Vida Ociosa (2ª edição)/5

Ao Café

 

Fomos ao café. Atravessando a casa, aspirei com prazer o rescender a vassoura verde, que impregnava o ambiente, deixado pela varredura da manhã. Outras conhecidas notas caseiras vinham augmentar minha sensação de tranquillidade e bem estar: cacarejos e pios no quintal, chios de filhotes de morcego entre a fuligem da telha van. Entrevi em sua placa o velho papagaio sorumbatico.

Na larga mesa da sala de entrada já estava o bule fumegante, rodeado de pequenas canecas de louça e tigelinhas desbeiçadas, com lettreiros: "Saudade", "Amizade", tudo sobre uma grande salva de prata, ultima alfaia preciosa dos velhos tempos de abastança, reliquia de familia, que desde epocha immemorial vinha de paes a filhos. "Minha cadeira", forrada com um couro de cachorro do matto, fôra removida para alli. Ouviu-se na cozinha um estralejar de gordura frita e d՚alli a instantes surgiu siá Marciana com um prato de biscoitos ainda quentes da panella.

Abanquei-me ao lado de Prospero, que estava solennemente sentado deante de um canecão cheio até á borda. Siá Marciana intencionalmente offereceu-me a tigelinha "Amizade" e passou-me os biscoitos fritos, sentenciando:

— Diziam os antigos, dr. Felix, que café deve ser assentado, assoprado e mastigado.

Sem cerimonias, puz deante de mim uma pyramide de biscoitos e fiz o prato, sensivelmente diminuido, continuar o gyro. Em movimentos rythmados, o canecão, especie de patriarcha do vazilhame, ia até os bigodes aparados do patriarcha da familia e voltava para a mesa. O vello Prospero bebia silencioso, com a uncção de quem segue um ritual. No espaçado e no calmo das idas e vindas, havia como que a affirmação segura de que Roma não se fez num dia e que mais tempo menos tempo se veria o fundo do canecão.

— Porque está quieto, sr. Prospero? perguntei-lhe, para puxar palestra.

Pousou a vasilha e, voltando-se para mim, disse:

— Ando mais surdo estes dias, dr., e receio que minha prosa o incommode. Sei como é cacete conversar com surdos: é preciso gritar e ainda reter o riso, por causa dos disparates que se ouvem. No meu tempo eu tambem não gostava muito e só conversava por espirito de caridade. Por isso julgo os outros por mim...

Rematou sorrindo, como quem conta com um protesto certo e delicado. Protestei e perguntei-lhe se o incommodo não o fazia soffrer.

— A՚s vezes entristece-me um bocado. A gente, quando vae ensurdecendo, tambem vae ficando isolado. O som é um dos encantos da existencia, e, sentir-se elle esmorecer em torno de nós, é como sentirmos o afastar da vida. Com o som, os homens nos fogem, de sorte que vamos ficando trancados no silencio, como em nova especie de deserto. Mas emquanto eu tiver olhos para ver minha velha, não desespéro... — E fitou maganamente siá Marciana, que lhe chamou enjoado, caçoando:

— Isso da surdez do meu velho, dr. Felix, acho que é um pouco de malandrice. Vêm aqui ás vezes umas caboclinhas bonitas e, com a desculpa de não escutar, elle as vae renteando com desembaraço.

Houve risadas e o velho sentenciou, brejeiramente:

— Tudo neste mundo tem sua compensação. Essa é a da surdez. Deus quando dá o mal, tambem dá o consolo...

Contou-nos, em seguida, como começara aquillo, insensivelmente affectando a um tempo os dois ouvidos, lá iam annos. Defeito imperceptivel a principio, foi-se aos poucos fazendo doença incommoda. Parecia-lhe que todo o mundo falava enrolado, ou em lingua extranha. Um dia teve um raio de esperança. Estava sentado na eira, a apreciar a tarde, quando sentiu uma especie de estouro na cabeça. A surdez cessou instantaneamente, por milagre. Ficou com o ouvido apuradissimo como nunca o tivera. Ouvia nitidamente a conversa de dois canoeiros, ao longe, na curva do rio e o chapinhar compassado do remo na corrente. Levantou-se exultante, tremulo, para contar á “prima" tal prodigio; nisto ouviu um segundo estouro, formidavel como um trovão. E desse momento em deante teve occlusão completa de um ouvido. O outro peorava lentamente.

— Dizem que os moribundos teem ás vezes, visita da saude. Isso foi, decerto, a despedida do som.

