A Wikimedia no Brasil/IV

A Wikipédia e a construção de uma história por mãos negras no espaço digital
DISCUSSÕES A PARTIR DO PROJETO IMPRENSA NEGRA EDUCADORA (PINE)[1]

jonas silveira da silva
maria júlia de lima silva
matheus menezes marçal
melina kleinert perussatto

 

Introdução

O presente capítulo aborda as relações estabelecidas com a Wikipédia pela equipe do Projeto Imprensa Negra Educadora (Pine), do Laboratório de Ensino de História e Educação (Lhiste) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na criação, avaliação e edição de verbetes associados ao jornal O Exemplo, editado em Porto Alegre, entre os anos de 1892 e 1930. O projeto tem como objetivo criar, disputar e divulgar narrativas históricas acerca do Brasil republicano, desde o ponto de vista e da escrita da história registrada na imprensa negra, pela intelectualidade negra, nas primeiras décadas após a abolição da escravidão. O nome do projeto surgiu da convergência entre o conceito “movimento negro educador” (Gomes, 2017), que enfatiza os saberes emancipatórios e desestabilizadores do movimento negro, e o projeto político de O Exemplo, qual seja, o combate ao racismo por meio da educação, bem como do registro de histórias e memórias escritas por pessoas negras. Para isso, utilizaram como tribuna um dos principais meios de comunicação existentes na época: a imprensa.

O Pine surgiu em abril de 2021, no contexto de ensino remoto emergencial por conta da pandemia de covid-19, visando construir um ensino de história antirracista e educar para as relações étnico-raciais em espaços virtuais escolares e não escolares. Em seu primeiro ano, focou na criação de conteúdos para o perfil do Instagram[2], centralizando-se nas biografias dos fundadores do jornal O Exemplo e os sentidos em disputa relacionados ao 13 de Maio em diferentes tempos históricos. No ano seguinte, desenvolveu um site[3] para abrigar acervos e pesquisas sobre a imprensa negra sul-riograndense, bem como as criações e as publicações da equipe. Atualmente, para ampliar as estratégias de divulgação científica e de educação das relações étnico-raciais, tem ocupado a Wikipédia, por ser uma plataforma popular e democrática de divulgação de conhecimentos históricos, e tem articulado ações educativas em escolas e cursos populares de pré-vestibular. Entendemos, pois, que esses são caminhos possíveis para a criação de espaços de transformação através do ato de educar, para além da escola (hooks, 2013).

Assim, inspirado no legado de O Exemplo, na importância da Wikipédia para a ampliação de repertórios educacionais, e na necessidade de promover formas de reconhecimento, valorização e reparação na história do Brasil desde o ponto de vista da autoria e da participação negra (Brasil, 2004), no presente capítulo, interrogamos e exploramos possibilidades, desafios e limites da construção, da disputa e da divulgação de histórias e memórias na plataforma a partir do protagonismo de mãos negras (Nascimento, 2021). Em outras palavras, 20 anos após a promulgação da Lei Federal nº 10.639/2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), tornando obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino brasileiros, de que maneira plataformas como a Wikipédia colaboram para a sua implementação ou a sua limitação?

Esse questionamento torna-se relevante diante da sua popularidade na pesquisa escolar, incluindo buscas sobre o próprio O Exemplo. Com frequência, integrantes da equipe ouvem de pessoas externas ao projeto coisa do tipo: “não conhecia esse jornal, mas encontrei na Wikipédia...” ou “li na Wikipédia que O Exemplo...”. Dessa forma, na primeira parte, o capítulo analisa o referido artigo a partir do referencial do campo do pós-abolição, em diálogo com o ensino de história e a educação das relações étnico-raciais, e discorre sobre as interlocuções do Pine com projetos historiográficos na plataforma, refletindo sobre divulgação científica e curadoria digital. Na segunda parte, problematiza a curadoria – ou seja, as escolhas feitas para descrever pessoas negras pelas(os) usuárias(os) que criaram e modificaram o artigo de O Exemplo e seus impactos nas políticas de memórias sobre as pessoas negras – e propõe uma curadoria que considera as contradições históricas na escrita da história.

Na terceira parte, aborda-se a importância de se enxergar a curadoria e, sobretudo, a escrita como atos políticos. Partindo de uma proposta de reflexão sobre a necessidade da transformação do corpo negro de objetividade para subjetividade, questiona-se como a Wikipédia possibilita que a escrita da história negra seja, de fato, escrita por mãos negras. Na quarta parte, destaca-se como o espaço digital mobiliza novas abordagens de ativismos e resistências, a partir do ciberquilombismo e da política de memória, mas também como continua enraizada uma escrita digital colonizada. Na quinta parte, apresenta uma síntese das reflexões que o projeto tem feito ao analisar o verbete da enciclopédia digital sobre o jornal O Exemplo e sobre a forma de produção do conhecimento na plataforma. Tendo em vista suas limitações epistemológicas, tentarmos estabelecer parâmetros para a escrita da história negra na Wikipédia.

 

O Exemplo na Wikipédia

O artigo de O Exemplo foi inserido na Wikipédia no dia 17 de janeiro de 2010, pelo(a) usuário(a) Cogitarte, sobre o qual não obtivemos informações[4]. Acerca das entradas secundárias, notamos a ausência de hiperlinks sobre pessoas, associações e projetos idealizados ou apoiados pelo periódico. Esse breve diagnóstico motivou a equipe a ocupar a plataforma, somando-se aos esforços empreendidos para a implementação do artigo 26-A da LDB. Entre as determinações contidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (DCNERER), de 2004, está aquela referente ao desenvolvimento, ao longo do ano letivo escolar, de projetos de ensino e outros meios com vistas à “[...] divulgação e [ao] estudo da participação dos africanos e de seus descendentes em episódios da história do Brasil, na construção econômica, social e cultural da nação, destacando-se a atuação de negros em diferentes áreas do conhecimento, de atuação profissional, de criação tecnológica e artística, de luta social” (Brasil, 2004, p. 22).

