A Wikimedia no Brasil/VII

Transpondo barreiras culturais
PROPOSTAS DE ELABORAÇÃO DE WIKILIVROS SOBRE CULTURA BRASILEIRA EM AULAS DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA ADICIONAL (PLA)

bianca gallieri honorio

 

Introdução

O acesso à internet gerou um significativo impacto nas formas de escrever e comunicar das sociedades modernas a partir do final do século XX. O aprimoramento de tecnologias digitais também resultou em uma profunda mudança na agilidade de distribuição de informações e nas formas de construção do conhecimento. Hoje, com acesso à rede, é possível encontrar informações produzidas e compartilhadas por outros usuários da internet de modo rápido e gratuito.

Poe (2011) caracteriza a internet como um meio de natureza dialógica, no qual a troca de informações é encorajada entre os usuários, característica essa que resulta em produções de conteúdo coletivas e elaboradas entre usuários de diversas plataformas. O compartilhamento imediato de textos escritos e a oportunidade de reestruturá-los no ciberespaço são características da produção de alguns gêneros textuais na internet. Dessas iniciativas emergem reflexões teóricas sobre a natureza cooperativa nas redes, que com frequência destacam o caso de plataformas da Wikimedia como ferramentas livres que propagam informação e conhecimento.

Em sala de aula, as plataformas de livre acesso são uma alternativa no processo de construção de conhecimento, sendo frequentemente usadas por estudantes e professores. No caso das aulas de Português como Língua Adicional (PLA), o acesso a materiais na internet possibilita que professores possam melhorar práticas de ensino e que estudantes possam aprimorar habilidades comunicativas na língua-alvo.

Este capítulo debate a importância da leitura e da escrita nas redes para a consolidação dos processos de aquisição da língua adicional, considerando-as ferramentas valiosas no trabalho com turmas de PLA. Propõe-se uma discussão a respeito do uso dos wikilivros como material de ensino da língua portuguesa, assim como propostas didáticas que envolvam o uso dessa plataforma em sala de aula.

A criação de textos em sala de aula por parte de estudantes estrangeiros para serem publicados em wikilivros envolve a inserção cultural do estudante no ambiente virtual relacionado à língua-alvo de seus estudos. O wikilivro escolhido para o desenvolvimento das propostas de tarefas é o Cultura do Brasil (2022), que segue em construção pela comunidade.

O objetivo geral deste trabalho é apresentar três percursos didáticos para a aplicação de atividades e tarefas que envolveram textos escritos em aulas de PLA com base no wikilivro Cultura do Brasil. Cada uma das propostas busca reformular o texto já publicado no livro, de modo a criar, nos estudantes, o hábito de aprimorar a escrita e buscar por informações em português. Ao final deste capítulo, são feitas algumas considerações a respeito de experiências semelhantes já realizadas em sala de aula e ressalvas em relação à proposta original.

O capítulo está dividido nas seguintes partes: (i) discussão sobre conhecimento coletivo e a participação pública; (ii) apresentação da área do PLA e da importância do texto escrito para o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita dos estudantes; (iii) introdução ao wikilivro Cultura do Brasil; (iv) apresentação das propostas de percursos didáticos para o livro Cultura do Brasil; e (v) considerações sobre a experiência em sala de aula.

 

Conhecimento coletivo e a participação pública

A construção coletiva de conhecimento é uma característica da cibercultura no século XXI: em muitas plataformas, é possível compartilhar produções próprias e contar com aperfeiçoamentos da comunidade.

Estudos do início do século XXI sobre a relação entre cultura cooperativa e a escrita na internet já exploravam definições como cibercultura e inteligência coletiva[1]. Lemos (2007) e Lévy (2010) formalizaram visões sobre modos de interação social e de materialização textual que são complementares às já correntes formas orais e escritas de comunicação fora do ambiente da internet.

As redes que se formam no ciberespaço permitem a interação entre indivíduos com afinidades e interesses semelhantes e constituem uma nova noção de interação social (Marcuschi, 2010), nas quais o texto escrito é uma das linguagens predominantes. No caso do livro eletrônico, que é o foco das discussões, o material escrito é organizado seguindo uma lógica dos recursos do meio digital, com a presença do hipertexto, da imagem digital e, em alguns casos, da possibilidade de autoria coletiva. Chartier (1998, p. 12-13) enfatiza alguns atributos do texto eletrônico no excerto a seguir:

[...] o fato de que suas fronteiras não são mais tão radicalmente visíveis, como no livro que encerra no interior de sua encadernação ou de sua capa, o teto que ele carrega, a possibilidade para o leitor de embaralhar, de entrecruzar, de reunir textos que são inscritos na mesma memória eletrônica.

Além da estrutura, organização e distribuição do texto do meio eletrônico ser distinta das produções impressas, o texto como algo terminado, com possibilidades reduzidas de reedição, é ponto de discussão dos teóricos do final do século XX e do começo do século XXI. Poe (2011, p. 168, tradução nossa) sugere um contraste entre textos impressos e textos do meio eletrônico, considerando a possibilidade de colaboração on-line: “[...] a diferença é que, quando você termina, na realidade ainda não terminou. Na verdade, você – ou melhor, o artigo que você começou – nunca termina. Sempre. Isso ocorre porque qualquer pessoa pode editar o ‘seu’ artigo a qualquer momento ou deixar comentários sobre ele[2]”.

As wikis são um formato que ganha força diante dos esforços de ampliação do alcance da rede em vários países. Nessas iniciativas, é comum que usuários tenham a opção de criar e editar os conteúdos produzidos por outros usuários: trata-se de uma ferramenta de construção coletiva de conhecimento, na qual as colaborações de diferentes indivíduos são patrulhadas por membros mais experientes da comunidade, com o intuito de manterem-se os pilares definidos internamente.

