A Wikimedia no Brasil/XI
A iniciativa GLAM-wiki do Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo
mauricio candido da silva
Introdução
Neste capítulo, é apresentada e analisada a experiência de um museu universitário em publicar gratuitamente dados e imagens do seu acervo, com algumas centenas de exemplares biológicos, para uma comunidade global. O relato busca explicitar a experiência GLAM-wiki – iniciativa de difusão digital colaborativa de acervos e de conhecimentos sob a guarda de instituições culturais – do Museu de Anatomia Veterinária Prof. Dr. Plínio Pinto e Silva (MAV) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo em organizar, sistematizar e disponibilizar imagens de alta resolução das suas coleções no repositório da Wikimedia Commons. O processo de trabalho aqui detalhado apresenta os resultados obtidos, considerados de alto índice, com milhares de visualizações diariamente e com uma potencialidade que superou as expectativas, que subestimaram o real interesse público, inicialmente restrito ao mesmo parâmetro consolidado de visitantes presenciais do museu (por volta de 1,5 mil por mês em 2016), assim como a expectativa que o interesse decresceria juntamente com o número de visualizações com o passar do tempo. Após oito anos do começo da experiência da iniciativa GLAM-wiki, a análise dos resultados não corrobora as hipóteses iniciais, haja vista que o interesse público pelo repositório digital aumentou e estabilizou em um alto patamar de acessos e visualizações. Buscamos aqui analisar e compreender os motivos desse fenômeno.
Levando em conta que o intuito basal da parceria era relicenciar e publicar no repositório Wikimedia Commons as imagens e dados produzidos a partir do acervo do museu, o presente capítulo busca relatar e refletir sobre o alcance dos meios digitais nos processos de comunicação, com ênfase aos museus universitários, cuja missão está baseada na pesquisa, na educação, na extensão cultural e na inclusão. Aqui também são apresentados os desafios para a implantação dessa iniciativa, com o objetivo de contribuir para o debate sobre o acesso de informações e a divulgação científica, com base em plataformas digitais totalmente acessíveis. A partir da análise das potencialidades e limites do relicenciamento e publicação das coleções do MAV no repositório do Wikimedia Commons, surge um conjunto de indagações, sendo uma das principais a que questiona em que medida o aumento de usuários remotos significa que o museu é acessível.
Com o objetivo de narrar essa experiência museal de forma analítica, a estrutura textual deste capítulo está dividida em cinco seções, além desta introdução, sendo elas as seguintes: “Histórico e descrição do MAV”, na qual se apresenta a formação, as características e o perfil atual desse museu; “Programas do Sistema de Ações Integradas do MAV”, responsável pela sua gestão e o perfil das estratégias responsáveis pela salvaguarda e comunicação museal e ancoragem administrativa da parceria; “Os públicos do MAV”, no qual apresenta o perfil dos visitantes do museu, com ênfase à sua vocação educativa e da constituição dos públicos híbridos, constituídos pela fusão entre os presenciais e os virtuais; “Parceria MAV e Wiki Movimento Brasil”, responsável pelo detalhamento da iniciativa, incluindo suas diferentes etapas de implantação; e, por último, as “Considerações finais”, que busca apresentar os resultados da análise, apontando os pontos fortes, os desafios e as questões que foram evidenciadas a partir de tal experiência.
O presente capítulo não se propõe a responder as indagações e nem a fazer um debate conceitual a partir de um referencial bibliográfico. A ideia central é apresentar os detalhes de uma experiência GLAM-wiki em um museu universitário que não seja na forma de um manual a ser seguido, mas sim como uma contribuição para a reflexão que exponha, por um lado, os seus desafios e, por outro, suas potencialidades e como a iniciativa influenciou os seus programas de pesquisa, educação, de extensão e inclusão. A presente experiência nos leva a questionar sobre qual é o impacto dessa iniciativa para esse tipo de museu, que disponibiliza seu acervo no repositório do Wikimedia Commons, na reconfiguração de processos metodológicos de comunicação museal previamente estabelecidos, tais como exposições presenciais, virtuais, publicações, vídeos educativos e redes sociais. Em síntese, qual é a sua contribuição para a “práxis museal”? (Leon, 2000). A partir desse contexto, como parte das conclusões dos estudos decorrentes desta análise, busca-se aqui compartilhar a possibilidade de aprimorar a percepção da complexa heterogeneidade que constitui os diferentes públicos de um museu com esse tipo de iniciativa, por meio da identificação da origem do público híbrido na descrição da configuração de visitantes analógicos-digitais, que consultam o acervo remotamente e visitam o espaço expositivo e os que visitam os espaços expositivos e consultam as coleções de forma remota. Trata-se de um novo perfil de público do MAV reconhecido a partir dessa iniciativa.
Na base de todas essas discussões, está a busca de ações contemporâneas, estruturadas em propostas de uma comunicação museal acessível e inclusiva, em diálogo com as legítimas demandas sociais. A comunidade de um museu universitário não deve se restringir ao local, mas ao global, porque as questões ambientais, democráticas, relativas à ciência, à saúde e à alimentação interessam a todas as pessoas. Os museus devem buscar estratégias para exercerem um papel ativo no desenvolvimento histórico, cultural, artístico e científico no mundo atual. Com esse objetivo, estimulamos aqui a reflexão, a partir da proposição de que a wiki é uma ferramenta que não só auxilia, mas também pode reconfigurar os processos de mediação entre o museu e os seus públicos, no caso do MAV, no âmbito da pesquisa, da educação, da extensão universitária e da inclusão. Não é a solução definitiva para a interface do museu com a sociedade, muito pelo contrário, temos que saber qual é a sua precisão dentro do complexo museal. No entanto, temos avanços significativos e buscamos, com o compartilhamento da análise da iniciativa GLAM-wiki do Museu de Anatomia Veterinária da FMVZ-USP, apresentar e debater as potencialidades e os limites da experiência na configuração de um acervo universitário com milhares de visualizações.
Histórico e descrição do MAV
O MAV é um serviço técnico da centenária Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, situado na Cidade Universitária, São Paulo, que teve a sua primeira turma de alunos iniciada em 1919. Nos dias atuais, o museu está localizado dentro da faculdade, ocupa uma área física de 500 m2 e possui uma equipe de cinco funcionários e nove bolsistas[1]. Do ponto de vista administrativo, o museu é um órgão de integração da FMVZ e, juntamente com a Biblioteca e o Hospital Veterinário (Hovet), formam os serviços de extensão institucional, previstos em regimento interno. O MAV foi oficialmente criado em 1984, mas mantém coleções de ensino e atendimento de grupos de visitas que remontam à década de 1940.
