A Wikimedia no Brasil/I
Apresentação
joão alexandre peschanski
amanda chevtchouk jurno
O acesso ao conhecimento e à informação de qualidade é essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade. A Wikipédia, uma enciclopédia 'on-line' escrita em colaboração pelos seus leitores, pretende reunir e disponibilizar, aberta e gratuitamente, a soma de todo o conhecimento humano. São mais de 63 milhões de artigos, escritos por voluntários ao redor do mundo, em mais de 330 idiomas (List [...], 2024). A edição em língua portuguesa conta com mais de 1,1 milhão de artigos e mais de 8 mil usuários ativos, e ocupa o 12º lugar no ranking dos sites mais acessados do Brasil. É graças à comunidade colaborativa, composta em sua maioria por estudantes (32,3%) e professores (11,9%), que todo esse conteúdo está disponível de forma aberta na internet para ser utilizado, editado, copiado e redistribuído livremente.
A Wikipédia pode ser o mais conhecido, mas não é o único projeto da Wikimedia: são 15 projetos que compartilham a mesma missão de serem centros de construção e compartilhamento de conhecimento, produzindo informação e conteúdo de qualidade na internet em um grande movimento de inteligência coletiva. É um movimento tão rico, dinâmico e diverso que só pode ser pensado e realizado de forma multidisciplinar.
A ideia de organizar este livro surge da intenção de celebrar o trabalho e reunir histórias sobre a trajetória das pessoas que protagonizam o desenvolvimento da Wikimedia no Brasil. Trata-se de uma obra que reúne capítulos de autoria de professores, pesquisadores, profissionais, wikimedistas e entusiastas do Movimento Wikimedia e faz parte das celebrações do décimo aniversário da Wikimedia Brasil (WMB)[1], comemorado em outubro de 2023.
A WMB é uma associação brasileira sem fins lucrativos e a única instituição afiliada à Fundação Wikimedia no país. O grupo deriva de alguns experimentos de organização comunitária que remontam a 2005 e 2006. Esses experimentos, de cunho estritamente voluntário e informal, buscaram organizar coletivos de editoras e editores e difundir os projetos Wikimedia em território nacional. Em 2013, o grupo foi reconhecido informalmente pela Fundação Wikimedia; em 2016, os seis membros fundadores se reuniram para elaborar a primeira estratégia do movimento; e, em 2017, a associação foi devidamente registrada em cartório. Em 2020, consolidou sua equipe profissional e, em 2022, se deu a redação coletiva da estratégia 2023-2025. Em 2024, a WMB contava com 41 membros associados e é uma referência para o Movimento Wikimedia global.
A WMB desenvolve várias atividades ligadas à promoção, melhoria e ampliação do conhecimento livre, e uma das formas de fazê-lo é através de parcerias com instituições GLAM (acrônimo em inglês para Galerias, Bibliotecas, Arquivos e Museus), na qual as auxilia na disponibilização de parte dos seus acervos nas plataformas Wikimedia sob licenças livres. Essas iniciativas são um recurso potente para difusão digital de acervos e disponibilização do patrimônio de forma acessível na internet. Outro grande braço de atuação da WMB são as parcerias educacionais: através do apoio a professores, estimula o uso dos projetos Wikimedia como ferramenta pedagógica e capacita os interessados para contribuírem com seus conhecimentos na Wikipédia e demais projetos Wikimedia. Ao usar esses projetos com os estudantes, os educadores possibilitam que eles participem de um grande movimento global de produção de informação de qualidade para circular amplamente na internet e impactar a sociedade de forma positiva, tudo isso enquanto desenvolvem habilidades fundamentais para o século XXI, tais como alfabetização midiática, informacional, digital e computacional, além da escrita formal, avaliação crítica de textos e análise de referências.
