NeuroMat).
Galves solicitou a membros da equipe de difusão do Cepid – que à época contribuíam nos projetos Wikimedia como parte de sua iniciativa GLAM-wiki – que realizassem uma oficina sobre tais projetos para a equipe da biblioteca do IME. A disposição de Galves foi ao encontro do interesse de Stela do Nascimento Madruga, chefe técnica da biblioteca do instituto, que não só demonstrou interesse pela iniciativa, como se empenhou em viabilizar a realização de um evento aberto a profissionais de outras bibliotecas da universidade. Essa ação resultou no encontro das três idealizadoras do GLAM Bibliotecas da USP – que participaram da oficina – com a Wikipédia, num contexto que propunha a reflexão sobre seu uso no âmbito das bibliotecas.
A atividade foi catalisadora de novas interlocuções em torno de projetos Wikimedia, quando em 2020, em meio ao isolamento social imposto pela pandemia da covid-19, foi possível participarmos de inúmeros eventos remotos. Esse cenário motivou Madruga a contatar João Alexandre Peschanski, do Grupo de Usuários Wiki Movimento Brasil (WMB)[5], para conhecer possibilidades de ações de bibliotecas no ecossistema Wikimedia.
Em março desse mesmo ano, Madruga sugeriu às bibliotecárias da ECA e da FAU a criação de uma iniciativa GLAM-wiki, em que seria possível atuar de forma colaborativa. A opção por criar um projeto dessa natureza compreendia que a parceria entre bibliotecas e projetos Wikimedia seria estratégica à disponibilização de conteúdos em formato aberto, contribuindo à promoção dos acervos das bibliotecas para um público mais amplo e diversificado, aumentando sua visibilidade e seu alcance (Badi et al., 2023).
Assim, teve início interlocuções que culminaram na criação do projeto GLAM Bibliotecas da USP, composto pelas bibliotecas da ECA, FAU e IME, que contou com o estabelecimento de parceria firmada em junho de 2020 com o WMB, responsável pelo suporte técnico ao uso dos recursos e metodologias necessários para o desenvolvimento das atividades, componente crucial para a implementação do projeto. O trabalho colaborativo delimitava o princípio da atuação e viabilizou o aprendizado e o planejamento das ações.
O percurso de criação do GLAM revela pessoas que desempenharam papéis-chave, gerando um caminho de possibilidades para o projeto. O protagonismo bibliotecário merece destaque, pois a iniciativa não partiu de uma necessidade institucional, mas foi reflexo da vontade de realizar ações além das demandas. A atuação do professor do IME, das bibliotecárias envolvidas e da equipe do WMB realçam a mobilização profissional como aspecto viabilizador para o surgimento de algo novo em um momento de adaptação ao trabalho remoto e de concentração de esforços para promoção do acesso e uso da informação no contexto digital, único caminho possível em tempos de isolamento social.
Assim, em meio à pandemia que impunha a ausência de bibliotecas como locais físicos, fomos motivadas a explorar novas formas de atuação no universo digital e criamos o GLAM Bibliotecas da USP para
- comunicar informações e conhecimentos produzidos pela comunidade acadêmica da USP nos diferentes projetos Wikimedia, contribuindo com o desenvolvimento do conhecimento aberto, [...] e promover práticas educacionais por meio do emprego destes projetos em ações junto aos docentes e estudantes (Wikipédia:GLAM/Bibliotecas da USP, 2023).
A possibilidade de trabalhar com registros do catálogo das bibliotecas da USP e com os dados da comunidade acadêmica nos projetos Wikimedia, contribuindo à maior visibilidade da produção científico-cultural da universidade, despontava como caminho para colaborarmos com o conhecimento aberto e a promoção da ciência à sociedade em geral. No âmbito educativo, a iniciativa configurava possibilidade de explorarmos ações de Alfabetização Midiática e Informacional (AMI) junto aos estudantes.
Essas perspectivas dialogam com literatura da área (GLAM-Wiki [...], 2022), que expõe uma variedade de ações inscritas no domínio de projetos GLAM, como compartilhar conteúdos na Wikipédia e no Wikimedia Commons; criar registros de itens bibliográficos, instituições e pessoas no Wikidata; desenvolver ações formativas visando o engajamento de pessoas; implementar práticas pedagógicas e informacionais com os projetos Wikimedia visando o desenvolvimento de AMI (GLAM-Wiki [...], 2022).
Além disso, tais ações alinham-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), principalmente aqueles que se referem à equidade e à democratização da informação e contam com as bibliotecas para identificar necessidades locais e colaborar com ações alinhadas às metas a serem atingidas mundialmente (IFLA, 2016). Sendo essa uma preocupação da USP, em 2022, na Semana do Livro e da Biblioteca, organizada pela Agência de Bibliotecas da USP, apresentamos o projeto como ação estratégica alinhada à Agenda 2030 (Costa; Hirata; Barros, 2022).
Wikidata: organizar e visualizar a informação científica da USP
A coleta, organização, registro, preservação e comunicação da produção intelectual da comunidade acadêmica da USP é uma das funções de suas bibliotecas, cabendo aos bibliotecários desenvolver e empregar formatos e padrões garantidores da consistência e veracidade das informações com que trabalham, aspecto essencial à recuperação da informação. No âmbito da recuperação da informação, as bibliotecas da USP dispõem de diferentes recursos disponíveis ao público em geral. Entre eles, o Repositório da Produção USP, biblioteca digital de acesso aberto que concentra o registro da produção de seus pesquisadores e, quando possível, armazena as publicações em formato digital.