A interação nas redes, como descrita por Lévy (2010, p. 79), está relacionada a uma postura atuante do leitor no processo de construção da obra: “o termo ‘interatividade’ em geral ressalta a participação ativa do beneficiário em uma transição de informação”. Dessa forma, ser leitor não é a única opção para quem navega pelas wikis, existe ainda a possibilidade de editar e, assim, ser também autor de conteúdo nas plataformas.

Os wiki-livros são propostos, organizados e publicados em uma das 15 plataformas da Wikimedia, disponibilizando conteúdo gratuito sobre diversos temas no formato de livros digitais. Em língua portuguesa, o site reúne 630 títulos produzidos coletivamente disponíveis para leitura, compartilhamento e edição. De modo conciso, a plataforma se define do seguinte modo:

O Wikilivros é uma comunidade do Movimento Wikimedia, assim busca de forma inclusiva e colaborativa criar recursos educacionais abertos, mais especificamente livros (de cunho educacional), apostilas e manuais inéditos. Ser aberto implica que o uso é livre, a cópia e a redistribuição do material em qualquer suporte ou formato, também adaptar, remixar, transformar, e criar a partir do material, para qualquer fim, mesmo que comercial (Wikilivros [...], [2023]).

Os wikilivros, que têm licença e conteúdo abertos para acesso e edição livres, são dedicados a textos de caráter instrucional e podem ser usados em diversos contextos no campo da educação (Wikibooks [...], [2023]). É importante frisar que essas obras não são enciclopédias: tratam-se de livros educativos, cujo gênero pode variar entre manuais, guias e livros didáticos (Wikibooks [...], [2023]). O trabalho de Lin, Sajjapanroj e Bonk (2011, p. 329) destaca a relação dos wikilivros com o mercado de publicação de obras: “wikilivros contornam os livros caros da indústria editorial[3]”. Na produção das obras, os usuários têm a liberdade de colaborar com a construção do conteúdo de modo cooperativo, de maneira que a renovação do conteúdo é constante. Outra característica é a estrutura marcada pela divisão em módulos, como em capítulos ou unidades em que o tema é aprofundado e desenvolvido. Por fim, os assuntos dos livros são variados, mas devem prezar pelo respeito aos gêneros mencionados previamente, além de ter como propósito a instrução a respeito do tema.

Por ser uma ferramenta cujo uso envolve um aspecto social de participação e de produção escrita de conteúdo, a plataforma Wikilivros é uma oportunidade de ampliar as habilidades de leitura e de escrita da língua estudada por meio da leitura e da escrita. A inserção dos estudantes de língua estrangeira no universo dos grupos que produzem, modificam e complementam esses textos escritos no ambiente on-line, os quais geralmente orbitam em torno de interesses comuns (Lemos, 2007), é uma oportunidade de trabalhar com a produção textual da língua-alvo.

 

O português como língua adicional e o texto em sala de aula

A expressão “língua adicional”, que faz referência às línguas adquiridas pelo estudante após o aprendizado de sua língua materna, é um conceito que engloba estratégias de ensino e processos aquisitivos de uma língua (Ramos, 2021). Por ser uma área em expansão nas últimas décadas no Brasil, com os números expressivos de estrangeiros que visitam o país (Brasil [...], 2023) e a consequente procura por cursos de português, são muitas as formas de ensino das línguas pesquisadas e aplicadas em cursos por todo o país.

Aprender uma língua, como defende Mendes (2011), é um processo complexo e que envolve um trabalho que vai além de compreender estruturas e formas da língua estudada. Dominá-la significa também saber estar em situações que requerem o uso do português, compreender diferenças culturais e perceber como elas influenciam os modos de interagir em uma sociedade diferente. Além de entender as estruturas da língua, é necessário compreender seus usos sociais.

A interculturalidade é um ponto com frequência discutido no ensino de línguas estrangeiras. Marín (2015) discorre sobre a perspectiva de descentralização e interaprendizagem das práticas interculturais, que consistem em observar a si próprio para poder também interagir e compreender o outro. Mendes (2011, p. 140) observa que: “[...] na perspectiva, portanto, que defendo como intercultural, a língua, mais do que objeto de ensino, passa a ser a ponte, a dimensão mediadora entre sujeitos/mundos culturais, visto que o seu enfoque se dará nas relações de diálogo, no lugar da interação”.

O processo de aquisição da língua durante as aulas pode acontecer por meio de uma série de estratégias, entre as quais está o desenvolvimento e o aprimoramento da leitura e da escrita da língua. O contato frequente dos estudantes com gêneros escritos da língua portuguesa na internet é um artifício importante com o qual o professor de língua adicional pode contar no processo de familiarização dos estudantes com os usos da língua estudada.

O fator cultural das discussões sobre ensino de línguas adicionais, mencionado previamente, se vale da vastidão de conteúdos a que se pode ter acesso hoje para ensinar a língua: é possível confrontar, pesquisar, debater, visualizar e produzir opiniões sobre diferenças culturais no espaço das redes. A ideia de promover trocas culturais por meio da língua se aproxima das visões comunicativas de ensino da língua, que destacam o uso social das línguas-alvo.

A abordagem comunicativa, de acordo com Almeida Filho (1986, p. 85), é aquela que “[...] visa o uso propositado da linguagem por meio de funções e eventos de fala no âmbito do discurso”. Comumente, algumas das vertentes desse tipo de abordagem se relacionam com a ideia de interculturalidade, promovendo um desenvolvimento das competências comunicativas em concordância com uma maior consciência do cenário cultural e dos contextos em que se pode agir na língua.

As habilidades comunicativas que envolvem leitura e escrita são pontos a serem desenvolvidos quando se propõe uma perspectiva comunicativa em sala de aula. Barré-de-Miniac (2006) afirma que leitura e escrita em língua adicional precisam ser trabalhadas de modo relacionado à cultura e à sociedade que cercam os usos da língua.

