Vida Ociosa (2ª edição)/2

Ruinas

 

Alquebrada de velhice, a casa mal se firma agora nos esteios obliquos e comidos de cupim. Vergastadas dos temporaes e corroidas pollegada a pollegada pela acção erosiva do tempo, as paredes raros vestigios mostram da ultima mão de cal levada vinte annos antes.

As ripas, enxadrezadas com os paus a pique, exhibem por toda a parte sua ossatura carunchosa. E՚ um cadaver de casa, uma carcassa decomposta, já mostrando as costellas descarnadas. Ao lado, onde foram as tulhas, vê-se hoje um montão de escombros; e, no eirado, para onde se abre a porta principal, cresce o capim desafogadamente. Contrastando com esse ar de morte e abandono e dando uma nota ridente de vida ao vetusto pardieiro, sobe dos fundos uma espiral de fumo azul, que se desfibra lentamente no espaço.

Ahi moram o velho Prospero e siá Marciana, paes do Americo. Já rumando os oitenta ou noventa annos (nem sei quantos!) dão exemplo de serena velhice, sem amarguras contra a vida, nem o pezar de deixal-a. Emquanto poude, o velho trabalhou. Foi fazendeiro, teve grandes rebanhos de gado e extensos alqueires de plantações; mas, por ser bom e confiante, o que tinha foi-se rapidamente, quando sua actividade começou a declinar e ao peso dos gastos não podia oppor equivalente receita. Ingratidões e abusos de confiança levaram-lhe até o ultimo vintem; o que porém se lhe salvou do sossobro, e á sua companheira, o unico e precioso thesouro inconsumptivel de que não os puderam esbulhar, foi a branda alegria d՚alma que os acompanhou em todas as vicissitudes do passado, e que dá á velhice de ambos uns toques de mocidade vivaz, como festões de madresilvas alastrando sobre ruinas. Pauperrimos, a propria vivenda em que moram é alheia — pertence a um irmão mais moço de Prospero, fazendeiro "desempenhado", e tão sovina que, o ceder-lhes por favor essa moradia, torna a todos boquiabertos. Os velhos nunca se queixam; mas sei que o proprietario, o major Claudino, não os deixa em completo socego. E՚ uns dez annos mais moço que Prospero. Foi este quem lhe deu a mão para começar a vida e continual-a; e tambem foi Claudino quem abocanhou os ultimos restos de sua fortuna, valendo-se de contas pouco comprehensiveis e de juros mysteriosamente intricados. Nessa epocha, como quizesse expulsar os velhos da fazenda, levantou essa descaridade tal clamor entre os conhecidos e parentes, que Claudino cedeu, a contragosto, deixando-lhes o usufructo da casa e de algumas braças de terreno. — "Estão velhos, pouco hão de durar", dizia para conformar-se. Mas os velhos resistem valentemente aos embates dos annos e Claudino com isso impacienta-se, diz impertinencias, reclama contra o descalabro crescente de tudo e quer leval-os para sua propria casa. Prospero limita-se a replicar sorrindo e sem levar a mal: "Tem paciencia, mano! Espera mais um pouco. Para o anno eu e a prima já estamos pescando mandys no rio da eternidade..." (A "prima” é siá Mar-

ciana. Dá-lhe tal tratamento, por terem esse parentesco.)

Emquanto esperam, pescam mandys no rio que passa aos fundos da fazenda. Tanto basta para esquecerem os annos e as enfermidades. Toda a tarde, Prospero, com o rosto encoberto sob as largas abas de um chapéo achamboado, entra em sua velhissima canoa de peroba, que é preciso tentear com cuidados infinitos para não fazer agua, e vae distribuindo aqui e alli, pelas duas margens, anzoes de espera e laços de capivara; e, sobre a madrugada seguinte, lá volta a correr os mesmos sitios, a dar balanço nos rendimentos da noite... E longe em longe acontece acabar de matar no anzol, a pontoadas de chuço, um enorme dourado, que alegremente traz ás costas, ladeira ácima, e que, resfolegando, num gesto triumphal, atira pesadamente sobre a mesa de jantar.

