A Wikimedia no Brasil/X
Acervo Digital de Partituras Brasileiras
O REUSO ATRAVÉS DO WIKIMEDIA COMMONS
rosana s . g . lanzelotte
nivia g . zumpano
thiago rocha
Introdução
A música é uma das expressões mais pujantes do patrimônio cultural brasileiro. Entretanto, no que tange à música em notação simbólica, a grande maioria de suas manifestações públicas – as partituras musicais –, preservadas em arquivos, bibliotecas e museus, é de difícil acesso. Muitas instituições não disponibilizam catálogos on-line, poucas partituras foram digitalizadas e é difícil obter cópias, mesmo em consultas presenciais. Os músicos tocam o que podem encontrar facilmente e o que os músicos não podem tocar, o público não pode conhecer.
Enquanto no início do século XX, as editoras brasileiras publicavam cerca de 2 mil títulos por ano, atualmente, a impressão de partituras está em declínio em todo o mundo. A solução é a disponibilidade via web e essa foi a motivação para a criação, em 2009, do portal Musica Brasilis[1]. Consultado mensalmente por cerca de 40 mil usuários, o portal oferece mais de 6,4 mil partituras de cerca de 400 compositores de todos os tempos, gêneros e regiões do Brasil.
Está em curso o projeto Acervo Digital de Partituras Brasileiras, patrocinado pelo Instituto Cultural Vale, com o apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da lei de incentivo à cultura do Governo Federal. Iniciado em janeiro de 2022, o projeto visa dar acesso livre e aberto a representantes digitais de 5 mil partituras de compositores brasileiros em domínio público através do portal Musica Brasilis. A partir de documentos musicais pertencentes a diversas instituições de todo o país, equipes locais especializadas produzem edições com partes separadas para os instrumentos, disponibilizadas gratuitamente.
O projeto propicia a adoção de metodologias alinhadas com as melhores práticas da web, para ampliar a facilidade de localização, o acesso e o reuso, conforme os padrões estabelecidos pelo consórcio W3C, Dados Abertos Conectados e princípios FAIR (Findable, Accessible, Interoperable and Reusable). O modelo de metadados preconizado pela International Federation of Libraries Associations (IFLA) se alinha com o modelo IFLA Library Reference Model (LRM). Trata-se de uma experiência pioneira no país no que se refere ao universo GLAM (acrônimo para “Galleries, Libraries, Archives & Museums”; em português “Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus”).
Para ampliar o reuso, o Instituto Musica Brasilis estabeleceu parceria com o Wiki Movimento Brasil (WMB)[2], no âmbito da qual são exportadas imagens em formato PDF de partituras em domínio público para o Wikimedia Commons. Até agora, foram exportadas imagens de 4.644 partituras de autoria de compositores reconhecidos como Carlos Gomes (1836-1896), Ernesto Nazareth (1863-1934) e Alberto Nepomuceno (1864-1920). Nomes esquecidos por mais de um século também estão sendo resgatados pelo projeto, inclusive os de diversas compositoras do século XIX e início do século XX.
Além das imagens de partituras publicadas no Wikimedia Commons, os metadados descritivos de compositores e obras são exportados para o Wikidata. Enquanto na Wikipédia uma entrada é de natureza textual, o Wikidata é um registro de metadados estruturado que descreve uma entidade, por exemplo, um compositor, um instrumento, uma obra musical. Projeto colaborativo, o Wikidata tem recebido contribuições das principais bibliotecas do mundo e se estabeleceu como concentrador e conciliador de metadados, constituindo um nó essencial na rede de Dados Abertos Conectados.
Este capítulo trata dos desafios envolvidos na disponibilidade do patrimônio musical documental em formato digital, com destaque para a parceria GLAM firmada com o WMB, através da qual são ampliados o reuso e a visibilidade dos conteúdos. Embora os exemplos se refiram a partituras musicais, as soluções também se aplicam a outros tipos de patrimônio documental de natureza cultural.
Projeto Acervo Digital de Partituras Brasileiras
Nesta seção, discutem-se as premissas e metodologias adotadas no desenvolvimento do referido projeto.