Esta é uma obra inédita e sem precedentes: não há outro livro que fale sobre a evolução do movimento Wikimedia no Brasil. Contudo, para realizá-la, nos inspiramos em iniciativas internacionais cujo intuito também era celebrar e praticar a escrita colaborativa em um processo de avaliação por pares. Em especial, destacamos: Open educational resources in higher education: a global perspective, organizado por Jako Olivier e Andreas Rambow (2023); Wikipédia and academic libraries: a global project, organizado por Laurie M. Bridges, Raymond Pun, e Roberto A. Arteaga (2021); e Wikipédia @ 20: stories of an incomplete revolution, organizado por Joseph Reagle e Jackie Koerner (2020).
A organização deste livro teve início em 2022 quando, em 19 de dezembro, lançamos uma chamada aberta de resumos[2] para a comunidade wikimedista e acadêmica. Para participar, os interessados deveriam enviar sua proposta de resumo contendo uma descrição do capítulo a ser escrito, indicação de metodologia e análise, bem como possíveis resultados preliminares. Em conversas com algumas editoras universitárias, potenciais publicadoras do livro, definiu-se que somente seriam aceitos trabalhos cujas pessoas autoras possuíssem, pelo menos, o título de mestre (pessoas mestrandas, especialistas e graduadas poderiam submeter propostas em parceria com doutores). Tal delimitação era comum nos protocolos de submissão das editoras consultadas e visava evitar a discrepância de estilo e qualidade entre as partes da coletânea, além da possível eliminação de um dos capítulos após o conteúdo ser submetido para publicação editorial.
A chamada ficou aberta durante 14 semanas e foi divulgada entre parceiros wiki, nas redes sociais da WMB, nos canais de comunicação da Wikimedia e por e-mail para diversas universidades. No total, foram recebidos 26 resumos. Contudo, mesmo com a difusão da chamada em vários ambientes, as propostas enviadas foram, majoritariamente, de pessoas que já se relacionavam com a WMB de alguma maneira.
Os resumos recebidos foram avaliados pelos organizadores da obra de acordo com a consistência da proposta, adequação aos critérios de autoria, conformidade com o objetivo do livro, diversidade das contribuições e composição harmônica da obra como um todo. Cada uma das propostas recebeu sugestões de encaminhamento, melhorias e alterações feitas pelos organizadores, e dois dos resumos precisaram ser adaptados e reenviados para a avaliação. Após esse processo, as 26 propostas foram selecionadas para a etapa seguinte e os autores tiveram três meses para finalizar a escrita dos capítulos completos. Os textos finais deveriam ser inéditos e estar de acordo com as Normas de Submissão[3], documento que sistematiza orientações específicas sobre a formatação e a organização do conteúdo, a partir das recomendações das editoras universitárias consultadas previamente.
Finalizado o prazo de escrita, foram recebidas 18 propostas de textos completos. De forma geral, os autores desistentes declararam, como justificativa para o não envio das propostas completas, falta de tempo disponível para a elaboração do conteúdo completo, decorrente de percalços pessoais. Os textos recebidos foram pré-avaliados pelos organizadores, segundo os mesmos critérios descritos anteriormente, e um deles foi descartado por não se adequar à proposta do livro.
Os 17 textos aprovados foram encaminhados para avaliação do corpo editorial convidado, composto por doutores brasileiros que trabalham e pesquisam temáticas afins à do livro em construção. São eles: Adriane Gomes Rodrigues Batata, da Faculdade de Ilhéus; Carlos d’Andréa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Caroline Bauer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Dalton Martins, da Universidade de Brasília (UnB); Fernanda Campagnucci, da Open Knowledge Brasil; Guilherme Altmayer, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Jean Carlos Ferreira dos Santos, da Universidade de Campinas (Unicamp); Karina Menezes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA); Leonardo Foletto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV); Lilian Viana, da Universidade de São Paulo (USP); Marcio Eisencraft, da USP; Rafael Grohmann, da University of Toronto; Sandra Schmitt Soster, da WMB; Telma Sueli Pinto Johnson, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF); e Thaiane Moreira de Oliveira, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
O modelo de avaliação escolhido foi o de "revisão sequencial por pares", no qual os textos são avaliados por dois pareceristas anônimos, sendo que o segundo revisor tem acesso aos comentários e sugestões feitos pelo primeiro. Os organizadores optaram por não anonimizar os autores no processo de revisão por se tratarem de textos com conteúdos muito específicos e facilmente relacionáveis aos seus responsáveis, já os pareceristas foram mantidos anônimos durante todo o processo. Vale ressaltar que, ainda que alguns autores também tenham feito parte do corpo editorial convidado, os organizadores não indicaram a avaliação de pareceristas com conflito de interesses. No processo de avaliação, cada parecerista recebeu uma versão do texto para inserir comentários e uma ficha com várias questões para serem respondidas acerca do conteúdo analisado.
