Vida Ociosa (2ª edição)/Prólogo
Prologo dispensavel
(A MONTEIRO LOBATO)
Officio que me quadre ao molde ainda não sei de nenhum. Agora o do actor que, antes do acto, vem á bocca da scena antecipar o trama e as impressões da peça, é o que menos me seduz.
Arrostar sozinho os bocejos do publico é proeza, já de si, muito espinhosa. Quem se abalança a isso deveria ter intuito menos impertinente e menos vão do que figurar depressa e em termos vagos o que logo se poderá ver por extenso e em propria forma.
Vem dahi que emprego peor não ha: porque é inutil, mas não é facil. Não ignoro ser proprio do homem o tentar difficuldades, posto que inuteis, só pelo gosto de as vencer. — Foi porisso que Peary e Shackleton descobriram os dois polos: um polo para cada um... (E não haver mais polos na terra... Que maçada!) — Porisso, tambem, eu me dedico ao xadrez, que é sempre ignoto. inexgottavel, e a mais difficil das occupações inuteis.
Joguemos xadrez, Lobato amigo.
— Escrever? Escrever prefacios? — Nada; não caio nessa. Si V. me quer enredado em feito difficultoso, seja: — dou-lhe uma torre de partido! Prefiro este risco, de que sairemos ambos, airosamente, vencido, ou vencedor, á temeridade presumptuosa de prefaciar o livro de estréa de Godofredo Rangel — empresa em que não ha quem ganhe, em que o livro perde, em que só eu me arrisco. Bruno, o escriptor portuguez consagrado, que era, e victorioso, confessa-se perplexo no prefacio dos Contrastes e Confrontos de Euclydes da Cunha. Ora, eu estou muito longe de um Bruno, mas Rangel não o estará tanto de um Euclydes. Logo, sobram-me razões para não tentar o perigo.
Demais, eu já sei que Godofredo Rangel não quer prefacio, que não precisa de prefacio.
Eis aqui um conhecimento certo, baseado em facto historico positivo, em ponto da psychologia do autor não menos indubitavel.
O estudante de direito que fundou o Minarete, ha quinze annos, não pode admittir prefacios hoje, embora, como elle conta, esteja "bacharel e juiz num termo sertanejo".
Pois, o que é um prefacio?
— E՚ isto. Chega o autor deante do publico, e offerece-lhe o livro, que acabou de escrever.
O gesto está dizendo o que não é preciso dizer: — "Ora, leiam-no, e vejam lá que tal." — Eis, porém, que, entre leitor e livro, interpõe-se um sujeito grave, com ares de maioral das letras, sabedor de cousas, influente no publico e providencia dos novos, com esta fala inaugural: — "Meus senhores. Vossos applausos são preciosos e eu orgulho-me de os ter grangeado, graças ao engenho que me conheceis. Conhecei-me tambem agora a generosidade. Apresento-vos aqui o meu amigo, em quem diviso alguns talentos, que vós tambem divisareis, depois que eu vol-os mostrar. Sejam tambem para elle algumas das palmas costumeiras, com que premiaes as minhas vozes". — Bem se vê que tal discurso, mau grado os artificios da linguagem, não passa de apresentação, dissimulada e, demais, tendenciosa, com todas as chapas e etiquetas do estylo convencional.
Só lhe falta um "estimo muito conhecel-o" e um "seu creado, ás ordens”. Ora, formalidade e chapa eram crimes de anathema, para tres vezes malditos, na instituição do Minarete. Lá havia, até, fiscaes incumbidos de.colher e denunciar as que escapassem por um descuido. Não será, pois, deliberadamente que eu haja de incorrer nas iras do fundador. Não escrevo o prefacio.
Nem todos entenderão estas razões.
O publico ignora o que foi o Minarete; e é pena, porque da sua historia, que ainda não foi escripta, ha de raiar luz necessaria, não só sobre este arrazoado, particularmente, como sobre outras escuridades, muito mais dignas de clareza, das nossas letras em geral.
Que se opera hoje um renascimento das letras brasileiras é facto notorio e noticiado. Autores novos e novos livros annunciam-se com frequencia desacostumada. A nossa vida literaria, depois de entanguecida em longa hibernação, refloresce com estuar de seiva, como si entrassemos, afinal, em tempos melhores, de mais calor ambiente e mais trabalho interno.