O número atual de objetos que compõem o seu acervo é de aproximadamente mil exemplares, que representam 261 espécies do reino animal. O conjunto de suas coleções abrangem exemplares taxidermizados, esqueletos macerados, diversos órgãos fixados em formol e em glicerina, preparados por técnicas de corrosão e de Mulligan, injeção de vinilite, incluindo membros anatômicos desidratados, diafanizados, conservados com terebintina e diversos modelos didáticos, em diferentes escalas de tamanho – incluindo humanos. Boa parte desse acervo é formada por peças oriundas das aulas de anatomia, produzidas por alunos e por diferentes técnicos que atuaram na instituição, doadas ao museu ao longo de sua história. O acervo tem origens distintas: há peças que vieram do Hospital Veterinário a partir de óbitos de animais domésticos; outras foram doadas por diferentes zoológicos, como os casos dos animais selvagens; mais recentemente, como resultados de pesquisas em parcerias com concessionárias de rodovias, foram adicionados exemplares de animais silvestres atropelados. Além desses, há também aqueles que foram obtidos por meio de compras ou contratações de serviços para confecções especializadas de modelos didáticos (Figura 1).
A exposição de longa duração do MAV foi inaugurada em 2010 com o título “Dimensões do corpo: da anatomia à microscopia” e apresenta o rico e diversificado acervo do museu em um circuito expositivo de visita organizado em módulos temáticos. O seu formato e conteúdo informativo são constantemente atualizados por meio de editais oferecidos em boa parte pelas pró-reitorias da USP. A narrativa educativa da exposição é composta por legendas explicativas, painéis informativos e uma linguagem expográfica didática, associados a um conjunto diversificado de recursos expositivos.
Alguns dos destaques do acervo apresentados aos visitantes são os esqueletos inteiros ou parciais de animais com histórico reconhecido pela população paulista, como a rinoceronte Cacareco, que recebeu mais de 100 mil votos nas eleições municipais de 1959; a orca Nandu, que atuou no Orca Show do parque aquático do Playcenter na década de 1980; e a hipopótamo Tetéia, que viveu por quase 50 anos no Parque Zoológico de São Paulo, até 2011.
Cerca de 95% do acervo está acessível para observação dos visitantes, o que corresponde a mais de 800 exemplares, sendo esta estruturada como uma grande reserva técnica visitável, com um percurso espacial linear, que inclui praticamente toda a diversidade de seu acervo, apresentada em cinco módulos temáticos (Figura 2), a saber: “A FMVZ USP e a sua história”; “O que é anatomia”; “Origem e diversidade das espécies”; “Anatomia dos órgãos e sistemas”; e “Osteologia e morfologia”.
A exposição é aberta a todos os públicos, sem restrições de idade, e possui uma política de cobrança e isenções de ingressos[2].
FIGURA 1 Conjunto de cinco exemplares[3] pertencentes ao acervo do MAV, representando diferentes técnicas de preparação: 1) desidratação, 2) taxidermia, 3) glicerinação, 4) maceração e 5) modelo didático
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Fonte: Category […] (2023).
FIGURA 2 Planta baixa da exposição de longa duração “Dimensões do corpo: da anatomia à microscopia”
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Fonte: arquivo do Museu de Anatomia Veterinária da FMVZ USP. Designer: Danilo Leite.
Trata-se de uma exposição de longa duração e não de uma mostra permanente, ou seja, além de possuir um caráter dinâmico, o seu conteúdo informativo e a sua forma de apresentação são periodicamente aperfeiçoados, sem modificações substanciais em sua narrativa central – do seu projeto curatorial. As perspectivas gerais para o MAV são complexas, promissoras e desafiadoras: transposição de um Museu de Anatomia Veterinária para um “Museu de Medicina Veterinária” – incluindo os diversos campos dessa ampla área do conhecimento. De forma geral e bastante resumida, a medicina veterinária possui dois amplos enfoques: 1) em nível individual, a espécie em si, suas características anatômicas, até mesmo patológicas; 2) em nível populacional, preventiva, reprodução, produção, criação e nutrição animal. Do ponto de vista social, é possível falar de comunidades, onde há a interação de humanos com os demais animais, incluindo aí a noção de saúde única (Tripartite [...], 2021)[4].
Programas do Sistema de Ações Integradas do MAV
Para a organização do planejamento e das estratégias do museu, as ações desenvolvidas, a curto e a médio prazo, devem objetivamente servir ao planejamento de longo prazo, com caráter de maior consistência, durabilidade e definição do museu, incluindo a transformação do seu porte – conceitual e físico; trata-se de uma instituição em constante transformação. Essa caracterização é fundamental na modelização do método empregado e na definição de um conjunto de cinco Programas de Trabalho, sustentáculo do Sistema de Ações do MAV, base estrutural de todo o nosso planejamento.
Levando em conta o histórico aqui apresentado e as perspectivas futuras, a estratégia de trabalho implantada adquire um caráter transitório, dinamizando o museu e o preparando para as desejadas transformações. O planejamento das ações internas é constantemente atualizado por meio de reuniões frequentes do staff da FMVZ USP e, em um cenário institucional ideal, considera a possibilidade de um novo edifício, com novas e modernas instalações físicas, tais como laboratórios de preparação e conservação de exemplares da coleção, reservas técnicas, salas expositivas especialmente desenhadas, recursos expográficos atualizados, acessibilidade total, espaços educativos e recursos humanos capacitados para o pleno desempenho de suas atividades. Em função disso, o Sistema de Ações do MAV é possuidor de um caráter tanto experimental para o presente momento quanto basal para o futuro. Disso resulta uma metodologia de planejamento e ações dentro de Programas de Trabalho modulares, permitindo a inclusão ou remoção de novas ações sem a necessidade da completa mudança do sistema de trabalho, que adotou a exposição como pilar central de seu funcionamento, ou seja, o Programa de Comunicação como núcleo central de todas as ações e dos demais programas. Sua definição é de um sistema de interrelação entre Programas de Trabalho que compõem a rede de ações do MAV. Trata-se de uma metodologia que visa garantir a conexão de todas as ações responsáveis pela sua missão, qual seja: “um Museu universitário especializado na coleta, salvaguarda, pesquisa, educação, extensão cultural e inclusão a partir de suas coleções”[5]. Por sua vez, os Programas de Trabalho são definidos como módulos unitários contentores de ações correlacionadas. O objetivo dessa estratégia é gerar a melhor funcionalidade de uma estrutura sistêmica, organizar os projetos em andamento, mas com a abertura para introdução de novas ações.
