Vida Ociosa (2ª edição)/21

Dupla surpresa

 

— E՚ como lhe digo, sô doutor: a linha da divisa passa por esta cova, a vinte braças de um oleo pardo; por aqui vae descendo...

E o dedo do meu jurisdiccionado ia descendo por um papel sujo, esboço de mappa, de dobras rustidas de velhice.

— Sim, sim! Já me disse isso; mas não posso, absolutamente, dar opinião; procure um advogado de sua confiança, exponha-lhe o caso...

— ... vae descendo, até esbarrar no córgo do Zé Elias. Aqui faz um bico...

Levantei-me, impaciente e puz-me a passear, agitado, pelo escriptorio. Forte maçada! Precisando ir ao Corrego Fundo e aquelle estupor a moer-me a paciencia, com a historia infindavel de seus litigios! Se o não despejei vinte vezes pela janella, é que me commovia a humildade paciente com que acolhia meus phrenesis. Desta vez ainda emmudeceu, com o papel sujo estendido sobre a perna, á espera.

— Pois vá, vá perguntar a um advogado o que quizer. E olhe, tenho serviço, não posso attender ao sr. toda a vida.

Mau grado estas palavras asperas, meu consulente continuou encrustado na cadeira.

Recomecei meu passear agitado, buscando divertir o pensamento. Sobre a mesa vi, dobrado, o papel azul recebido de manhan. Um doce calor de jubilo filtrou-se-me no espirito. Senti-me feliz. Mas uns gordos autos de embargos, que avultavam logo adeante, esfriaram-me consideravelmente a alegria. Diabo! Tanto atrazo no serviço... Os prazos findos rabujavam em minha consciencia lenga-lengas interminaveis, atassalhando-me de remorsos.

Afastei essa vista importuna e voltei-me para o grammophone. Era uma velha machina, preciosa, que, de emprestimo em emprestimo, se desgovernara desoladoramente. Mas o ultimo emprestimo dera-lhe virtudes raras, muito de meu agrado. Mesmo sem disco tocava musicas de Wagner, ricas de estrepito. Desloquei a mola e elle começou. Primeiro foi um roncar surdo de tempestade que cresce; subito desencadearam-se trovões rolantes de mistura com guinchos inexprimiveis. Em seguida amainou e poz-se a piar e a ringir com um accento tão animal, que bulia nas fibras do coração. Foi nesse ponto que bateram palmas á porta.

— Sr. doutor, licença para tres! — exclamou uma voz de velha.

— Oh! que boa surpresa! — retruquei, correndo ao encontro dos meus amigos do Corrego Fundo.

Era a primeira vez que os via na cidade. Viviam tão comsigo e ilhados na sua pobreza, amavam tanto seus habitos tranquillos, que a novidade quasi me alarmou.

— Pois aqui estamos! disse o velho Prospero, entrando. E especialmente para ver o doutor.

Recebi-os jubiloso.

— Um homem solteiro morando sozinho num casarão destes! — admirou-se siá Marciana.

Mostrei-lhes o interior da casa, a cozinha, onde o meu moleque queimava systematicamente o feijão, a horta afundada em hervas altas; depois levei-os ao escriptorio, onde accendi o fogareiro de alcool.

— O sr. tambem é meio cozinheiro, gracejou siá Marciana.

— E faço questão de que me conheçam a força.

Offereci-lhes cadeiras, nas quaes silenciosamente se sentaram. Notei algo de extranho em meus amigos. Raras phrases proferiam, como se os ganhasse uma grande preoccupação e, a miudo, trocavam olhares de intelligencia, que me intrigavam.

Notei ainda que o sr. Prospero vestia a sobrecasaca de grande gala. Muito deveriam ter-se alarmado as borboletas de minha porteira! Pronunciei algumas palavras para puxar palestra; ellas, porêm, congelaram-se no silencio dos tres. Trocaram, a esse ponto, novos olhares significativos.

Então o sr. Prospero levantou-se solenne.

— Americo, disse, dê-me os oculos, Os oculos! Era grave. O velho só os punha em circumstancias excepcionaes.

Ageitou-os atraz das orelhas e, voltando-se de novo para o filho:

— Americo, dê-me a caixinha.