Ao final das avaliações dos pareceristas, 16 textos foram aprovados (com ou sem modificações) e um não foi recomendado para a publicação por ser considerado fora do padrão do livro. As fichas e os arquivos comentados pelos avaliadores foram, então, encaminhados aos autores para que estes fizessem as devidas adequações ao longo de um mês. Após receber a indicação das alterações necessárias, um dos autores desistiu do envio da versão final por falta de tempo hábil para realizá-las. Dessa forma, os organizadores receberam 15 versões finais dos textos revisadas pelos seus autores após a avaliação dos pareceristas. Essas versões foram reavaliadas pelos organizadores antes de serem encaminhadas para a Editora Universitária da Universidade Federal da Bahia (Edufba), em dezembro de 2023.
Este livro está dividido em três partes: “Parte I: Comunidades colaborativas”; “Parte II: Educação e ciência aberta”; e “Parte III: Difusão cultural livre”. A divisão por áreas temáticas se deu a posteriori, a partir da análise do conteúdo e da abordagem de cada um dos textos.
Na primeira parte, encontramos textos que falam sobre a construção de comunidades colaborativas em torno de projetos Wikimedia, especialmente ligadas à Wikipédia. O primeiro capítulo é o “Explorando tensões entre conhecimento livre, equidade, produção e circulação de saberes de/ por pessoas negras e indígenas”, de autoria de Stephanie P. Lima, Fernanda K. Martins, Alice de Perdigão Lana e Mariana Valente. Nele, as autoras falam sobre como as pontes entre a discussão de conhecimento livre e conhecimentos produzidos por/sobre pessoas negras e indígenas são bastante frágeis. Em um processo de revisão bibliográfica e escuta de atores pertencentes à sociedade civil, elas observaram uma lacuna significativa no que diz respeito à compreensão de como a internet participou das mudanças ocorridas no Brasil, especificamente aquelas relacionadas à implementação da Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012). O segundo capítulo, “Mulheres em rede: construção da equidade de conhecimento na Wikipédia”, traça uma genealogia do movimento de mulheres wikimedistas nos projetos de conhecimento livre lusófonos, indicando a formação de coletivos e iniciativas em prol da equidade de gênero na Wikimedia. A investigação de cunho empírico, fundamentada na teoria feminista, interpreta especialmente a Wikipédia a partir de seus potenciais de disputa política e transformação e foi descrita por Andressa Inácio de Oliveira Bonatto, Danielly Campos Dias Figueredo, Erika Guetti Suca, Giovanna Viana Fontenelle de Araújo, Isabela Tosta Ferreira, Rute Correia, Sandra Schmitt Soster e Tila Cappelletto. O terceiro e último capítulo da primeira parte intitula-se “A Wikipédia e a construção de uma história por mãos negras no espaço digital: discussões a partir do Projeto Imprensa Negra Educadora (Pine)” e foi escrito por Jonas Silveira da Silva, Maria Júlia de Lima Silva, Matheus Menezes Marçal e Melina Kleinert Perussatto. Os autores abordam a necessidade da promoção de reconhecimento, valorização e reparação da autoria e da participação negra na história do Brasil e exploram as possibilidades, desafios e limites da construção, disputa e divulgação de histórias e memórias na Wikipédia.
