Vida Ociosa (2ª edição)/17

A cavallo

 

Serviço até o pescoço. E՚ uma enchente de autos. Esta atmosphera de petições e arrazoados produz-me, como a pasmaceira habitual, effeito desalentador. As impertinencias dos advogados, longe de me espicaçar o brio, tiram-me até a coragem de levantar a penna empoeirada da mesinha de trabalho. E já entreouço á volta um zum-zum de descontentamento que me turba o farniente. Preciso fugir, cobrar um pouco de vitalidade para enfrentar com valentia os desgostosos. Na minha cabeça sôa como refrão incansavel uma phrase do velho Prospero: "Quinta-feira, sem falta! Quinta-feira..." E como é hoje uma quinta, allicio resolução para zarpar para o Corrego Fundo.

Fecho meu ninho de solteirão e saio. Nuvens algodoam-se esparsamente no céo. Como tem chovido, palmilho com esforço o chão barrento. Meus sapatões roceiros produzem borborygmos na lama peganhenta. Detenho-me rente a uma cerca, observando uma moita de taiobas folhudas, constelladas de perolas d՚agua. A intervallos uma gotticula corre sobre os folhões e perde-se como estrella cadente — um risco de prata e sumiu-se. Muitas vão engrossar outras perolas, que hesitam bamboantes, limpidas, na superficie glauca.

Desprendo-me dessa vista e continúo, meio arrependido, o meu caminho. Dia pessimo para uma excursão! o serviço largado, o lameiral extenso, chuva á tarde, provavelmente... Meus pensamentos levam-me para traz mas as pernas instinctivamente avançam.

Hoje não ha cigarras. Provavelmente tiritam, sob o abrigo de uma folha, não se sentindo de veia para a musica azoinante. Parafusam, por ventura, sobre o caso da formiga. Má cousa, a imprevisão! Agora que o sol não as embriaga, philosopham, fazem exame de consciencia e juram tomar rumo mais sensato. Entreluza, porêm, o primeiro raio de ouro, e as tontinhas, esquecidas dos protestos, serão todas para a luz e para o céo, numa generalizada orchestração sonora, affronta de arte á labuta utilitaria das formigas.

Succedem-se os conhecidos marcos de minha róta: a sempre-lustrosa, opada de roxo, alcatifando o chão de petalas cahidas; a porteira, frigida, sob a arqueadura das ramarias encontradas; a curva do rio, o campo entresemeado de cupins... Emfim, a fazenda. Tosando a relva da eira, um animal, já de arreios postos, espera alguem.

— Ô de casa!

Vêm os velhos, vem o Americo.

— Aqui está o homem! exclama Prospero. Já tomou café? Então não o convido para entrar. A cavallo!

— Que é isso?! — espantei-me.

— Pois hoje é quinta, não se lembra? Os peixes já estão pulando na cachoeira. O doutor sabe o rumo, é tocar. Nada de preguiças. Estou hoje disposto até a montal-o á força no animal.

Pedi, objectei, reagi — tudo baldado. Vi-me, sem appello, escanchado no quadrupede. Suppliquei ainda, quasi lacrimoso, mas uma palmada na anca da montaria cortou cerce as ultimas esperanças, despedindo-a em trote accelerado. Eis-me a jornadear. Miseravel de mim! Meu espirito, desdobrando-se, apiedava-se da miserrima victima que a cavalgadura sacolejava num trote duro. De longe gritou-me Prospero que fizesse isto ou aquillo para amaciar a andadura. Não entendi bem, nem me esforcei por entendel-o, devido á minha preguiça de assimilar acquisições novas — do que depois me arrependi. Convenci-me nesse dia de que é sempre bom saber. Primeiro, cahi num estado de resignação accommodaticio. Meu eu que soffria, vendo o outro eu doer-se evangelicamente de sua sorte, assumiu attitude de martyr, para que o outro lacrimejasse mais condolencias. Dizia o primeiro:

— Vês como me componho? O trote vascoleja-me tão duramente, que nas minhas entranhas é um confuso misturar e abalroar de visceras. O estomago embica com o figado, o coração se atraca com as pacuéras e nos convolvulos das tripas é um emmaranhado labyrinthico. Sou um infeliz! E não me queixo. Sei conformar-me.