Essa estratégia tem sido desenvolvida desde 2012 e é a base metodológica de trabalho, cujos princípios são norteados pela orientação sistêmica das ações programáticas de um museu universitário, pertencente a uma unidade de ensino, pesquisa e extensão, orientada pela formação de coleções, salvaguarda, pesquisa e comunicação, mas, sobretudo, por estratégias focadas na preservação e divulgação de referenciais simbólicos e materiais da medicina veterinária, como área de saber para toda a sociedade. Em síntese, a musealização da medicina veterinária, representada pelo diagrama a seguir (Figura 3).
FIGURA 3 Sistema de ações do MAV (musealização da medicina veterinária), centrado na exposição de longa duração, destacando os cinco Programas de Trabalho
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Fonte: elaborada pelo autor, criado em 2012 e atualizado em 2023.
É possível considerar que essa estratégia de trabalho, estruturada por programas modulares, tem se mostrado apropriada para a realidade do MAV da FMVZ USP, com indicadores satisfatórios até o presente momento. Como resultado de um diagnóstico e de uma visão sistêmica das ações desenvolvidas no museu, os Programas de Trabalho organizam em grupos equivalentes as diferentes estratégias, orientando os projetos presentes e as perspectivas futuras. Essa estrutura organizacional ensejou, potencializou e viabilizou a parceria com a Wikimedia Brasil, presente diretamente em quatro Programas do Sistema de Ações do MAV: 1) Comunicação (digitalização); 2) Acervo (base de dados); 3) Inovação (divulgação científica); 4) Educativo (produção de material didático). Os termos da parceria estão publicados no site do Museu[6], que, em síntese, estabelecem que o MAV disponibilize um conjunto específico de imagens selecionadas para relicenciamento no Wikimedia Commons, publicadas sob a seguinte licença livre: Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International, de acordo com o template MAV-FMVZ USP-license. Além disso, estabelece que a instituição é a única proprietária dos direitos exclusivos do autor de todas as imagens do MAV no Wikimedia Commons e concede a qualquer pessoa o direito de usar esse trabalho, mesmo em um produto comercial ou não, e para modificá-lo de acordo com as suas necessidades, desde que respeitem os termos da licença e quaisquer outras leis aplicáveis. O detentor dos direitos autorais sempre mantém a propriedade dos direitos autorais, bem como o direito a ser atribuído em conformidade com a licença escolhida. A parceria também estabelece que as modificações que outras pessoas possam fazer ao trabalho não podem ser alegadas terem sido feitas pelo titular dos direitos autorais. O conteúdo pode ou não ser mantido permanentemente em um projeto Wikimedia.
Os resultados da implantação desse sistema de trabalho levam em consideração o papel central da exposição de longa duração, ou melhor, da sua comunicação museal, mensurados por indicadores quantitativos de cada um dos Programas de Trabalho, cuja maior expressão é o aumento do volume de visitantes recebido pelo museu nesses últimos anos. Isso é devido não só ao papel central desempenhado pela exposição aberta a visitas, mas também por conta da assimilação do MAV como um serviço de extensão universitária, dada sua importância na socialização do conhecimento científico. Interpretamos isso como sinal de maior penetração do MAV no tecido social. Sendo assim, a sua função de pesquisa, educação e extensão passou a ser reforçada por essa lógica como um dos fundamentos que justifica sua existência. Essa característica consolidou suas raízes originais, antes mesmo da sua oficialização em 1984, cuja função principal era de apoio ao ensino e pesquisa desenvolvidos no cotidiano da FMVZ da USP. Essa definição é relevante na medida em que auxilia na classificação do seu plano de ação na atualidade. Mais adiante, serão tratados os impactos da digitalização e do compartilhamento das imagens do acervo do museu como resultado da parceria com o Wiki Movimento Brasil (WMB)[7], dentro do Sistema de Ações Integradas do MAV, como resultado impulsionador da dinâmica metodológica. Interessante notar e frisar neste capítulo que essa parceria não foi aleatória, mas fruto de um planejamento já existente, que fortaleceu a musculatura do sistema e, consequentemente, do próprio museu.
Os públicos do MAV
Atualmente, o MAV possui duas categorias gerais de público: virtuais e presenciais, estes compostos pelos visitantes espontâneos e pelos grupos organizados. Por sua vez, os virtuais correspondem aos internautas que interagem por meio do site, das mídias sociais e os que utilizam o repositório de dados do museu que estão no Wikimedia Commons. Trata-se de uma categorização técnico-analítica, uma vez que no dia a dia uma pessoa pode se transmutar em diferentes públicos ao percorrer as diversas categorias de interfaces com o museu – por exemplo: iniciar com uma pesquisa na base de dados, consultar o site, dialogar pela rede social, agendar uma visita por meio de mensagem eletrônica e visitar a exposição presencialmente. De toda forma, essa categorização é importante para uma análise mais ampla da parceria entre o MAV e a Wikipédia Brasil. Trataremos inicialmente dos públicos presenciais e mais adiante dos virtuais, com o intuito de demonstrar que não há conflito, mas sim uma interação entre eles, visando demonstrar que o público contemporâneo é híbrido (Garcia Canclino, 2015). Nessa perspectiva, o público do museu assume uma natureza híbrida, englobando tanto a presença física como a virtual, ou então a virtualidade integrada à presença física. Ao desenvolver um programa de comunicação museológica, torna-se relevante considerar essa dualidade. Embora procederemos com uma análise distinta a seguir, esse aspecto será retomado posteriormente.
O público espontâneo do MAV corresponde a cerca de 25% do total de seus visitantes, composto por indivíduos ou pequenos grupos de até dez pessoas. Em geral, são estudantes de diferentes escolaridades (não há restrições), pesquisadores de diferentes áreas – com destaque para os médicos veterinários, museólogos, pedagogos e biólogos –, grupos de amigos, familiares, turistas, curiosos e interessados em geral, que buscam lazer e informações gerais sobre o museu. Ainda que não possuamos um estudo completo do seu perfil, notamos, por meio de estudos pontuais, que se trata de um público bem heterogêneo, que estabelece e inclusive, relações com base em memórias afetivas.