Deve haver, para tanto, causas geraes, nas raizes profundas, a cuja cata, a estas horas, já andarão por subterraneos da historia os nossos la Harpes, Taines, e Sainte-Beuves, com a lanterna da hypothese e o garavanço da analyse. Mas essa é empresa de muito folego. Não me sinto apercebido, nem talhado, para me atrever tão largo, nem tão fundo. Não escruto a historia e não desentranho raizes.
E agora, sobre estas raizes, é que havia de calhar como chuva do céo o veneravel proverbio de La Fontaine:
Les longs ouvrages me font peur;
Loin d՚épuiser une matière,
On n՚en doit prendre que la fleur;
Porque esta ideia da flor, no figurado, é de afinadissimo effeito com a minha metaphora botanica. Comtudo o calumniado Pacheco, do Eça, tem tão bom, e mais breve: — "o talento verdadeiro só hade conhecer as cousas pela rama." E vem a ser, com menos modestia, o que La Fontaine quiz dizer. Por onde se prova que nem só os genios se encontram, e que as citações tambem perigam por excesso de opportunidade.
Citar La Fontaine para convir com Pacheco, dispensa-se. Nem era necessario tamanho rodeio para concluir, como eu pretendia, que, a colher a flor, ou a adejar pela rama, só me basta dizer do actual momento literario o que torne comprehensivel a participação do Minarete.
O retrocesso de quinze annos lá nos depara o surto inicial desta revivescencia, num microcosmo curiosissimo, verdadeira ninhada de escriptores que se emplumavam em um desvão da Paulicéa. Meia duzia de estudantes reunidos pelo acaso, alli se ligaram por affinidades de espirito e de caracter, para juntos viverem uma existencia tão sacudida de emoções de arte, sentida e produzida, em vibrações tão intimas e tão intensas, que não haveria abafar-lhes as resonancias futuras.
Quem se entrega assim de corpo e alma aos encantamentos da creação artistica, obriga-se a correr a sorte das paixões incuraveis, que arrastam inexoravelmente uma vida inteira para uma das duas clausulas: Vencer ou falhar. — Ora, o que se nota aqui, deveras caprichoso, é que a deusa cortejada, a Dulcinéa intratavel dos escriptores, a todos elles, um por um, tenha recompensado a vassallagem como a eleitos.
Monteiro Lobato é o autor dos URUPÊS; e basta dizer isto. Ricardo Gonçalves, victima da propria chamma que o arrebatou numa tragedia, será "o mais genuino dos nossos poetas” no dia, felizmente proximo, em que vier a publico o livro dos seus versos. J. A. Nogueira, com o seu extranho romance AMOR IMMORTAL é citado como um dos nossos escriptores de mais forte personalidade, profundo na intenção philosophica, ousado na concepção, feliz na realização, "capaz de grandes cousas”, na frase de Alberto de Oliveira.
Eis que agora surge Godofredo Rangel com VIDA OCIOSA, seu primeiro livro a imprimir-se de uma série inedita; sejam os outros como este, e será uma série de legitimos triumphos.
Depois de Lobato, Ricardo, Nogueira e Rangel, não é difficil, porque é possivel e até certo, que outros da familia do Minarete ainda tragam a publico obras do melhor quilate.
Pois não é extraordinario isto?
Quando se pensa que, espalhados do alto do equador abaixo do tropico, existem chronicamente pela vastidão do Brasil tres gerações de escrevedores, escrevinhadores e escriptores, de penna em riste, num continuo assalto á gloria litteraria; e quando se nota que o fim geral de tamanha lucta, e rabiscar tão infatigavel, é um cemiterio cada vez maior de nomes, esquecidos e sepultados sob montanhas de papel impresso, para se vender aos kilos: — é pura maravilha que de um Minarete de bohemios, como de uma caixa de magicas, saltassem fóra, feitos e consagrados, um poeta e tres prosadores, de verdade, em carne e asso. Parece que vae nisso embuste de pelotiqueiro. Pelo menos é a suspeita do espectador finorio que não crê satisfatoriamente em varinhas magicas nem nos seus condões.