O ponto de partida foi a seleção das 5 mil obras candidatas por meio de consulta pública à comunidade musical brasileira – orquestras, universidades e escolas de música. Entre as obras selecionadas, estão as de autoria de compositores renomados como Luís Álvares Pinto (1719-1789), D. Pedro I (1798-1934), Henrique Alves de Mesquita (1830-1906), Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Henrique Oswald (1852-1931), Francisco Braga (1868-1945), Meneleu Campos (1872-1927) e Alberto Nepomuceno (1864-1920).
Durante o levantamento dos repertórios, foram localizadas obras de autores de diversas regiões brasileiras cujos nomes estavam esquecidos por mais de um século. Essas obras estão sendo recuperadas e disponibilizadas no portal. Entre esses autores estão Aurélio Cavalcanti (1874-1916), Eduardo Souto (1882-1942), Homero de Sá Barreto (1884-1924), Henrique Albertazzi (1830-1888), João Itiberê da Cunha (1870-1953), Adolpho Mello (18611926) e Euclides Fonseca (1853-1929). Diversas compositoras também figuram entre os nomes redescobertos, com destaque para Viúva Guerreiro (1858-1936), Cinira Polônio (1857-1938), Georgina Erismann (18931940), Judith Ribas (1846-1928), Leontina Gentil Torres (1875-1945), Luiza Leonardo Boccanera (1859-1926) e Júlia Cesarina Ribeiro Cordeiro (18671947). Um comitê de especialistas está encarregado da curadoria durante toda a execução do projeto.
Objetivo principal do projeto, os representantes digitais de partituras musicais são gerados por meio de um dos dois processos a seguir:
- digitalizações de antigas edições esgotadas, quando livres de
direitos;
- editorações a partir de fontes manuscritas, utilizando-se softwares específicos para a edição musical. DIGITALIZAR UMA PARTITURA
Peças de música de poucas páginas – a grande maioria do repertório – não são mais impressas pelas editoras; hoje, apenas as coletâneas são impressas, por serem rentáveis. Pode-se, então, gerar representantes digitais de partituras a partir da digitalização de edições impressas livres de direitos, conforme ilustrado na Figura 1.
FIGURA 1 Ilustração dos resultados de uma digitalização
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Fonte: elaborada pelos autores.
No Brasil, as normas de digitalização foram estabelecidas pelo Conselho Nacional de Arquivos (Conarq) (2021). O processo de digitalização é precedido pelo exame e preparação dos documentos, higienizados e restaurados quando necessário. Após a digitalização, as imagens são tratadas utilizando-se de um software específico para esse fim; o tratamento das imagens visa restituir aos documentos a aparência que tinham quando recém-impressos. Aspectos visuais como nitidez, contraste, nível de preto, nível de branco, curvas etc. são aprimorados em um primeiro momento; em um segundo, passa-se à correção da geometria (visual), ou seja, corrigir distorções decorrentes da digitalização, da encadernação ou do armazenamento do papel. Em seguida, passa-se à eliminação de rabiscos, manchas e respingos e à complementação de linhas e curvas musicais; por fim, exportam-se as páginas tratadas. As duas primeiras etapas podem ser agrupadas por conjuntos de ações pré-definidas, disparadas em cadeia para acelerar e uniformizar os resultados. Como última etapa, exporta-se todas as páginas do arquivo para o formato PDF, com resolução de 300 DPI[3].
A análise do resultado da digitalização requer o olhar do especialista. Em música, um ponto pode significar muitas coisas; em uma página desgastada pelo tempo, um ponto pode ou não ser acidental. Também na etapa de análise, o especialista completa linhas e curvas falhas com a textura própria, mantendo a organicidade visual. Todo esse processo é automatizado por ações e o resultado são partituras límpidas e legíveis, aptas para a difusão via web e prontas para a execução.
EDITAR UMA PARTITURA
Da mesma forma que ocorre com uma obra da literatura, as composições musicais escritas podem ser editadas utilizando-se programas de notação musical, como o Finale, o Sibelius ou outro. A edição compreende as etapas de editoração, revisão, atribuição de metadados e publicação, iniciando-se pelo estudo do original e passando pela diagramação. As partituras produzidas visam a execução da música, sendo denominadas “edições práticas”. Nesse caso, espera-se que os equívocos óbvios sejam corrigidos, enquanto situações duvidosas são registradas em notas editoriais.