A catalogação, prática viabilizadora da comunicação desses registros, é feita no software Aleph, em formato MARC21[6], que, embora garantidor da consistência dos dados, não se alinha aos princípios da Web Semântica, que se referem tanto ao formato dos conteúdos de um recurso como às formas de sua disponibilização e interação com outros recursos no ambiente web (Luz; Coneglian; Santarém Segundo, 2019). Assim, nas bibliotecas da USP, a catalogação não se alinha aos dados conectados, uma prática da Web Semântica que possibilita a atribuição de significados aos dados, tornando-os passíveis de compreensão tanto por humanos como por máquinas. Esse aspecto promove maior recuperabilidade da informação e estabelece condições para diferentes modelagens e filtros de dados (Bizer; Heath; Berners-Lee, 2009).
Tais elementos estimularam interrogações sobre possibilidades de desenvolvermos novas práticas em nosso cotidiano profissional com o Wikidata – base de dados conectados abertos, legível por humanos e por máquinas, com conteúdos disponibilizados em licença livre e passível de edição por qualquer pessoa. Catalogar no Wikidata configuraria possibilidade de experimentarmos a materialização da Web Semântica e contribuirmos para o aumento da visibilidade do acervo das bibliotecas da USP em práticas alinhadas à noção de conhecimento aberto. Tais percepções foram estimuladas pela participação em eventos on-line que permitiram, de modo geral, conhecer o Wikidata e seu funcionamento, reconhecendo um circuito identificado pela comunidade bibliotecária internacional (Association of Research Libraries, 2019), com potencial para a criação, melhoria e comunicação em amplo alcance de itens de coleções de bibliotecas, assim como para o estabelecimento de conexões entre registros de suas coleções e registros de outros conjuntos de dados.
Ademais, não seria preciso obtermos o suporte de especialistas em tecnologia para desenvolver ou instalar uma base de dados. O Wikidata estava disponível para uso e dispunha de ampla documentação, fatores que, somados ao suporte técnico-especializado do WMB, foram definidores da opção por iniciar ações com essa base.
Inicialmente, optamos por trabalhar com registros da produção intelectual dos docentes da ECA e do IME e, entre as diferentes tipologias documentais, optamos pelo artigo científico, pois é um documento comum às diferentes bibliotecas envolvidas na iniciativa. Assim, seria possível atuarmos desde uma base comum: os dados e os metadados para artigos científicos, a partir de arquivos em formato CSV extraídos do repositório institucional.
A ação com o Wikidata corresponderia à catalogação da trama implicada na produção do conhecimento; por meio da interligação dos dados seriam estabelecidas relações entre pesquisadores, publicações, unidades, departamentos e programas de pós-graduação. Além disso, havia a possibilidade de integrar os registros do Wikidata a conteúdos criados em outros projetos Wikimedia, como artigos sobre docentes na Wikipédia ou a imagem deles no Wikimedia Commons, repositório de mídias dos projetos Wikimedia.
Catalogar no Wikidata era uma ação para comunicar conteúdos na web, aspecto que despertava o interesse em relação às possibilidades de visualização dos dados e geração de relatórios sobre a produção dos docentes. O Scholia (Scholia, [2017]), que permite a visualização de dados inseridos no Wikidata a partir de perfis institucionais, de publicação e de pessoas, foi identificado como recurso para visualização de dados atrelados aos perfis institucionais e de pesquisadores da ECA e do IME. Portanto, o reconhecimento de um recurso pronto para uso e que permitiria a visualização dos registros criados estimulou o desenvolvimento desta atividade.
O recorte inicial da ação foram os artigos publicados em 2017 e determinamos que seria feito o cadastro de instituições – ECA e IME – e seus departamentos, docentes, revistas e artigos, respectivamente. A partir disso, ocorreu um processo colaborativo que, inicialmente, incluiu a equipe do WMB, para planejamento das fases da coleta, catalogação e importação de dados. Além dos artigos, foi necessário coletar e estruturar outros dados, o que implicou a tomada de decisões para viabilizar a ação face ao grande volume informacional.
Optamos por trabalhar com artigos produzidos por docentes que atuam (ou atuaram) em regime de dedicação integral e a coleta de dados sobre eles foi feita na plataforma Lattes e em outras plataformas de identificadores de autor como ORCID, Research Gate, Scopus etc. Seria preciso que as revistas em que os artigos foram publicados existissem no Wikidata, portanto, criamos o registro de diversos periódicos científicos. Exceto nos casos de publicações da ECA ou do IME, optamos por criar registros enxutos no Wikidata, apenas com ISSN e título, como condição de garantir o andamento da atividade; assumiu-se que tais registros não eram o objeto central da ação e poderiam ser aprimorados pela comunidade de editores do Wikidata. Previamente à importação de dados dos artigos científicos no Wikidata, procedemos à correspondência entre metadados MARC21 e metadados (propriedades) Wikidata.