A segunda parte da obra conta com textos que discorrem sobre iniciativas educacionais e de promoção da ciência aberta, especialmente relacionadas aos projetos Wikimedia. O primeiro intitula-se “Wikipédia como ferramenta de educação em saúde auditiva: um olhar da comunidade”, escrito por Eliene Silva Araújo, Kátia de Freitas Alvarenga, Maria Julia Ferreira Cardoso, Maria Gabriela Paz da Silva e Lilian Cassia Bornia Jacob. Nele, as autoras analisam o uso da Wikipédia como uma estratégia inovadora na educação em saúde auditiva, visando compreender o interesse, o conhecimento, a percepção e a utilização da comunidade em relação à plataforma, a partir de pesquisa desenvolvida em um projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em seguida, Guilherme Altmayer reflete sobre como as tecnologias digitais podem ser usadas para melhorar o aprendizado dos estudantes no capítulo “Quem aqui nunca usou a Wikipédia? Ferramentas wiki para iniciação científica em sala de aula”. A partir da descrição do estudo de caso do projeto Wikidesign, o autor discute como a Wikipédia pode ajudar a promover o pensamento crítico, habilidades de colaboração e entendimento da natureza dinâmica e evolutiva das informações na era digital entre alunos de graduação. O terceiro capítulo da parte dois intitula-se “Transpondo barreiras culturais: propostas de elaboração de wikilivros sobre cultura brasileira em aulas de Português como Língua Adicional (PLA)”. O texto, escrito por Bianca Gallieri Honorio, debate a importância da leitura e da escrita digital para a consolidação dos processos de aquisição de língua adicional e propõe o uso da plataforma wikilivros como ferramenta para o ensino da língua portuguesa a não nativos. Em seguida, o texto “Documentar para compartilhar: desafios vividos no primeiro ano do Projeto Mais Teoria da História na Wiki é assinado por Bruna Vitória Grando, Danielly Campos Dias Figueredo e Flávia Florentino Varella. Nele, as autoras apresentam e refletem sobre as estratégias implementadas pela equipe do projeto em questão, cujo objetivo é expandir o alcance da história feita com o público, propondo integrar as comunidades wikimedista e universitária em prol da produção de conteúdo livre e de qualidade, bem como as dificuldades e os aprendizados que fizeram parte dessa trajetória. Por fim, no capítulo “Wikidifusão: o Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática e a Iniciativa Wikipédia de difusão científica”, Jean Carlos Ferreira dos Santos, Monique Ribeiro Polera Sampaio e Isabela Tosta Ferreira descrevem o uso das plataformas Wikimedia em práticas de difusão científica, numa análise da formação e das atividades de “Wikimedistas em Residência” no Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (Cepid NeuroMat), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Nele, a wikidifusão é investigada no contexto mais amplo das práticas do conhecimento livre e da ciência aberta.
A terceira e última parte traz capítulos que abordam a difusão cultural livre, especialmente em relação a parcerias GLAM-wiki. Essa é a maior parte do livro e conta com metade dos textos. A predominância dessa temática pode ser explicada pela intensa atuação da WMB na realização e manutenção dessas parcerias, que visam, de forma geral, a disponibilização digital de acervos de instituições nacionais em licença livre nos projetos Wikimedia. O primeiro dos capítulos é intitulado “Acervo Digital de Partituras Brasileiras – o reuso através do Wikimedia Commons”, de Rosana S. G. Lanzelotte, Nivia G. Zumpano e Thiago Rocha. Nele, os autores falam sobre a criação do portal Musica Brasilis, em 2009, que buscou na Wikimedia uma infraestrutura para se alinhar com as melhores práticas da difusão digital: Dados Abertos Interligados (LOD) e princípios FAIR (do inglês Findable, Accessible, Interoperable and Reusable). O capítulo apresenta os desafios enfrentados na edição e disponibilidade de partituras de compositores brasileiros via web, com ênfase na parceria GLAM-wiki, através da qual os repertórios são também publicados no Wikimedia Commons. Em seguida, temos o texto “A iniciativa GLAM-wiki do Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo”. Nele, Mauricio Candido da Silva descreve e analisa a experiência GLAM-wiki do museu. O autor enfatiza o impacto da