A Wikimedia no Brasil/II

Explorando tensões entre conhecimento livre, equidade, produção e circulação de saberes de/por pessoas negras e indígenas

stephanie p. lima
fernanda k . martins
alice de perdigão lana
mariana valente

 

Introdução

Nos últimos anos, no âmbito do InternetLab[1] e com o apoio da Fundação Wikimedia, dedicamo-nos a pesquisas com o propósito de estabelecer uma conexão mais estreita entre os debates no Brasil sobre acesso, produção e circulação do conhecimento relacionado a pessoas negras e indígenas, e o diálogo no país acerca do conhecimento livre. Embora a interseção desses temas nos fosse evidente, constatamos, ao longo das atividades feitas de 2021 a 2023, que as discussões não se apresentavam de forma integrada.

Durante esse período, percebemos notáveis semelhanças nas premissas e questionamentos emergentes em ambos os contextos. Contudo, esses elementos não estavam organicamente conectados nos momentos em que buscamos reunir participantes provenientes dos distintos campos de conversação sobre esses temas. Neste capítulo, procuramos delinear os aspectos iluminados por essa pesquisa e, a partir disso, contribuir para esclarecer as tensões que surgem ao abordarmos os cinco pilares da Wikipédia e ao lidarmos com o contexto marcado por desigualdades estruturais ao examinarmos mais profundamente a história da constituição de grupos historicamente marginalizados, como é o caso das populações indígenas e negras.

Para tanto, exploraremos duas frentes distintas da pesquisa realizada de 2021 a 2023. A primeira delas envolveu a realização de duas oficinas com atores e atrizes sociais considerados chaves em sua atuação acadêmica e política, abordando as pautas do conhecimento livre e das comunidades indígenas e negras engajadas na discussão sobre equidade e conhecimento. A segunda, como desdobramento da primeira, consistiu em seis entrevistas destinadas a aprofundar os tópicos inicialmente abordados, buscando compreender de forma mais detalhada a importância da internet para a formação das pessoas negras e indígenas entrevistadas. Ao organizar as descobertas das diferentes partes da pesquisa, almejamos destacar algumas das tensões visíveis e refletir, junto a outros autores(as) que exploraram questões semelhantes, sobre os caminhos que se delineiam para a construção de uma Wikipédia mais equânime e em diálogo com populações historicamente marginalizadas.

 

O trajeto da pesquisa

Desde o início, a pesquisa foi guiada por duas decisões cruciais. A primeira delas foi a escolha de direcionar nosso foco para as discussões em curso no Brasil sobre o tema, o que nos conduziu à segunda decisão: estabelecer como marco temporal para a pesquisa o aniversário de dez anos da Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012). Como uma das organizações selecionadas para receber financiamento do Wikimedia Knowledge Equity Fund (Fundo de Equidade no Conhecimento) e a única organização brasileira contemplada até então, consideramos relevante traçar um retrato das discussões que permearam o cenário brasileiro ao longo da última década e, mais do que isso, ouvir pessoas que foram beneficiadas direta ou indiretamente pela política de ações afirmativas.

A primeira oficina, realizada em fevereiro de 2022, organizada como um ponto de partida para mapear a discussão, contou com a presença de atores e atrizes sociais que têm se dedicado a compreender as dinâmicas de produção e difusão do conhecimento on-line e off-line nos últimos anos. Entre as(os) participantes estavam Juliana Jodas, Paulo Rená, Ângela Figueiredo, Verônica Toste, Talita Lazarin, Leonardo Foletto e Regina Facchini. Como é perceptível, um dos primeiros pontos frágeis da pesquisa foi a ausência de pessoas indígenas engajadas no tema nessa primeira oficina – embora tenhamos feito contatos, não recebemos confirmação a tempo. A abordagem inicial da escuta se baseou em três perguntas principais:

i) Após 10 anos da aprovação da Lei de Cotas, quais as principais dificuldades e transformações na produção e circulação do conhecimento de pessoas negras e indígenas? Como a internet tem se colocado (ou não) como parte desse processo?
ii) Após 10 anos da aprovação da Lei de Cotas, como as transformações na produção e circulação do conhecimento de pessoas negras e indígenas se reflete no chamado conhecimento livre?
iii) Como o conhecimento livre contribui (ou pode contribuir) na transformação dessas dificuldades? (Lima et al., 2022, p. 14).

Apesar de parte significativa das(os) participantes atuarem em instituições acadêmicas, nosso objetivo foi abarcar a compreensão de disseminação do conhecimento não apenas em espaços tradicionais, como universidade, periódicos acadêmicos, eventos, congressos e encontros de áreas. Frisávamos, assim, a necessidade de compreender como espaços on-line podiam se tornar espécies de brechas para que pessoas negras e indígenas fizessem circular também os seus saberes. A opção por olhar não apenas para a academia, mas de compreendermos a presença de espaços on-line como meios possíveis de divulgação científica, estava conectada à preocupação que tínhamos em diálogo com autores como Gomes (2013) e Ratts (2009).