O MAV possui o Programa Educativo, que desenvolve atividades especialmente voltadas aos grupos organizados – escolares, em sua grande maioria –, em forma de monitorias pelo circuito expositivo, com um sistema eletrônico exclusivo para o agendamento de visitas, com ou sem monitorias. Por compor a grande maioria dos nossos visitantes, concentramos nossos esforços no seu atendimento e no estudo do seu perfil. Em 2019, antes da pandemia, um total de 13.552 visitantes conheceram presencialmente a exposição de longa duração, um aumento de cerca de 5% em relação a 2018, sendo que esse foi o nosso auge, desde que o programa foi implantado. Naquele ano, 72% das visitas foram compostas por grupos escolares e 28% por público espontâneo, o que correspondeu a 254 escolas atendidas. Desde 2010, com a inauguração da nova exposição e com a implantação do Programa de Comunicação, o aumento no número de visitantes tornou-se uma tendência em processo de crescimento. No início das medições dessa série, em 2010, recebemos 3.460 visitantes. Na Figura 4 está retratada a evolução do público no MAV ao longo desse período.
No presente estudo, torna-se importante notar a “coincidência” do maior crescimento do número de visitantes com o início do projeto em parceria entre o MAV e a Wikimedia Brasil, o que reforça a nossa percepção do público híbrido, ou seja, o crescimento do público presencial se deu conjuntamente com o público virtual, o que resulta em um diverso, mas único conjunto. No entanto, trata-se de um mesmo público, uma vez que não se opõem, mas se complementam e se hibridizam na apropriação do museu, por caminhos diversos. A análise desse dado também será retomada mais adiante.
Ainda sob o efeito da pandemia de covid-19, em 2022, recebemos um total de 7.057 visitantes. Esse número, consideravelmente inferior em relação ao ano anterior, deveu-se ao fato de que o MAV reabriu para grupos apenas em março de 2022. Além disso, em outubro desse mesmo ano, a instituição fechou para reforma, reabrindo apenas em março de 2023, o que gerou um impacto muito grande no número de visitas presenciais.
Com o advento da pandemia covid-19, a partir de março de 2020, os serviços culturais em geral sofreram um forte impacto em suas estruturas de funcionamento por conta da necessidade do isolamento social – na verdade, isso se aplica aos espaços públicos em geral. O campo museal teve que se adaptar a uma realidade para a qual não estava preparado, principalmente no que diz respeito aos processos de comunicação e de educação, sendo necessário incluir diferentes interfaces digitais de trabalho com o seu público, seja por meio de sites, mídias sociais, exposições virtuais e digitalização de seus acervos para consultas remotas. No caso do MAV da FMVZ USP não foi diferente, porém, com uma característica particular: já tínhamos iniciado esse processo anteriormente, em seus cinco Programas de Trabalho, o que permitiu a sua manutenção, embora com pequenos ajustes, como também a consolidação do seu Sistema de Ações Integradas. Um aspecto importante a ser ressaltado no contexto da presente análise é que a pandemia de covid-19 levou a uma aceleração do processo de virtualização do público e o uso de ferramentas wiki ajudou o museu a continuar divulgando seu acervo durante a necessidade do distanciamento social como medida de salvaguarda de vidas humanas.
FIGURA 4 Gráfico com a evolução do número total de visitantes no período de 2008 a 2022
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Fonte: arquivo criado por Danielle Conceição Santos para o MAV.
FIGURA 5 Gráfico com a evolução do número total de visitantes e comparativo entre grupos organizados e visitantes espontâneos no período de 2012 a 2022[8]
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Fonte: arquivo criado por Danielle Conceição Santos para o MAV.
Após dez anos de existência, o método de trabalho se mantém como a nossa estrutura central de planejamento de ações, tendo a parceria com o WMB como um dos nossos projetos mais relevantes, tanto no cumprimento de metas de serviços oferecidos como no apoio para que o Programa de Comunicação fosse mantido como a principal estrutura desse sistema, para que os seus objetivos como espaço de pesquisa, educação, extensão universitária e inclusão sejam cumpridos.
Parceria MAV e WMB
O MAV foi um dos primeiros museus no Brasil a disponibilizar imagens em alta resolução de quase todo o seu acervo em um repositório aberto na internet para toda a sociedade. A parceria do museu com o WMB trouxe importantes resultados institucionais e profissionais aos envolvidos, tomando por base as metas atingidas por meio desse processo e o seu amplo engajamento social, em escala mundial. Com isso, temos cumprido um dos objetivos centrais do museu: divulgar de forma ampla e irrestrita informações científicas sobre a medicina veterinária, associadas aos nomes do museu, da faculdade e da universidade, pública, gratuita e de excelência.
Após sete anos de existência, essa parceria nos trouxe o amadurecimento necessário para entender que o público presencial não é substituído pelo público virtual, pelo contrário, o segundo tem reforçado o primeiro, e vice-versa, ou melhor dizendo, os dois públicos, na verdade, formam um único, no que aqui assimilamos como o público híbrido do MAV, como tem sido possível concluir a partir da análise desse processo de trabalho.
Em agosto de 2016, por meio da parceria institucionalmente firmada com o WMB, o MAV passou a disponibilizar imagens de seu acervo na Wikimedia Commons, publicadas sob licença livre. Isso foi possível graças aos processos já existentes de colaboração de pesquisa e extensão universitária do museu com o Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Cepid NeuroMat), que foi fundamental na mediação entre as duas instituições. Trata-se de uma ação em rede envolvendo o MAV, pesquisadores dos Institutos de Biociências e Matemática e Estatística da USP. Da perspectiva do museu, o processo foi construído inicialmente como uma estratégia institucional de divulgação científica da medicina veterinária dentro do Programa de Comunicação Museológica do MAV, por meio da adoção de uma ferramenta para a disponibilização de imagens de alta resolução e conteúdos informativos atualizados.
