Vida Ociosa (2ª edição)/6

O hospede

 

Esvaziado o canecão, levantei-me, o que significava uma ordem para que cada um se désse ás suas occupações habituaes; era já combinação nossa, imposta por mim, para que não perdessem o dia rodeando-me, esquecidos de tudo. Prospero foi ver se ainda salvava alguns palmos de malha das redes rompidas pelos jacarés; siá Marciana dirigiu-se á cozinha, provocando, no caminho, a palra do velho papagaio, acabado de velhice, que passava o dia a cochilar na placa da varanda; quanto a Americo, ficou commigo. Aproveitei o momento para passar-lhe um pacotinho de pratas, especie de dadiva tira-remorsos, com que concorria, sem sciencia dos velhos, para o custeio da casa, afim de reparar o rombo que davam minhas visitas á caixa commum; este dinheiro apparecia como renda do negocio mal sortido. Americo, meio distrahido, e lançando um olhar vago para fóra, enfiou o rolete no bolso. Estava agitado, cogitabundo; por fim voltou-se para meu lado e disse:

— Não sei se o José virá hoje; se o dr. permitte, vou á casa delle saber.

— Pois não!

Americo calcou até ás orelhas um chapéo abudo, tomou um bengalão que figurava uma cobra enroscada num tronco — obra prima de seu canivete ― e dirigiu-se para a cancella, que fechou sobre si.

José era um alumno, ou melhor, o alumno. Porque Americo ensinava. O quê, não sei. Por um certo pudor, se eu me avizinhava quando estava leccionando, elle parava, e por nada no mundo continuaria á minha vista, como quem se considera muito humilde para tão nobre empresa. A verdade é que no commodo de negocio, logar das aulas, eu via á hora da licção profusas bolas de tabatinga, de varios tamanhos, que representavam, talvez, os planetas conhecidos — o que me fazia temer pelo miolo do seu catechúmeno.

Embora admittido gratis, era o José tratado com todas as considerações. Americo trazia-o nas palminhas, como . um bem mui valioso que é necessario conservar. Se cahia doente, velava-lhe á cabeceira, em afflicções maternaes; queria-o comsigo ás refeições, como pensionista sêmi-interno; e cedo eram inquietações de cada momento: o negrinho viria? não viria? (José era da côr da noite). Commigo mesmo baptizei o discipulo amado: "o hospede do Grande Hotel". A historia da alcunha dava panno para longa novella comico-sentimental. Em poucas linhas passo a tracejal-a:

O sr. Almeida vegetou trinta annos numas bibocas infrequentadas do sul de Minas. Assim vegetara seu pae, seu avô, seu bisavÔ, e assim vegetariam mais tarde os filhos, se os tivesse; mas era apenas pae de nove filhas casadeiras, as mais velhas bem passadinhas e, as mais moças, umas passando e outras no viço e frescor dos melhores annos.

Naquelle desterro onde viv՚alma não estanceava, que valia, porêm, a graça, o viço, o desabrolhar de tantas louçainhas? Ai das nove filhas solteiras! Ai dos ricos encantos que se fanavam na solidão! Feiticeiros sorrisos, voluntariedades feminis, fanfreluches cheios de encanto, momos caprichosos, tudo que faz da mulher um entezinho appetecivel, estavam alli como certas flores agrestes amoitadas no ermo e que esterilmente perfumam o ar com suas delicadas caçoilas aromaes, sem um olfato que as aspire, nem olhos extasiados a quem maravilhem. As nove flores agrestes do sr. Almeida tinham-se apenas, umas ás outras, como espectadoras invariaveis de tanto encanto esperdiçado na solidão, e sabe Deus se se contentavam com tão pouco! A melancolia daquelle destino infecundo azedava-lhes o genio, ao ponto de passarem os dias a unharem-se umas ás outras.