A primeira etapa, a de transcrição, é denominada “editoração”, ilustrada na Figura 2. FIGURA 2 Ilustração do processo de editoração
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Fonte: elaborada pelos autores.
Critérios editoriais são adotados, como a normatização de idiomas, ortografias, abreviaturas e localizações, já que os repertórios são de diferentes séculos, durações, instrumentações e complexidades. Trata-se de partituras destinadas a um instrumento solo até peças para grandes grupos sinfônicos e vocais. Foram criados modelos – templates –, estabelecidos critérios e medidas para uniformizar os resultados de uma equipe de mais de 20 editores de diversas regiões do país.
O sistema do portal Musica Brasilis armazena os arquivos em formato PDF – para visualização, download e impressão –, bem como os arquivos editáveis, para possibilitar futuras reedições e aprimoramentos.
METADADOS PARA PARTITURAS DIGITAIS
As partituras musicais são um tipo particular de documento: são escritas por um ou mais autores e descritas por um título, uma data de composição e outros atributos da produção intelectual, além de serem categorizadas por informações específicas da música, como instrumentação, tonalidade e gênero. Para se descrever uma partitura é necessário conhecimento especializado, obrigando as bibliotecas de música a empregar profissionais familiarizados com padrões e práticas adaptados à classificação e à descrição de documentos musicais.
Os representantes digitais de partituras são descritos por um conjunto de metadados: informações que descrevem, explicam, localizam ou facilitam a compreensão, recuperação, uso, gerenciamento, controle ou preservação de um item, ou recurso de informação ao longo do tempo (Choy et al., 2016). Além dos metadados bibliográficos e estruturais usados para catalogar os documentos físicos originais, novos conjuntos de metadados são essenciais para descrever os representantes digitais, facilitar o acesso on-line e fornecer as informações necessárias para a preservação a longo prazo.
Cada partitura digital publicada no portal recebe uma folha de rosto, na qual figuram os principais metadados da obra (autor, título, movimento, gênero musical, data, instrumentação) e também um código de barras correspondente ao identificador International Standard Music Number for Notated Music (ISMN), o equivalente ao International Standard Book Number (ISBN) para obras literárias.
As bibliotecas de todo o mundo estão convergindo para a adoção de um novo modelo de metadados, o Modelo de Referência de Biblioteca, ou LRM (Riva; Bœuf; Žumer, 2017). O LRM é uma evolução da família de modelos de Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos (FRBR), os quais são três modelos de entidades e relacionamentos baseados em um modelo de dados bem estabelecido (Chen, 1976).
A adoção dos padrões baseados no modelo LRM é motivada por uma abordagem que prioriza as tarefas dos usuários – pesquisar, identificar, selecionar e obter –, ao invés de focalizar as tarefas dos bibliotecários, correspondendo à atualidade. Os usuários de hoje prescindem do auxílio dos bibliotecários quando realizam buscas em catálogos automatizados. Em comparação com as práticas anteriores de catalogação, a principal mudança proposta pelo LRM consiste em separar a descrição conceitual de uma obra de suas implementações físicas. Em seu referencial teórico, o conjunto de informações que descrevem o conteúdo é separado dos que descrevem o suporte.
O resultado é um modelo único, simplificado e consistente, que abrange todos os aspectos dos dados bibliográficos e, ao mesmo tempo, alinha a atividade de catalogação com as práticas atuais de modelagem conceitual (Arakaki, 2020).
A Figura 3 mostra os quatro aspectos de uma obra, suas representações e materializações segundo o modelo LRM: Obra, Expressão, Manifestação e Item (do inglês “Work, Expression, Manifestation, Item”, ou WEMI).
FIGURA 3 Obra, Expressão, Manifestação e Item (WEMI)
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Fonte: elaborada pelos autores.
Uma obra é definida como uma criação intelectual ou artística única. É uma entidade abstrata – por exemplo, Il Guarany –, sendo identificada pelos metadados título e data. Os dados sobre autor ou compositor, referido como “agente” no LRM, não são atributos da obra. As informações de autoridade são gerenciadas como um relacionamento entre a obra e um ou mais agentes.