Cabe mencionar que um dos grandes desafios do projeto foi a sistematização das informações para uma divulgação ampla e irrestrita, que pudesse ir além dos campos especializados de atuação no campus universitário e do perfil do público do museu já consolidado até aquele momento: presencial, formado por visitantes espontâneos e por grupos organizados. O intuito da parceria era relicenciar e publicar no repositório as imagens e dados produzidos a partir do acervo da instituição. São centenas de fotografias de modelos anatômicos, esqueletos e animais preservados, com grande valor científico, pedagógico, histórico e artístico para pesquisa, educação e extensão.
A vinculação do museu ao repositório da Wikimedia Commons nos possibilitou uma comunicação científica mais abrangente e inclusiva, através da Wikipédia, uma das enciclopédias digitais mais acessadas do mundo, o que, no nosso entendimento, reforça a importância do compartilhamento de dados com fonte confiável de informação, sendo essa aqui assimilada como parte da missão de um museu universitário.
Iniciativa de difusão digital colaborativa de acervos e de conhecimentos sob a guarda de instituições culturais, a GLAM-wiki trata-se de uma estratégia voltada para a melhoria da cobertura dos projetos Wikimedia (Peschanski, 2021). GLAM é um acrônimo em inglês para Galleries, Libraries, Archives e Museums (em português, Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus) e se refere a ações desses espaços de salvaguarda, comunicação e educação que preservam bens culturais de interesse público e objetivam ampliar e qualificar o acesso ao conhecimento. O encontro GLAM-Wiki com o MAV teve início como um desdobramento da exposição “Por dentro do cérebro”, um projeto que contou com apoio da Pró-reitoria de Cultura e Extensão da USP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), fruto da parceria entre o Laboratório de Ciência da Cognição (LabCog) do Instituto de Biociências (IB), o Cepid NeuroMat do Instituto de Matemática e Estatística (IME) e o MAV, todos pertencentes à USP. Trata-se de módulo temático inserido na exposição de longa duração do museu, que propõe pensar e comunicar a lógica da vida aplicada à medicina veterinária, sob a perspectiva de compreender o funcionamento do sistema nervoso central (Figura 6). Assim, sob o olhar da neurociência, se demonstra a ligação entre os dois módulos expositivos vizinhos, “Órgãos e sistemas” e “Estruturas ósseas”, optando-se por abordar a relação entre massa do encéfalo e massa corporal, assim como a forma do encéfalo ao longo da seleção natural das espécies. Esse é um tema de grande relevância para estudantes do ensino médio e superior, assim como para o público em geral, inserido entre centenas de exemplares biológicos existentes no circuito expositivo do MAV.
A motivação para o início da parceria partiu dos editores do WMB. Na perspectiva dos diretores do museu na ocasião, a iniciativa foi entendida como uma oportunidade para aumentar a visibilidade do acervo e participar de um movimento global de instituições culturais atuando na difusão digital colaborativa, algo que já era esperado pelo Sistema de Ações Integradas do MAV e que se tornou oportuno. Naquele momento, os exemplares do acervo da instituição estavam em processo de inventário, visando a construção de sua base de dados.
FIGURA 6 Módulo “Por dentro do cérebro”
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Fonte: elaborada pelo autor (2016).
Cerca de um ano antes do início da parceria, graças à colaboração do prof. dr. Wagner Souza e Silva[9], todo o acervo do museu foi fotografado, resultando nas 628 fotografias disponibilizadas na Wikimedia Commons. São imagens de altíssima qualidade que formam um precioso registro da natureza do acervo. Cabe destacar as principais potencialidades, os desafios e algumas etapas que se apresentaram para o museu a partir do desenvolvimento do projeto:
- múltiplo aproveitamento das fotografias das coleções do Museu, em função do seu alto valor de representação;
- atualização da base de dados;
- parceria oficial com o NeuroMat (IME-USP) e LabCog (IB-USP) para criação do repositório do MAV no Wikimedia Commons;
- autorização do fotógrafo (Wagner Souza e Silva) e da FMVZ da USP para disponibilização gratuita de imagens e conteúdos informativos – menos peças humanas;
- contratação de um aluno bolsista para alimentar os dados do repositório[10];
- criação dos metadados[11];
- estabelecimento de fluxo de trabalho: elaboração e encaminhamentos pela equipe do MAV de lotes de planilhas com 30 exemplares (inventário); tradução; revisão; inserção de dados no repositório; meta quinzenal para cada planilha;
- fase de testes das inserções e consultas de dados – piloto (Figura 7);
- cadastros das imagens e informações no repositório;
- grande repercussão: interna, jornais, revistas e consultas (cinco milhões de acessos já na fase inicial!) e vários prêmios recebidos (qualidade fotográfica e finalidade educativa). FIGURA 7 Suíno (Sus scrofa) – exemplar[12] do esqueleto de um suíno preparado pela técnica de maceração e em exposição no MAV[13]

Fonte: Category […] (2023).
Cabe relatar que o museu salvaguarda alguns exemplares de órgãos e peças da anatomia humana em sua coleção, sem um registro preciso de suas origens, que remontam à fase anterior da sua oficialização institucional, ocorrida em 1984. Embora a grande maioria dos artefatos tenham sido fotografada, houve uma decisão coletiva e unânime de que esses exemplares de despojos humanos não entrariam no repositório, principalmente para uso de divulgação, por questões éticas.
Inicialmente, como piloto, foram carregadas no Wikimedia Commons quatro imagens fornecidas pelo MAV. Após essa fase preliminar de testes, demos início ao fluxo de trabalho por meio de remessas de planilhas com 30 exemplares de cada vez. Logo de início, os resultados já foram surpreendentes, com milhares de acessos já nos primeiros dias, o que nos deixou empolgados, mas também um pouco preocupados, porque estávamos acostumados com um público quantitativamente menor e presencial. As hipóteses iniciais do número de visualizações igual ao número de visitas presenciais ao espaço do museu caíram rapidamente por terra. Essa abertura trouxe uma nova experiência para o Programa de Comunicação institucional, até aquele momento totalmente desconhecido; uma nova perspectiva museal foi inaugurada. Já inicialmente, algumas imagens foram premiadas pela comunidade mundial Wikipédia em função da sua grande contribuição para a divulgação científica, assim como por sua qualidade fotográfica.