E o espectador incredulo não desconfia em vão; porque houve segredo de arte no encantamento do Minarete. Qual?
Tenho por optimo divertimento o explicar sortes de passe-passe, sobretudo quando já se sabe a traça, e os mais da companhia arregalam olhos curiosos para a gente, a interrogar — como é ? — Processo recommendavel, quasi a salvo de perigos, para exhibir talentos de emprestimo, e saborear vaidades que não offendam as alheias. Valerá a pena a explicação do Minarete? E՚ o que se verá depois do feito.
Coragem, portanto, amigos, e em breve me dareis a resposta, ou eu mesmo a adivinharei.
Examinada por fóra, não se descobre nada de assombroso, nem de fantastico, nesta caixa de segredos. O Minarete era um chalé, no Belemzinho, sim senhor, por onde não consta que corressem lendas de avantesmas, nem de almas penadas. Chalé ao fundo da rua, gradil na frente, ao lado uma paineira. No andar terreo, morada de burguezes; no alto, sob o telhado, em ponta, de duas aguas, duas salas unicas, primitiva habitação de Rangel, a quem mais tarde foram adherindo Ricardo, Lobato, Lino, Raul, Nogueira, Albino, Candido, cidadãos de uma "republica" communista, cujos membros reunidos formavam o Cenaculo. A séde, por ser o chalézinho esguio, alteando o pescoço sobre aquelle ermo, foi chamada o Minarete, nome allusivo á vaga similhança architectonica e, tambem, aos ideaes dos cenaculistas — nada menos que, á moda de muezzins de uma religião de arte, atirarem por aquellas janellinhas desbotadas, como phalanges, a voz da Ideia, com I maiusculo, “penetrante como agulhas e limpida como espadas".
Pequeno o Minarete? — Sim, mas a ideia que o animava era immensa, “e a ideia... a Ideia é tudo!"
Ter uma ideia já não é cousa para muita gente. Pôl-a em pratica, e, demais, ideia da grandeza desta, isso, sim, é que é para muito poucos. O Cenaculo realizou a sua. Não uma, mas todas as vozes dos muezzins vibraram, estremeceram o ar parado, do alto do Minarete.
Somente o Minarete, para o effeito acustico, não era mais o chalé do Belemzinho; e aqui se revela a subtileza do engenho, quando o estimula a Ideia.
A adaptação ao meio tem exigencias, que não podem ser desprezadas por quem quer que procure vencer na lucta pela vida — exigencias que não exceptuam as ideias, porque a Ideia vive, e morre, como as creaturas, por forma que se sujeita ás mesmas leis de evolução. Os prophetas antigos, inclusive Mahomet, davam vida ás proprias ideias pela prégação. Mas hoje os tempos são outros. Prégar de viva voz do alto das janellas, no fundo do Belemzinho, seria ridiculo, alem de ser prégar no deserto... Porque a vida das Ideias 'hoje se infunde pela imprensa. Nem muezzins, nem arautos; mas jornal. Porisso mesmo o "Minarete", porta-voz do Minarete, era um jornal, nem mais nem menos, conforme requeriam peremptoriamente todas as leis inflexiveis, que Le Bon proclama, sobre a Evolução da Ideia. Isto seria incrivel si eu não tivesse á mão, para mostrar aos incredulos, a inteira collecção desse jornal, cuja vida de tres annos é um prodigio de longevidade, que desbanca Mathusalem. Porque o macrobio da Biblia tinha a graça divina, a seu favor; e um jornal nunca vive de graça. A providencia do patriarcha era Jehovah, dono do mundo; a do "Minarete" foi um simples jornalista da roça, a quem se afigurou esmola do céo o achado feliz de seis rapazes generosos, transbordantes de talento, que "por nada" inauguravam o jornal na integra, lançado, baptizado e redigido, desde o artigo de fundo até o folhetim e a secção livre.
E, agora, á obra. Com a séde, o cenaculo e o jornal, o Minarete era uma Installação completa para crear e animar ideias. Tinha o laboratorio, apparelhos geradores e o orgão de expressão. Podia funccionar com regularidade mechanica.