Uma expressão é uma representação fixa de uma obra, cujos atributos incluem: título, forma (como manuscrito ou partitura editada), data, idioma, tipo de partitura musical (incluindo notação pautada ou tablatura) e meio de execução (notação musical ou som gravado, por exemplo). Se uma expressão se referir a uma edição, ela também terá outros atributos, como o número da edição, a localização da editora e assim por diante. Um exemplo disso é a obra Il Guarany, que assume a forma de várias expressões: a ópera original de Carlos Gomes, uma edição da Ricordi, uma transcrição, uma gravação, uma performance e assim por diante.
Enquanto isso, uma manifestação é a incorporação física da expressão de uma obra produzida por um ou mais agentes, cujos atributos são: título, forma/extensão e dimensões do meio, data, declaração de responsabilidade, termos de disponibilidade, modo de acesso e assim por diante. Se uma manifestação corresponde a uma edição específica, ela está incorporada em muitos itens idênticos. Exemplos de manifestações de Il Guarany são o manuscrito original, do punho de Carlos Gomes, ou a versão impressa pela Editora Ricordi.
Já um item é uma entidade concreta, como o manuscrito original de Il Guarany, pertencente ao acervo da Seção de Música da Biblioteca Nacional (Figura 4). Quando a partitura foi editada, um item seria um exemplar pertencente ao acervo de uma biblioteca.
FIGURA 4 Folha de rosto do manuscrito de Il Guarany (Carlos Gomes) depositado na Biblioteca Nacional[4]
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Fonte: Carlos Gomes (1870). Metodologias para a publicação na web
As metodologias adotadas para a publicação das partituras digitais estão alinhadas com as melhores práticas da web, para ampliar a facilidade de localização, o acesso e o reuso, conforme os padrões estabelecidos pelo consórcio World Wide Web (WWW) (RDF 1.2 [...], 2024), os Dados Abertos Interligados (Linked [...], 2010) e os princípios FAIR (Go-Fair, [2017]).
DADOS ABERTOS CONECTADOS
A web está se tornando interconectada e interoperável por meio de Dados Conectados (Linked Data). O objetivo é que recursos digitais sejam publicados interligados a outros, de modo a criar uma rede de dados estruturados na web, com relações explícitas entre os recursos.
Os dados conectados contribuem para uma web global, na forma de Linked Open Data (LOD), livremente acessível, utilizável e reutilizável. Para ser considerado compatível com o LOD, um recurso on-line deve seguir as condições do esquema de cinco estrelas (Berners-Lee, 2015):
- uma estrela (*): disponível na web, em qualquer formato, sob licença aberta;
- duas estrelas (**): disponível como dado estruturado legível por máquina (por exemplo, como PDF e não JPG);
- três estrelas (***): disponível em um formato não proprietário, como MusicXML[5], formato aberto padrão para intercâmbio de partituras digitais;
- quatro estrelas (****): publicado usando padrões abertos do World Wide Web Consortium (W3C). Por exemplo, o Resource Description Framework (RDF);
- cinco estrelas (*****): também conectado a outros recursos, para fornecer contexto.
As três primeiras condições são de fácil entendimento. O quarto requisito está relacionado ao paradigma da web semântica, no qual o significado de uma página web é expresso de tal forma que computadores possam processá-lo. O consórcio W3C propõe padrões para atingir esse objetivo, entre os quais o RDF (RDF 1.2 [...], 2024). No RDF, as informações são expressas por triplas, na forma sujeito-predicado-objeto, como por exemplo, “obra – é composta por – compositor”.
Quando publicadas como dados abertos, as triplas RDF são passíveis de processamento por máquina e o conhecimento que encerram pode ser compartilhado com outras páginas da web.
No universo de Dados Abertos Conectados, é desejável que os nomes de pessoas e títulos de obras tenham a sua grafia associada a uma entrada no Virtual International Authority File, o portal VIAF (VIAF [...], [20--?]), iniciativa para a qual colaboram bibliotecas e instituições em todo o mundo[6].
Através das interconexões, a web se transforma em um imenso grafo de informações compartilhadas, cada serviço provendo informação específica, como o VIAF, no caso de controle de autoridade de nomes e títulos.