Durante o dia elle, mais a velha, radicam-se á sombra d՚um ingazeiro, cujas ramarias espalhadas protegem do sol, e pescam no remanso que em baixo faz o rio e que transformaram em ceveiro. E vendo-os alli juntinhos, as varas parallelas curvando-se ao peso das chumbadas, cotovello contra cotovello, a gente adivinha que os dois irão juntinhos para a cova, quando algum d՚elles assentar de zarpar para as trévas eternas, que talvez já estejam tão proximas como a primeira curva do rio.

O velho Prospero foi caçador apaixonado. Quando lhe peço que me conte trechos de sua vida vêm estes, as mais das vezes, misturados com episodios de caça; o primeiro parto de siá Marciana, ligava-se intimamente com a aventura de uma celebre Pirata, cadellinha onceira; quando lhes morreu o segundo filho, estava, havia tres dias, batendo matto bravo, atraz d՚uma bandeira de queixadas; e, ao voltar a casa, carregado de magnificos despojos, seus gritos de triumpho morreram-lhe na garganta, ante o cadaverzinho exposto numa mesa, entre quatro velas altas. Agora que lhe falta resistencia para varar brenhas e desentocar onças, canaliza o seu furor venatorio contra os peixes, contentando-se, quanto a caças de pello, em armar ás capivaras que lhe destroçam o arrozal.

Invejo-lhe a mania da pesca. Escolheu-a bem para passatempo da velhice, pois não depende de agudeza de vista, nem de musculos reforçados. Seus braços de canoeiro pratico, embora tremulos, ainda sabem o geito de "temperar" uma canoa, sem excessiva despesa muscular. Lastimavel é o escriptor que, ao se dobarem os annos da segunda metade da vida, nota em si incapacidade crescente para obter a tensão espiritual que engendra as obras primas; ao meticuloso sabio que esmiuça ao microscopio os elementos invisiveis das cellulas, deve ir-se-lhe, com o acume da visão, o gosto pela vida. Ai dos que, em sobrevindo o momento, não estiverem apparelhados para empunhar a philosophica vara de pescar do velho Prospero! E isso o torna feliz. Tiraram-lhe a fortuna — tomou do anzol; arrebatem-lhe o anzol, inda resta o rosario; de modo que, sua bondosa simplicidade, se lhe perdeu a abastança, grangeou-lhe a conformidade na desgraça. Rememora os antigos annos de fartura, compraz-se ás vezes em narral-os, como um viajante relata as maravilhas que viu no decurso da viagem. Essas recordações teem para elle o doce resaibo das boas cousas gozadas, sem que lhes sinta amargor por serem cousas idas.

Contou-me um dia que, no tempo de seu pae vivo, havia tantos escravos na fazenda, que davam de comer á molecada num cocho de que ainda no eirado restam vestigios. Despejavam alli dentro tachadas de cangiquinha e com uma buzina convocavam a miuçalha esparsa. De todas as senzalas, da casa, da horta, do pasto, negrinhos acudiam correndo, como uma horda de capetinhas nus. E as mãos avançavam soffregamente para a comida. "Ficava estivado de negrinho, tudo pellado", explicou Prospero em sua linguagem pittoresca, accentuando a frase com um gesto para indicar a fila ininterrupta de petizes, de uma e outra banda do cocho. Por morte dos paes herdara bons lotes de culturas; veio depois a legitima da "prima", o que ainda seu trabalho accresceu, nos annos felizes da mocidade. Por essa epocha povoavam-lhe a casa parentes e amigos. Até parecia hotel. Pessoas havia que lá passavam mezes, a ares ou para caçar. Um tal Leonardo, comido de syphilis, permaneceu na fazenda mais de anno, em tratamento. Ao restabelecer-se, Prospero emprestou-lhe dinheiro para comprar um sitio. O pobre do Leonardo! se não tinha recursos para tocar a vida! Com esse principio arranjou-a tão bem, que hoje é homem de largas posses. E՚ verdade que os esqueceu e que, quando os cruza, mal bole no chapéo; mas anda tão atarefado, sua camaradagem é tão grande, que na cabeça, cheia de preoccupações, não sobra espaço para cortezias futeis. Negou-lhes uma vez auxilio — não por ingratidão, e sim porque o muito serviço põe a gente assim azaranzado e de mau humor, e a elle, coitado, serviço não faltava. O pobrezinho do Leonardo! Como a velha se lembrava ainda d՚elle quasi cego, babando pus, com a bocca cheia de tumores que mal o deixavam alimentar-se, tanto que era preciso descerem-lhe leite á garganta por um canudinho de bambu՚! E agarrava-se a siá Marciana, chamando-lhe mamãe, e chorando, num retrocesso á infancia, quasi imbecilizado pela molestia.