De acordo com Ratts (2009), a omissão de intelectuais negros nas bibliografias está ligada à resistência da academia aos discursos engajados na luta contra a desigualdade racial, além da dificuldade de acesso às suas obras, não apenas pela escassez de exemplares disponíveis, mas também pela correlação entre a presença na academia e a capacidade de ser lido(a), escrever, orientar pesquisas e tornar-se professor(a). Gomes (2013), por sua vez, destaca que muitos intelectuais negros são mencionados mais para abordar seu processo de ascensão social do que para discutir efetivamente suas ideias. A autora ainda salienta que essas questões são frequentemente naturalizadas ou tornadas invisíveis, não sendo percebidas como problemáticas nos grupos de trabalho ou em eventos da área das ciências sociais como um todo. Diante desse cenário, questionávamos: espaços como sites, plataformas e blogs seguiriam lógicas distintas? Quais papéis desempenhariam para essa geração que se formou no contexto da aprovação da Lei de Cotas?

Em março do mesmo ano, organizamos o seminário “10 anos da Lei de Cotas: mapeando conexões entre epistemologias outras e conhecimento livre”. Dessa vez, com um público um pouco mais amplo – composto por pessoas que não apenas pesquisavam o tema, mas atuavam na sociedade civil e em movimentos sociais, incluindo representantes dos movimentos negro, indígena e do conhecimento livre –, nós endereçamos outras três questões:

i) Quais foram os principais acertos e transformações para o acesso, produção e circulação do conhecimento de pessoas negras e indígenas? Como a internet tem se colocado (ou não) como parte desse processo? ii) Quais são as principais dificuldades para o acesso, produção e circulação do conhecimento de pessoas negras e indígenas? Como a internet tem se colocado (ou não) como parte desse processo? iii) Quais são os possíveis caminhos e estratégias que podemos apontar para diminuição dessas desigualdades? Como a internet, e as plataformas como Wikipédia, podem se tornar aliadas nesse processo? (Lima et al., 2022, p. 15).

A "escuta ativa" das e dos participantes nos fez focar em três pontos principais: quais seriam os acertos e transformações apontados, quais seriam as dificuldades nomeadas e, por fim, o que vislumbravam para o futuro. Aqui, vale destacar que a "escuta ativa" vem sendo trabalhada em diversas áreas do conhecimento como pedagogia, psicologia, sociologia, geografia etc. Luís, Andrade e Santos (2015, p. 533), em um artigo sobre educação e infância, definem a escuta ativa como:

Uma escuta com disponibilidade, que tinha por objetivo conhecer o outro, compreender as suas escolhas e decisões, os seus pensamentos, os significados atribuídos por ele à realidade que procurava conhecer, uma escuta facilitadora do processo de concretização dos propósitos da criança.

Na condução de nossa pesquisa, respaldamos a abordagem da escuta ativa previamente mencionada, fundamentando-a em perspectivas socioantropológicas de autores como Hall (2000), Foucault (2006), Fanon (2008) e Das (2011), além de integrar noções teóricas do feminismo propostas por hooks (1995), Brah (2006) e Collins (2019). Essa escolha metodológica não apenas informou a análise dos dados empíricos, como também orientou nossas leituras analíticas, posicionando as narrativas e os agentes da pesquisa no centro do processo.

Vale destacar que duas das autoras, Lima e Martins, originaram-se de um campo mais voltado às discussões sobre equidade no conhecimento, com ênfase na perspectiva negra, enquanto Lana e Valente contribuíram inicialmente para o debate sobre conhecimento livre. Dessa forma, as perspectivas das(os) interlocutoras(es) ativamente ouvidas(os) durante os encontros entrelaçaram-se com nossas próprias trajetórias acadêmicas, ativistas e com as análises teóricas da pesquisa em questão.

Ao aprofundarmos nossa escuta atenta, organizamos os desafios, transformações e estratégias delineados pelas vozes participantes, vislumbrando um horizonte próximo para aprofundar a conexão entre o conhecimento livre e os saberes das comunidades negras e indígenas no contexto brasileiro. A reflexão subsequente foi impulsionada não apenas pela necessidade intrínseca de compreensão, mas também pela provocação deliberadamente recebida. Nesse processo, fomos chamadas a explorar nuances e pontos de tensão na articulação entre o conhecimento livre e as produções intelectuais desses grupos, buscando uma compreensão mais profunda e sensível desse diálogo em construção. Não seria pertinente, por exemplo, discutir conhecimentos plurais sem considerar a diversidade existente inclusive entre indígenas e a população negra, um aspecto que será retomado adiante.

Além disso, durante o processo de escuta e em diálogo com a revisão bibliográfica realizada, identificamos uma lacuna significativa na compreensão do papel desempenhado pela internet no contexto das mudanças ocorridas no Brasil, especialmente relacionadas à implementação da Lei de Cotas. Apesar do aumento expressivo do ingresso de pessoas negras e indígenas nas universidades públicas como resultado dessa legislação, não encontramos pesquisas centradas especificamente no papel da internet para estudantes oriundos dessas populações. Essa lacuna representa uma área de investigação potencialmente relevante que merece atenção no desenvolvimento da pesquisa.