PRINCÍPIOS FAIR
A sigla FAIR sintetiza os requisitos a que os recursos digitais e os respectivos metadados devem atender, isto é, serem Fáceis de localizar (Findeble), Acessíveis (Acessible), Interoperáveis (Interoperable) e Reutilizáveis (Reusable). Essas premissas caracterizam o universo de Dados Abertos Interligados e demandam, para a sua implementação, de investimentos consideráveis em termos de infraestrutura tecnológica e mão de obra. Por esse motivo, o Wikidata vem sendo considerado uma solução por bibliotecas em todo o mundo, por propiciar o atendimento a ambos os requisitos (Allison-Cassin, 2018).
Os princípios FAIR se relacionam e estendem os requisitos de dados abertos de 5 estrelas do LOD e potencializam a capacidade de processamento da máquina. Devido ao aumento no volume, complexidade e velocidade de criação dos dados, os humanos dependem cada vez mais do suporte computacional para lidar com os dados (Go-Fair [...], [2017]).
Eles também se referem às propriedades dos recursos, bem como aos seus metadados. Para estar conforme aos princípios FAIR, um recurso digital e seus metadados descritivos devem atender às seguintes recomendações:
1. Fáceis de localizar: o recurso e seus metadados devem ser facilmente localizáveis por humanos e computadores. Isso deve ser feito por meio de:
- atribuição de um identificador único e persistente;
- descrição por metadados legíveis por máquina;
- registro ou indexação em um catálogo passível de pesquisa.
2. Acessíveis: uma vez localizado o recurso, o usuário precisa saber como ele pode ser acessado, possivelmente incluindo autenticação e autorização. Conforme proposto a seguir, esse princípio enfatiza a preservação permanente dos metadados apenas. Uma vez estendida ao patrimônio cultural, a preservação digital permanente do próprio recurso é fundamental (Koster; Woutersen-Windhouwer, 2018). Para que seja acessível, é requerido que o recurso seja:
- recuperável por seu identificador usando um protocolo de comunicação padronizado aberto, gratuito e universalmente implementável;
- permanentemente acessível por armazenamento sustentável – hardware, meio de armazenamento –, protocolos de acesso universal aberto, gerenciamento de versão e backups.
3. Interoperáveis:
- o recurso e seus metadados são descritos adotando uma linguagem formal, acessível, compartilhada e amplamente aplicável para a representação do conhecimento;
- o recurso e seus metadados estão vinculados a outro recurso/
metadados.
4. Reutilizáveis: o recurso e seus metadados devem ser bem descritos, para poderem ser replicados e/ou combinados em diferentes ambientes:
- os recursos digitais possuem licença para reutilização, disponível em formato legível por máquina;
- o recurso e seus metadados estão associados à proveniência detalhada;
- os metadados do recurso atendem aos padrões da comunidade relevantes para o domínio. É importante que o acesso ao legado cultural seja assegurado por meio de interfaces amigáveis, bem como garantir a interoperabilidade dos metadados descritivos. O reuso é um requisito essencial para cumprir alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas (Sobre [...], [20--?]). O ODS 4, sobre educação de qualidade, visa ampliar o número de jovens com habilidades relevantes, incluindo habilidades técnicas e vocacionais para o emprego, bom trabalho e empreendedorismo. Várias pesquisas apontam que o treinamento musical na infância auxilia a promover o desenvolvimento e a manutenção de habilidades de funções executivas específicas (Teixeira, 2017). Ao aprimorar as habilidades cognitivas de classificação e as habilidades analógicas, o treinamento musical contribui para um bom desempenho acadêmico (conforme proposto pelo ODS 4). Além desse, os tópicos levantados neste capítulo também estão intrinsecamente relacionados com o ODS 11.4, que trata da proteção e salvaguarda do patrimônio cultural mundial, bem como com o ODS 16.10, que impõe o acesso público à informação.
PRESERVAÇÃO DIGITAL PERENE
A crescente produção de documentos em formato digital enseja a discussão sobre meios de preservação, para garantir a persistência dos recursos digitais e o acesso contínuo aos mesmos.
Segundo estimativas, 80% das páginas web se modificam ou desaparecem no período de um ano. No Brasil, não existe atualmente nenhuma política de preservação da memória digital brasileira e, ao contrário da França e Espanha, em que os domínios .fr e .es são preservados pelas respectivas bibliotecas nacionais, os domínios .br desaparecem da web, mesmo nos casos em que contêm informações relevantes.
As questões levantadas continuam em aberto, principalmente no tocante ao estabelecimento de uma política pública sustentável que possibilite o compartilhamento de recursos de infraestrutura tecnológica entre as instituições públicas e amplie a eficiência do investimento público nesse setor.