A determinação seguinte amplia para “a participação dos africanos e de seus descendentes na diáspora em episódios da história mundial”. Portanto, não se trata mais de abordar a participação de pessoas e coletividades negras na chave da contribuição para uma cultura de matriz branca e europeia, como preconizava a perspectiva da democracia racial, mas sim, na construção da sociedade e da história brasileira e mundial, em seus múltiplos aspectos, com sujeitos ativos. Para a construção dessa reparação histórica no campo educacional, tornam-se fundamentais o reconhecimento e a valorização de histórias e memórias em uma perspectiva plural e afirmativa, alterando repertórios, currículos e representações. A qualificação da atuação docente na educação básica, por sua vez, exige que as instituições superiores de ensino reformulem os currículos dos cursos de formação inicial e continuada de professores, bem como desenvolvam recursos didáticos e pesquisas ancoradas em referenciais teórico-metodológicos condizentes (Brasil, 2003).

Nesse processo, o Pine estabeleceu diversas interlocuções. Ana Flávia Magalhães Pinto (2019) convida-nos a um exercício cognitivo pautado na construção de um imaginário sobre existências negras no século XIX desde a chave interpretativa da liberdade e da cidadania negra. Em uma aula do curso “Ancoragens para memória negra”, recorda-nos que a escrita da História é “um esforço humano para lidar com o seu percurso coletivo ao longo do tempo e em diferentes espaços”, cujas escolhas impactam sobre a elaboração do passado e na “maneira como nós aprendemos a reverberar isso no presente e projetar futuros” (Pinto, 2022, p. 14). Portanto, quais foram as escolhas feitas por quem criou e editou o verbete de O Exemplo na Wikipédia? Como, afinal, a plataforma concorre para a construção de histórias e de memórias plurais e afirmativas sobre pessoas negras?

Em nossa análise, notou-se que diversas alterações foram realizadas ao longo desses mais de dez anos, mas nenhuma delas modificou qualificativos utilizados pelo primeiro usuário para descrever O Exemplo (“pós-abolicionista”; “voltado para negros, mulatos e ‘pardos’”; “índole integracionista”) e um de seus integrantes (“líder integracionista”). Foi ainda identificada uma reduzida menção às diversas pesquisas acadêmicas sobre o periódico, bem como imprecisões factuais e cronológicas, além de mais informações e detalhes sobre o periódico. A única entrada secundária refere-se a um dos principais apoiadores, Aurélio Viríssimo de Bittencourt, que igualmente demanda revisão e atualização[5]. Considerando que esse personagem, fundadores e colaboradores de O Exemplo nasceram livres entre as décadas de 1860 e 1870, investir na divulgação de suas biografias concorre diretamente para as questões apontadas.

Diante do diagnóstico, um trabalho coletivo foi organizado, envolvendo o estudo e a criação de biografias na plataforma, a participação em oficinas – “Wikimedia educação” e “Mais teoria da história na wiki – Wikipretas” – e a divisão de tarefas para a revisão do artigo de O Exemplo e a posterior criação de entradas secundárias. Nesse processo, notamos que um integrante do projeto “Mais teoria da história na Wikipédia” realizou uma edição no verbete de O Exemplo e inseriu o site do Pine como uma referência, o que nos instigou a aprimorá-lo. O referido projeto vincula-se a uma das nossas inspirações, o projeto “Teoria da história na Wikipédia”, coordenado por Flávia Varella e Rodrigo Bonaldo, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Desde 2018, o projeto “Mais teoria da história na Wikipédia” vem qualificando as entradas sobre o campo da Teoria da História na plataforma, por meio da atuação de um projeto de extensão. Os desafios de conciliar a divulgação científica com as regras disciplinares do campo expressa-se, por exemplo, no compartilhamento da autoridade com um público muito mais amplo e nem sempre especialista, e na decorrente necessidade de interlocução entre acadêmicos e divulgadores. Esses imperativos colocam o trabalho historiográfico na plataforma nas fronteiras entre uma “história feita para e com o público” (Varella; Bonaldo, 2021, p. 2-3). A noção de curadoria, nesse sentido, mostrou-se útil, sobretudo para manejar o arcabouço teórico-metodológico disciplinar, como a crítica documental na edição, criação e organização das entradas na plataforma.

Entre os limites colocados pelo compartilhamento de autoridade, está o reconhecimento da autoria das inserções e, consequentemente, da formação e especialização do usuário acerca do tema editado. A relação com diferentes linguagens e epistemologias, contudo, constitui o próprio trabalho historiográfico, não mais restrito à academia. Como apontam Pedro Terres e Lucas Piantá (2020, p. 283), o desacomodar provocado por essa negociação de autoridade pode gerar novas formas de trabalhar e de compreender e praticar “a transgressão territorial da linguagem acadêmica para a linguagem dos públicos (globais) através das histórias (digitais)”. Tendo em vista o caráter popular e aberto da plataforma, é espaço para o exercício da cidadania no ambiente digital, expresso no direito de registrar e disputar memórias e histórias. A partir de Valdei Araújo (2017), os autores postulam que historiadores têm se tornado curadores de história, compartilhando a luta pelo seu direito à história com outros sujeitos, sendo poucos especialistas ou acadêmicos.

Diante disso, questionamos sobre como fazer divulgação científica e curadoria digital a partir de O Exemplo. Uma estratégia foi recorrer aos pilares de sustentação do campo de estudos das emancipações e do pós-abolição, no qual o Pine se situa. Ele se organiza em torno da problematização da liberdade negra na construção da sociedade brasileira. O pós-abolição deixa de ser uma cronologia para se tornar um problema histórico (Rios; Mattos, 2004) e, com isso, uma miríade de outros desafios são colocados. Por isso, compreendemos que a noção “pós-abolicionista” não era a mais adequada para situar a experiência histórica de O Exemplo, pois não surgiu como um desdobramento do abolicionismo, ainda que contasse com abolicionistas em seu quadro, mas sim, como uma tribuna de disputa de projeto de sociedade. Por isso, atualizou-se o verbete com o termo “pós-abolição”. Outra noção substituída consiste na qualificação do periódico como sendo de “índole integracionista”. Os fundadores e demais integrantes se reconheciam como parte integrante daquela sociedade, disputando-a por dentro, a despeito de todas as adversidades impostas pelo racismo. Trataremos da expressão “voltado para negros, mulatos e ‘pardos’” na última parte deste capítulo.