iniciativa para a visibilidade da coleção e reconhecimento da instituição, e descreve o processo de organização, sistematização e disponibilização de imagens em alta resolução do seu acervo no Wikimedia Commons. Depois, o capítulo “Wikidata como infraestrutura sociotécnica para dados acadêmicos e culturais”, de autoria de Erika Guetti Suca, Éder Porto Ferreira Alves, Tiago Lubiana e Mike Peel, aborda os desafios e potencialidades da preservação e difusão do conhecimento em plataformas digitais por instituições de memória, centros de pesquisa e programas de pós-graduação no Brasil. O Wikidata é apresentado e avaliado como infraestrutura principal em três estudos de caso: o projeto de inserção, curadoria e retroalimentação de metadados do Museu Paulista da USP; o projeto de mapeamento colaborativo dos bioinformatas brasileiros; e o projeto de análise do perfil acadêmico institucional do Cepid NeuroMat. No texto “Bibliotecas universitárias brasileiras e projetos Wikimedia: a experiência da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e do Instituto de Matemática e Estatística (IME) no GLAM Bibliotecas da Universidade de São Paulo (USP)”, Lilian Viana e Stela do Nascimento Madruga fazem um relato de experiência exploratório traçando as motivações, os processos e os desdobramentos da iniciativa GLAM das bibliotecas da USP. As autoras apresentam a afinidade eletiva que se estabelece entre os projetos wiki, em especial o Wikidata, e a comunidade bibliotecária, em especial para a catalogação e visualização da produção acadêmica. Na sequência, “Expandindo fronteiras: o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File) e a sua incorporação no ecossistema GLAM”, escrito por Paula Perissinotto, aponta os resultados de uma pesquisa ligada à construção da memória cultural. A autora defende a necessidade do tratamento adequado da informação e a criação de instrumentos de acesso que ampliem a conexão e disseminação do patrimônio cultural no âmbito da arte e da tecnologia, para fortalecer a construção da memória cultural e garantir a acessibilidade do conteúdo histórico relacionado a essa área. Depois, Cláudio José Silva Ribeiro e Martha Tupinambá de Ulhôa assinam o texto “Linked Data com Wikipédia e Wikidata: reduzindo os silos de informação na web com notícias sobre Música em Periódicos Oitocentistas (MPO)”. Nele, os autores falam sobre como compatibilizar os registros de metadados e o conteúdo da base de dados com os princípios de Linked Data, utilizando o Wikidata como a infraestrutura de ligação e interoperabilidade de registros. Por fim, Adriane Gomes Rodrigues Batata e Sandra Schmitt Soster analisam as características das parcerias realizadas entre a WMB e instituições GLAM, para o compartilhamento digital de imagens e metadados por meio dos projetos Wikimedia, no capítulo intitulado “Difusão de acervos GLAM via parcerias com o Wiki Movimento Brasil (WMB): análise e contribuições”. Segundo as autoras, o principal desafio dessas iniciativas está em encontrar formas de envolver uma comunidade de voluntários para contribuir com a edição de conteúdo envolvendo o acervo de cada instituição.
Como é possível perceber, este é um livro escrito a muitas mãos. Ao todo, dois organizadores e 40 autores participaram da produção desta coletânea que visa representar a trajetória de pessoas que protagonizam o desenvolvimento da Wikimedia no Brasil. Também participaram de sua produção: o corpo editorial convidado, dois revisores técnicos (Éder Porto Ferreira Alves e Lucas Belo) e a equipe editorial da Edufba.
A fim de contextualizar melhor quem são as pessoas que participam deste livro, vale ressaltar que a autoria é composta majoritariamente por mulheres: são 30 no total (75%). Essa grande incidência de autoras mulheres pode ser explicada pela conexão e relacionamento que a WMB mantém com articulações feministas wikimedistas, tais como os grupos de usuárias WikiEditorasLx[4] e WikiMulheres+[5], bem como o destaque dado a pautas ligadas à temática feminista em seus programas e iniciativas. De acordo com pesquisa realizada por Inácio (2023), a atuação de usuárias mulheres tem crescido e amadurecido significativamente, especialmente a partir de 2020, e as editoras trabalham árdua e ativamente para diminuir a lacuna de gênero nos projetos Wikimedia.