Um modelo de compartilhamento de recursos a ser estudado é o da Grã-Bretanha, em que a Joint Information Systems Committee (JISC)[7] provê armazenamento em nuvem, computação em nuvem e conectividade para 600 instituições de ensino, pesquisa e cultura.
No Brasil, a Rede Cariniana surgiu da necessidade de se criar no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), órgão do Ministério de Ciência e Tecnologia, uma rede de serviços de preservação digital de documentos eletrônicos brasileiros, para garantir seu acesso contínuo a longo prazo. Seu projeto de implantação foi elaborado baseando-se em uma infraestrutura descentralizada, utilizando recursos de computação distribuída. Uma rede de preservação digital distribuída precisa da participação das instituições detentoras desses documentos e de sua infraestrutura, em um ambiente padronizado e de segurança que garanta o acesso permanente e o armazenamento monitorado dos documentos digitais.
Em dezembro de 2021, foi firmada a adesão do Instituto Musica Brasilis à Rede Cariniana para assegurar preservação digital perene de todas as partituras digitais publicadas, de seus metadados e também das páginas do portal[8].
Parceria com o Wiki Movimento Brasil
As iniciativas GLAM-wiki dão suporte a instituições do tipo GLAM para exportarem seus conteúdos para o universo Wikimedia, gerando recursos de acesso aberto que podem ser livremente reutilizados. A principal motivação é a de preservar legados culturais e históricos, bem como disseminá-los amplamente. Desde sua criação, diversas parcerias foram firmadas, por exemplo, com o Museum of Modern Art (MoMa) e o Smithsonian Institution, ambos nos Estados Unidos; com o Museo Picasso, na Espanha; com o Palácio de Versalhes, na França; e com o British Museum, no Reino Unido. As contribuições das instituições parceiras destinam-se à Wikipédia, Wikimedia Commons, Wikisource e Wikidata.
No âmbito da Wikipédia lusófona, a iniciativa GLAM/Projetos em português[9] dedica-se a ampliar a participação de instituições de arte e cultura de países de língua portuguesa no universo Wikimedia. No Brasil, as parcerias são facilitadas através do grupo de usuários do WMB[10], associação de editores e colaboradores dos projetos Wikimedia. Entre as instituições brasileiras que aderiram à iniciativa estão o Arquivo Nacional, o Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Moreira Salles, o Instituto de Estudos Brasileiros, o Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Instituto Musica Brasilis, entre outros.
A partir do acordo de parceria com o WMB, são exportadas imagens de partituras de obras em domínio público do portal Musica Brasilis para a Wikipédia e para o Wikimedia Commons. Até o momento, foram exportadas 4.644 imagens de partituras de Carlos Gomes (1836-1896), Alberto Nepomuceno (1864-1920), Ernesto Nazareth (1863-1934), D. Pedro I (17981834), Marcos Portugal (1762-1830), entre muitos outros[11]. As contribuições do Musica Brasilis à Wikimedia têm média mensal de visualizações em torno de 66 mil acessos por usuários em todo o mundo. Somando-se aos 40 mil acessos mensais ao portal, os repertórios brasileiros têm atingido cerca de 100 mil visualizações por mês. Graças à parceria GLAM-wiki, os acessos mais do que duplicaram e, com isso, a visibilidade dos conteúdos tornou-se muito mais expressiva, contribuindo efetivamente para a difusão da música brasileira.
Na Figura 5, encontram-se os dados referentes ao reuso das partituras digitais através do Wikimedia Commons.
FIGURA 5 Dados do GLAM Musica Brasilis em 18 de agosto de 2024
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Fonte: GLAM Wiki Dashboard ([2025]).
Além das imagens de partituras, outra contribuição do portal consiste na migração dos metadados descritivos de compositores e obras para o Wikidata. Criado em 2012, o Wikidata – projeto irmão da Wikipédia – é um repositório de dados estruturados e conectados. Como os demais, é um projeto colaborativo, alimentado pela comunidade, totalmente editável por pessoas e máquinas. Ao contrário da Wikipédia, em que uma contribuição é textual, uma entrada no Wikidata é um registro de metadados estruturado que descreve uma entidade.