Com essa consideração em mente, após a conclusão do mapeamento e das oficinas anteriormente mencionadas, avançamos para a próxima etapa. Optamos por realizar uma investigação mais aprofundada nas trajetórias de seis pessoas, explorando como percebiam a importância da internet em suas formações pessoais e na divulgação de suas produções científicas. Assim, conduzimos seis entrevistas semiestruturadas, mantendo os princípios gerais que orientaram as oficinas mencionadas. Durante essas entrevistas, aprofundamos as trajetórias dessas(es) participantes, explorando como a relação com a tecnologia e o conhecimento adquire significado em suas distintas realidades.

As entrevistas foram conduzidas com três mulheres negras e três pessoas indígenas, todas engajadas em pesquisas e/ou trabalhos relacionados à internet e à produção de conhecimento. Esse enfoque permitiu uma compreensão mais rica e contextualizada das experiências individuais, enriquecendo a análise sobre o papel da internet nas trajetórias pessoais e profissionais dessas(es) participantes.

Entre as mulheres negras entrevistadas, as três possuíam formação superior e tinham 25, 29 e 37 anos. Duas delas eram originárias do Nordeste do país, enquanto uma tinha sua origem na Região Sudeste. Além disso, vale ressaltar que uma das participantes tinha uma significativa proximidade com projetos wiki em uma escala mais abrangente. Por outro lado, no grupo de pessoas indígenas entrevistadas, nenhuma delas tinha familiaridade com o tema do conhecimento livre ou com projetos wiki, mas suas trajetórias eram permeadas pela luta indígena e pelo direito de acesso à internet.

Entre os indígenas entrevistados, dois eram homens, um com 47 anos e outro com 19 anos, e uma era mulher, com 27 anos. Os dois mais velhos haviam concluído o ensino superior e ainda estavam envolvidos em suas carreiras acadêmicas universitárias. O jovem indígena atuava na área audiovisual e não havia ingressado no ensino superior tradicional. É relevante observar que os três indígenas entrevistados eram guarani kaiowá, originários de diferentes regiões do país. Essa diversidade de perfis enriquece a compreensão das nuances presentes nas relações entre esses indivíduos, a internet e o conhecimento.

Nos tópicos que seguem, situaremos o debate sobre conhecimento livre e conhecimentos tradicionais no Brasil em relação ao contexto internacional. Ademais, faremos uma torção na noção de conhecimento livre para refletirmos o que implica pensar em seu significado quando estamos diante de conhecimentos historicamente marginalizados.

O comum e o livre

Ao consultar a Wikipédia, deparamo-nos com a definição do termo “conhecimento livre” como aquele cuja obtenção, uso, reuso, distribuição e interpretação são livres, podendo ser remodelado conforme diferentes necessidades, e compartilhado com outros em benefício comum, sem restrições legais, sociais ou tecnológicas (Conhecimento [...], 2022). Essa definição representa uma alternativa à perspectiva de “todos os direitos reservados” da propriedade intelectual tradicional. Nesse contexto, o conceito fundamenta-se no princípio de que o conhecimento é um bem comum, devendo ser disponibilizado de maneira ampla e inclusiva. Exemplos notáveis dessa abordagem incluem a Wikipédia, o Internet Archive e os sistemas colaborativos do movimento de software livre.

A partir dessa breve definição, emergem algumas áreas de potenciais tensões. As palavras que compõem o termo “conhecimento livre” são notoriamente desafiadoras de delimitar. Estabelecer claramente o que está abarcado pelo termo “livre” é complexo, embora a série de substantivos como “obtenção”, “uso”, “reuso”, “distribuição” e “interpretação” busque proporcionar alguma clareza. As próprias comunidades envolvidas no universo do conhecimento livre têm enfrentado debates e conflitos consideráveis em torno dessa definição (Coleman, 2012; Murillo, 2009; Valente, 2013). Definir o que constitui conhecimento é uma tarefa ainda mais intrincada – um questionamento que parece surgir menos frequentemente nas discussões do Norte do que do Sul Global.

A narrativa do movimento de conhecimento livre é simultaneamente a história de uma resistência ao avanço da propriedade sobre o conhecimento e um testemunho das dificuldades associadas a outras formas de interpretação do mundo e epistemologias não ocidentais (Cultura [...], 2018). Os primórdios desse movimento, na década de 1980, estão vinculados às mobilizações em torno do software livre, ou free software. Vale destacar que o termo "free" deriva da ideia de liberdade, não de gratuidade (Categories [...], 2023). O Movimento software livre surgiu como resposta de uma comunidade de desenvolvedores nos Estados Unidos a um modelo de proteção intelectual para software (ou seu “fechamento”) e a uma dinâmica de produção de software cada vez mais restrita em corporações.