Essa curadoria nos levou a observar e questionar os cinco pilares da plataforma, quais sejam, enciclopedismo, imparcialidade, conteúdo aberto, normas de conduta e liberdade de criação (Costa Filho, 2020). Especificamente, o segundo pilar gerou significativa discussão, uma vez que, durante a análise do verbete, foram identificadas as referidas parcialidades na curadoria realizada desde sua criação. A orientação sobre o pilar “O manual” admite a possibilidade de existirem “opiniões e análises importantes sobre o tema do artigo que você esteja editando”. Nesses casos, “devem aparecer sempre citadas, remetendo ao autor da análise em questão, que por sua vez também deve necessariamente possuir relevância enciclopédica” (Costa Filho, 2020, p. 17). Conforme Terres e Piantá (2020), o Princípio da Imparcialidade (NPOV) é um dos que mais interessa e afeta o trabalho historiográfico, podendo redundar na transformação dos verbetes de história em sínteses dos temas abordados. Mas como escapar das parcialidades, sobretudo no que se refere à escolha de conceitos e referências na construção de uma curadoria na Wikipédia?

 

Dario de Bittencourt e as contradições históricas na escrita da história na Wikipédia

Para abordar o pilar da imparcialidade, analisamos e problematizamos a curadoria contida na atual versão do verbete de Dario de Bittencourt. Antes de apresentá-la, eis um resumo da curadoria enciclopédica feita pelo Pine, visando a edição no verbete de O Exemplo e a criação de um verbete associado a essa biografia.

Dario de Bittencourt nasceu no dia 07 de fevereiro de 1901. Era filho de Maria da Glória Quilião e Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior (1874-1910), um dos fundadores de O Exemplo. Diante da orfandade, foi tutelado pelo avô e padrinho, Aurélio Viríssimo de Bittencourt (1849-1919), um dos apoiadores de O Exemplo. Em 1958, publicou sua autobiografia, intitulada Curriculum vitae – documentário (1901/1957), que reúne informações documentadas sobre a sua trajetória individual, familiar, relacional e profissional. Segundo ela, estudou em diversas escolas, recebeu honrarias por sua atuação estudantil e, em 1924, bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, fundada pelo pai – bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo e juiz em Porto Alegre – e pelo avô. Nela, também foi professor, assim como na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

Atuou em associações negras, como a Sociedade Floresta Aurora, e leigas, como a Irmandade do Divino Espírito Santo. Integrou o Instituto Rio-Grandense de Letras, o Instituto de Investigações Afro-Ameríndias, a Academia Rio-Grandense de Letras, a Associação Rio-Grandense de Imprensa e o Instituto da Ordem dos Advogados do Rio Grande do Sul. Na imprensa, atuou como diretor de O Exemplo em seu último decênio, sendo um dos principais responsáveis pela salvaguarda da coleção do periódico (Zubaran, 2015). Nesse período, também atuou na redação do jornal republicano A Federação, bem como nos periódicos Revista do Sul, A Verdade, Gazeta do Foro e O Comércio. Foi autor de livros de direito, literatura, história e genealogia, política e comércio, entre outras áreas. Em meio a isso, casou-se com Ernestina Clotilde Avancini, em 1928, e teve três filhos (Bittencourt, 1958).

Apesar de existirem vários dados disponíveis, a pessoa que criou o verbete de O Exemplo apresentou apenas a seguinte informação: “Dario de Bittencourt (diretor entre 1920 e 1930, republicano e depois líder integralista e professor de direito na Universidade do Rio Grande do Sul, filho de Aurélio Júnior)”. Isso nos levou a questionar as escolhas feitas, ou seja, a curadoria, bem como a manutenção da descrição pelos demais editores do verbete e o seu impacto sobre os usuários da plataforma, sobretudo o público escolar, no que se refere às contradições históricas na escrita da história e às políticas de construção de memórias negras na Wikipédia. Uma pista vem da referência utilizada, a pesquisa de Maria José Barreras (1998) acerca da inserção de Dario de Bittencourt na cultura política autoritária do Rio Grande do Sul. Na introdução, foi descrito como “católico, positivista, crítico literário, advogado, integralista, jurista, professor universitário – enfim, um intelectual” (Barreras, 1998, p. 12). A despeito da importância de um estudo centrado na trajetória de um homem negro para a compreensão da história política gaúcha, a raça não foi uma categoria de análise mobilizada. Assim, para problematizar a curadoria da Wikipédia, recorremos a estudos do campo do pós-abolição.

Segundo José Antônio dos Santos (2011, p. 214), a autobiografia documentada foi construída por Dario de Bittencourt para “perenizar o seu nome e o de sua família, bem como de tornar pública a sua trajetória intelectual e política”, livrando-o das acusações de traição à pátria durante a Segunda Guerra Mundial, por sua vinculação com o integralismo. A acusação também maculava a memória familiar, sobretudo de seu avô. Entre as possíveis explicações conjunturais para a sua vinculação com o integralismo estava a pressão de novos atores sociais por mudanças políticas e pertencimento nacional, incluindo “as articulações entre ser negro e brasileiro”, bem como entre as ideias de “raça” e “povo” (Santos, 2011, p. 237). Amílcar Pereira (2011) ressalta que o nacionalismo marcou o movimento negro brasileiro durante a primeira metade do século XX, ainda que com particularidades e complexidades. Como exemplo, o nacionalismo exacerbado da Frente Negra Brasileira (1931-1937), que encontrou a crítica na voz de um dos fundadores, José Correia Leite, que também tornou-se um dissidente. Dessa forma, em uma sociedade racista, reivindicar o pertencimento à categoria de povo brasileiro, portanto, à nação, era uma forma de expressar o desejo de pleno exercício de direitos da cidadania.