As ideias incubavam-se alli ás centenas como numa chocadeira, depois envergavam azas; e eil-as, a correr espaço nas folhas do "Minarete".
Verdade é que o "Minarete" circulava um dia por semana, um pouco em Pindamonhangaba e muito mais no proprio cenaculo. Não era, pois, um vôo largo, de aeroplano, que arrebatasse olhos pasmados de uma população inteira.
Mas era vôo, e vôo agitadissimo, bastante para a vertigem da altura; e mais não desejavam aquelles optimos rapazes. Não só não ambicionavam a attenção do publico boquiaberto, como tambem não ligavam a minima attenção ao publico. Desconheciam-lhe a existencia. Uma cousa unicamente os preoccupava: era a vida do Minarete.
Alli se resumia o mundo; e o que prova a pequenez do mundo é que elle cabia de facto, e inteiro, no Minarete. Porque o resumo de toda a vida do universo está nas obras de arte, com alguma deformação, é certo, mas isso, a troco de maior belleza. A arte é infiel pela propria amplidão do quadro que reflecte. Assim uma bola de espelho, pendurada num terraço, mostra ao mesmo tempo o céo, o parque, o salão, ao lado, e a mesa, em baixo, com o vaso de flores e a cadeira de vime, em que a menina faz crochet: tudo muito bonito, e tudo muito inexacto.
Assim a arte: é imprecisa, porque vê tudo. A sciencia, porém, especializa-se para ser exacta. Mas não é agora occasião de se desenvolver a these. Faço-lhe este aceno só para explicar que o Minarete era um mundo, pelo menos em imagem, porque vivia em arte e pela arte. As obras de arte, alli, não eram só lidas ou escriptas; mas vividas, litteralmente. Lia-se muito, no cenaculo, e de tudo. Ricardo lia Rostand e Lecomte; Rangel lia Zola; todos liam Daudet, Zola, Flaubert, e outros, afora Eça de Queiroz, Camillo e os nossos. Mas liam vivendo; quereis ver?
Tempo houve em que a leitura commum era o Tartarin. Sem que ninguem o premeditasse o Minarete, da noite para o dia, virou Tarascon e os muezzins, por uma transmigração de almas espontanea, encarnaram-se um por um, Ricardo no proprio Tartarin, Negreiros em Bompard, Rangel em Bézouquet, Lobato em Costecalde, e assim os outros.
O andar inferior, morada de burguezes profanos, ficou sendo Beaucaire, o burgo vizinho e desprezado.
Vinha o carteiro com um enveloppe garatujado, para o locatario de baixo: - "Não é aqui, senhor! E՚ em Beaucaire..." Encontravam-se dois do cenaculo, saudavam-se: - "Té, Bézouquet!... — Té, Bompard!...” — Certa vez o director do semanario encommendou artigo de fundo, cousa muito tesa, questão de derrubar a camara, sobre o problema da illuminação publica, ou antes, da escuridão. Candido Negreiros, incumbido da tarefa, saiu-se com uma "blague" de que nem Daudet se lembraria. Depois de verberar causticamente a desidia da vereança, que abandonava a cidade a todos os perigos das noites escuras, sem um lampeão numa esquina, suggeriu varios processos de illuminação, gaz, bico Auer, electricidade, todos carissimos, incompativeis, portanto, com "as lastimaveis condições financeiras em que se debatia o municipio". A՚ vista do que apontava o exemplo de Beaucaire, em 1893, ao tempo em que lhe presidia a Camara o illustre Mr. A. Pegoulade "que tanto se notabilizou na construcção de pontes sobre o Rhodano". Lá tambem se defrontou identico problema. Identicos alvitres irrealizaveis se aconselharam. Mr. Pegoulade, no meio de tanta celeuma, apresentou projecto mais modesto, mas immediatamente exequivel, que, porisso mesmo, triumphou da opposição dos despeitados. Porque, então, á Princeza do Norte não aproveitaria a lição dos mais adeantados? Cumpria-lhe adoptar, quanto antes, o "processo Pegoulade", por forma que a não envergonhasse "dizer aos forasteiros de que era feita a sua illuminação”. Saiu o artigo e o resultado foi instantaneo e honrosissimo: a camara resolveu archival-o e nomear commissão de tres membros, encarregada de estudar e emittir parecer sobre o “processo Pegoulade". Ora o "processo Pegoulade" consistia, imaginem em que... No fogo grego? Nos tubos de Crookes? Na lanterna magica? — Não, senhores: em lampeões belgas, simplesmente, nos velhissimos, conhecidissimos, lampeões belgas, de kerozene. Mas foi preciso citar Beaucaire e Mr. Pegoulade para que uma camara municipal os descobrisse e adoptasse, "sem vergonha de o confessar aos forasteiros".