Esse movimento, autonomeado como um movimento social (Evangelista, 2010), desenvolveu licenças de software livre amplamente reconhecidas que garantem liberdades específicas para usuárias(os) e desenvolvedoras(es), incluindo a liberdade de executar, estudar, modificar e compartilhar cópias de software (Categories [...], 2023). O movimento possui raízes éticas e filosóficas distintamente anti-establishment (Liu, 2018), amalgamando a defesa de liberdades que, em certos momentos, apresentam semelhanças iniciais com o neoliberalismo estadunidense (Evangelista, 2010), embora nem sempre de forma clara (Coleman, 2004) ou coesa (Evangelista, 2010). Ele também expressa uma explícita rejeição aos softwares proprietários (Stallman, 2021). O movimento já foi associado a posicionamentos políticos ambíguos, contraditórios (Evangelista, 2010 ), abrangendo desde anarco-socialistas até libertários (Söderberg, 2002), passando por marxistas e chegando à rejeição da política tradicional (Coleman, 2004), ou, em críticas mais severas, sendo considerado ingênuo (Liu, 2018).

Atualmente, comunidades de software livre estão organizadas em torno de projetos significativos, como o Linux e o LibreOffice, e importantes aplicativos, como o Signal, são desenvolvidos sob licenças de software livre. Apesar de não ter se tornado o modelo predominante de produção de software, desempenha um papel importante no ecossistema tecnológico e foi adotado até mesmo por corporações, como a International Business Machines (IBM) – gerando conflitos e debates dentro das comunidades, que sempre questionam fervorosamente os objetivos do movimento.

Outro legado significativo do Movimento software livre foi servir como base para a criação do projeto Creative Commons, um marco importante no que ficou conhecido como movimento de cultura livre. A fundação do Creative Commons em 2004 vinculou-se à reação de acadêmicos estadunidenses diante do avanço do direito autoral no ambiente digital. Percebendo a necessidade de instrumentos jurídicos que permitissem o compartilhamento e o uso livre de diversas formas de obra na internet, para além do software, os criadores do Creative Commons se inspiraram no que o Movimento software livre havia estabelecido (Bollier, 2008).

Essa história extrapolou os limites do Creative Commons em si, dando origem a comunidades e práticas em torno do conhecimento livre em todo o mundo, resultando na criação e manutenção da Wikipédia, a maior enciclopédia colaborativa do mundo, na iniciativa de Aaron Swartz de democratizar o acesso ao conhecimento científico (Foletto, 2023) e em inúmeros outros projetos. Utilizando as licenças e os princípios do conhecimento livre, iniciativas de educação aberta, abertura de acervos e dados governamentais foram impulsionadores significativos da democratização de informações e conhecimentos. Dessa forma, o que denominamos como “conhecimento livre” engloba tanto as comunidades quanto as práticas e os próprios conhecimentos que vêm sendo constituídos sob esses regimes alternativos à propriedade intelectual total e automática.

Silveira e Savazoni (2018), ao revisitarem o significado do termo “comum”, destacam que, no Brasil, esse conceito tem sido especialmente explorado por ativistas e pesquisadoras(es) nos campos da cibercultura, meio ambiente, estudos sobre o direito à cidade e nas comunidades tradicionais. No entanto, observam que há uma escassez de autores produzindo conhecimento específico sobre o tema. De acordo com eles,

Uma hipótese sobre o porquê de o comum não ser mais difundido no Brasil – embora esse cenário esteja mudando nos últimos anos com a realização de inúmeras teses e dissertações sobre o tema – tem a ver com a dificuldade de tradução do conceito para o português. Em inglês, os Commons são as terras comunais, bens partilhados entre todos que precedem o processo de organização da propriedade privada que marca o início do capitalismo. Um termo, portanto, absolutamente incorporado à história política-cultural anglo-saxã. Não temos palavra correlata em português (Silveira; Savazoni, 2018, p. 6).

Além da dificuldade de tradução, a presença de limitações na abordagem de questões relacionadas à raça, gênero e desigualdades dentro do movimento é evidente, dada a predominância de atores sociais do Norte Global na construção dessa pauta. Isso suscita a indagação sobre a viabilidade de uma produção tão significativa sobre o tema em uma estrutura social como a brasileira, isto é, profundamente desigual em termos de gênero, raça e classe social. Se o conhecimento comum foi estabelecido a partir de uma perspectiva localizada em um espaço de baixa diversidade subjetiva, como essa discussão poderia ser liderada no Brasil por grupos historicamente marginalizados?

Faustino e Lippold (2023), por exemplo, defendem que a própria ideologia do Vale do Silício age como uma espécie de atualização da missão civilizatória europeia do neocolonialismo da virada do século XIX. Ainda de acordo com os autores, ao analisar criticamente as supostas “benevolências” de grandes empresas de tecnologia em países do Sul Global, falam do “fardo do nerd branco” – o homem branco do Norte Global que pretende levar soluções tecnológicas para o Sul Global, retratado como passivo, necessitando de ajuda e orientação.

Apesar de o movimento da cultura livre ter surgido como uma crítica a muitas dessas posturas, como anteriormente mencionado, é um movimento que não foi construído considerando as epistemologias da periferia e das margens do capitalismo central. Aqui, referimo-nos às perspectivas do Sul Global, das pessoas negras e dos conhecimentos tradicionais produzidos por povos indígenas (Young, 2006). Quais questões ficam à margem e que tensões surgem entre essas perspectivas e a do conhecimento livre?