Assim, na elaboração do verbete para a Wikipédia, decidimos abordar duas passagens de sua vida da seguinte forma: Dario de Bittencourt registrou uma curta passagem pela maçonaria no final da década de 1920, algo comum a diversas trajetórias negras (Francisco, 2018; Pinto, 2019), e afastou-se em decorrência de suas discordâncias com o viés adotado pela loja maçônica (Bittencourt, 1958). Na década de 1930, vinculou-se à Ação Integralista Brasileira, sendo perseguido e quase preso. Tratava-se de um contexto marcado pela vinculação do movimento negro com o nacionalismo, ou seja, com reivindicações de cidadania e pertencimento nacional em uma sociedade racialmente desigual. Nesse sentido, pessoas e organizações, como a Frente Negra Brasileira[6], dialogaram com o ufanismo e o autoritarismo contidos no integralismo (Pereira, 2011; Santos, 2011). Depois de um afastamento de 20 anos, Dario reaproximou-se do catolicismo em 1939 (Bittencourt, 1958).

No verbete dedicado a Dario, pretendemos aprofundar outros aspectos de sua vida, especialmente a sua atuação na direção de O Exemplo e no campo literário gaúcho. Também pretendemos excluir o qualificativo “líder integralista” da sua descrição na entrada de O Exemplo, deixando a menção e a discussão para verbete relacionado à sua biografia, pois acreditamos que essa caracterização, sem o aprofundamento devido, fortalece discursos que posicionam pessoas negras como colaboradores diretos dos sistemas de opressão que atuam sobre elas mesmas. Diante disso, como nossa curadoria pode expressar e disputar sentidos de história e memória?

 

Da curadoria à escrita: um ato político

O corpo negro é pertencente a qual espaço? A partir de uma perspectiva colonial, a nenhum; o espaço do corpo negro, conforme a dominação colonial, é inexistente. O colonialismo retira a oportunidade do negro de se entender como um ser humano, uma vez que o racismo apaga a existência digna de uma pessoa racializada e, assim, inicia um processo de esvaziamento do sujeito, tornando-o um objeto. Como aborda Angela Davis (2016), antes de ser mulher, ela é negra. Então, a partir dessa perspectiva, qual seria o espaço que essa colocação da autora ocupa? A do esvaziamento e da inexistência de uma subjetividade. Se, segundo Grada Kilomba (2019), o termo “sujeito”, em sua completa integridade, significa que o indivíduo pode participar em sua sociedade, determinar os tópicos e anunciar os temas e agentes da sociedade em que vivem, seguindo esse ponto de vista, um corpo negro não é sujeito. Então, diante da esfera do racismo, Angela Davis traz a oposição da subjetividade: a objetificação. A desumanização de corpos negros e sua exclusão na ocupação de espaços tornam a existência de uma subjetividade, por si só, inexistente.

Os processos de humanização e subjetividade do corpo negro devem ser construídos em diferentes vias e, a partir disso, Kilomba (2019) abordou a importância da escrita como um ato político, transitório, reflexivo, artístico, literário e pessoal. Escrever convida a entender e compreender as nuances que transitam entre o “eu” de cada um e provoca a reflexão política sobre as diferentes facetas do mundo que se habita. Parafraseando Kilomba (2019), escrever é um ato político e a escrita se consagra ainda mais significativa e reflexiva quando o sujeito que escreve é uma pessoa negra. De que maneiras deslocar o papel do negro na escrita de “objeto” para “sujeito” contribui para o avanço do pensamento negro contemporâneo na história? Não existe uma resposta singular e direta para uma pergunta que traz como oferta a oportunidade de se pensar no ato de se tornar o sujeito, além de apresentar uma certa complexidade em seu raciocínio. Na introdução de seu livro, Kilomba (2019) aborda que ali ela não é a “outra” e sim o sujeito de sua própria história.

A importância da escrita implica na construção de memórias e no direito ao passado. Ao compreender a longevidade do sistema colonial, entende-se e se reflete-se sobre o que simboliza a ocupação de espaços historicamente dominados pela branquitude colonizadora. O mesmo ocorre com nossa curadoria: ao tornarmos o verbete do jornal O Exemplo parte de uma historiografia em âmbito digital, desbancamos o pensamento de uma única história escrita sob um determinado olhar. Desse modo, quando Kilomba (2019) aborda que escrever é um ato político, é necessário enxergar a curadoria e a escrita dos verbetes da Wikipédia como abordagens necessárias para a construção de uma subjetividade. Com isso, a curadoria e a escrita são políticas e, a partir disso, esses processos denotam a relevância em descolonizar a história do seu “eu” enquanto pessoa negra, como descreve a autora (Kilomba, 2019).

Entretanto, é de extrema urgência a reflexão da escrita de uma história negra no espaço virtual. Deve-se refletir como a Wikipédia pode contribuir para a construção de uma subjetividade do negro dentro e fora do mundo virtual, sobretudo, auxiliando na reescrita da sua própria história enquanto pessoa negra, permitindo que o indivíduo aproprie-se de narrativas construídas por referências negras. Como menciona Beatriz Nascimento (2007), indicando o valor do negro como escritor e fazedor de sua própria história, ressaltando o quão indispensável é o ato de tomar espaços, e o fato de que a história da raça negra continua por se fazer, em uma história do Brasil ainda a ser feita.