Após estas palavras, o canecão, em repouso algum tempo, recomeçou seus pausados movimentos. Para espancar a nuvem melancolica trazida pelo assumpto, resolvi entreter os altos espiritos de Americo com um pouco de physica recreativa. Com garbo de prestidigitador arregacei as mangas, pedi um copo d՚agua e um pedaço de papel, e perguntei:

— Conhece a experiencia do copo invertido, cuja agua não se entorna?

Apenas de leitura. Mas suppuzera ser causa que só existisse em livros.

— Pois attenção! Um, dois, e...

Fiz a sorte. O pasmo de Americo assumiu as proporções de êxtase.

— Sim senhor! Ora vê-se! Sim senhor! ― era só o que sabia dizer, arregalando olhos admirativos.

Taes surpresas, que eu me divertia a provocar no espirito simples de Americo, constituiam um regalo de minha predilecção. Todavia, em minha convivencia com essas boas creaturas, mais de uma vez pungitivo remorso feriu-me a consciencia. Parecia-me não haver lisura em meu procedimento e que, na corrente alternativa de provas amistosas que entreteem a verdadeira affeição, eu alli dava menos do que recebia. Sentia-me profundamente amado pelos meus amigos; era um filho dos velhos e um irmão de Americo; e, para mim, eram todos talvez mero divertimento; pois analysando, bem pela raiz, meu sentimento por elles, reconheceria serem os quitutes de siá Marciana, as historias de caça do velho e os espantos virginaes do Americo, que o entretinham e viçavam. Depois de me doer com essas considerações, eu rematava commigo, para aligeirar escrupulos:

— Afinal, tudo na vida corta-se pelo mesmo modelo; e é avisado, para a não desvestirmos do seu florente recamo, que nos contentemos com aspirar a flor dos sentimentos, gozando a sua superficialidade amavel, sem cogitar das putridas fermentações dos subsolos. Se remorsos me pungem, não é que eu peque muito, mas porque vejo claro. Não ha como fluctuar á tona dos sentimentos bons, levados pela sua onda mansa, sem que lhes descomponhamos a estructura elemental...

O canecão, mais uma vez esquecido durante a sorte de physica, já retomara seus movimentos regulares. Então Prospero pediu-me noticias da conflagração.

— A humanidade continúa possuida de sua demencia assassina, respondi. Longe de abrandar, a lucta se encruece. Cada dia, na terra e no mar, a voragem da morte traga milheiros de vidas.

— Coitados! murmurou siá Marciana, envolvendo a todas as victimas no manto de sua piedade.

Brincando distrahidamente com o copo da experiencia, em cuja agua um raio de sol, chegando obliquamente, accendia rebrilhos alegres, disse-lhe que desejaria estar lá, no mais forte da refréga, para apreciar a hecatombe.

— Apreciar! extranhou a velha. Como pode dizer assim de uma coisa tão triste!

— Siȧ Marciana, continuei, o homem é um animal perverso. Somos parentes da panthera e do jaguar, e ainda remanescem em refolhos mysteriosos de nossa alma, como uma ninhada de viboras numa greta de lapedo, velhos instinctos vivazes, mal acobertados pela fragillima côdea civilizada com que campamos na sociedade; é um velho legado de sangue, atavismo de indole, de que não nos poderiamos libertar em poucos milhares de annos ― um minuto na evolução. Em nós ha rugidos adormecidos, crispações de garras dissimuladas no velludo macio das patas. Amamos o sangue e o espectaculo do soffrimento, das agonias horriveis...

Os velhos ouviam sorridentes, como se minha lenga-lenga os divertisse. Lançado no thema, e um tanto pela vaidade de exhibir, ante sua simpleza rustica, minha natureza perversamente refinada de homem culto, prosegui, balançando ligeiramente o copo, a cuja beira uma mosca pousara:

— Embora o neguemos, é-nos uma volupia o espectaculo do soffrimento. O sentimento da commiseração é um enxerto das moraes doentias e por isso como que nos demora apenas á flor da pelle. Pois o preceito principal da nossa moral indestructivel e primitiva é que cada um de nós é o eixo, o nucleo da humanidade, a sua razão de ser. Só existe o nosso soffrimento. Cada um de nós tem todos os direitos imaginaveis sobre as pessoas e cousas que nos cercam. Sabemos que a lucta é necessaria — pois desses fundamentos resulta um permanente e salutar estado de lucta. Luctamos para a solução do unico problema que nos interessa: o da nossa felicidade pessoal. E, se tudo foi creado para nosso gaudio, tambem o foi o soffrimento alheio, que não é a menor de nossas delicias. Que deleite extranho e sobrehumano o sentirmos — tigres travestidos de homens — a presa cobiçada impotente entre nossas garras! E՚ um ser vivo que pensa ter os mesmos direitos que nós e que, com toda a sua arrogante presumpção, está á nossa mercê. Saboreamos-lhe o susto, que se lhe accende no olhar esgazeado, voltado para nós a supplicar misericordia. — Não terás quartel! — respondemos, cravando-lhe agudamente o olhar impiedoso, para augmentar o terror. E, como requinte da voluptuosidade da carnagem, brincamos primeiro com a presa inerme, alentando-a a espaços com uma falsa esperança. Simulamos descuido: pensa que pode fugir, tenta-o, mas reapoderamo-nos della. O terror accresce. E isto se repete indefinidamente. Sente, emfim, que tudo está acabado; e, exgottado pelo seu proprio excesso, o terror começa a esmorecer em desanimo, em conformidade... E, na sua passividade descorajada, nesse languecer de desalento, ha como o abandono voluptuoso de uma femea que se entrega...

Os velhos continuaram a sorrir. A՚ beira do copo, em cuja agua limpida uma flexa de ouro se abeberava, passeava a mosca confiadamente. Accendendo um cigarro, prosegui:

— Então exgottaram-se os aperitivos preliminares, acabou-se a phase preparatoria. E՚ a grande hora. Ageitamos a victima para o sacrificio. Vamos saborear a agonia physica depois do soffrimento moral. Sedentos de sangue, e com o phrenesi de um lascivo sedento de amor, cravamos-lhe os dentes agudos no pescoço. Ha um ganir de dor deliciosamente cruciante. Nervosamente afastamos com o focinho o lanho de carne arrancada, e applicamos a bocca sanguisedenta bem ao fundo da chaga, no esguicho da arteria rompida; empurramos o focinho soffrego até se justapor á ruptura dos tecidos, para que nós e a victima façamos um só todo, um caso delicioso de xyphopagia, de hermaphroditismo de nova especie, em que em vez da volupia se bebe a vida. Está formado o novo e extranho sêr! Somos um! E nos nossos braços felpudos, que embalam e dominam, sentimos a victima barafustar impotente, com excitantes ralos de agonia, toda fremente, a estrebuchar, fazendo, a cada arranco, que o sangue borbote em golfadas mais vívidas; e, quando o corpo afrouxado dá de esmorecer, num collapso, e o sangue flue moroso, reexcitamol-o com o entranhar nervoso das garras nas partes mais sensiveis, provocamos um ultimo e poderoso entesamento que nos jorra na guéla a última golfada quente. E, emfim saciados, a cabeça torva, os sentidos preguiçosos, a volupia extincta, deixamos tombar dos braços, como uma trouxa inconsistente, o corpo da victima inanida e, a passo bambo, vamos enrodilhar-nos somnolentos á sombra acalentadora de uma grande arvore da espessura...

Num estouvado movimento cahiu nagua a pequenina mosca. Como se debate afflicta! Estendo-lhe uma felpa da palha do cigarro, como ponte salvadora. Toda de seu desespero, espolinha-se e não a vê. Não vá a pobrezinha afogar-se!

— Pois somos assim. O medo das represalias, elle apenas, recalca-nos o natural bravio de besta-féra. Por isso a guerra é bella e natural. Traz a abolição momentanea de todas as ferropéas, de todas as mentiras juridicas e moraes — hypocrisias de nossa falsa civilização. Podemos ser tigres, ser humanos! Deixados á solta, como matilha desatrellada, nossos instinctos recalcados cevam-se em todas as grandes voluptuosidades: os estupros, os saques, as carnificinas, as flammas incendiarias... Somos selvagens, somos barbaros, mas humanos. E՚ a grande vida natural que resurge, é a natureza que reivindica os seus direitos imprescriptiveis, é o. eterno, o indestructivel, que fulgura á labareda dos incendios, no resplendor de uma incomparavel apotheose!

Afinal sentiu a mosca a fibra. Apegou-se a ella e começou a subir lentamente. Depul-a com cautela sobre a mesa. Andou um pouco, arrastando as asas pesadas. Tentou voar — cahiu. Espanejou-se, deu mais forte impulso e, librando-se emfim no ar, alegremente voou pela restea dourada, janella em fóra, a seccar as asinhas humidas á luz gloriosa da manhã.

Os velhos continuavam a sorrir...

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.