Neste processo, solicitamos a criação de duas propriedades para fazer a interligação entre o Wikidata e o Repositório da Produção USP. A propriedade “Identificador de pessoa no repositório da produção da USP” (P9612) foi criada para conectar o Wikidata à página do repositório em que constam todos os registros da produção intelectual do docente; a propriedade “Repositório da produção USP ID” (P10492) é responsável por vincular o registro do item (produção intelectual) no Wikidata ao seu registro no Repositório da USP. Além disso, os itens criados incluem a propriedade “Na lista de interesse do wikiprojeto” (P5008), vinculada ao valor “GLAM Bibliotecas da USP”, como forma de identificar e recuperar os itens criados no escopo deste GLAM.
Inicialmente, a equipe do WMB realizou a importação em lote de parte dos dados para o Wikidata. Além disso, ministraram oficinas virtuais com a equipe das bibliotecas para apresentar o funcionamento de ferramentas de trabalho com grande quantidade de dados. Posteriormente, iniciamos um processo independente de aprendizado e desenvolvimento de ações, gerador de autonomia na execução da tarefa de importação de dados via recursos como OpenRefine (Wikidata [...], [2023]) e QuickStatements (Help [...], 2023).
Com isso, passamos a executar a ação de maneira autônoma e o processo iniciado com artigos publicados em 2017 foi ampliado para cobrir – até o momento de escrita deste texto – os registros de artigos do período de 2017-2022 de docentes da ECA e de 2017-2019 de docentes do IME. Esse recorte reflete nossas possibilidades de atuação em meio a um cotidiano profissional permeado por diferentes tarefas e os resultados da ação podem ser visualizados nos perfis da ECA e do IME no Scholia[7], que, embora pertinente, apresenta limitações ao nosso contexto, como a interface em inglês e um enfoque que não recupera a produção artística de docentes.
Descrito em linhas gerais, esse processo possibilita entrever elementos delimitadores da ação. A existência de recursos prontos para uso, com documentação e tutoriais desenvolvidos por uma comunidade de práticas, viabilizou a ação no contexto das bibliotecas, em que seria inviável dispor de suporte tecnológico. Somado a isso, destacamos o suporte técnico-especializado do WMB e o protagonismo profissional, pois lançamos interrogações sobre possibilidades de desenvolver ações e assumimos a necessidade de aprender, empreendendo esforços para dominar a utilização dos recursos necessários, num cenário favorecido pela disponibilidade de tempo para tanto.
Elaborar o significado dessa ação exige o adensamento de reflexões em diálogo com questões inerentes às bibliotecas universitárias. A prática colaborativa com o Wikidata demanda maior compreensão, pois em seus contextos as bibliotecas figuram como autoridades garantidoras da consistência e veracidade dos dados, aspecto que se altera no escopo do Wikidata, cujos registros são passíveis de edição por todos. É necessário avançarmos em compreensões sobre o uso do Wikidata como uma base de replicação de conjuntos de dados disponibilizados nos catálogos das bibliotecas ou se ela poderia ser uma base de dados privilegiada para a catalogação feita pelas bibliotecas, aspectos que implicam considerar a manutenção da consistência dos registros criados e as possibilidades de exportação dos dados.
Nessa direção, a Wikibase, software utilizado pelo Wikidata, emerge como um circuito a ser explorado pelas bibliotecas universitárias, pois possibilitaria a criação e manutenção de bases de dados conectados abertos, garantindo à biblioteca o controle da consistência dos dados. Além disso, é preciso ultrapassar o foco no cadastro de dados para que seja estruturado um plano de ações que contemple as possibilidades de visualização dos conteúdos.
Wikipédia: editar artigos sobre docentes da USP
No GLAM Bibliotecas da USP, a Wikipédia – enciclopédia digital aberta e gratuita que ocupa o sétimo lugar no ranking dos sites mais acessados no mundo (Similarweb, [2024]) –, foi tomada como recurso para a organização e comunicação de conteúdos na web, pois é “[...] pautada em dinâmicas colaborativas de produção e comunicação de informações e na democracia no acesso e produção de informações, aspecto que a aproxima das bibliotecas, instituições historicamente comprometidas com a preservação e garantia do direito de acesso ao patrimônio simbólico” (Viana; Macambyra, 2022, p. 5).
A partir de discussões sobre modalidades de atuação, optamos por organizar e redigir conteúdos sobre docentes da USP na Wikipédia lusófona, o que nos levaria à posição de editoras de informações no contexto do conhecimento aberto, contribuindo à preservação e disseminação da memória científico-cultural da universidade. A prática está alinhada à missão das bibliotecas da USP, que inclui a promoção da ciência, do acesso aberto, da produção e do uso de informações (Sobre, 2023).
Essa escolha foi influenciada pela identificação de um terreno a ser explorado, dadas as lacunas de conteúdos sobre pesquisadores brasileiros na Wikipédia lusófona. Soma-se a isso, o reconhecimento do valor do texto enciclopédico que, de natureza expositiva em linguagem objetiva e impessoal, contribui para apresentar ao público em geral o papel do biografado em um determinado campo do conhecimento.
Por outro lado, a redação de um texto enciclopédico é viável no âmbito da atuação bibliotecária, pois não está em causa a produção de conhecimentos ou a argumentação. No processo de elaboração de artigos sobre os docentes, um aspecto fundamental é a seleção de fontes de informação consolidadas, verificáveis e confiáveis que, em alguns casos, remetem ao acervo da própria biblioteca. A curadoria de fontes é aspecto essencial de nossa ação, pois o rigor com a escolha das referências é fundamental para produzir um texto de boa qualidade e fornecer ao leitor uma bibliografia que contribua para o aprofundamento de seus conhecimentos sobre a pessoa biografada.