Nesse sentido, o movimento do Pine para a recriação das páginas condizentes à história do jornal O Exemplo e de seus fundadores atravessa e opera em um campo e pensamento de que a Wikipédia, como plataforma, pode contribuir no cruzamento de barreiras geográficas, sobretudo no âmbito da militância e da existência negra que coexiste no Sul do Brasil. Contudo, diante da mencionada importância do exercício da escrita como um ato político e do deslocamento necessário da objetividade para a subjetividade de um corpo negro para a produção de sua própria história, como refletir sobre a emancipação negra, a busca por justiça social e a ocupação negra em um ambiente digital onde se tem a oportunidade de produzir sua própria história?

 

Um espaço em disputa: Wikipédia e a escrita digital de uma perspectiva negra

Historicamente, a mobilização negra sempre foi ativa na busca por justiça social em diversos espaços e a evolução proporcionada pelas tecnologias da informação e comunicação colaborou para o nascimento de novas maneiras de pensar, interpretar (Aquino, 2015) e lutar por esses processos históricos, agora no ciberespaço. A proliferação de smartphones e tablets estenderam a possibilidade de registro e comunicação de eventos nas redes sociais de maneira quase sincronizada de eventos nas plataformas de redes sociais (Raul, 2019). Além dessas ferramentas, houve um grande avanço na produção e disseminação do conhecimento que, a passos lentos, contribui para uma nova narrativa histórica que desafia as imagens estereotipadas do sujeito negro na história. As interpretações atuais sobre os diversos temas sobre o sujeito negro foram, em sua maioria, debruçadas e constituídas de um ponto de vista eurocêntrico. Nesse contexto, a Wikipédia pode contribuir para a construção e o enfrentamento a partir do desafio de uma escrita digital de negra.

A base material da sociedade foi profundamente afetada pela revolução tecnológica, tornando-se indissociável dela. O avanço das máquinas deixou de ser algo reservado a temas de ficção científica e passou a ser uma realidade cotidiana, cotidiano esse que se torna cada vez mais virtual, o que acaba por afetar a vida social de formas imperceptíveis. Antes, era preciso ir pessoalmente ao banco, mercado, lojas, para comprar ou pagar algo, mas hoje isso pode ser feito facilmente através de um aplicativo no celular (Siqueira, 2021). A partir dessa movimentação, a cultura digital se incorporou ao nosso jeito de agir, com novas práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que caracterizam a cibercultura (Lévy, 2000).

Por outro lado, o meio digital se tornou também o lugar propício para a luta e proteção dos direitos fundamentais. A WikiLeaks (Vieira, 2016) é um exemplo de como a internet pode ser usada para promover mudanças globais: ela é uma organização transnacional, constituída por uma rede de ativistas atuantes em diferentes países. Ao publicar conteúdos sensíveis e dados confidenciais, tornou-se uma das maiores e mais importantes contribuições para que a opinião pública internacional percebesse que as grandes corporações são capazes de anular a liberdade de expressão pela manipulação e pelo controle das infraestruturas de comunicação.

Mas essa nova ordem tem seus problemas: ela cria a dependência de plataformas, as quais usam os dados para continuar a recriar o círculo de dependência colonial, capitalista, entre outros. Uma das razões pode ser a crescente normalização da dataficação, ou seja, dos dados pessoais on-line quantificados que possibilitam o monitoramento em tempo real e a análise preditiva da ação social (Mayer-Schönberger; Cukier, 2013). A datificação, como um autêntico meio para acessar, entender e monitorar o comportamento das pessoas, está se tornando um princípio central não apenas entre os adeptos da tecnologia: a possibilidade de investigar o comportamento humano é vista como revolucionária por especialistas, acadêmicos e outros interessados.

Nos últimos tempos, tem havido um aumento significativo de participantes do movimento negro nos espaços digitais, por meio da utilização da cibercultura para evidenciar a questão negra, resgatando e valorizando a cultura, a história e os conhecimentos. Nesse mesmo sentido, surge o conceito de “ciberquilombismo”, criado por Nelza Jaqueline Siqueira Franco (2022), que segue os princípios do quilombismo, de Abdias Nascimento (2002), e associa-se também às políticas de memória negra (Ansara, 2012) que, ancoradas num passado comum, assumem uma luta na reparação histórica, tendo como objetivo central o papel do negro.

O ciberquilombismo oferece estratégias de ciberativismo para lidar com o racismo que confrontamos na sociedade, pois se constitui nos espaços de organização negra na rede digital. O processo digital de aquilombamento é uma potência que une pessoas negras em diferentes espaços da internet para discutir questões relevantes sobre a existência e a presença no mundo e que pode ser entendido como uma forma contemporânea de ciberquilombismo. À vista disso, a política de memória cria estratégias de resistência e é fundamental para pautar demandas específicas que precisam ser tratadas por uma sociedade que não trata o povo afro-brasileiro da maneira que deveria.

O ciberquilombismo se faz necessário para que o combate aconteça nas plataformas digitais, onde o colonialismo digital tem seus traços bem definidos como forma de dominar e monitorar o discurso social, político e cultural pela manipulação dos principais meios de comunicação e infraestrutura. A colonização desempenhou um papel fundamental no avanço da democracia e da tecnologia nas metrópoles europeias, e agora, de forma semelhante, o colonialismo digital assegura o funcionamento de nossos corpos e mentes (Faustino; Lippold, 2023). Ainda que a Wikipédia pretenda ser um projeto em que sua construção seja colaborativa e imparcial, procurando conceber uma enciclopédia editada por diversos tipos de pessoas, cultura, visões, origens e gêneros diferentes, a sua grande maioria são homens, acadêmicos, que residem nos Estados Unidos ou na Europa (Terres; Piantá, 2020). Desse modo, é preciso entender que a escolha de conteúdo de um verbete está diretamente vinculada à narrativa de quem o está criando ou editando, e é necessário também ter a compreensão de que a Wikipédia não é um espaço acadêmico (Varella; Bonaldo, 2021), sendo que qualquer um pode modificar os verbetes. Além disso, é nítida a pouca presença dos continentes asiático, africano e latino-americano, pelo menor número de editores desses territórios (Terres; Piantá, 2020). De acordo com Pedro Terres e Lucas Piantá (2020, p. 266), a Wikipédia é um campo em disputa, no qual “diferentes pontos de vista e abordagens são apresentados e lutam por espaço, mas sua realidade não está alheia ao mundo ‘real’”. Nessa disputa por sua origem, a plataforma expressa uma “concentração do conhecimento histórico em temas que dizem respeito à Europa, e perspectivas historicamente apresentadas em um mundo eurocêntrico” (Terres; Piantá, 2020, p. 266). Apesar disso, transgressões são possíveis, transformando a própria plataforma em objeto de pesquisa. Em seus verbetes, mesmo sendo de regiões periféricas do mundo global, quando analisados, podem estar conectados com uma visão colonizadora da História.