As propostas de ensino do português por meio dos wikilivros são apresentadas e relatadas neste capítulo em uma perspectiva semelhante às abordagens comunicativas e interculturais de ensino da língua. Isso significa que as culturas e percepções, tanto do estudante quanto do docente, são postas em diálogo mediado pela língua, sem desconsiderar possibilidades de interaprendizagem entre sujeitos de diferentes proveniências.

Em turmas de língua adicional, a opção por se trabalhar com ferramentas como os artigos, manuais e livros digitais possibilita aos estudantes o acesso ampliado ao universo cultural da língua que aprendem. Neste trabalho, consideramos que os wikilivros são ferramentas úteis para o professor que busca proporcionar aos estudantes uma visão da língua que considere diferentes registros e formas de escrever diante das necessidades comunicativas de cada situação de interação.

 

O wikilivro Cultura do Brasil e a produção escrita digital

O processo de escrita nas redes obedece a uma série de convenções do meio digital. Os textos escritos para veiculação nas plataformas on-line comumente respondem à necessidade constante de adaptação do texto ao suporte a que estão vinculados. No caso dos conteúdos colaborativos e livres, pressupõe-se que o construído compartilhado pode ser posteriormente revisado e editado, algo que seria realizado com maiores empecilhos técnicos em textos impressos ou escritos à mão.

Este capítulo apresenta uma posição favorável acerca do uso dessas ferramentas em percursos didáticos, ao considerá-las fonte de importantes discussões culturais das quais o professor de PLA pode se valer para construir material e aplicá-lo com estudantes de diferentes nacionalidades. Karasavvidis (2010, p. 134, tradução nossa) apresenta algumas perspectivas em relação ao uso dessas ferramentas em sala de aula:

[....] wikis podem ser usadas para dar suporte a uma ampla gama de atividades, incluindo, mas não se limitando a, documentação, relatórios, gerenciamento de projetos, glossários e dicionários on-line, grupos de discussão e sistema de informação. Wikis podem ser usadas para promover aprendizagem, colaboração, comunicação, interação, compartilhamento, criação de significado e reflexão[4].

Autores como Ayers, Matthews e Yates (2008) também afirmam que as wikis podem ser tanto um espaço para pesquisa dos estudantes quanto um lugar do qual o professor pode tirar ideias e informações interessantes para construir aulas e projetos.

Thomas (2022, p. 23, tradução nossa) reforça que as wikis não são espaços para emitir opiniões pessoais e precisam sempre contar com fontes de pesquisa anteriores ao artigo: “para manter os artigos consistentes e ordenados, as regras da Wikipédia estipulam que todos os artigos devem ser escritos de um ponto de vista neutro, devem citar fontes confiáveis e não devem conter pesquisas originais[5]”. À discussão dos wikilivros cabe adicionar que, diferentemente do que ocorre na plataforma Wikipédia, é possível que os livros digitais contem com fontes primárias de referência.

Na internet, a língua e a cultura podem ser exploradas em leituras disponibilizadas de modo gratuito. A cultura, que na perspectiva introduzida por Hall (2012) representa formas de interpretação do mundo tidas pelos indivíduos, é um aspecto indissociável do processo de aquisição de uma língua. Na realidade, língua e cultura caminham ao mesmo passo, de forma que um ensino efetivo da língua comumente contempla uma série de aspectos culturais que localizam o uso de um idioma em um contexto espacial e temporal muito específico.

Nesse sentido, o acesso à internet põe à disposição do estudante estrangeiro uma série de conteúdos em português. O wikilivro Cultura do Brasil é um material que explora aspectos culturais do país: ao estudante estrangeiro, a leitura de materiais como esse auxiliam na consciência a respeito da cultura nacional. Anteriormente à realização das atividades propostas com base nessa obra, listadas mais adiante, a situação do livro constava como parcialmente completa.

O livro em questão é uma produção coletiva de diversos usuários da plataforma. A obra conta com quatro capítulos: o primeiro fala sobre a formação do país e do povo brasileiro, o segundo explora as cinco regiões do Brasil, o terceiro destaca aspectos culturais do país e o último trata do folclore nacional. Na elaboração dos percursos didáticos que são apresentados na próxima seção, optou-se por trabalhar apenas com a seção de aspectos culturais brasileiros.

As seções a respeito de fatores culturais do país na obra englobam: arquitetura e patrimônio histórico, culinária, literatura, ciência e tecnologia, artes visuais, música, esportes e religião. Ao selecionar um dos temas, as atividades propostas aos estudantes apresentavam opções de complementar os textos já existentes com novas informações sobre cultura brasileira ou reescrevê-los completamente, a depender da quantidade e da necessidade das informações a serem transmitidas em cada tópico.

Propostas de percursos didáticos para o wikilivro Cultura do Brasil

Como intervenção didática no processo de aquisição da língua, este capítulo propõe três modos de trabalhar com a cultura brasileira em português por meio do wikilivro Cultura do Brasil. Em comum, cada uma dessas propostas possui um momento de sensibilização para o uso dos gêneros textuais relacionados ao formato wikilivro e um momento de elaboração de textos para complementar o conteúdo já existente na plataforma.

Aos estudantes, é muitas vezes novo o contato com os gêneros que compõem o wikilivro, sobretudo no que diz respeito à questão da autoria e da referência: é preciso tornar claro que o texto produzido para essas plataformas não se trata de uma percepção própria sobre a cultura, mas de um conteúdo que precisa ser rigorosamente pensado em relação a suas referências e embasamentos. Ainda que o ímpeto da escrita possa surgir das visões e observações dos estudantes da cultura brasileira, é preciso respeitar o rigor científico no processo de escrever um material como um livro com propósitos didáticos.