 

As tensões e os significados da liberdade do(s) conhecimento(s)

Abordar o conhecimento livre do ponto de vista de pessoas negras e indígenas demanda precauções e um aprofundamento que não poderá ser totalmente explorado aqui. De maneira resumida, é relevante destacar que a concepção de que a organização de ideias em um determinado formato, circulando para outras pessoas, nos torna automaticamente autores e supostos proprietários de direitos sobre nossa criação é profundamente enraizada em perspectivas ocidentais (Foletto, 2021). Nesse contexto, a antropóloga Marcela Stockler Souza (2016, p. 183) observa, em um estudo sobre o povo kĩsêdjê:

A visão ameríndia trata, por exemplo, os objetos como registros menos passivos das capacidades de um sujeito do que as objetificações personificadas dessas relações. De modo que a criação se dá distribuída na relação entre os múltiplos objetos e pessoas, sem esta separação entre sujeito e objeto, intelecto e matéria, que estamos acostumados a fazer no Ocidente. A subjetividade também existe nos objetos e forma uma animada paisagem composta de diferentes tipos de níveis de ações humanas.

Os ameríndios vivem há séculos de formas muito menos centradas na propriedade e na cultura proprietária como um todo do que os europeus que colonizaram essa região (Foletto, 2021). Cabe salientar, ainda, que a cultura livre do Sul Global não se manifesta apenas nas tradições dos povos indígenas, mas também na criatividade recombinante das periferias, com frequência muito mais abertas ao compartilhamento comunitário (Cultura [...], 2018) do que pessoas brancas que se colocam como expoentes da cultura livre.

Ainda assim, a defesa do acesso ao conhecimento sem acompanhamento de matizes necessárias – de remuneração, autoria, apropriação, funções de determinados conhecimentos dentro de uma comunidade e outros – pode ser obtusa às demandas relacionadas aos conhecimentos de pessoas negras e indígenas. Isso por pelo menos duas razões: em primeiro lugar, a total “liberdade” do conhecimento, nas raízes ocidentais que a fundamentam, é focada em uma visão de conhecimento bastante homogênea, que tem dificuldade em comportar conhecimentos, no plural. Um exemplo é o fato de, na tradição jurídica ocidental, o conceito de autoria derivar de uma construção europeia do mercado livreiro e da filosofia idealista, no século XVIII, a partir da noção de gênio individual (Hansen, 1992; Woodmansee, 1994). Essa noção não comporta formas não individualizáveis de criação, como é o caso de muitos dos conhecimentos de povos tradicionais, o que gerou disputas no plano internacional por parte de países em desenvolvimento contra sua consideração como domínio público – em outras palavras, apropriáveis por outros, inclusive em mercados ocidentais baseados em propriedade intelectual, em uma hierarquização de quais conhecimentos e criadores merecem proteção e quais não.

Em segundo lugar, historicamente, em muitas partes, conhecimentos de pessoas não brancas que se encaixariam no conceito de autoria individual foram muitas vezes invisibilizados, apagados e expropriados, devido à manifestação das desigualdades na cultura, na sociedade, nos mercados. São notórias, por exemplo, as histórias de vendas ou apropriações de composições de sambistas negros no Rio de Janeiro na primeira metade do século XX, normalmente por situações de vulnerabilidade econômica (Holanda, 1969). Em outros termos, existem demandas por reconhecimento que também fazem parte do debate sobre regimes de proteção e que merecem consideração. Por fim, ou como síntese, como está presente no manifesto “Cultura livre do Sul Global”, é preciso ter em mente que “pensar e fazer a cultura livre desde o sul requer pensarmos na urgência das necessidades de sobrevivência do nosso povo” (Cultura [...], 2018).

A partir de uma perspectiva do Sul Global, nos cabe perguntar para que e a quem servem as tecnologias livres (Cultura [...], 2018). A tensão pode ser resumida como: em que medida a defesa da abertura total do conhecimento perante pessoas que nunca (ou quase nunca) tiveram a possibilidade de serem reconhecidas (ou recompensadas) como donas do conhecimento que produzem representa uma libertação das amarras ou uma renovada abertura para apropriações? Como encarar essas tensões?

 

Qual Wikipédia? E por quê?

Nesta seção, voltamos ao diálogo com as pessoas com as quais dialogamos no período de desenvolvimento da pesquisa. Retomamos o que parte delas demonstraram compreender como conhecimento livre e de qual maneira a Wikipédia foi narrada por nossas e nossos interlocutores como uma plataforma de promoção e acesso ao conhecimento de pessoas negras e indígenas. Adotamos aqui dois procedimentos distintos, quando os diálogos foram travados nos eventos já mencionados, organizados em fevereiro e março de 2022, os nomes das(os) participantes serão trazidos, pois houve concordância em ser exposto o que estava sendo dito. No entanto, os nomes das pessoas que foram entrevistadas e que entraram mais profundamente em suas trajetórias individuais serão anonimizados – pedido feito durante as entrevistas.