Dessa maneira, os autores apontam que a plataforma ainda veicula uma visão eurocêntrica sobre a história, visão essa que, aos poucos, está sendo recontada a partir de vários campos ou espaços de estudos digitais, onde o projeto de extensão “Teoria da História na Wikipédia” está conectado e dialoga com o projeto Pine, que tem o mesmo desejo de transpor os muros da universidade, levando o conhecimento adquirido naquele ambiente para outros lugares e pessoas a partir, mas não só, da Wikipédia (Varella; Bonaldo, 2021). Dentro desses apontamentos, é necessário termos um olhar mais atencioso e articulado com a Wikipédia, por ser uma página em que se encontra uma variedade de assuntos, seja pesquisando biografias, curiosidades etc.

A Wikipédia é um caso ilustrativo de como o conhecimento vem sendo tratado, mas também pode ser analisada sob a perspectiva de como ela pode contribuir e tem contribuído para a implementação do artigo 26-A da LDB, que visa o combate ao racismo na sociedade brasileira e o fortalecimento da luta em defesa de uma educação democrática e plural. O Wikiprojeto da Rede de Historiadoras Negras e de Historiadores Negros também se insere nessa contribuição, onde busca a ampliação de informações que evidenciam a população negra brasileira, promovendo atividades de fortalecimento e diálogo sobre diversas questões socioculturais e históricas.

A era digital trouxe uma nova abordagem de pontos de vista e mudanças estruturais em vários espaços institucionais e não institucionais. A partir das comunicações possibilitadas pela internet, as mídias sociais digitais e outras ferramentas permitem a promoção de escritas outras, articulações e junções, graças ao seu alcance. Pessoas procuram por lugares que possibilitem o compartilhamento de saberes, culturas e experiências, mas também de conexão de estratégias de enfrentamento. Esses enfrentamentos que se dão no campo do ciberespaço possuem a habilidade de desafiar as supostas “verdades” que são transmitidas na mídia de massa e, com certa agilidade, modificar o curso dos eventos. Desse modo, o ciberquilombismo fortalece esse enfrentamento, mas se concentra na luta da população negra em todos os ciberespaços, inclusive na Wikipédia, por meio de suas narrativas históricas, em uma missão de liberdade da colonização mental, corporal e digital.

Esses três últimos processos citados não são novidades na história da população negra tanto antes, durante e depois do 13 de maio de 1888, já que, mesmo após essa data, ainda eram pessoas sem direitos básicos, como educação e saúde. Isso está escrito em grande parte dos periódicos da imprensa negra, mas a historiografia oficial, a imprensa tradicional e agora o espaço digital tratam de esconder esse protagonismo negro e suas movimentações a partir das mais variadas formas, negando sua existência.

 

Uma imparcialidade parcial: contextualizando a escrita da história na Wikipédia

Para visualizarmos como, na Wikipédia, a história da população negra continua a ser tratada como uma histórica secundária ou uma história do Outro a partir do sujeito branco, podemos fazer uma análise de uma imagem-resumo da imprensa no Brasil, presente no verbete “Imprensa no Brasil”. A partir dela, temos uma ideia inicial de como a produção wikipedista confirma a crítica de intelectuais negros.

Na Figura 1, são perceptíveis três características: a) o foco em periódicos produzidos no Sudeste/Sul do Brasil; b) a ausência da imprensa negra e da imprensa operária; e c) a escassez de jornais do século XIX. Essas três características, como a historiografia da imprensa negra tem demonstrado, confirmam a visão de uma história da imprensa no Brasil feita por mãos brancas. No mesmo verbete, encontramos a referência à imprensa negra em sessão separada, intitulada “Imprensa negra no Brasil”, adicionada pelo usuário Tetraktys[7], usuário que também foi responsável pela maioria das edições feitas no verbete sobre “Imprensa negra no Brasil”.

FIGURA 1 Gráfico da Imprensa no Brasil

Fonte: Imprensa no Brasil (2022).

Apesar da referência à imprensa negra no verbete sobre “Imprensa no Brasil”, é perceptível que, na construção deste, a participação da população negra está invisibilizada. Francisco de Paula Brito, por exemplo, que trabalhou no Jornal do Comércio (1832) e foi essencial para a imprensa no Rio de Janeiro no século XIX, só tem sua página associada aos “Tipógrafos do Brasil”, mas não à “Imprensa no Brasil”. Seria a história da população negra e da imprensa negra, na Wikipédia, uma mera nota de rodapé? A não proximidade entre uma “história geral do Brasil” e a população negra é uma forma de continuar negando a existência de uma história da população negra no Brasil, colocando-a dentro de uma especificidade que não constrói a história, mas que se encontra na figura do Outro, ahistórico, descontextualizado e congelado no tempo.

Tal problema aparece, também, quando avaliamos a quantidade de verbetes relacionados aos territórios globais, pois conforme pesquisa quantitativa de Pedro Terres e Lucas Piantá (2020), apenas 4,1% dos verbetes relacionados à categoria “História” se referiam à história da África, sendo que 58,2% se referem à história do continente europeu.