Fez-se a opção de dividir as propostas para níveis diferentes de proficiência em língua portuguesa. Como base, foi utilizado o Quadro europeu comum de referência para línguas[6] (Entenda [...], 2023), um artifício adotado para a organização dos diferentes momentos de compreensão e produção em língua adicional que um estudante pode vivenciar. Os níveis A1 e A2 correspondem aos níveis básicos da língua, em que os primeiros contatos com a língua-alvo são realizados. Em seguida, em um nível intermediário, estão as categorias B1 e B2, nas quais as produções e a compreensão da língua crescem em complexidade.

Procurou-se obedecer algumas características comuns a todas as propostas: a introdução de um tema linguístico comumente trabalhado em cada nível de proficiência; a realização de uma tarefa de produção escrita para complementar os textos lidos, feita ao final do processo; o desenvolvimento de atividades de debate e de reflexão a respeito dos pontos culturais trabalhados em sala de aula; e a aplicação de algumas atividades de preparação prévias para a tarefa final, por meio de propostas de menor extensão e complexidade.

Em cada uma das frentes, os alunos têm como tarefa final produzir um texto escrito que complementaria aquele já existente na plataforma. Porém, para que se atinja adequadamente os objetivos dessa tarefa, é necessário que o professor elabore formas de guiar a turma por um processo de sensibilização cultural e de reconhecimento dos usos da língua pertinentes a um texto com essa proposta. As sugestões de percursos apresentadas a seguir são pensadas para aplicação em turmas formadas por grupos de estudantes estrangeiros, de modo que seriam necessárias adaptações para contextos de aulas particulares ou de aulas para grupos reduzidos.


PROPOSTA 1:
ASPECTOS GERAIS DA CULTURA NACIONAL PARA OS NÍVEIS B1 E B2

A cultura de um país é um tema amplo, do qual dificilmente se pode ter uma visão global. No entanto, esforços como o do wikilivro Cultura do Brasil elencam alguns aspectos interessantes a serem pensados com estudantes do português brasileiro nos momentos em sala de aula. Os oito pontos que compõem a seção “Aspectos” da obra, listados anteriormente neste capítulo, servem a essa proposta como um ponto de partida de tudo o que pode ser produzido por estudantes que já possuem um conhecimento linguístico intermediário na língua estudada.

A parte introdutória da atividade busca apresentar aos estudantes elementos característicos da cultura brasileira, assim como discutir estereótipos a respeito do Brasil. O professor deve mostrar aos estudantes algumas imagens que representam parte da cultura do Brasil, isto é, algumas que façam referência a estereótipos e outras que tragam uma versão menos conhecida do país. A partir disso, o intuito é promover uma discussão a respeito das seguintes perguntas: essas imagens representam bem a ideia que você tem do Brasil? Quais imagens você adicionaria? E quais você removeria? Por quê? As habilidades desenvolvidas nessa etapa têm relação com a capacidade de expressar oralmente, em português, opiniões sobre o tema discutido e de partilhar com os colegas suas visões sobre o país.

Em seguida, o estabelecimento de comparações entre ideias e visões a respeito da cultura do Brasil e dos países de origem dos estudantes propõe um primeiro diálogo intercultural. Os posicionamentos dos participantes em relação às ideias difundidas a respeito de seus países colocariam em uso formas de expressar crenças e discordâncias em português. O professor pode considerar como guia perguntas como as listadas a seguir: quais visões os estrangeiros têm do seu país que não são verdade e quais delas são? Quais símbolos representam bem a cultura do seu país? Além disso, recomenda-se que o professor disponibilize alguns minutos para que os alunos respondam por escrito as respostas das perguntas.

A terceira parte da proposta é constituída por uma atividade em duplas, na qual os estudantes devem trabalhar na construção de duas classificações a respeito dos principais símbolos da cultura brasileira. Na atividade, devem ser discutidos e escolhidos em dupla cinco símbolos que representavam o Brasil na percepção dos estudantes antes de aprender português ou visitar o Brasil e cinco símbolos que hoje representam a visão que os estudantes têm do país.

O resultado deve ser apresentado aos demais estudantes da turma e as classificações podem ser comparadas durante o momento de apresentação. Nesse caso, observa-se a necessidade de reforçar estruturas verbais que compõem sentenças que comparam momentos anteriores e atuais, sobretudo as que combinam pretérito imperfeito e presente para expressar percepções que se alteraram com o passar do tempo[7].

Em seguida, tem início um processo de sensibilização em relação às diferenças entre uma opinião a respeito de uma cultura, exploradas até então nas atividades, e de fatos comprovados e divulgados cientificamente. O professor pode enfatizar que outras informações culturais podem ser encontradas em livros e manuais elaborados e divulgados na internet. Nesses formatos, no entanto, é menos visível que o conteúdo parta de uma perspectiva própria do mundo dos autores, uma vez que o texto conta com referências a respeito do tema.

A discussão oral sobre as seguintes perguntas com a turma pode servir como forma de explorar essas ideias: como a internet pode fornecer informações sobre tradições e cultura brasileira? Quais plataformas apresentam as melhores informações? Livros digitais são boas fontes de informação? Que outros formatos podem fornecer informações? Quais formatos estão ligados ao conhecimento com referências científicas e quais estão mais próximos da opinião pessoal? Uma sugestão para o professor é apresentar formatos como o fórum, a postagem em mídias sociais, os artigos de enciclopédia, as notícias e outros gêneros textuais para que os estudantes apontem quais deles podem levar em consideração apenas a opinião pessoal do autor.

Então, após o processo de introdução do tema e discussão das percepções dos estudantes, o wikilivro Cultura do Brasil seria apresentado aos estudantes como uma referência de pesquisa e leitura ainda em fase de construção. Em um contexto em que os estudantes possuem os próprios dispositivos conectados à internet, o professor pode disponibilizar o link para os estudantes explorarem o livro individualmente ou em grupo. Caso contrário, o professor, por meio do seu dispositivo, pode navegar na página com seus estudantes.