As descrições das imagens (metadados) foram elaboradas pela equipe do museu, que passou a ter um bolsista do NeuroMat especialmente para dar suporte à organização das informações. A partir da promoção das ideias de “cultura científica” (Vogt, 2006) e de “rede de colaboração” (Silva, 2021), todas as imagens e informações foram disponibilizadas gratuitamente a todos interessados. Essas duas definições embasam boa parte dos esforços empreendidos na iniciativa analisada no presente capítulo, dado que a ampla publicação de imagens e seus respectivos metadados pelo MAV no Wikimedia Commons são compreendidos como pertencentes ao fenômeno museal de divulgação científica inseridos na contemporaneidade, por serem inclusivos e colaborativos; essas definições são, inclusive, totalmente alinhadas às estratégias do museu. A “cultura científica” insere a ciência na cultura e engloba a ideia de que o processo que envolve o desenvolvimento científico é um processo cultural, considerado do ponto de vista de sua produção, de sua difusão entre pares, na dinâmica social do ensino e da educação e, ainda, do ponto de vista de sua divulgação na sociedade como um todo, para o estabelecimento das relações científicas necessárias entre os cidadãos e os valores culturais de seu tempo e de sua história (Vogt, 2006, p. 25). Por sua vez, as redes colaborativas pressupõem estratégias de cooperação entre profissionais, pesquisadores e docentes que visam a promoção do trabalho coletivo e de um bem comum: o bem público. São redes nem sempre oficializadas, mas ativas no cotidiano do trabalho, plenamente reconhecidas e operantes em coleções e museus universitários, que visam a preservação, divulgação e fortalecimento do patrimônio museológico universitário[14] (Silva, 2021, p. 55).
Cabe ressaltar que essa prática já existia no MAV anteriormente ao início da parceria com a Wikimedia Brasil. Dessa forma, para a análise da iniciativa GLAM do museu, é importante a inserção de todo o processo no contexto estrutural de gestão, com base no Sistema de Ações. Desde 2012, tivemos uma série de ações voltadas, primeiramente, para o inventário das coleções do Museu e, posteriormente, para a estruturação de um banco de dados. Aliás, em consulta aos arquivos do MAV, é possível comprovar que essa sempre foi uma preocupação em gestões anteriores (Ceravolo, 1998). Em 2014, após uma grande reformulação estrutural no circuito de visitas e com a aquisição de um novo conjunto de mobiliário expositivo, o acervo passou a ter um posicionamento espacial mais estabilizado, o que nos permitiu a elaboração de um inventário completo, assim como propor e testar desenhos e modelos de fichas catalográficas. Disso resultou a definição da necessidade de fotografar cada um dos exemplares do museu para a construção de um banco de dados de imagens que pudesse ter uma multiplicidade de usos. No início de 2015, entramos em contato com o prof. dr. Wagner Souza e Silva em função da sua larga experiência em fotografar acervos de diferentes museus, que aceitou o convite de forma voluntária, a quem somos profundamente gratos como pessoa atuante na rede de colaboração. No segundo semestre de 2015, iniciamos as sessões de fotografias, cujo processo de registro durou até o primeiro semestre de 2016, incluindo aí o tratamento das imagens e o fechamento dos arquivos, em baixa e em alta resolução. O resultado desse trabalho colocou o museu em outro patamar em relação aos procedimentos de salvaguarda de suas coleções, passando a ter o registro visual de cerca de 80% do acervo do museu, que, até aquele momento, contava com um total de 792 registros realizados. Naquela fase, durante as sessões de fotografias, alguns exemplares ainda estavam guardados em caixas fora da exposição, por isso não foram fotografados.
Após uma visita ao MAV e ter contato com esse acervo visual, o prof. dr. André Frazão (coordenador do LabCog) se surpreendeu com a qualidade do material e informou o João Alexandre Peschanski (pesquisador do NeuroMat e diretor da Wikimedia no Brasil), que entrou em contato com a coordenação do MAV para propor a presente parceria. Os interesses mútuos se conciliaram, e, a partir daí, tivemos os desdobramentos deste importante projeto.
Dessa forma, o processo de criação do repositório nos motivou para a implantação do desejado banco de dados das coleções do museu, que já estava em andamento, ou seja, não foi um trabalho extra, pelo contrário, se articulou com uma demanda já prevista e em andamento pelo Sistema de Ações Integradas do MAV, mais especificamente em seu Programa de Acervo. Nesse sentido, podemos caracterizá-lo como um projeto de mutualismo dentro de uma rede de cooperações, com as várias partes envolvidas se beneficiando com os resultados. No caso específico do museu, por conta das discussões necessárias para a criação dos metadados, a estratégia foi extremamente benéfica em função das orientações geradas para a constituição de sua base de dados interna, como um espelho do repositório criado para a Wikimedia Commons.
Após aprovação dos créditos das imagens, foram definidos os metadados, sendo eles:
- créditos: fotografia – MAV da FMVZ USP; autor – Wagner Souza e Silva;
- metadados (português e inglês): título (binominal) – classe ou gênero animal e técnica de preparação; descrição – nome científico da espécie e resumo descritivo. Exemplo:
- metadados: “mamífero” e “modelo didático”;
- descrição: Bos taurus. Modelo didático de um bovino (vaca) em corte longitudinal, demonstrando vários órgãos e sistemas orgânicos, destacando o rúmen no primeiro plano. Objeto em exposição no MAV da FMVZ USP (Figura 8). FIGURA 8 Modelo didático bovino[15]
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Fonte: Silva (2016).
O processo completo levou muito mais tempo do que o que foi previsto. Inicialmente, planejamos um ano para todo o trabalho, mas foram necessários dois anos para o ciclo completo. Apesar de todo o apoio recebido pela equipe do WMB, incluindo suportes técnico e braçal, a seleção das imagens e a redação dos metadados dependiam da equipe do museu, basicamente sob a minha coordenação, que contava com a participação do prof. dr. Francisco Javier Hernandez Blazquez para a revisão de conteúdo.
Já no seu início, após os primeiros cadastros e a sua disponibilização na plataforma digital, os resultados foram impressionantes, com milhares de visualizações. Para o museu, além da expectativa da organização da base de dados do Programa Acervo, os resultados trouxeram significativos incrementos para os Programas de Comunicação, Educativo e Inovação.