Essa problemática vem sendo observada por um coletivo de intelectuais negras que mantém o movimento Ennegreciendo Wikipédia/Noicir Wikipédia (Wikipedia, 2019). Para além da questão apontada anteriormente, a afro-cubana Ivonne González (2020) aponta outras características que podem levar a Wikipédia a ser a continuidade de uma história eurocêntrica, ao afirmar que as informações, as fontes do conhecimento e o discurso eurocêntrico dominam essa enciclopédia, pois o saber eurocêntrico se baseia na produção de múltiplas separações e segmentações do mundo, produzidas para garantir um mundo dividido por dualismos como razão e corpo, sujeito e objeto, natureza e cultura, e masculino e feminino.

Essas separações, que mantêm o saber eurocêntrico dentro de seu pilar de neutralidade e totalidade dos saberes, também servem para neutralizar a pluralidade de sentidos que as trajetórias das populações negras possuem, tornando-as meros objetos do saber acadêmico e retirando delas toda sua potência enquanto exemplos de outras humanidades e saberes que não os eurocêntricos. Retomemos o segundo pilar da Wikipédia:

A Wikipédia rege-se pela imparcialidade, o que implica que nenhum artigo deve defender um determinado ponto de vista. Por vezes torna-se necessária a apresentação dos diversos pontos de vista sobre um dado tema, o que deve ser feito de forma precisa e contextualizada. Implica igualmente justificar verbetes com fontes reputadas sempre que necessário, sobretudo em casos relacionados com temas controversos. Nenhum ponto de vista deve ser apresentado como o ‘verdadeiro’ e/ou o ‘melhor’, tampouco como o ‘falso’ e/ou o ‘pior’ (Wikipédia [...], 2023).

Tal objetivo, ainda que siga à risca uma ideia moderna de ciência, esbarra nas discussões epistemológicas e éticas da produção científica. A imparcialidade da produção científica vem sendo questionada no mundo das ciências há, no mínimo, 50 anos, tanto dentro do pensamento hegemônico – por intelectuais como Deleuze e Guattari, dois dos críticos mais conhecidos – como por intelectuais da diáspora africana, como o historiador congolês Cheik Anta Diop e o filósofo congolês Valentin-Yves Mudimbe. Portanto, esse pilar da Wikipédia impõe que tenhamos cuidados com a forma de produzir conhecimento, tendo em vista que a “imparcialidade” é um conceito em disputa e, muitas vezes, em meio a essa disputa, os critérios éticos de respeito à história dos povos não brancos são deixados de lado. A prática da curadoria, sobre a qual já discutimos, não pode estar dissociada de uma perspectiva ética de produção de conhecimento; vejamos como essa discussão pode ser vista no verbete de O Exemplo.

Além dos pontos destacados anteriormente, dois trechos do verbete apontam para problemas de curadoria: 1. “Voltado para negros, mulatos e ‘pardos’, é considerado como um dos mais engajados no esforço contra a discriminação racial no estado do Rio Grande do Sul”; e 2. “Quanto à forma de empenho pela afirmação da raça negra, o jornal tinha índole integracionista”.

No primeiro trecho, são utilizadas três diferentes formas de classificação racial, “negro”, “mulato” e “pardo” que, após a ação do Movimento Negro Unificado e dos movimentos negros contemporâneos, têm recebido diferentes significados daqueles que essas expressões possuíam no século XIX. O conceito de racialização, conforme descrito por Wlamyra Albuquerque (2009, p. 36), pode nos servir de intermediário, pois “tal noção deve ser compreendida como um discurso num contexto, [...] as formas e os significados que lhe foram atribuídos durante o desmantelamento do escravismo na sociedade brasileira guardaram singularidades que ainda precisam ser analisadas”. Assim, podemos questionar tal trecho da Wikipédia: uma pessoa se considerar negra, parda ou mulata significava a mesma coisa no século XIX? Os sentidos que essas expressões carregavam no dia a dia das pessoas negras eram os mesmos? Quais pessoas negras se encaixavam no termo “pardo” naquele período? Tal qualificação se agrava, ainda mais, por termos, no Brasil, ainda o mito da democracia racial como uma ideologia viva, que tenta diluir a existência do racismo estrutural através da dissolução da identidade racial negra em diferentes nomeações que visam, na prática cotidiana, enaltecer a brancura e justificar o genocídio negro (Nascimento, 2017).

Se considerarmos, portanto, dois contextos temporais, o passado histórico, no qual o periódico era produzido, e a contemporaneidade, chegaremos à conclusão de que a qualificação “Voltado para negros, mulatos e ‘pardos’” é imprecisa, primeiro porque desconsidera como a racialização dava sentidos diversos para tais palavras no pós-abolição e, segundo, porque, na contemporaneidade, a inconsistência desses termos, quando usados sem a discussão apropriada, fortalece uma ideologia de negação do racismo.

Tais questionamentos servem para demonstrar como, dentro da escrita da história da população negra, determinadas palavras, que carregam uma história de disputas políticas, não podem ser utilizadas a esmo. Ao leitor desavisado, talvez tanto faça o uso de negro, mulato ou pardo, mas, para a história das relações raciais no Brasil, compreender como se identificavam as pessoas racializadas auxilia a compreender quais eram suas estratégias para ludibriar o racismo e quais os usos que as instituições faziam dessas categorias para embargar o direito à cidadania.

No outro trecho selecionado, observamos outra afirmação sensível aos estudos sobre imprensa negra, pois lemos que “o jornal tinha índole integracionista”. Ainda que, por determinado período, a historiografia sobre a imprensa negra tenha aceitado a ideia do “integracionismo”, após o advento dos estudos do pós-abolição, tal debate avançou para uma leitura dinâmica da vida das pessoas negras no pós-abolição. Antes de entrarmos nesse debate, vejamos como o verbete “integracionismo”, com hiperlink no trecho sobre o qual tratamos, é definido:

Integracionismo é atitude que se define pela defesa da integração de uma determinada comunidade minoritária numa outra de maior dimensão. Tanto pode ser movimento ou política voltados para a promoção da inclusão social como qualquer ideia ou condição de integração entre coisas, situações, etc. Derivando de integrar com algo ou alguém. (Integracionismo ([2022]).