E o sr. Almeida, por fim, coçava a barba, pensativo. Gostava de passar os dias pitando seu cigarrão de palha, um tôco babujado que lhe filtrava doce quietude á alma, de envolta com a fumarada, acocorado perto de uma bacia com brasas, a ralhar com os crioulinhos e a gritar com as nove; comprehendia agora, porêm, que sua vida não podia cifrar-se naquillo. Esta idéa embutiu-se com tanto afêrro no seu cerebro, que um dia resolveu quebrar as tradições da familia, tomando uma grande resolução. O proprietario de um grande hotel, numa villa de aguas, desejava pôr lavoura; o sr. Almeida deu o que tinha pelo hotel e freguezia, e despediu-se definitivamente do ermo agricola. Não vira solução mais acertada para seu caso melindroso. Pois um hotel, em tal ponto, é frequentado pelo escol da sociedade carioca e paulista, e alli, pondo á vista dos pensionistas as nove virtudes guerreiras enrijadas na vida da roça, não lhe seria difficil achar bons partidos matrimoniaes.

E lá se foram. Infelizmente, porém, o Grande Hotel andava desconceituado. O dono alienara-o para livrar-se do alcaide. Tinha o predio corredores immensos, quartos sem conta, refeitorios amplos, era todo largueza e amplidão, mas não appareciam veranistas que lhe viessem despertar o silencio claustral, animando aquelles corredores, longos e vazios como arterias cortadas, com um pouco de sangue corrente de gente viva. Mais cogitativo que nunca, e a recoçar o queixo, o sr. Almeida resolveu installar a um canto um fogareiro, para sentir acalentar-lhe a melancolica desillusão um pouco de borralho, a cuja beira passava as horas interminaveis a cuspir o sarro do tôco.

Um dia, não se sabe como, surgiu lá o primeiro hospede, homem dos seus quarenta. Foi um reboliço na casa. O sr. Almeida gaguejava e atarantava-se, e as nove musas, passadinhas ou não, ficaram num alvoroço de alleluias em tarde estiva, a trançar estonteadamente pela casa, numa boa vontade de servir e agradar, que era para pôr um homem rendido. O sr. Garcia (este o nome do hospede) não podia queixar-se de mau tratamento. Verdade que preferiria menos reboliço e vae-vem, pois, muito neurasthenico, fôra para calma dos nervos irritadiços que escolhera aquelle hotel desfrequentado. Só encontrava um pouco de bem estar no ambiente sedativo dos logares ermos, na convivencia comsigo mesmo em infindaveis meditações, em que o ondeante mover do pensamento parece fazer-se fóra do tempo e do espaço, e o espirito fluctua, frouxamente, como uma penumbra de crepusculo em nave abandonada. Com a sua chegada ao Grande Hotel, fez-se alli, na sua paz morta e atmosphera de estupor, a vida que elle evitava. O tôco do sr. Almeida lá ficou a tostar-se nas brasas esquecidas; com a obrigação de dar prosa, não descollava do homem, interessando-se pela sua saude e familia e contando-lhe reminiscencias da lavoura. O sr. Garcia era delicado, e conversava. Se o hospede queria agua, o sr. Almeida berrava para os fundos: "Agua para o sr. Garcia!" A casa toda agitava-se, havia correrias, balburdia, rumor de luctas, trinclidos de copos, gritos como echo: "Agua para o sr. Garcia!" E era um bater de portas, um alagar de torneiras, até que emfim, quando o sr. Almeida berrava pela decima vez a reclamar a agua, apparecia uma das nove musas, com um copo orvalhado numa salva, córada e pudica, e a fazer com os labios uns trejeitinhos graciosos, que eram para bulir tentadoramente com um coração menos amante do ermo, como o do nevropathico pensionista.

O sr. Garcia alli viveu, adorado, bemquerido, adivinhado, amimado, por espaço de algumas semanas; mas a situação tornava-se insustentavel; com receio de levantar celeuma, elle procurava conter até as mais urgentes necessidades corporaes. Chegava a passar fome e sêde. Um dia, por fim, com o mal incuravelmente aggravado, e com a obsessão das mais tétricas idéas, sahiu do hotel subrepficiamente, deixando a conta paga e sumiu para sempre.

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.