O Wikidata desempenha o papel de um hub de conciliação de diversos identificadores, entre eles os estabelecidos pelo Musica Brasilis. Assim, pode-se ter acesso aos metadados sobre uma entidade em múltiplos sítios.
Na Figura 6, encontram-se os dados referentes às contribuições do Musica Brasilis ao Wikidata até o momento, refletindo-se no aprimoramento de quase 5 mil páginas.
FIGURA 6 Contribuições do GLAM Musica Brasilis ao Wikidata em 18 de agosto de 2024
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Fonte: GLAM Wiki Dashboard ([2025]).
Considerações finais
A digitalização do patrimônio documental está alinhada à Meta de Desenvolvimento Sustentável 11.4 das Nações Unidas, visando proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo (Sobre [...], [20--?]). A digitalização deve obedecer às melhores práticas propostas no âmbito da comunidade GLAM. A organização, inclusive, emitiu uma recomendação sobre a preservação e acesso ao patrimônio documental, inclusive sob a forma digital (Unesco, 2016).
Neste capítulo, foram apresentados o projeto Acervo Digital de Partituras Brasileiras e a parceria GLAM e o portal Musica Brasilis, iniciativas que contribuem para a preservação do patrimônio documental musical brasileiro.
Até 30 de junho de 2024, cerca de 6,4 mil partituras de mais de 400 compositores em domínio público foram disponibilizadas gratuitamente pelo portal. As edições partiram de conteúdos pertencentes a instituições de todas as regiões do país. Nesse sentido, foram firmados acordos de cooperação técnica com a Fundação Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), o Museu da Universidade Federal do Pará (Pará), o Museu Carlos Gomes (CCLA) (São Paulo), a Biblioteca da Escola de Comunicação e Artes da USP (São Paulo), a Editora Fermata (São Paulo), o Instituto Moreira Salles (Rio de Janeiro), o Centro Cultural São Paulo (São Paulo), entre outros.
Além do Wikimedia Commons, as imagens de partituras e respectivos metadados serão também publicados na Rede da Memória Virtual Brasileira[12], iniciativa da Fundação Biblioteca Nacional, concebida com o intuito de reunir acervos de instituições nacionais responsáveis por legados culturais de natureza digital. A preservação digital perene será assegurada por convênio com a Rede Cariniana – Rede Brasileira de Serviços de Preservação Digital –, iniciativa do Ibict, órgão pertencente ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Informação.
Referências
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ARAKAKI, A. C. S. O modelo IFLA Library Reference Model e o linked data. Informação & Informação, Londrina, v. 25, n. 3, p. 163-186, jul./set. 2020. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/41868/pdf. Acesso em: 2 jun. 2025.
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KOSTER, L.; WOUTERSEN-WINDHOUWER, S. FAIR Principles for Library, Archive and Museum Collections: A proposal for standards for reusable collections. The Code4Lib Journal, [s. l.], n. 40, 2018. Disponível em: https://journal.code4lib.org/articles/13427. Acesso em: 2 jun. 2025.
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- ↑ Ver em: https://musicabrasilis.org.br.
- ↑ Após aprovação como Capítulo Wikimedia (organização independente e sem fins lucrativos dedicada a apoiar a Wikipédia), o Wiki Movimento Brasil passou a se chamar Wikimedia Brasil, mantendo-se a sigla.
- ↑ Sigla para “dots per inch”; em português, “pontos por polegadas”.
- ↑ Para visualizar esse exemplo com detalhes, ver: Lanzelotte (2021).
- ↑ Ver em: https://www.w3.org/2021/06/musicxml40.
- ↑ Um exemplo disso é que ao nome Carlos Gomes corresponde o link: http://viaf.org/viaf/24816997.
- ↑ Ver em: https://www.jisc.ac.uk.
- ↑ Ver em: https://www.gov.br/ibict/pt-br/central-de-conteudos/noticias/2021/dezembro2021/redecariniana-e-instituto-musica-brasilis-firmam-parceria.
- ↑ Ver: Wikipédia [...] (2024).
- ↑ Ver em: https://w.wiki/3fBz.
- ↑ Ver todas as obras carregadas para o Wikimedia Commons em: https://w.wiki/Aw8g.
- ↑ Ver em: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/rede-da-memoria-virtual-brasileira.