Hoje em dia, temos uma melhor dimensão dos resultados obtidos, mas, de início, todos ficamos bastante impressionados; a ampliação do público do museu ocorreu de forma rápida e exponencial. As primeiras 34 imagens cadastradas foram acessadas por cerca de 500 mil pessoas em agosto de 2016. Um dos destaques que pode representar bem esse impacto foi a imagem do Avestruz (Figura 9), que foi premiada três vezes pela comunidade wiki (featured picture on Wikimedia Commons, the most valued image on Commons e picture of the day on Wikimedia Commons, no dia 28 de setembro de 2016). Também foi comentada pela diretora executiva da Fundação Wikimedia durante a sua apresentação no Congresso de GLAM Wiki que ocorreu em 2018, em Tel Aviv, Israel, com representantes de alguns dos maiores museus do mundo, tais como o Metropolitan de Nova York e o Museu do Louvre, o que nos ousa permitir colocar o MAV no mesmo patamar de comparação[16].
Nesse contexto, uma outra imagem que merece destaque é a de uma pelve de equino, que ilustra a capa da Revista HoofSearch, edição de março de 2019, com o design de Fran Jurga, sendo premiada pela American Horse Publications (Figura 10).
FIGURA 9 Avestruz (Struthio camelus) – exemplar[17] do esqueleto de um avestruz preparado pela técnica de maceração e em exposição

Fonte: Category […] (2023).
- ↑ São eles: um especialista, um técnico, três auxiliares e nove estudantes de graduação com bolsa de estudo.
- ↑ Segundo dados de julho de 2024, o ingresso individual custava R$ 8,00 e a meia-entrada para estudante em visita individual, R$ 4,00. A gratuidade na primeira terça-feira do mês podia ser desfrutada por idosos (acima de 60 anos), crianças (até 6 anos), pessoa com deficiência, professores e profissionais da educação, alunos da rede pública de ensino com visita em grupo, acompanhantes de grupos (professores, guias e seguranças), comunidade USP e membros do Conselho Internacional de Museus (ICOM). O valor é simbólico e os recursos obtidos são administrados como Renda Industrial, revertidos em sua totalidade para uso no próprio museu.
- ↑ Imagens: Wagner Souza e Silva/Wikimedia, Commons, CC BY-SA 4.0.
- ↑ Seguindo a estrutura organizacional da FMVZ USP, a qual o MAV busca estar plenamente inserido, a narrativa do museu parte da anatomia para tratar da patologia, clínica médica, saúde coletiva, reproduções, produção de alimentos, nutrição e bem-estar animal.
- ↑ Definição elaborada em 2018, a partir de um processo de trabalho interno, dentro do FMVZ USP, baseada em documentos internos do museu e na minha participação nas dinâmicas privadas de trabalho na instituição, denominadas reuniões de staff.
- ↑ Ver em: http://mav.fmvz.usp.br/publicacoes.
- ↑ Após aprovação como Capítulo Wikimedia (organização independente e sem fins lucrativos dedicada a apoiar a Wikipédia), o Wiki Movimento Brasil passou a se chamar Wikimedia Brasil, mantendo-se a sigla.
- ↑ Em relação aos gráficos apresentados nas Figuras 4 e 5, ressalta-se que ao museu ficou fechado para visitas entre 2020 e 2021, em função da pandemia de covid-19.
- ↑ Professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP.
- ↑ Agradecimento especial ao bolsista Lucas Belo, aluno de graduação do IME da USP, que teve uma atuação fundamental no processo de cadastro das informações do museu no repositório.
- ↑ O MAV passou a ter uma página exclusiva na Wikipédia, que pode ser conferida aqui: https://w.wiki/fdJ.
- ↑ Imagem: Wagner Souza e Silva/Wikimedia, Commons, CC BY-SA 4.0.
- ↑ Essa foi a primeira imagem da coleção do museu cadastrada e disponibilizada na Wikimedia Commons, em junho de 2016.
- ↑ Como exemplo do resultado de ações colaborativas está a Rede Brasileira de Coleções e Museus Universitários, objeto de análise do artigo aqui referenciado. Ver em: http://rbcmu.com.br/.
- ↑ A descrição dos metadados em inglês na Ficha da Wikimedia Commons é: “Anatomy model of a bovine (cow), showing several organs and organic systems in left lateral view with the rumen highlighted in the foreground. Object exposed at the Museum of Veterinary Anatomy FMVZ USP. This file was published as the result of a partnership between the Museum of Veterinary Anatomy FMVZ USP, the RIDC NeuroMat and the Wikimedia Community User Group Brasil. Photography: Museum of Veterinary Anatomy FMVZ USP”.
- ↑ Ver em: https://www.youtube.com/watch?v=NAWsuDU1CMU&t=3637s.
- ↑ Imagem: Wagner Souza e Silva/Wikimedia, Commons, CC BY-SA 4.0.
A INICIATIVA GLAM-WIKI DO MUSEU DE ANATOMIA VETERINÁRIA259
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Fonte: Wagner Souza e Silva/ Wikimedia, Commons, CC BY-SA 4.0.
Autoria da capa: Fran Jurga[1].
Além dessas duas, muitas outras imagens foram utilizadas como fontes de ensino, pesquisa e extensão, em várias partes do mundo, cumprindo a nossa missão como divulgadores de ciência. Até o momento, o MAV possui 120 imagens premiadas pela comunidade wiki no repositório, em função de valores estéticos, educacionais e informativos. As 628 imagens do repositório são acessadas em média seis milhões de vezes ao mês, gerando um total acumulado de aproximadamente 300 milhões de visualizações (Peschanski, 2021)[2].
Esses números tornam o MAV um museu de grande porte. Sob o ponto de vista do público híbrido, na junção e interrelação dos visitantes presenciais e virtuais, ele realizou um redimensionamento de escala, sendo visualizado mensalmente de alguma maneira por cerca de seis milhões de pessoas ao redor do mundo. Essa transformação de sentido é possível graças à parceria com a Wikimedia Brasil, mas também ao potencial das coleções de um museu universitário, por meio do seu Sistema de Ações Integradas, viabilizado por uma rede de cooperação, essencial para as universidades, às coleções e aos museus de forma geral.
Considerações finais
Para finalizar este texto, torna-se oportuno lembrar a seguinte frase – que sintetiza muito bem o que concluímos com este trabalho ao traduzir o sentido que buscamos dar ao MAV – registrada em diálogo com João Alexandre Peschanski: “No universo virtual, uma pequena coleção pode se transformar em um grande museu”. Entendemos que um museu, qualquer um, tem imenso potencial de significância para a sociedade e, por isso, é importante considerar que muitas instituições museológicas são detentoras de preciosos acervos de interesse científico, histórico, artístico e cultural e que precisam torná-los públicos e cada vez mais acessíveis. A partir da experiência aqui analisada, consideramos que a proposta de GLAM-wiki tem grande potencial para contribuir com a construção dessa realidade. Trata-se de uma boa ferramenta que pode se juntar a outras para que os museus possam cumprir suas missões, principalmente os que existem nas universidades, comprometidos com a pesquisa, a educação e a extensão cultural.