Além da edição de conteúdos, contribuímos para a organização e recuperação da informação na Wikipédia por meio da categorização dos artigos. Criamos categorias para agrupar os artigos sobre docentes e alunos da ECA e do IME. Ademais, promovemos a integração entre os artigos na Wikipédia e os dados dos docentes cadastrados no Wikidata, utilizando os recursos “infocaixa”[8] e “controle de autoridade”[9]; este último direciona aos registros da produção intelectual do docente no Repositório da Produção USP. Desde o início do projeto, foram editados 15 artigos sobre docentes da ECA – desses, quatro foram destacados como bons, após passar por processo de avaliação pela comunidade wikipedista – e sete sobre docentes do IME, sendo que dois ainda não existiam na enciclopédia. Nem todos os artigos editados são submetidos ao processo de avaliação, apenas aqueles considerados passíveis de destaque passam por essa análise criteriosa[10].
Embora a edição de artigos se dê de forma autônoma entre nós, o processo de uso e apropriação da Wikipédia é construído de forma compartilhada, com trocas de experiências e esclarecimentos de dúvidas sobre os aspectos sociotécnicos da enciclopédia digital, dimensão fundamental ao desenvolvimento de uma prática sistemática neste circuito[11].
A edição de artigos na Wikipédia realça a possibilidade de contribuir com o conhecimento aberto, a partir de práticas baseadas na comunicação de conteúdos dos acervos das bibliotecas. Por outro lado, revela a importância do aprimoramento dinâmico de nossas práticas de pesquisa, leitura e escrita como condição à manutenção e ao desenvolvimento de um trabalho criterioso.
Wikipédia: um Recurso Educacional Aberto (REA)
De caráter central na vida cotidiana, a relação com informações delimita nossa atuação no mundo, aspecto que convida as bibliotecas universitárias à proposição de práticas educativas que contribuam ao desenvolvimento de atitudes como a criticidade e o rigor nas relações do estudante com a matéria simbólica.
Essa questão levou a explorarmos a Wikipédia como território de ações educativas, proposta estimulada por literatura indicativa de iniciativas desenvolvidas por bibliotecários com a enciclopédia digital mais acessada do mundo (Park; Bridges, 2022; Reagle; Corner, 2020).
A partir dos eixos pesquisar informações, avaliar informações e criar informações, estabelecidos em diálogo com o “Marco de avaliação global da alfabetização midiática e informacional” (Unesco, 2016), e com base na abordagem da informação como construção social (Logan, 2012), a Wikipédia foi abordada em suas dimensões social e técnica para o desenvolvimento de ações.
Sua configuração colaborativa, sustentada por voluntários que compõem uma comunidade de práticas em torno de conteúdos e diretrizes, pode ser utilizada para introduzir os estudantes à noção de conhecimento aberto. Além dos artigos, páginas de discussão, votações, páginas de usuário, histórico de edições, licenças de uso e a cobertura da enciclopédia são passíveis de exploração e indicativos do caráter social da produção de informações.
Práticas de pesquisa e leitura, pautadas na compreensão do texto como ponto articulado a uma trama simbólica, beneficiam-se do uso da Wikipédia em ações que considerem o conteúdo dos artigos, as fontes utilizadas, os hiperlinks, o histórico de edições e a página de discussão a partir de critérios de qualidade positivos e negativos orientadores da leitura. Por meio do histórico de edições, é possível identificar as contribuições feitas aos artigos e abordar o processo de produção da informação; as caixas de aviso inseridas nos artigos (cobertura, viés geográfico, parcialidade etc.) auxiliam no processo de avaliação das informações e a estabelecer critérios orientadores da leitura, que ultrapassam os limites dessa enciclopédia.
Além disso, praticar a escrita em modalidade enciclopédica visando uma ampla audiência pode contribuir à formação do estudante como autor no contexto acadêmico, pois o texto enciclopédico apresenta conhecimentos consolidados, é pautado em fontes e implica afastar-se da opinião e do juízo de valor, cotejando distintas abordagens sobre um mesmo tema (Vandendorpe, 2015). Atrelada aos processos de leitura e escrita, a prática da pesquisa possibilita promover a relação do estudante com a biblioteca universitária e os recursos que disponibiliza.
A partir dessas compreensões, adotamos como estratégia o estabelecimento de parcerias com docentes para desenvolver ações, proposição facilitada por interlocuções da bibliotecária da ECA com alguns docentes. Essa proposta reconhece o valor do diálogo entre os campos da Informação (biblioteca, bibliotecários) e da Educação (sala de aula, professor) e visa assegurar um tempo na formação do estudante para o desenvolvimento da atividade. A integração entre essas esferas facilita a inserção do estudante como sujeito ativo na ordem social do conhecimento científico, tendo a biblioteca universitária como um de seus pilares, responsável por organizar e disponibilizar informações no contexto acadêmico.
Em nossa proposta não está em causa explorar a Wikipédia como um fim em si mesmo, como fonte de informação, mas tomá-la como Recurso Educacional Aberto (REA)[12] em práticas de ensino-aprendizagem que propulsionem o estudante a relações críticas com informações e conhecimentos representativos do campo de conhecimento ao qual se vincula.