Após retomarmos o percurso e a construção da noção conhecimento livre e como sua história está atravessada por contextos que tendem a enxergar o conhecimento e o bem comum a partir de lentes universalizantes, em diálogo com Silveira e Savazoni (2018), retomamos o que havíamos apontado no começo deste capítulo: assim como as noções de desigualdades não surgem com frequência nos espaços de debate sobre conhecimento livre, conforme a nossa experiência de pesquisa, essa categoria não é amplamente conhecida ou trabalhada de forma nativa por pessoas dos movimentos negros e indígenas que vêm pautando as diferentes noções de conhecimento.

A quase ausência da noção de conhecimento livre no discurso das pessoas ouvidas é por si só um resultado interessante, pois lança luz para o distanciamento entre pessoas negras e indígenas envolvidas na discussão sobre equidade e conhecimento e a pauta do conhecimento livre. Nos parece correto afirmar, assim, que o distanciamento entre esses dois temas, no contexto brasileiro, faz com que as discussões sejam travadas a partir de referências bibliográficas e localizações subjetivas distintas. Enquanto pesquisadores como Silveira e Savazoni (2018), reconhecidos pela presença histórica na construção das discussões em torno do ciberativismo no Brasil, irão se centrar em compreender as razões para o “comum” não ser um conceito tão discutido academicamente, indígenas e negros irão fazer a discussão a partir de outras experiências e territórios.

Ao discutirmos, por exemplo, sobre o modo como as(os) participantes vislumbravam o futuro e como percebem a possibilidade de a internet figurar como um aliado no processo de visibilização do conhecimento produzido por pessoas negras e indígenas, a Wikipédia ganha destaque especial. Nesse momento do diálogo, alguns participantes defenderam que o conhecimento livre deveria se transformar em “prática e estratégia”. Mais do que conceitualizarmos a noção de conhecimento livre, a liberdade do conhecimento se faria presente se estivesse entre as estratégias que temos para enfrentar o futuro. Em diálogo com esse apontamento, atores-chave da discussão sobre conhecimento livre pontuam que plataformas gratuitas são centrais na produção e no acesso ao conhecimento de populações historicamente marginalizadas.

A Wikipédia aparece, portanto, tanto para as(os) ativistas negras(os) e indígenas, quanto para as (os) ativistas pelo conhecimento livre, como uma plataforma aliada no que diz respeito à redução da desigualdade estruturante da sociedade brasileira. Além disso, a Wikipédia e outros projetos da Wikimedia figuraram como agentes-chave se conseguissem uma aproximação entre a plataforma e os espaços educativos – tanto formais quanto informais. Segundo as e os participantes, a enciclopédia pode vir a ser um espaço em que é possível tensionar as barreiras existentes em áreas tradicionais de difusão do conhecimento, como universidades, eventos acadêmicos, periódicos universitários etc.

Um importante exemplo foi trazido por Raial Orutu Puri, indígena do povo Puri que participou da segunda oficina que organizamos em março de 2022. O verbete da Wikipédia sobre o povo Puri afirmava que eles estavam extintos desde 1883. Segundo Raial, em 2015, pessoas de seu povo puderam editar a entrada e agora todas as pessoas que acessam o verbete podem ler a história de sobrevivência e resistência dos puris – constituído por aproximadamente 700 pessoas. Para Raial,

Essa plataforma [Wikipédia] é importante porque é aberta e imediata, sendo o primeiro resultado que aparece no buscador, mas o acesso só pode ser efetivo quando houver melhores recursos}

como conexão e dispositivos para as comunidades lerem, revisarem e reescreverem suas histórias”[2].

Mônica Silva[3], mestra em história social e integrante de um coletivo de historiadores(as) negros(as), em sua entrevista, destacou a importância da Wikipédia como uma ferramenta para promover a visibilidade negra e garantir o acesso à produção intelectual contemporânea realizada por pessoas negras. Ressaltou ainda que a plataforma é, muitas vezes, a primeira fonte de informação consultada, especialmente pelos jovens, e, portanto, é crucial que ela seja utilizada para promover a diversidade e a inclusão. Além disso, argumentou que a Wikipédia pode desempenhar um papel poderoso na promoção da visibilidade negra, desde que as categorias sejam aprimoradas para incluir pessoas negras e suas contribuições. Para ela, o modo como as categorias são divididas hoje não proporciona visibilidade adequada para pessoas negras na plataforma.

Daniela Costa, por sua vez, doutoranda em Letras na Universidade de São Paulo (USP), argumentou que a plataforma pode ser uma porta de entrada para as pessoas conhecerem mais sobre referências negras e ampliarem seu conhecimento sobre essas questões. Daniela, no entanto, também expressou preocupação com a forma como as referências negras são apresentadas na Wikipédia. Ela ressaltou que, apesar de reconhecer a importância da enciclopédia como uma ferramenta de acesso ao conhecimento, muitas vezes as informações sobre referências negras são limitadas e superficiais. Defendeu ainda que é fundamental dar espaço para que as próprias comunidades sejam responsáveis por contar suas histórias e compartilhar seu conhecimento de forma autêntica. Para ela, a inclusão de mais editores negros na plataforma pode ajudar a corrigir distorções e lacunas na representação do conhecimento negro.