— Com que então, lampeões belgas na illuminação?
— Belgas?... Dobre a lingua! Muito bom systema Pegoulade; você não sabe? — Em Beaucaire...
A troça não foi só troça, como estão vendo. Foi tambem uma lição de psychologia. Mas este exemplo de influxo do Minarete em negocios publicos forma excepção á regra, convem saber.
A literatura do "Minarete" era, em geral, enigma indecifravel para o publico de um jornal provinciano, "do interior". Havia uma prodigiosa dissipação de ideias, de conceitos, de fantasia, naquellas columnas; e nisso tudo, nada, absolutamente nada, que pudesse interessar um fazendeiro, um negociante, nem mesmo um boticario sertanejo. Não se faziam prognosticos sobre a safra e a cotação alta ou baixa do café; não se tratava do cambio, nem da festa do Divino, nem dos crimes da capital, nem do anniversario do coronel. Literatura unicamente, a serio ás vezes, outras vezes troça, cujo thema constante era a propria bohemia literaria do Minarete.
Lobato, alem do conto, dedica-se á critica. Assumpto: a poesia de Ricardo. Nas Memorias de um Velho, ensaia-se na prophecia psychologica. Que seria o cenaculo em 1923, o cenaculo "em que havia um poeta, um philosopho, um critico, um dilettante, um orador, um mystico, uma alma e um talento? — O poeta chamava-se Ricardo, o philosopho Albino, o dilettante Candido, o orador Lino, o mystico Nogueira, a alma Raul e o talento Rangel". Em seguida prevê Nogueira padre, Raul obeso, Lino deputado.
Lino, assignando Sheridan, investe contra o cenaculo em artigo truculento. Ricardo era um Victor Hugozinho da roça, lyrico sediço. Lobato: philosopho e arlequim, superficial e barulhento. Raul: um pandego. Nogueira: um fossil. Trava-se polemica. Desanca-se Sheridan: "Seu" anonymo, “seu” "beef"... "e passe bem com batatas".
O publico, o burguez profano, via estas cabriolas desvairadas e coçava a cabeça: — "Ou eu sou burro, ou estes typos são malucos. Vão plantar batatas, seus cacetes!"
E as devoluções choviam cada vez mais bastas. Por forma que após tres annos dessa gymnastica violenta o "Minarete" acabou, aguado, como acabaria um punga de estafeta instigado a esporas de ginete para emprehender façanhas de parelheiro.
Isto não quer dizer que tudo se resumisse em loucas correrias de penna pelo só prazer do exercicio, na collaboração do Cenaculo. Havia tambem trabalho apurado, feito com amor de artista e intuito de perfeição. Basta dizer que são daquelle tempo, em parte, as Ideias de Jeca e as Cidades Mortas.
O nosso Rangel, por sua vez, escrevia contos. Já estudava as paysagens de Minas. Dizimava os "ques" superabundantes dos seus manuscriptos, e lia Zola.
Sei destas minucias porque de tudo isto me informa a collecção do "Minarete". Folguei quando á dizimação dos "ques" e ao antigo pendor de Rangel para os aspectos mineiros, que elle pinta como verá quem o ler. Mas o caso de Zola, pareceu-me grave, e confesso que era bastante para me suggerir duvidas sobre a arte de Rangel, si eu já não tivesse lido a Vida Ociosa. Felizmente encontro aqui um conceito que é seguro indicio do seu bom gosto: “monotono e repisado como uma pagina de Zola"... — diz elle de uma cachoeira, onde borbulham peixes. Ora, graças! Rangel lia Zola, mas repudiou Zola. Demais, a declaração não era indispensavel.