Outro dado notável sobre a autoria deste livro é a localização geográfica dos contribuidores: metade dos autores está localizada no estado de São Paulo (22 no total). Além disso, somando-se as regiões Sul e Sudeste, estas respondem por três quartos da autoria do livro (31), sendo que as regiões Norte e Centro-Oeste sequer foram representadas. Esses dados refletem tanto a alta representação do movimento Wikimedia no Sudeste quanto a baixa representatividade nas demais regiões. De acordo com Davis e demais autores (2023), entre 2011 e 2020, os programas de wiki-educação realizados no Brasil ocorreram quase exclusivamente nas universidades de ponta dos estados mais ricos do país. Somados ao grande número de parceiros GLAM-wiki no estado e à grande concentração de programas de wiki-educação realizados na USP, é razoável que a coletânea reflita a concentração de autores localizados nesses espaços.
Representar movimentos é algo muito difícil, porque estes são inerentemente dinâmicos e complexos; o mais próximo que se pode chegar é a criação de um registro temporário, incompleto e estático. O livro que você está prestes a ler é uma fotografia tirada de frente ao espelho: ela reflete os autores em um congelamento incompleto do presente. Esta obra é o resultado do esforço conjunto de escrita daqueles que contribuíram com seus textos e acreditaram nessa ideia. Há mais do que está contido nestas páginas, com certeza, mas nelas há muito sobre o movimento Wikimedia no Brasil. Boa leitura.
Referências
BRIDGES, L. M.; PUN, R.; ARTEAGA, R. (org.). Wikipedia and Academic Libraries: A Global Project. [Michigan]: Maize Books, 2021.
DAVIS, L. et al. The Wikipedia education program as open educational practice: Global stories. In: OLIVIER, J.; RAMBOW, A. (ed.). Open Educational Resources in Higher Education: A Global Perspective. Singapore: Springer Nature, 2023. p. 251-278.
INÁCIO, A. A experiência do movimento de mulheres lusófonas na wikimedia: uma estima-ativa/Relatório. 2023. In: WIKIVERSIDADE. [San Francisco, CA: Wikimedia Foundation, 2023]. Disponível em: https://w.wiki/7f8C. Acesso em: 6 dez. 2023.
LIST of Wikipedias. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. [San Francisco, CA: Wikimedia Foundation, 2024]. Disponível em: https://w.wiki/AzYw. Acesso em: 23 ago. 2024.
OLIVIER, J.; RAMBOW, A. (ed.). Open Educational Resources in Higher Education: A Global Perspective. Singapore: Springer, 2023.
REAGLE, J. M.; KOERNER, J. (ed.). Wikipedia @ 20: Stories of an Incomplete Revolution. Cambridge: The MIT Press, 2020.
WIKIMEDIA Brasil se torna o mais novo Capítulo Wikimedia. Diff, [s. l.], 2025. Disponível em: https://diff.wikimedia.org/pt/2025/02/14/wikimedia-brasil-se-torna-o-mais-novo-capitulowikimedia/. Acesso em: 27 maio 2025.
- ↑ "Desde 11 de dezembro de 2024, o Wiki Movimento Brasil foi reconhecido como Capítulo Wikimedia e, desde 13 de fevereiro de 2025, adota oficialmente o nome Wikimedia Brasil. Ao longo deste livro, optamos por manter as referências feitas ao Wiki Movimento Brasil porque os capítulos foram escritos durante a vigência desse nome" (Wikimedia [...], 2025).
- ↑ Link da chamada ver em: https://w.wiki/67Si.
- ↑ Normas de submissão ver em: https://w.wiki/AzYy.
- ↑ Saiba mais em: https://w.wiki/7AR4.
- ↑ Saiba mais em: https://w.wiki/6Jbn.