A referência ao “integracionismo”, além de carecer de fonte que confirme tal afirmativa, torna-se problemática quando trazida para a historiografia. O estudo das iniciativas negras no período republicano brasileiro a partir da chave do “integracionismo” remonta aos estudos da Escola de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), especialmente a partir dos estudos de Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso – que escreveu sobre o periódico aqui analisado –, a partir de perspectivas interpretativas da história da população negra que apontavam os problemas sociais vividos, isto é, o racismo como culpa das pessoas negras, além de entender iniciativas como a imprensa negra e as agremiações recreativas como tentativas de “embranquecimento” através da reprodução do comportamento branco.

De que forma o interlocutor vai entender essa afirmação? O jornal buscava se integrar à sociedade, mas de qual forma? Os participantes do jornal viveram a total negação de seus direitos enquanto cidadãos? De que forma os textos do jornal demonstraram esse desejo por integração, abdicando de sua identidade racial em prol da identidade nacional? Conjugando as duas identidades? Vê-se, desse modo, que a adjetivação de “integracionista” ao periódico recai, novamente, na inconsistência do termo utilizado.

Esses dois exemplos nos mostram, portanto, que a “imparcialidade” prometida pela plataforma está completamente comprometida, na medida em que seu discurso, mesmo quando não o faz diretamente, está vinculado a um universo de debates em torno das formas de escrever a história, e é preciso que não reproduzam uma visão de objetificação da população negra, pois, ao fazê-lo, a desumanizam. Ademais, voltamos à prática da curadoria na Wikipédia, pois se percebe que a forma de produção do verbete de O Exemplo, sem referências diretas, alinha-se com uma visão de história comprometida politicamente com a subalternização da população negra.

Não buscamos, com esse argumento, no entanto, negar a existência de diferentes termos de classificação racial e de perspectivas de integração da população negra. Apontamos que, da forma como estão colocadas, elas se assemelham ao que Muniz Sodré (2017, p. 15) afirma sobre o ato de pensar no Ocidente:

[...] não é em si mesmo o fato de pensar que levou no passado e leva no presente à corrupção, à violência e ao genocídio e sim seguramente o fato da produção ideológica de mentalidades que, escudada em formas imperiais, coloniais e ‘pós-coloniais’ impermeáveis a transformações de fundo, persiste em seu trabalho de construção de supremacias.

Podemos pensar, em suma, que não é o ato de narrar imparcialmente a história que compromete, em si, a escrita da história na Wikipédia, mas o fato dessa escrita aparecer alinhada aos alicerces da manutenção do racismo no Brasil na historiografia, como as ideias de democracia racial e de integracionismo, sem as devidas contextualizações e debates éticos que esses termos demandam, que comprometem a neutralidade prometida.

 

Considerações finais

Conforme as experiências do Pine, elaboramos reflexões teóricas que possibilitam não apenas a crítica às diretrizes da escrita da história na Wikipédia, mas que permitem que compreendamos que as disputas em torno de sua escrita abrangem um panorama maior da produção de conhecimento.

Ivonne González (2020) cria uma lista de ações possíveis para enfrentar o racismo epistêmico e a desigualdade de gênero dentro da Wikipédia. A partir de sua lista e das reflexões sobre o verbete de O Exemplo, estabelecemos parâmetros que, em consonância com as pesquisas do pós-abolição e do acúmulo intelectual negro, podem balizar uma escrita da história do pós-abolição na Wikipédia:

  • a história da população negra não pode estar dissociada de verbetes que se pretendem narradores da “história oficial” do Brasil;
  • a escrita da história da população negra na Wikipédia precisa considerar seus múltiplos agenciamentos;
  • as contradições presentes nas trajetórias de pessoas negras precisam ser apontadas, mas carregadas da contextualização histórica necessária para serem compreendidas enquanto seres complexos;
  • é preciso revisar as pesquisas históricas referenciadas e identificar a partir de qual perspectiva de história elas abordam a história da população negra;
  • se as regras de uma escrita neutra enciclopédica não podem ser alteradas, a escrita deverá apontar ao máximo para a pluralidade de experiências históricas, não tentando fantasiar-se de universal e única.

A curadoria e a escrita, como mencionado posteriormente, são atos políticos que trazem questionamentos à produção de memória ao trazer para o centro do debate a importância da história negra no âmbito digital. A curadoria do Pine traz as disputas pela memória coletiva, sobretudo quando essa memória construída no imaginário social é resultante de um apagamento histórico, afinal, quem escreve a história do negro? Em vista disso, inserir-se na produção de uma história negra, enquanto pessoa negra, impacta no movimento necessário de um corpo negro: que é o ato de deslocar-se de objeto para sujeito de sua própria história.

Nesses breves parâmetros, buscamos sintetizar as questões abordadas no desenvolver de nossa escrita. Na ânsia da ciência moderna de classificar toda a realidade, não podemos nos abster de uma visão crítica sobre essa forma de produção de conhecimento. Os estudos do pós-abolição, nossa abordagem sobre o jornal O Exemplo e a produção de saberes dos intelectuais negros precisam ser considerados como saberes que disputam a escrita da história na Wikipédia.

 

Referências

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  1. Nosso agradecimento ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio ao projeto “Experiências associativas negras: cotidiano, trabalho e educação na Bahia, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul (Séculos XIX e XX)”, ao qual o Pine está vinculado.
  2. Ver em: https://instagram.com/pine.ufrgs21.
  3. Ver em: https://ufrgs.br/pine.
  4. Ver em: https://w.wiki/AzWL.
  5. Ver em: https://w.wiki/AzWN.
  6. Ver em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Frente_Negra_Brasileira.
  7. Ver em: https://w.wiki/AzWX.