Além dos públicos espontâneos e dos grupos organizados de visitas, o MAV possui uma consistente comunidade virtual que acessa os conteúdos remotamente disponibilizados por meio do repositório do Wikimedia Commons, e, paralelamente, mantém um diálogo com os seus públicos por meio das redes sociais, alimentando-as com informações relativas às múltiplas abordagens sobre medicina veterinária e temas de interesse do campo museal. Isso tem sido feito por meio do site (4.300 acessos), Facebook (16.800 visualizações), Instagram (10.500 visualizações) e pelo canal no Youtube (1.050 visualizações)[3]. São dados quantitativos significativos que, juntamente com os 7.057 visitantes presenciais registrados em 2022, compõem uma parte substancial do conjunto de visitantes híbridos. No entanto, do ponto de vista participativo, abrangendo as questões relacionadas à acessibilidade para um museu contemporâneo, que deve incluir estratégias de engajamento social participativo em suas ações, é plenamente justificável levantar os seguintes questionamentos: quais são as potencialidades e os limites dos recursos digitais nos processos de inclusão social almejados pelo museu? A esse respeito, lembramos da indagação de Stélio Marras (2016, p. 97): “Como situar o desafio de se estabelecer vasos comunicantes entre universidade e sociedade?”. Nesse aspecto, as ações em parceria, em especial a iniciativa GLAM-wiki, ampliam o arsenal de possibilidades de diálogos em função de contribuírem para o crescimento de sua natureza heterogênea no estabelecimento de diálogos que buscam o rompimento das barreiras existentes entre os museus universitários e a sociedade.
O principal desafio para o início da parceria com o WMB foi o fato de o museu não ter um inventário completo de suas coleções naquele momento. No contexto da GLAM-wiki, foram criados o estímulo e as condições para a realização do registro inicial de todas as peças, desafio que se tornou oportunidade e cujo processo foi totalmente estruturado em diálogos com uma rede de colaboradores que acolheu todos os lados envolvidos. No final, todas as partes foram, de alguma forma, beneficiadas com as novas metodologias e com os resultados da iniciativa, que continua em andamento até o presente momento. Novas estratégias passaram a ser incorporadas nos planejamentos de salvaguarda e comunicação do museu, assim como na estruturação da GLAM-wiki, que utilizou essa parceria como um relevante estudo de caso para as novas ações. Possivelmente, as imagens carregadas por meio das milhares de visualizações ilustram vários artigos, livros, salas de aula, pesquisas pessoais e até atividades comerciais, em diversos idiomas, e, por isso, o nível de uso foi rapidamente alto. Trata-se de um sistema de network do qual o museu faz parte e o alimenta. Toda essa experiência nos fez pensar e considerar que um pequeno museu pode se tornar grande, ampliando o engajamento social por meio de estratégias que incluam a rede digital.
No entanto, da riqueza desse processo também emanam instigantes questões, que, por sua vez, alimentam novas conjecturas, indagações e, consequentemente, demandas por novas pesquisas. A partir da análise das potencialidades e limites do relicenciamento e publicação das coleções do MAV no repositório do Wikimedia Commons, surgem um conjunto de indagações, sendo as principais as seguintes: em que medida o aumento de usuários remotos significa que o museu se torna acessível? Quais são as especificidades necessárias a serem estabelecidas para a constituição do universo da heterogeneidade dos públicos do museu? Qual é o impacto da iniciativa GLAM-wiki para os projetos que visam a inclusão social nos museus? Qual é o impacto desse tipo de iniciativa para um museu que disponibiliza seu acervo em repositório wiki na reconfiguração de processos metodológicos de comunicação museal estabelecidos, tais como exposições presenciais, virtuais, publicações, vídeos educativos e redes sociais? Como essa iniciativa possibilita um maior impacto do museu universitário na sociedade, pensando na pesquisa, educação e extensão que estruturam essa tipologia de museu? Levando em conta a heterogeneidade do público museal na contemporaneidade, como a iniciativa que é objeto de análise do presente capítulo, permite, ou até impulsiona, a formação do público híbrido (presencial e remoto) de um museu? Essas questões foram levantadas ao longo do processo de construção deste texto e instigam o debate que ele propõe, decorrente da experiência do trabalho no campo museal. Essas e outras possíveis questões são aqui entendidas como um aspecto positivo do processo, que impulsionam novas pesquisas, como parte do debate acadêmico e resultado da crítica necessária para o desenvolvimento.
A partir da análise da parceria GLAM-wiki desenvolvida no presente capítulo, foi desenvolvida a ideia de público híbrido no museu, para a qual passamos a voltar os nossos olhos de forma mais cuidadosa, inserindo-a nas ações dos programas que compõem o Sistema de Ações Integradas do MAV. Disso tudo, também resultam novos desafios sociais, fortemente marcados pela participação democrática na musealização da medicina veterinária e pelas inclusões sociais nas diversas interfaces da instituição com a sociedade. Para esses novos desafios, serão necessárias novas parcerias em redes colaborativas que enriqueçam a cultura científica e que busquem as melhorias dos processos de comunicação e dos usos ampliados dos repositórios de dados do MAV na Wikimedia Commons. Para que um acervo universitário com milhares de visualizações seja, de fato, democrático, transformador e inclusivo, devemos prosseguir pelo caminho já iniciado, em busca do horizonte participativo mais amplo, que vislumbre a perspectiva de uma sociedade mais justa, na construção coletiva da nossa cidadania.
Referências
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- ↑ Ver em: https://hoofsearch.com/.
- ↑ Além da publicação do prof. João Alexandre Peschanski (2021), esses dados estão registrados nos relatórios bimestrais da parceria GLAM-wiki por WMBe no GLAM Wiki Dashboard ver em: https://glamwikidashboard.wmcloud.org/.
- ↑ Dados extraídos do relatório anual do Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico da Universidade de São Paulo (Universidade de São Paulo, 2022).