Desde o início do GLAM Bibliotecas da USP, realizamos ações em parceria com docentes da ECA nos cursos de graduação em Biblioteconomia (2020)[13], Audiovisual (2021) e Educomunicação (2021, 2022, 2023, 2024) (Wikipédia:GLAM/Bibliotecas da USP/Atividades em sala de aula, 2023). As experiências constituem caminho gerador de reflexões, contribuindo ao estabelecimento de modos de atuar, dinamicamente revistos. De forma geral, essas iniciativas possibilitaram construir um formato de trabalho que implica o reconhecimento do escopo da disciplina de graduação (semestre ideal, objetivos) e a apresentação ao docente das possibilidades de uso da Wikipédia, dando margem ao diálogo e à definição de rumos da ação.
A partir disso, apresentamos um plano de atividades para que o docente avalie sua pertinência e sugira possíveis ajustes. Os objetivos do plano de atividades são definidos em diálogo com aquilo que se espera alcançar na formação do estudante, e os eixos pesquisar, avaliar e criar informações, assim como conhecimento aberto, são orientadores dessa definição e da proposição de ações articuladas à Wikipédia. Para cada atividade, indicamos fontes para que os estudantes possam aprofundar-se no tema e demonstramos disponibilidade em esclarecer dúvidas fora do horário de aula, de maneira presencial ou virtual. Além disso, é criada uma página da atividade na Wikipédia incluindo sua descrição detalhada, bibliografia, guias e slides utilizados em aula; o monitoramento das edições feitas pelos estudantes ocorre via Program & Events Dashboard (Dashboard, [2023]), recurso que auxilia nos programas educacionais e eventos em ambiente wiki[14].
Cabe ao docente avaliar a pertinência da proposta e sugerir ajustes, fazer a curadoria dos artigos da Wikipédia que serão utilizados em práticas de leitura, escrita e delimitar as possibilidades de atuação – criar artigos, trabalhar em artigos existentes, avaliar conteúdos etc. –, além de participar das aulas com a bibliotecária, contribuindo à construção do significado da ação junto aos estudantes.
As práticas não recaem exclusivamente na dimensão técnica da Wikipédia, pois o objetivo não é instrumentalizar os estudantes para editar conteúdos na enciclopédia, mas utilizá-la como recurso em ações que visam a formação de sujeitos críticos e afirmativos que, por meio de práticas de pesquisa, leitura e criação de conteúdos se apropriam da informação, reconhecendo seu caráter de produção social. Nesse sentido, a Wikipédia pode ser explorada para abordar a ordem social do conhecimento, suas geografias e ausências (Burke, 2003), em perspectiva que considere o conhecimento científico como patrimônio da humanidade, o papel das universidades, da ciência e seus atores no desenvolvimento das sociedades e a urgência das garantias de direitos de acesso e participação de todos nos processos do conhecimento.
Essa experiência é indicativa de possibilidade teórico-prática para docentes e bibliotecários atuarem de maneira articulada na socialização do estudante universitário no conhecimento aberto. O valor da parceria entre biblioteca e sala de aula é ressaltado, cabendo aos bibliotecários o domínio das dimensões técnica e social da Wikipédia e dos processos de produção e circulação da informação. Atuar nessa perspectiva demanda que o profissional se aproprie da Wikipédia e se elabore como sujeito nessa comunidade de práticas, realizando edições e interagindo com a comunidade a partir dos princípios e diretrizes que regem esse circuito.
Construir uma comunidade de práticas: oficinas e eventos para a comunidade bibliotecária
Na Wikipédia em português, entre os 2.938.736 utilizadores registrados (Estatísticas, [2023]), apenas 15 identificam-se como bibliotecários, utilizando a categoria “Wikipedistas bibliotecários” em suas páginas de usuário (Categoria [...], 2013). Isso pode ser considerado um indicativo da baixa participação desses profissionais na comunidade wikipedista. Outro fator que sugere pouco envolvimento de bibliotecários em projetos Wikimedia, é a constatação de que o GLAM Bibliotecas da USP é o primeiro e único projeto GLAM-Wiki de bibliotecas documentado na página de projetos GLAM lusófonos (Wikipédia [...], 2019).
Por outro lado, há uma crescente demanda pela atuação de bibliotecários no âmbito do conhecimento aberto, incentivados por organizações como on-line Computer Library Center (OCLC), International Federation of Library Associations and Institutions (IFLA), entre outras instituições educacionais e de cultura, além do grupo internacional de wikimedistas bibliotecários e outros profissionais da informação Wikimedia and Libraries User Group (WLUG) – em português, Grupo de Usuários Wikimedia e Bibliotecas (Wikipedia [...], [2022]). Com 407 membros de diferentes regiões do mundo, esse grupo é voltado a criar um movimento de comunidades de bibliotecas (Wikimedia and Libraries User Group/Members, [2023]) que contribua para impulsionar os profissionais nesse circuito (Wikimedia [...], [2022]).