Entre outras passagens tambem contou-me que estanceara na fazenda umas semanas certo medico portuguez, o dr. Philippe, homem muito divertido, e a cuja figura evocada os velhos sorriam um para o outro. Sem clinica, vivia a correr terras, de sapatões ferrados e roupa no fio... Nem recursos tinha para viajar a cavallo; ia de logar em logar com a malinha ás costas e bastão na mão, e por isso na cidade puzeram-lhe a alcunha de dr. De-a-pé. Que maldade, coitado! Porem appellido num homem infeliz e sensivel, que, ao falar na "terra", marejavam-se-lhe os olhos, de saudades da mãe e da irmã, que lá ficaram tão longe, sem amparo, da outra banda do mar.

Mas os velhos sorriam, lembrados de certo episodio malicioso. Querendo aprender a caçar, esse bom dr. Philippe mal sabia pegar numa espingarda. Deu alli seus primeiros tiros, e, a cada um, que assignalava um mallogro, escapava-lhe um má-raios de desapontamento. Prospero, porém, não desanimava com o alumno, e repisava como estribilho: "Ainda espero ver um dia o doutor matar uma capivara!" Afinal esse dia chegou. A matta virgem alastrava até tão perto da fazenda, que á tarde urús e inhambús vinham mariscar no terreiro, confraternizando com as gallinhas e marreços da creação domestica. As capivaras, então, eram uma praga. Uma tarde foi visto um casal d՚ellas á beira do açude, ao fundo da horta. "Pegue na espingarda, dr. Philippe, e venha!" disse o velho. Foram até o açude. A՚ sua chegada os grandes roedores mergulharam promptamente na agua negra. Certo momento appareceu um focinho à tona, bem perto do dr. Philippe. Elle atira á queima-bucha: "Má-raios!" Outro tiro — por um milagre acerta. A cachorrada encarrega-se de tirar d՚agua o animal ferido, e summariamente o acaba ás dentadas. O dr. ficou radiante da façanha. Então o velho Prospero propoz-lhe uma questãozinha magana: "Dr., o senhor, que é medico, entende muito de organismos vivos; por isso, diga-me se esta capivara é macha ou femea". "Oh! nada mais simples!" exclamou o dr., offendido pela insignificancia da consulta. E olha o bicho despreoccupado, depois examina-o attento, e concentra-se na analyse e submette-o a uma inspecção conscienciosa e scientifica... Por fim desiste, no auge da perplexidade. Então Prospero solta uma casquinada: "E՚ macha, dr.! Olhe o focinho... Capivara macha tem um callo no nariz". E os velhos riam-se, á evocação da desco- cha do dr. De-a-pé, por levar o formidavel quinau.

Chegada a uma recordação como esta, mistura de antigas grandezas com reminiscencias de velhas caçadas, a retentiva do velho transvia-se do fio direito da narração, e, esquecido do mais, deleita-se em memorar proezas de caçador. E é sobremaneira agradavel ouvil-as, principalmente em torno de um brazido, em noite frigida. Se o tempo é desabrido, e as chuvas fazem das estradas extensos lameiraes, reunem-se nesses serões mais pessoas na velha fazenda, viandantes colhidos pelo temporal e que, ao abrigo de suas telhas hospitaleiras esperam estiagem propicia para a continuação da jornada. E quando acerta serem caçadores esses viajantes encharcados, ainda augmenta o prazer da palestra, pois cada um desfia o mais interessante de suas recordações. Quanto a siá Marciana, essa limita-se a commentar as narrativas do "primo" com as suas impressões pessoaes de esposa extremosa: as angustias das longas esperas, o olhar pela janella verrumando o oceano das copadas que se derramavam em torno, ou sondando as ultimas curvas das estradas, a medir o tempo com as pulsações do coração... Como tardavam os caçadores! Prouvesse a Deus não houvesse acontecido uma desgraça! E quando Prospero voltava, que jubilo ao vel-o são e salvo, e ao apreciar, como entendedora, o porte da suçuarana que dizimara a matilha, ou o numero de queixadas abatidos no bando!

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.