A terceira interlocutora, Paula Duarte, compartilhou suas opiniões sobre a Wikipédia e outras plataformas de acesso e produção de conhecimento. Destacou o papel fundamental da enciclopédia na democratização do acesso ao conhecimento, especialmente para aquelas(es) que não têm acesso a outras fontes de informação. Paula ressaltou que com o fato de a Wikipédia permitir que qualquer pessoa possa contribuir com informações e conhecimentos, ela se torna uma fonte rica. No entanto, e aqui uma das tensões levantada no item anterior é trazido à tona, Paula sublinhou suas limitações e seus desafios. De acordo com Paula, a plataforma pode ser influenciada por interesses políticos e econômicos, o que pode afetar a qualidade e veracidade das informações disponíveis, corroborando ainda com preconceitos e estereótipos contra grupos marginalizados que são mencionados na plataforma.

Apesar das limitações, ela argumentou que a Wikipédia é uma ferramenta importante que pode ser usada de forma crítica e consciente, e defendeu a importância de ensinar habilidades de pesquisa e verificação de fontes para a população de forma geral, a fim de garantir que as informações encontradas nela sejam confiáveis. Além disso, destacou a necessidade de incentivar a diversidade de contribuidores na plataforma, para garantir uma representação mais abrangente e precisa do conhecimento.

Em suma, as mulheres negras entrevistadas destacaram, por um lado, o potencial da Wikipédia em promover a visibilidade e o acesso ao conhecimento da população negra, e, por outro, todas concordaram que é necessário aprimorar a forma como as referências negras são apresentadas na plataforma, garantindo uma abordagem mais inclusiva, precisa e representativa, o que não pode ser alcançado sem que seja promovida a participação ativa de pessoas dessas comunidades na produção e edição de conteúdo da Wikipédia.

Outro entrevistado que compartilhou sua perspectiva sobre a Wikipédia e sua relação com a produção e acesso de conhecimento da população indígena foi um guarani kaiowá, chamado aqui de Pedro. Ele enfatizou a importância da enciclopédia como uma ferramenta de divulgação e compartilhamento do conhecimento das comunidades tradicionais e destacou que, muitas vezes, as pessoas buscam informações simples e resumidas, e a plataforma pode ser uma fonte acessível para isso. No entanto, ressaltou a necessidade de garantir que as informações sejam verdadeiras e confiáveis, pois muitas vezes há informações errôneas disponíveis na plataforma. O professor indígena também mencionou a importância de tornar o conhecimento mais acessível e atrativo para despertar o interesse do público em geral. Ele comparou a Wikipédia a um “primeiro espelho” ou “primeira propaganda” em relação ao conteúdo das comunidades tradicionais, afirmando que a plataforma pode ser útil para despertar a curiosidade das pessoas e incentivá-las a buscar um conhecimento mais aprofundado sobre os povos indígenas. Lua Guarani Kaiowá, doutoranda na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), argumentou que a Wikipédia poderia ser uma ferramenta incrível para divulgar o conhecimento indígena, mas destacou que ainda há falhas na representação dos povos indígenas na plataforma. Ela mencionou que outras redes sociais e aplicativos, como o WhatsApp, são mais utilizados para divulgar o conhecimento indígena atualmente, pois faz parte de seu cotidiano. Ressaltou, assim, a importância de ter mais informações sobre os povos indígenas na enciclopédia on-line.

Outro relato importante, que divergiu dos anteriores e expôs as tensões entre movimento de conhecimento livre e o conhecimento tradicional, veio de Rodrigo Guarani Kaiowá, o terceiro interlocutor indígena que nos concedeu entrevista. Além de ser o mais novo no grupo de entrevistas – apenas 19 anos –, também foi o único que não fazia parte do espaço universitário. Durante a entrevista, ao ser questionado sobre a Wikipédia e sua opinião sobre a plataforma, ele respondeu: “Eu nunca usei e não sei se alguém usa”.

Na sequência, discutiu como a falta de acesso à internet pode afetar a capacidade de seu povo de compartilhar sua história e conhecimento com o mundo. Desse modo, destacou a importância de uma pesquisa sobre desigualdade na produção e no acesso ao conhecimento não invisibilizar o fato de que nem todas as populações negras e indígenas vivem em condições iguais; por essa razão, antes de discutirmos sobre uma plataforma de conhecimento livre, precisamos, em diversos contextos, pensar se o contexto em que um determinado ator social está inserido dialoga com o contexto que estamos pressupondo.

Outro ponto ressaltado pelas pessoas entrevistadas e ouvidas nas oficinas tratou sobre a importância de inclusão de fontes de conhecimento confiáveis e reconhecidas pelas comunidades tradicionais entre aquelas que são compreendidas como confiáveis pela Wikipédia. Essa ação pode requerer a incorporação de literatura, artigos acadêmicos, relatos de experiência, registros históricos que documentam a diversidade e a riqueza dos conhecimentos negros e indígenas, mas pode também incorporar mídias indígenas, negras e periféricas.