Nessa perspectiva, a partir da intenção de agregar práticas de bibliotecas nos projetos Wikimedia, o GLAM Bibliotecas da USP visa colaborações e desenvolvimento de ações de engajamento de bibliotecários no movimento Wikimedia do Brasil, tanto para ampliar a presença de acervos de instituições culturais e educacionais nos projetos Wikimedia, como para impulsionar a construção de uma comunidade de práticas no campo do conhecimento aberto. A busca por construir uma comunidade de práticas constituída por bibliotecários ocorre em ações formativas que consideram questões inerentes ao contexto das bibliotecas.
Embora esse não seja um objetivo direto de atuação do GLAM, consideramos importante desenvolver competências em nosso meio para incentivar a participação da comunidade bibliotecária no movimento Wikimedia. Assim, as atividades realizadas visam envolver a comunidade bibliotecária por meio de ações formativas descentralizadas e do compartilhamento de informações[15] (Wikipédia:GLAM/Bibliotecas da USP/Oficinas e eventos, [2023]).
Como forma de iniciar a formação e integração dos funcionários vinculados às bibliotecas da ECA e do IME, realizamos, em setembro de 2020, a oficina on-line “Introdução ao Wikidata” para as equipes compreenderem conceitos básicos dessa base de dados. Os participantes da oficina contribuíram com o levantamento de dados de pesquisadores das unidades de ensino para o posterior carregamento no Wikidata. Em iniciativa externa à USP, em março de 2021, a bibliotecária da ECA organizou, junto ao Grupo de Pesquisa em Catalogação (GPECAT), a atividade “Wikipédia para bibliotecárixs – oficina com o GEPCAT”, para apresentar a Wikipédia a partir da edição de conteúdos do campo da biblioteconomia.
Voltada às necessidades do GLAM, em maio de 2021, organizamos para os funcionários da ECA e do IME a oficina “Compreendendo a importação de dados no Wikidata via Quickstatements”, como forma de aprender sobre importação de dados, com o uso da ferramenta QuickStatments. Em outubro de 2021, a convite do WMB, realizamos uma oficina de Wikidata como um evento paralelo da WikiDataCon 2021. Todas as atividades on-line, realizadas entre 2020 e 2021, foram gravadas e disponibilizadas nos canais do YouTube das bibliotecas da ECA ou do IME e documentadas nas páginas do evento e do projeto. Em julho de 2022, organizamos um evento no escopo da campanha “#1lib1ref”, abreviatura para “one librarian, one reference” (em português, “um bibliotecário(a), um referência”), que estimula bibliotecários e demais pessoas interessadas no movimento do conhecimento aberto a adicionar referências em artigos da Wikipédia.
Nesta e nas demais ações, além de apresentarmos a forma de editar a partir do tema-foco da atividade, mostramos as possibilidades de atuação em bibliotecas e incentivamos a busca por mais informações, seja no cenário nacional, com o apoio do WMB, ou no cenário internacional, por meio de campanhas globais e apoio da Fundação Wikimedia. Estabelecemos como prática o fornecimento de informações complementares, o retorno e acompanhamento das atividades práticas realizadas em oficinas, como forma de contribuir à compreensão dos elementos básicos e estabelecer vínculos com os participantes após os eventos. Além disso, para colaborar no processo de aprendizado dos profissionais interessados nos projetos Wikimedia, criamos uma página na Wikiversidade[16] para sistematizar recursos, preferencialmente em português, sobre o uso da Wikipédia e do Wikidata (Wikimedia - oficinas realizadas pelas bibliotecas USP, [2023]).
Em dezembro de 2022, obtivemos financiamento da Fundação Wikimedia para realizar a atividade “Wikidata para bibliotecários(as): oficina de edição e visualização de dados”, com o objetivo de multiplicar saberes e ampliar a rede de bibliotecários wikimedistas no Brasil. Esse evento contou com a participação de 27 bibliotecários de diferentes instituições e, como um resultado importante da avaliação dessa oficina, destacamos o interesse de alguns profissionais em estabelecer parceria com o WMB para a criação de um projeto GLAM, sendo que um deles efetuou contato.
Acerca do engajamento em edições e projetos, torna-se desafiador o envolvimento contínuo de profissionais que assumem diversas responsabilidades em suas áreas de atuação e sofrem com escassez de recursos, uma vez que bibliotecários brasileiros – principalmente os vinculados às bibliotecas públicas e escolares – trabalham com equipe reduzida e pouco incentivo à formação continuada (Carrança, 2022; Queiroz, 2019). Portanto, a atuação dos bibliotecários como editores de projetos Wikimedia depende, também, da realidade local e institucional em que está inserido.
Nossa experiência com a organização de eventos proporcionou um alinhamento de expectativas a respeito da quantidade de edições durante e após as oficinas. Consideramos impraticável planejar metas altas em quantidade de edições ou esperar editores ativos após uma única participação em oficinas de edição. No entanto, mesmo com participação sazonal posterior aos eventos ou um pequeno número de edições em atividades práticas, entendemos que alcançamos metas e contribuições significativas com o compartilhamento de conhecimentos e nos posicionamos como atores de um processo de construção de comunidade.
Por fim, ressaltamos que a retroalimentação de informações entre as idealizadoras do GLAM impulsionou a iniciativa e é fator relevante para sua viabilização e permanência de ambas nas atividades desempenhadas. Engajar mais profissionais por meio de práticas colaborativas de aprendizado e atuação pode ser ação estratégica na promoção de interrelações entre instituições de educação e cultura, bibliotecários e os projetos Wikimedia.