Ao que o outro respondia:

— Pobre amigo! Sua paciencia raia pelo grandioso. Está ahi um caso desses heroismos obscuros, mas nem por isso menos meritorios, que a fama não celebra. Continue a soffrer paciente, bom amigo!

Algum tempo depois as consolações do outro pareceram-me semsaboronas, e meu estoicismo improficuo. Então refundi os dois personagens e busquei lembrar os conselhos do velho, gritados á partida. Mas nada me acudia. Eu tivera preguiça de escutar. E esses conhecimentos agora me seriam uteis, para conseguir a reversibilidade do trote em cadencia mais acceitavel. Pelos modos, os bichos dessa especie sabem varias maneiras de andar, escolhiveis à la carte. Faltava-me somente um meio de correspondencia. Era o diabo! Procurei, então, recurso, na caixa das idéas. Era homem de luzes, tinha obrigação de saber. Revolvi o mofo dos velhos preparatorios, evoquei o capitulo dos pachydermes, pedi auxilio á historia dos cavallos celebres: nada que me valesse naquella conjunctura! Nem o velho cabedal de humanidades cavallares, nem Incitatus, Rocinante ou o cavallo branco de Bonaparte me deram um rastilho de clarividencia. Por fim a Logica refulgiu, com soberana luz, lembrando-me que ha inducções, deducções, experiencias e contra-experiencias para arrancar as verdades do seu poço escuro. Era isso! O methodo experimental! Atinaria assim com a receita do velho.

Submetti a azêmola a uma porção de manejos. Dei redea, puxei redea, soffreei de arranco e com amabilidade, toquei-lhe as orelhas, escoicinhei-lhe os ilhaes com os tacões das botinas. Nada! Minhas visceras, aos gritos, pediam urgencia. Redobrei os recursos, combinando-os, alternando-os, e mais alem iria, se o animal subito não assentasse de reagir, procurando cuspir-me da sella e ameaçando andar de dois. Convenci-me esse dia de que as experiencias in anima vili teem seus senões. Apressei-me a amacial-o:

— Que é lá isso? Acalme-se, que o caso não é para tanto. Entremos num accordo, creatura! Sou homem pacato e razoavel — acceitarei condições.

Fez-se o accordo tacito. A montada voltou a andar de quatro, com a clausula de me pôr eu o mais quieto possivel. Em compensação, buscou variar o mais possivel o cardapio. A՚s vezes abria um galope macio, dando-me ao corpo agradavel galeio; outras, servia-me o trote de má morte, lardeado de um horrivel picadinho sacudido; por fim cahiu num passo preguiçoso, melancholico, que parecia sentenciar:

— A vida é triste. Para que pressas, se ao cabo de tudo é sempre a morte? Uns trepam, outros são trepados, qual corre, qual anda mas no fim a dentuça da megéra abocanha a todos.

Aquella andadura dizia-me coisas. Eu edificava-me, traduzindo seu compasso significativo. Quando me senti saturado de philosophia cavallina, lancei vistas aos arredores. Campo, campo, campo... Monotonia exacerbante. A՚ margem da estrada, o mesmo hervecer tolhiço de joá-póca rajado, de gerbão de pendão negro e florinhas roxas, barbascos felpudos, manojos de carqueja. Cupins bojavam a flux, como a furunculose da terra. Nos espigões, a eterna crista de arbustos, debruando vallos occultos. Era secante e vulgar. Como os grandes artistas, nem sempre a paisagem tem genio.

E assim corria a viagem. Quanto custa ás vezes viver a compridez do dia, cuja lentidão ainda frisa mais, pautada por uma andadura lerda de rocim!

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.