Após o primeiro contato com o wikilivro em sala de aula, recomenda-se pedir que os estudantes falem sobre suas percepções a respeito das percepções iniciais acerca do livro. Algumas perguntas podem guiar a discussão: o livro está completo? Você sente falta de alguma informação sobre o tema? Há algo que você mudaria? Quais são as referências utilizadas para a construção do texto? Qual parte você achou mais interessante? Por quê? Qual dos assuntos trabalhados mais te atrai?

Os apontamentos sobre pontos positivos e negativos do livro podem ser escritos e organizados pelo professor para tornar claro para os estudantes aquilo que ainda pode ser aprimorado na obra. A partir dessas percepções iniciais, o professor partirá para a leitura efetiva de trechos da obra, a ser realizada individualmente e posteriormente discutida em pequenos grupos. Ler uma seção do livro tem como propósitos a familiarização dos estudantes com características da escrita da obra e a compreensão de algumas informações sobre a cultura brasileira.

A proposta da atividade de leitura sugere separar os alunos em alguns grupos para discussão sobre o que foi lido em trechos do livro. Cada equipe deve escolher um dos pontos da seção “Aspectos” do wikilivro Cultura do Brasil para ler. A leitura deve inicialmente ser feita de modo individual, para que, na etapa seguinte, seja realizada a discussão em grupo a respeito da leitura. Os integrantes de cada equipe, que leram o mesmo texto, precisam então organizar modos de comunicar em português ao resto da turma os pontos mais importantes da leitura feita. Nessa etapa, o uso da língua para discussão e apresentação das seções do capítulo também depende do desenvolvimento das habilidades de leitura na língua-alvo.

As apresentações em sala de aula podem ser feitas de modo expresso, com o tempo estipulado de conversa determinado pelo professor em período de aula, ou podem ser estendidas para compor uma atividade mais complexa e que demanda mais tempo. Na segunda opção, os estudantes precisariam conversar fora do ambiente controlado de sala de aula para trabalhar na construção de uma apresentação, que assumiria um formato semelhante a um seminário. Caso os estudantes tenham um vínculo acadêmico, essa opção se torna ainda mais atrativa como modo de explorar em português um gênero corrente da vida universitária.

Entre os temas linguísticos envolvidos na leitura do texto e nas apresentações dos estudantes aos quais o professor deve dar maior atenção está o uso de tempos verbais para a apresentação dos fatos lidos no wikilivro Cultura do Brasil. Recomenda-se realizar um trabalho aprofundado em relação às diferenças aspectuais dos tempos pretérito perfeito e pretérito imperfeito, que podem ser usados pelos estudantes para relatar fatos da história brasileira no momento de apresentar os textos e posteriormente reformulá-los.

Por fim, após as apresentações, faz-se finalmente a proposta de tarefa para qual esse percurso didático foi pensado: a escrita colaborativa para melhoria do texto do wikilivro lido e discutido em sala de aula. Deve-se escolher um dos seguintes temas: arquitetura e patrimônio histórico, culinária, literatura, ciência e tecnologia, artes visuais, música, esportes ou religião. A partir disso, os estudantes devem redigir uma proposta de reformulação do texto original do wikilivro Cultura do Brasil, adicionando novas informações coletadas durante pesquisas em meios digitais e impressos.

A proposta de tarefa foi apresentada aos estudantes pelo seguinte enunciado escrito: “Você leu o livro Cultura do Brasil. Nos textos da obra, no entanto, mais informações podem ser adicionadas para criar um texto mais completo. Proponha uma nova versão do texto de um dos aspectos culturais brasileiros. Entregue sua versão com uma cópia da versão original. Não se esqueça de adicionar as referências das informações que você utilizou”.

A produção desse texto escrito, além de promover o exercício das habilidades de escrita na língua-alvo, também exige dos estudantes pesquisas no campo da cultura brasileira, de modo que informações lidas sobre o tema ajudem a construir um texto coerente com a proposta do wikilivro.


PROPOSTA 2:
AS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL PARA TURMAS DE NÍVEL A1

Para turmas de PLA de níveis iniciais, a proposta de leitura e aproximação da ideia de um wikilivro precisa ser repensada. O foco da produção, dessa vez, está no trabalho com os textos sobre a arte nacional, por ser um assunto que pode ser visualmente abordado durante as aulas. A mescla de texto escrito e imagem aparece tanto nas atividades quanto na tarefa de composição final proposta aos estudantes. Temas visuais servem como artifício para discutir percepções sobre arte, trabalhar com a descrição em português e comparar com a cultura artística do seu próprio país de origem,

No wikilivro em questão, a seção de artes visuais conta com um texto resumido da história cultural brasileira nas artes plásticas. Aos estudantes, faz-se a proposta de complementar esse trabalho escrevendo pequenos textos a respeito de alguns dos principais artistas plásticos brasileiros e suas obras mais importantes. A renovação coletiva do texto já existente seria ainda complementada com mais possibilidades de aprofundamento no tema.

Do ponto de vista linguístico e didático, a elaboração do trabalho final sobre as obras de um autor estimula o uso de certas estruturas linguísticas aprendidas nos níveis mais básicos da língua. Apresentações biográficas, caracterização das obras e descrição de trabalhos artísticos comumente envolvem estruturas com os verbos ser, estar, ter e existir no presente, que são verbos de uso muito frequente nas aulas de turmas dos primeiros níveis da língua.

Na introdução ao tema das artes plásticas no Brasil, recomenda-se ao professor preparar com antecedência um material com algumas imagens de obras de arte famosas ou populares produzidas no Brasil. Depois, o docente deve apresentá-las aos estudantes, tendo como foco da discussão perguntas como: quais são as sensações que cada obra transmite? O que você sabe sobre arte brasileira? Você conhece alguma das obras mostradas? Quem é o autor de cada obra? Quais são as características principais de cada obra? Aliado a isso, é possível também pedir uma descrição do que se vê e sente diante da obra, para praticar as estruturas descritivas da língua, além de discutir gostos dos estudantes em relação às obras apresentadas.