O estylo deste escriptor, as descripções, a linguagem, tudo se apresenta com tanta ordem, com tanta clareza e honestidade de expressão, que não ha descobrir aquelle "realismo de inventario", como o qualificou Machado de Assis.
Escriptor nefasto ás nossas letras, si houve algum, foi Zola. Estragou irreparavelmente Aluizio de Azevedo, o unico genio do romance que já se viu no Brasil, corrompendo-nos o gosto a duas gerações, pelo menos. Poderosa individualidade presume-se, pois, no que lhe resistiu á conversação prolixa, por mais de tres annos, sem mudança apreciavel da physionomia.
Não conheço ninguem, de facto, mais "individual" do que Rangel. O que me parece caracteristico seu inconfundivel é que elle está presente e se revela até no intimo, ainda quando descreve sitios e paysagens que o impressionaram. Vejam si isto não é verdade naquella descripção da viagem pela estrada, no capitulo inicial. Cada cousa vista desperta-lhe emoções immediatas que se ligam a outras anteriores por élos inconscientes, numa cadeia de evocações, cujas formas imprecisas elle surprehende e grava instantaneamente, em paginas que são obras primas de psychoanalyse. Não se descobre reminiscencia de modelos alheios no seu processo descriptivo. Descrevendo, seja qual fôr o objecto, elle retrata-se. Ora, a imitação é, até, impossivel para quem acha em si mesmo o proprio original.
Eis o poder da individualidade, que liberta o artista da tyrannia das escolas. Parece, felizmente, que já se póde sem escandalo aventurar uma evidencia como esta, porque escola dominante não ha nenhuma nesta epoca. Ninguem é mais, por força, ou romantico ou realista. Livros, de quantos se escrevem, só ha de duas classes: bem escriptos e mal escriptos.
O realismo, o romantismo, o classicismo, até o cubismo, podem ser bons, comtanto que sirvam para a cultura de um temperamento, jamais para a sujeição.
E é justamente por uma longa cultura que vamos attingindo, em arte, o tempo da maioridade. Suppomo-nos preparados para uso e goso da independencia. Forma-se, hoje, o artista para a arte e não esta para o artista, como no passado.
Bolchevismo esthetico?...
— Será. Mas engana-se quem prognostica, dahi, o arruinamento da arte pela anarchia e pela profanação.
Formar independentemente a individualidade do artista é obra, não arbitraria e tumultuosa como parece, mas muito mais difficil e inaccessivel aos profanos do que o ensino dogmatico de canones immutaveis, uniformes.
A selecção dos verdadeiros talentos torna-se mais vigorosa, em consequencia da propria supremacia que se ha de attribuir ao senso individual do artista na eleição dos seus processos.
Obra d՚arte sem personalidade, nasce morta. Só vivem, de facto, as que reflectem legitimamente a propria vida do artista. C՚est moy que je peinds, dizia o sabio e bom Montaigne; porque fóra deste preceito não ha mais que arremedos, artificios, falsificações...
Não fundamento a thése, para não divagar muito longe do Minarete e do Cenaculo. Restrinjo-me ao sufficiente para termos já meio desvendado o segredo principal do seu encantamento. Alli não se lia só: vivia-se a leitura. Não se imitava: creava-se. Desprezavam-se as formulas. Odiavam-se os chavões. Era a plena independencia.
Affinidades de caracter havia entre todos, sem o que não seria possivel a vida em communhão. Uniformidade, porém, nenhuma, quanto aos gostos, ás tendencias intellectuaes e ao temperamento artistico de cada um.
Somme-se a isto a voluntaria segregação do publico, e eis integrados no Minarete os requisitos todos, favoraveis ao espontaneo desenvolvimento de individualidades que se consagravam ás artes literarias.
Com trabalho e talento, nada mais se precisa para o surto de escriptores que se chamem Lobato, J. A. Nogueira e Godofredo Rangel.
Está desfeita a magica. E o leitor, si não dormiu, achará que a sorte é muito facil e que era excusada a explicação.
Ora, porisso mesmo, já se declara no titulo que este prologo é dispensavel. Porque o leu, então?
8—XI—920.
HILARIO TACITO.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