Limitações e elementos para a construção de caminhos
A frase “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar” (Machado Ruiz, 2018, tradução nossa[17]) sintetiza nossa atuação no GLAM Bibliotecas da USP, criado em um percurso sem definições explícitas sobre como seria a empreitada.
Em termos quantitativos, o projeto pode ser sintetizado nos seguintes números, que compreendem o início do GLAM até meados de 2024:
- 2.476 itens cadastrados no Wikidata;
- Seis atividades em parceria com docentes;
- Sete oficinas organizadas para bibliotecários;
- Oito participações em eventos;
- Uma página na Wikiversidade com guias e tutoriais sobre Wikipédia e Wikidata;
- 22 artigos sobre docentes editados na Wikipédia;
- Quatro publicações sobre ações desenvolvidas.
Por detrás desses dados, há uma trama de ações na qual buscamos identificar limitações e elementos viabilizadores da iniciativa e contribuir à prospecção de caminhos às bibliotecas da USP e bibliotecas em geral. A limitação de equipe marca a iniciativa que, no âmbito da ECA e do IME, é sustentada pelas autoras deste texto, que desenvolvem ações conforme possibilidades em meio às diversas demandas de trabalho. A atitude colaborativa, com dinâmicas de trabalho em rede para propor e planejar ações, aprender e partilhar informações, é elemento viabilizador do projeto.
Embora os projetos Wikimedia possuam extensa documentação e uma comunidade de práticas que favorecem o aprendizado, há um desafio de comunicação inscrito na necessidade de domínio do idioma inglês para explorar conteúdos e dialogar com essa comunidade global. A falta desse domínio constitui barreira, sobretudo ao desenvolvimento de ações com projetos que não são linguisticamente localizados, caso do Wikidata. A questão reforça a importância da articulação a uma comunidade de práticas falante do português com dinâmicas facilitadoras de aprendizado, da documentação de processos e da constituição de uma comunidade bibliotecária, articulada em discussões sobre relações entre bibliotecas e projetos Wikimedia.
O desenvolvimento de ações com projetos Wikimedia pode requerer conhecimento de tecnologias de informação além do domínio do bibliotecário. No nosso projeto, a dificuldade em explorar possibilidades de visualização dos dados inseridos no Wikidata é indicativa desse limite, ainda não ultrapassado.
Desde o início do projeto, objetivamos nos apropriar do contexto Wikimedia, assim buscamos, junto à equipe do WMB, parceria que contribuísse ao desenvolvimento de nossa autonomia nesse circuito sociotécnico. Nesse sentido, construímos um caminho de inserção na comunidade wikimedista, por meio do diálogo com seus membros e estudo de diretrizes sobre os projetos, extrapolando o domínio de relação exclusiva com o WMB. Abertura ao aprendizado e autonomia constituíram elementos-chave do percurso que, ao revelarem sua potência, também permitem identificar a escassez de tempo para o aprendizado e a execução de ações como uma limitação. O tempo é um elemento essencial ao desenvolvimento e continuidade do GLAM Bibliotecas da USP, e identificamos a necessidade do tempo tanto para desenvolver ações quanto para o aprendizado, dada a necessidade de apropriação dos projetos para planejar e desempenhar tarefas.
Em grande medida, as ações desenvolvidas nas bibliotecas da ECA e do IME são pautadas no protagonismo profissional que, embora gerador, por si só não sustenta ações no longo prazo. A garantia do desenvolvimento e avaliação das ações independentemente de determinados sujeitos e disposições pessoais demanda que o protagonismo profissional se vincule à vontade institucional, criando condições à elevação da iniciativa ao nível de projeto institucionalizado, com garantias ao seu fomento.
Nessa perspectiva, mobilizar a vontade institucional por meio da comunicação de ações e resultados a interlocutores estratégicos dentro da universidade, apresentando resultados, esforço e tempo envolvidos na iniciativa, é elemento essencial para conferir legitimidade ao trabalho e garantir seu desenvolvimento como projeto institucionalizado, com força de continuidade que se sobrepõe a possíveis e prováveis interrupções decorrentes de alterações na gestão das bibliotecas, nas unidades de ensino e nas equipes de trabalho.
Considerações finais
O GLAM Bibliotecas da USP é uma experiência situada em bibliotecas universitárias e seus encaminhamentos consideram esse território, caracterizado pela preservação e comunicação da memória científico-cultural, em particular aquela constituída pela comunidade acadêmica da USP. Essa especificidade é orientadora de nossas ações, que tomam os projetos Wikimedia como esfera digital para a prática dos conceitos de ciência e conhecimento abertos em diálogo com questões inerentes às bibliotecas da USP.
Neste relato, apresentamos essa iniciativa, que surgiu em 2020, salientando distintos eixos de atuação e elementos limitadores e viabilizadores para contribuir à prospecção de caminhos ao projeto e, de modo mais amplo, para a discussão sobre iniciativas de bibliotecas com projetos Wikimedia.
Reconhecemos que as bibliotecas brasileiras e as bibliotecas da USP enfrentam uma série de questões mais amplas, que fogem ao escopo deste texto, e configuram desafios à manutenção e desenvolvimento dessas instituições. No entanto, ao sintetizar a primeira iniciativa GLAM-wiki de bibliotecas brasileiras, a partir da nossa experiência, buscamos prover elementos para novas incursões sobre interrelações entre bibliotecas e projetos Wikimedia, considerando os ideais democráticos de garantia dos direitos de acesso e uso de informações que animam bibliotecas e tais projetos. A experiência evidencia diferentes possibilidades para que bibliotecários atuem com projetos Wikimedia em torno da organização da informação e em ações educativas.