Recebeu das mãos do filho um pequeno volume embrulhado em papel de seda e amarrado com uma fita; e, voltando-se para mim, começou em voz pausada:

— Sr. doutor, nós temos contas velhas que ajustar. Faz alguns annos que o senhor nos dá o prazer de frequentar o nosso rancho. Lá o recebemos, não como hospede e sim como filho. No entanto, o senhor ― e aqui brandiu o indicador ameaçadoramente — de cada vez que nos visita deixa um pacotinho de pratas, como se lhe cobrassemos nosso feijão. Nunca nos recusamos a recebel-as, para pôl-o mais á vontade; secretamente, porêm, conspiramos uma vingança, isto ha mezes, ha annos, esperando que não a levasse a mal.

— Mas... ia-me eu defendendo.

— O senhor é muito orgulhoso — e o dedo brandiu de novo — muito mesmo, por isso, como não queria nosso feijão, tambem, orgulhozinho de pobres não queriamos as suas pratas. Se tivessemos recursos, nossa vingança seria fazer-lhe um bello presente; não sendo isso possível, eu, notando que em seus dedos faltava alguma cousa, disse á prima: "Vamos juntando as pratas da "hospedagem" (senti nas faces o grypho da palavra) e lh՚as devolveremos sob a forma de um annel. Se não acceitar como devolução, receberá como brinde de amigos". E aqui está, sr. doutor Felix, a vingança dos seus piraquaras...

A estas palavras abriu o estojo e estendeu-m՚o. Era uma joia bellissima, deitada sobre velludo, tendo no aro as insignias da justiça. No engaste, uma grinalda de brilhantes chammejava á roda de sanguineo rubi.

— Que belleza exclamei, examinando o mimo; a lição foi boa — castigaram-me o orgulho. Mas os senhores estão tambem mareados deste peccado...

— Nós? — e os velhos admiraram-se.

— Decerto. Castigaram-me por não acceitar seu feijão. Precisam de castigo por engeitarem minhas pratas...

— O caso não é o mesmo, protestou Prospero.

— E՚, sim, atalhei. A minha desforra, porêm, será immediata.

Depuz o estojo na mesa e, tomando o papelucho azul, entreguei-o solennemente a Americo, dizendo:

— Sr. professor, acceite meus cordiaes parabens!

Americo leu — tremeu-lhe a mão, tremeu-lhe o beiço, ficou pallido e sem fala; e subito atirou-se sobre mim, estreitando-me convulsivamente:

— O՚ sr. doutor... sr. doutor...

Estava um tanto theatral, mas era sincero; mais do que eu que, em vez de rejubilar com o seu jubilo, divertia-me com a situação, que me obrigava a attitudes de quinto acto. Essa cousa tão importante para Americo, para mim pouco significava, pois, crear uma escola rural no Corrego Fundo e nomeal-o professor, não fôra exito em que despendesse grande esforço, graças a certas facilidades de occasião e ao influxo de prestantes intermediarios.

Emquanto Prospero arrancava o alviçareiro telegramma das mãos de Americo, tartamudeava este que nunca ousara esperar que se realizasse um dia o seu sonho secreto. E, lançado em contrastes de sentimentos, ora irradiava, felicissimo, ora turbava-se, duvidoso dos seus proprios meritos, achando a tarefa muito grande para seus hombros frageis.

— Duvida, Americo, duvida bastante, meu amigo — philosophei — que as realidades mais doces são as que saem das duvidas mais amargas.

Inteirados por sua vez da nova, os velhos ficaram uns instantes sem voz, como o Americo; depois, identicamente, tremeram de mãos e labios, e abraçaram-me, e exultaram, e duvidaram — o que me ensinou que os lances da vida são muito parecidos, duas alegrias, pelos modos, assemelhando-se entre si como duas gottas d՚agua.

Mas a machina, roncando, annunciou-nos prompto o café. Servi. Bem salgada pareceria a bebida a Prospero, tantas lagrimas nella misturava!

Passamos largo tempo juntos. Prometti ir á fazenda no dia seguinte, para oriental-os sobre as formalidades da nomeação. A՚ sahida foi um não acabar de mutuos agradecimentos.

Retiraram-se, por fim.

Tornado ao escriptorio, retomei o estojo e contemplei melancholicamente a joia coruscante de rebrilhos, calculando commigo o quanto de privações e amarguras se condensariam naquella cercadura chispante e naquella gotta de sangue vivo mineralizado. Em vez da festiva alegria com que os pobrezinhos contavam, com que aperto de coração eu recebia a sua dádiva!

E considerei a joia, longo tempo, absorto, até que uma voz cava, sahida de algum ponto mysterioso da quadra, veio subitamente despertar-me:

— Como lhe dizia, sô doutor, aqui a divisa faz um bico. Ao despois a gente garra córgo abaixo tuda vida, até o angico do pasto do João Juca...

 
Fim

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.