Para reforçar a interculturalidade da proposta, considera-se interessante também pedir para que os alunos, após a discussão, mostrem alguma obra de arte famosa em seu país. Para essa atividade, é necessário que os estudantes tenham acesso à internet em seus dispositivos ou em um computador em sala de aula para efetuar a pesquisa. Além de apresentar a obra aos colegas, é interessante que o estudante relacione adjetivos com seus sentimentos em relação à obra e, se possível, efetue uma breve descrição do trabalho com os recursos linguísticos da língua-alvo que acumula até o momento.

Em seguida, recomenda-se trazer textos de diversos gêneros sobre arte para que os estudantes possam ter contato. Um recorte com manchete, pedaços de reportagem, excertos de notícia e um trecho de artigo de enciclopédia formam uma composição feita para debater como podemos encontrar informações sobre arte na internet. A ideia é que, diante dos textos, os estudantes respondam à seguinte pergunta: “onde você encontra informações sobre arte na internet?”. É importante frisar que é recomendado que o material selecionado para a composição seja mais breve, devido ao nível de proficiência dos estudantes ainda estar limitado à leitura de textos menores nesse patamar do processo de aquisição.

O professor pode, em seguida, apresentar a ideia e o conceito de wikilivro. É recomendável comentar sobre a função social dos gêneros textuais envolvidos na construção da plataforma e enfatizar aspectos como a organização por capítulos, a citação de referências para elaboração dos textos e outros aspectos que caracterizam obras do tipo. O processo de apresentação do livro deve, preferivelmente, ser realizado com a apresentação do site em tempo real para os estudantes, uma vez que a descrição verbal do que é um wikilivro pode ser readequada para o nível A1 com o uso de recursos visuais.

Os estudantes, então, são convidados a ler, em conjunto com os colegas e o professor, o texto do aspecto Artes plásticas da obra Cultura do Brasil. Com a leitura em voz alta, intercalada entre docente e estudantes, é recomendável realizar também um trabalho com o vocabulário do texto. Para finalizar a leitura e a interpretação de texto, os estudantes devem desenvolver a seguinte atividade: escolher um dos pintores brasileiros mencionados no texto e realizar uma descrição da composição de uma obra desse artista.

Para auxiliar no desenvolvimento da atividade, o professor pode explicar ou revisar o tema das diferenças entre os verbos ser e estar em português brasileiro, comumente usados no processo descritivo solicitado. A exposição de diferença de uso desses dois verbos pode também vir acompanhada de uma explicação a respeito do uso dos verbos ter e existir nos mesmos contextos. É fortemente recomendado que se retorne, nos textos previamente lidos, a momentos em que formas de descrever e de expressar existência são usadas.

Por fim, a tarefa final consiste na produção de um texto mais elaborado: “Considerando as leituras do texto Artes plásticas do wikilivro Cultura do Brasil, você deve produzir mais conteúdo para o livro. Escolha uma obra de arte importante para adicionar à página: 1. crie uma legenda que a descreva e 2. escreva um pequeno parágrafo que destaque sua importância para a arte brasileira. O texto deve ser pensado como um complemento do wikilivro Cultura do Brasil”. Por meio de uma colaboração incluindo imagem e texto, os estudantes produziriam um texto em português com propósito comunicativo real, que pode ser posteriormente acessado por outros usuários e pelos próprios colegas.


PROPOSTA 3:
GASTRONOMIA REGIONAL BRASILEIRA PARA TURMAS DE NÍVEL A2

O trabalho com gastronomia em sala de aula é uma alternativa frequente em cursos de língua adicional. No entanto, a opção por esse conteúdo demonstra ser popular não apenas pela possibilidade de se discutir um tema frequentemente adorado por muitos estudantes, mas também por gerar uma aproximação cultural bastante intensa da cultura do outro.

Para a última proposta, foi selecionado o tema “gastronomia brasileira”, que é um dos aspectos abordados pelo wikilivro Cultura do Brasil. Ainda que exista um texto a respeito dos hábitos alimentares do Brasil, pouco se explora a respeito das diferenças culinárias entre as diferentes regiões do país. A partir dessa premissa, a tarefa final dessa proposta pede aos estudantes que produzam breves textos que comentem e explorem a questão da comida em cada uma das cinco regiões, especificando ingredientes frequentes, pratos populares e típicos, e elementos característicos da gastronomia local.

Recomenda-se que a aula comece com questionamentos para os estudantes sobre a gastronomia brasileira: quais são seus pratos favoritos no Brasil? Você já experimentou alguma comida brasileira que não gostou? Quais são as comidas típicas do Brasil? A conversa sobre essas perguntas pode acontecer em pequenos grupos, no formato entrevista. Posteriormente, os estudantes devem contar ao restante da turma o que descobriram nas respostas de cada colega entrevistado.

A atividade deve ser seguida de um momento de apresentação breve sobre a culinária nacional. Respondendo à última pergunta, o professor pode apresentar aos estudantes algumas das comidas típicas do país e trazer alguma lista que apresente e classifique essas comidas para discussão, ou ainda uma receita, caso os estudantes já tenham tido contato com o modo imperativo no português brasileiro em algum momento.

Em seguida, os estudantes terão alguns minutos para escolher, individualmente, um prato típico do seu país e apresentá-lo para o restante da turma, comentando os seguintes aspectos: ingredientes usados, onde comprar para consumir, se há uma relação com alguma festividade, outras curiosidades sobre o consumo. Depois, uma pergunta deve ser feita para os estudantes: “onde é possível encontrar informações sobre a culinária do seu país na internet?”.

Posteriormente, o professor pode apresentar aos alunos o wikilivro selecionado para ser trabalhado em sala de aula. Além de apresentar os paratextos, o docente deve fazer a leitura em voz alta, junto com os estudantes, da parte dedicada à culinária nacional. Após a leitura e o trabalho com o vocabulário do texto, os estudantes devem ser questionados: “que outras informações colaborariam para tornar o texto mais completo?”.