Contudo, ressaltamos que o potencial a ser explorado por bibliotecários nos projetos Wikimedia ultrapassa a inserção de conteúdos e diz respeito à sua participação na delimitação desse circuito sociotécnico. Nessa perspectiva, a constituição de uma comunidade de práticas com bibliotecários brasileiros engajados em discutir esse universo, suas potencialidades e limitações, a partir do contexto das bibliotecas e do saber especializado da Biblioteconomia, é condição importante para o amadurecimento de abordagens e atuação.
Além disso, se nossa experiência destaca o valor da atuação do bibliotecário para gerar ações, ela também revela a importância de que iniciativas de bibliotecas sejam fomentadas institucionalmente, o que implica, entre outros fatores, estimular o aprimoramento de seus profissionais, evitando a perpetuação de esquemas de atuação datados que colocam em risco a manutenção da relevância das bibliotecas face às urgências que marcam o quadro informacional contemporâneo.
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- ↑ Conhecimento aberto e conhecimento livre são termos equivalentes, conforme definição da Open Knowledge Foundation (Open Knowledge Foundation, [202-?], tradução nossa): “O conhecimento é aberto se qualquer pessoa tiver liberdade para acessá-lo, utilizá-lo, modificá-lo, e compartilhá-lo – estando sujeito, no máximo, a medidas que preservem a proveniência e abertura. Este significado essencial de ‘aberto’ está alinhado à definição de código aberto e é sinônimo de ‘livre’ conforme apresentado nas definições de software livre e de obras culturais livres”. Neste texto, empregamos o termo “conhecimento aberto” em diálogo com a ocorrência deste em materiais produzidos pela Unesco (Swan, 2016).
- ↑ Os projetos Wikimedia são: MediaWiki, Meta-Wiki, Wikilivros, Wikidata, Wikimedia Commons, Wikinotícias, Wikiquote, Wikipédia, Wikisource, Wikispecies, Wikcionário, Wikiversidade, Wikifunctions e Wikivoyage (Lista [...], 2023).
- ↑ GLAM é sigla para Galleries, Libraries, Archives & Museums; em português: Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus. Iniciativas GLAM-wiki constituem modalidade dedicada à melhoria da cobertura dos projetos Wikimedia por meio de parcerias de grupos Wikimedia com instituições do segmento GLAM.
- ↑ A página do GLAM Bibliotecas da USP é: https://w.wiki/dbY. Nela, é possível acessar informações sobre as diferentes ações realizadas no escopo deste projeto.
- ↑ Após aprovação como Capítulo Wikimedia (organização independente e sem fins lucrativos dedicada a apoiar a Wikipédia), o Wiki Movimento Brasil passou a se chamar Wikimedia Brasil, mantendo-se a sigla.
- ↑ Sigla para o termo em inglês Machine Readable Cataloging (em português, Catalogação Legível por Máquinas), acrescida do número 21 referente à versão. O formato MARC é “um conjunto de códigos e designações de conteúdos definido para codificar registros que serão interpretados por máquina. Sua principal finalidade é possibilitar o intercâmbio de dados, ou seja, importar dados de diferentes instituições ou exportar dados de sua instituição para outros sistemas ou redes de bibliotecas através de programas de computador desenvolvidos especificamente para isto” (Maranhão; Mendonça, 2017).
- ↑ O perfil da ECA está disponível em: https://scholia.toolforge.org/organization/Q10274592; e o perfil do IME ver em: https://scholia.toolforge.org/organization/Q10302895.
- ↑ “Infocaixas”, nos artigos da Wikipédia, são quadros destacados de informações com pontos importantes e de fácil leitura.
- ↑ Controle de autoridade é uma predefinição da Wikipédia para artigos sobre pessoas, que apresenta informações dos identificadores únicos e ajudam com a desambiguação.
- ↑ Para entender mais sobre os critérios e avaliação dos artigos destacados na Wikipédia ver em: https://w.wiki/6SZN.
- ↑ Para saber mais sobre práticas de edição de artigos na iniciativa GLAM Bibliotecas da USP, ver Viana e Macambyra (2022).
- ↑ Os REA são “materiais de aprendizagem, ensino e pesquisa em qualquer formato e mídia que residam em domínio público ou estejam sob direitos autorais que tenham sido liberados sob uma licença aberta, que permita acesso, reutilização, reaproveitamento, adaptação e redistribuição sem custo por terceiros” (Unesco, 2019, tradução nossa).
- ↑ Para saber mais sobre esas experiência, veja Viana, Pieruccini e Madruga (2021).
- ↑ Na página do GLAM Bibliotecas da USP é possível acessar a lista dos eventos realizados, ver em: https://w.wiki/AvxT.
- ↑ As atividades realizadas e seus respectivos resultados podem ser verificados na campanha “Bibliotecas da USP”, disponível em: https://outreachdashboard.wmflabs.org/campaigns/bibliotecas_da_usp/programs.
- ↑ A página criada na Wikiversidade está disponível em: https://w.wiki/Avd9.
- ↑ “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.