De acordo com as(os) participantes, sem promover uma reflexão crítica sobre os critérios de notoriedade e relevância dessa enciclopédia digital, as culturas historicamente subalternizadas podem continuar sendo equivocadamente tratadas e representadas de forma distante daquilo que são. Não é possível defender uma enciclopédia mais inclusiva e diversa se não houver clareza sobre os critérios que trarão diversidade para as fontes consultadas pela Wikipédia.

As(os) interlocutoras(es) entrevistadas(os) expressaram o desejo de enriquecer a Wikipédia com informações autênticas provenientes e elaboradas por pessoas pertencentes a povos não brancos. Reconhecemos que as discussões em torno do conhecimento produzido por pessoas negras e indígenas, assim como os questionamentos sobre as barreiras enfrentadas por esses conhecimentos na circulação, representam debates históricos promovidos por indivíduos não brancos no Brasil (Lima; Oliveira, 2020). Também é evidente que as discussões sobre critérios de confiabilidade e notoriedade da Wikipédia são amplamente contestadas por atores e atrizes sociais que buscam uma análise considerando as diversas hierarquias sociais que configuram a geopolítica mundial, permeando e constituindo o universo wiki (Bjork-James, 2021; Fullerton; Ettema, 2014; Kumar, 2017).

Ao abordar especificamente o contexto brasileiro, principalmente a partir das perspectivas de sujeitos negros e indígenas, nossa intenção é contribuir para uma compreensão mais profunda de como o cenário brasileiro amplifica e adiciona novas camadas às tensões presentes em outros espaços e exploradas por outros sujeitos que participaram de discussões semelhantes às estabelecidas aqui.

 

Considerações finais

Neste capítulo, buscamos mapear algumas das tensões presentes nas discussões sobre equidade no conhecimento, tanto nas esferas on-line quanto off-line. O resultado revela uma agenda de investigação que requer uma exploração mais aprofundada, incorporando não apenas uma abordagem sensível e crítica sobre o conhecimento livre a partir de diferentes perspectivas de sujeitos sociais, mas também o reconhecimento de epistemologias diversas. Isso implica considerar modos alternativos de estabelecer notoriedade e veracidade ao conhecimento.

Ao observarmos a frequente orientação de mulheres, pessoas negras e povos originários para assumirem papéis de usuários passivos de novas tecnologias (Faustino; Lippold, 2023), receptores de conhecimento e raramente protagonistas ou produtores, os diálogos dos interlocutores de pesquisa sobre a Wikipédia e a noção de conhecimento livre refletem uma postura ativa em relação aos conceitos discutidos. Distanciando-se do papel passivo, as(os) interlocutoras(es) optaram por reconhecer a importância da instrumentalização potencial desses meios, ao mesmo tempo em que consideraram contradições e a necessidade de escutas que transcendam as limitações de uma perspectiva restrita, como trazido por Rodrigo.

Se começamos a pesquisa pensando em como construir pontes mais fortes entre as discussões sobre conhecimento livre e conhecimentos indígenas e negros, terminamos a escrita deste capítulo mais preenchidas de questionamentos do que de respostas. Há uma instrumentalização possível da Wikipédia por pessoas não brancas, e elas compreendem a importância de ocupar esses espaços, mas quais devem ser as garantias de plataformas como a Wikipédia de que esse conhecimento não será consumido apenas de forma predatória? Certamente, as pessoas oriundas de populações indígenas e negras parecem estar parcialmente confiantes na importância desta, mas estariam as(os) editoras(es) desta convencidos da importância de ouvir e compreender as mudanças que a enciclopédia precisa passar para se tornar um lugar que não seja inóspito para populações historicamente marginalizadas?

O questionamento sobre por que as discussões sobre conhecimento livre e conhecimentos negros e tradicionais demonstravam tamanha desconexão parece ser melhor respondido agora. Compreendemos que há, por um lado, um esforço de tornar visíveis suas produções e, por outro , uma possível falha em conectar-se com esses atores sociais por meio de especialistas brancos inseridos na discussão sobre o tema. Em um momento histórico em que parte considerável do ecossistema de direitos digitais é tensionado a se ampliar e se permitir modificar a partir de perspectivas de grupos sociais não brancos, talvez seja o momento ideal para indicarmos a responsabilidade de agentes brancos ampliarem sua escuta e se deixarem também transformar pelas epistemologias que vêm sendo invisibilizadas – dentro e fora da wiki. Talvez seja chegada a hora de uma virada de perspectiva e que a gente se questione o que temos a aprender com as populações tradicionais – e menos o que temos a ensiná-las. Referências

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  1. O InternetLab é um centro independente de pesquisa interdisciplinar que produz conhecimento e promove o debate em diferentes áreas que envolvem tecnologia, direitos e políticas públicas. Para saber mais, ver em: https://www.internetlab.org.br.
  2. (Trecho de fala de participante em seminário de pesquisa).
  3. Foram utilizados nomes fictícios para páginas entrevistadas neste capítulo.