Durante a leitura, recomenda-se dar um especial destaque ao uso de advérbios de frequência e tempo no texto. Isso deve ocorrer pensando na necessidade de usar tais termos nos textos que serão produzidos, uma vez que essas expressões demonstram ser úteis em textos que especificam a recorrência desses pratos na cultura nacional.

Com a turma, deve ser estipulada uma estratégia de escrita para complementar o texto original. Recomenda-se enfatizar algumas características da produção, como um modo de escrita mais visivelmente impessoal e fundamentado no conteúdo encontrado em outras referências. Com os estudantes, o professor pode delegar tarefas e distribuir funções no processo de escrita. A ideia é que o texto transformado seja de autoria coletiva da turma e que exista uma coesão entre tudo o que foi escrito pelos alunos.

Entre os temas que podem ser trabalhados com os estudantes, sugere-se um trabalho regionalizado em relação à comida brasileira, deixando que cada aluno foque suas pesquisas em uma região do Brasil, ou, ainda, um trabalho que destaque algumas comidas típicas de grande importância para o país de forma que cada estudante ficaria responsável por escrever um breve parágrafo que falasse sobre um prato típico.

A proposta de tarefa sugerida para esse percurso educativo é: “Você já experimentou comidas brasileiras? Em cada região do país existem especialidades culinárias e ingredientes que são mais frequentes. Em pequenos grupos, escolha uma região do Brasil e escreva um texto sobre o tema, de modo a complementar o texto já existente na seção de gastronomia do livro Cultura do Brasil. O seu texto deve considerar outras fontes de pesquisa e apresentar um bom resumo das características, pratos típicos e ingredientes comuns à região escolhida”.

Por meio dessa proposta, espera-se desenvolver nos estudantes a capacidade de transitar por formas de escrita on-line de uso frequente. Além disso, as tentativas de produzir um texto para um wikilivro coloca os estudantes diante de um uso real da língua, a partir do qual as competências linguísticas e as habilidades de escrita e leitura podem ser exploradas e aprimoradas.


RESUMO DAS PROPOSTAS DIDÁTICAS

As três propostas apresentadas nesta seção são algumas das muitas possibilidades de se trabalhar com wikilivros em disciplinas de PLA. Com a relevância de perspectivas de ensino interculturais no ensino de língua para estrangeiros, a opção pelo wikilivro Cultura do Brasil como fonte de pesquisa e espaço de produção e publicação reforça a necessidade de um trabalho conjunto entre os domínios da língua e da cultura. A seguir, estão resumidos os pontos principais de cada uma das propostas descritas neste capítulo: QUADRO 1 Panorama das três propostas para o wikilivro Cultura do Brasil

Proposta 1 (B1/B2) Proposta 2 (A1) Proposta 3 (A2)
Introdução Discussão a respeito dos símbolos que representam o país por meio de imagens Apresentação de obras de artes brasileiras e discussão de percepções Discussão sobre preferências e culinária brasileira
Trabalho com temas da cultura brasileira Discussão de visões e estereótipos sobre seu país de origem Apresentação de uma obra de arte do seu país Exposição dos estudantes a textos sobre culinária brasileira
Classificação dos símbolos da cultura brasileira Exposição dos estudantes a textos sobre arte Apresentação de um prato típico do seu país
Sensibilização ao formato wikilivro Discussão das formas de obter conhecimento cultural Introdução à leitura dos wikilivros Discussão das formas de obter conhecimento sobre gastronomia
Apresentação do wikilivro
Debate acerca do formato e das informações
Leitura da seção de artes plásticas do wikilivro com a turma Leitura da seção de culinária do wikilivro com a turma
Leitura do wikilivro em grupos e comunicação do conteúdo ao restante da turma Atividade de descrição de uma obra de arte apresentada no wikilivro Leitura da seção de culinária do wikilivro com a turma
Tarefa final Produção de texto escrito para o wikilivro Cultura do Brasil Produção de legendas para as obras de arte do wikilivro Cultura do Brasil Produção de textos sobre a culinária regional para o wikilivro Cultura do Brasil

Fonte: elaborado pela autora.

 

Considerações sobre a experiência das propostas em sala de aula

As sugestões de percursos didáticos da seção anterior nasceram de experiências prévias em sala de aula com alunos de PLA[8]. As aplicações, que ocorreram de modo anterior às propostas finais, demonstraram ser úteis para alcançar uma versão aperfeiçoada do percurso e das atividades. Assim, as propostas descritas anteriormente são uma versão aprimorada de um projeto aplicado em estágio inicial e, por isso, buscam corrigir alguns equívocos das primeiras tentativas.

A primeira proposta foi aplicada em estágio inicial a uma turma de português brasileiro do nível B1, composta por cinco estudantes. Na ocasião, os estudantes foram introduzidos diretamente às etapas de sensibilização a respeito dos wikilivros, uma vez que a turma já havia participado de algumas discussões em relação à cultura brasileira no começo da disciplina. A partir dos debates culturais e das frequentes menções de estudantes a fontes da internet para falar sobre cultura brasileira surgiu a ideia da proposta.

Na ocasião, os cinco estudantes da turma escreveram seus textos a respeito de um dos aspectos culturais listados em Cultura do Brasil. No entanto, o trabalho com o texto escrito demanda um processo de reescrita e readequação natural ao processo de aprendizado e aquisição da língua. Em razão do tempo reduzido, apenas uma reescrita foi realizada e os textos não foram de fato publicados na plataforma.

Ainda que o resultado não tenha chegado aos fins propostos, a experiência serviu para aprimorar as propostas e planejá-las para uma execução a longo prazo, considerando a necessidade de reservar algumas aulas para a realização do processo de introdução, sensibilização cultural e produção textual. A apresentação da proposta 1, neste capítulo, já considera uma série de mudanças em relação aos planos iniciais e precisa ser reaplicada para que mais apontamentos a respeito de sua eficácia possam ser feitos.

Uma breve experiência a respeito da proposta 3 foi realizada, com a produção de textos relativos às práticas culinárias de cada região do Brasil. Novamente, a introdução do wikilivro partiu de discussões prévias a respeito de gastronomia, tema amplamente explorado na ocasião com a turma – por influência do material didático utilizado. Apenas três textos foram produzidos no final do semestre, e novamente não foram publicados. Em razão do planejamento errôneo em relação ao tempo a ser dedicado à tarefa final, a questão da extensão do momento de reescrita e aprimoramento do texto é posta em questão.

Primeiramente, reforça-se a necessidade frequente de um trabalho de reescrita e readequação dos textos escritos como forma de aprimorar o trabalho com o gênero textual e com os usos da língua no contexto de veiculação desse texto. Atividades de reescrita demonstram ser proveitosas ao colocar os estudantes diante de reflexões sobre a língua que aprendem e também sobre as diferenças percebidas em relação a sua própria língua materna. Por isso, deve ser dedicado um tempo à realização do processo de reelaboração do texto.

Ainda que a publicação dos textos produzidos não tenha sido realizada, principalmente em decorrência do tempo reduzido para se trabalhar melhor com a reescrita do texto, focar na publicação como objetivo final da atividade dá aos alunos a possibilidade de se engajar em uma atividade em que os usos da língua não são apenas pensados de um ponto de vista teórico e abstrato.

A publicação desses textos consolida uma proposta de desenvolvimento das habilidades de escrita dos estudantes, além de incentivar a expansão de conhecimentos a respeito da cultura brasileira durante o período de vivência dos estudantes no Brasil. Destaca-se também a importância do trabalho focado em apresentar a cultura de escrita relacionada aos gêneros textuais trabalhados em um wikilivro, a partir do esclarecimento da necessidade de consulta a algumas fontes de pesquisa no momento de composição do texto.

A aplicação das atividades descritas ocorreu de modo extraordinário e anterior à formulação completa da proposta deste capítulo: por essa razão, essas experiências são mencionadas apenas como parte da trajetória para a construção das propostas, sendo necessário realizar mais testes para que sua eficácia seja, de fato, discutida. A completa testagem dessas tarefas precisa ainda ser realizada a partir da realidade do professor que as aplica e, por isso, os resultados obtidos podem ser diversos. De modo geral, o uso e a adaptação dos três percursos didáticos precisam sempre considerar os contextos de ensino a que serão adicionados.

As propostas aqui listadas podem também ser postas em renovação: sempre há informações a serem adicionadas aos livros e mudanças a serem feitas. Uma vez que o livro em questão pode ser sempre complementado, as atividades com wikilivros demonstram ser dinâmicas e têm o diferencial de serem verdadeiramente participativas, inserindo estudantes em contextos reais de uso da língua portuguesa.

Obras digitais como os wikilivros podem ser alternativas interessantes para o trabalho de produção escrita em turmas de português brasileiro como língua adicional. O trabalho conjunto é sempre um fator a ser valorizado na sala de aula do PLA: o sentimento de colaboração com um projeto iniciado por outros usuários, além de incentivar uma postura responsável dos estudantes na escolha de suas palavras, é um exemplo de autonomia do indivíduo em sala de aula. Toda a produção escrita é feita e pensada pelos alunos, que idealmente recorrem ao professor no intuito de aperfeiçoar o texto que construíram.

Este capítulo surge como um incentivo a práticas que mesclam o uso da internet – corriqueiro no cotidiano dos estudantes – com a prática de ensino em sala de aula. Usar os meios já conhecidos dos estudantes para ampliar o conhecimento na língua é também uma forma de pensar em um uso da língua em sala de aula que é comunicativo e, sobretudo, autêntico.

 

Referências

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  1. A expressão “inteligência coletiva” foi criada por Lévy na década de 1990. Algumas de suas obras mencionadas neste capítulo, como Cibercultura (2010) e A inteligência coletiva (2011), exploram esse conceito.
  2. “[…] the difference is that when you’re done, you aren’t done. In fact, you – or rather the article you’ve started – is never done. Ever. In fact, this is because anyone can edit ‘your’ article at any time or leave comments about it”.
  3. “Wikibooks circumvent the expensive textbooks of the publishing industry”.
  4. “Wikis can be used to support a wide range of activities including but not limited to documentation, reporting, project management, on-line glossaries and dictionaries, discussion groups, and information system. Wikis can be used to promote learning, collaboration, communication, interaction, sharing, meaning making and reflection”.
  5. “To keep articles consistent and orderly, Wikipédia’s rules stipulate that all articles must be written from a neutral point of view, they must cite reliable sources and they must not contain original research”.
  6. O quadro mencionado é usado com frequência no campo do ensino de línguas para definir, de modo aproximado, o nível de proficiência de um indivíduo em uma língua: “o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (CEFR) é um marco internacional de descrição de competências linguísticas. Descreve uma competência linguística numa escala de seis níveis, do A1 (para principiantes) ao C2 (para quem já domina uma língua)” (Entenda [...], 2023).
  7. O principal tipo de estrutura a que se refere o trecho em questão se assemelha a este exemplo: “antes eu pensava (pretérito imperfeito do indicativo) que... hoje eu acho (presente do indicativo) que…”.
  8. A proposta 2 é a única que não surge na necessidade de criar alternativas para o trabalho em sala de aula com uma turma específica, tendo sido elaborada sem que houvesse uma turma no nível esperado para a aplicação da proposta. As propostas 1 e 3 são elaboradas e aperfeiçoadas com base em duas turmas de alunos que cursaram os níveis B1 e A2 no ano de 2023.