Vida Ociosa (2ª edição)/16

Fumegações

 

A palestra arrefecera em torno das brasas extinctas. Cada qual se isolava em suas reflexões. Siá Marciana ciciava padre-nossos numerosos; a obrigação era grande, por isso começava cedo. Em certo momento, explicou-me:

— Antigamente, dr. Felix, eu rezava um padre-nosso por cada defunto estimado; mas hoje são tantos, que dedico um a cada cinco mortos e dura horas o cumprimento da tarefa. Rezo até por gente que não conheci. Ha tempos leu o velho num jornal que morreu afogado, não sei onde, um pescador; e de vinte annos para cá não me esqueci delle uma só noite, embora ignorando-lhe o nome. Chamo-lhe "o pescador do jornal".

— Mas, siá Marciana — objectei — são tantos os pescadores afogados, cujo perecimento os jornaes registam, que, ao cahir sua prece na eternidade, pode haver disputa grossa entre as victimas; talvez botem demanda uns aos outros, para destrinçar a propriedade do suffragio.

— Se houver duvida, sorriu a velha, repartirão a intenção por igual. Assim todos se salvem! Sympathizei sempre com pescadores, dr. Felix. Quem lida em cima d՚agua em regra é gente boa e pacifica. Por isso escolheu Jesus entre elles seus apostolos mais amados.

— E՚ que, occupados em fazer mal aos peixes, não se lembram de o fazer ao proximo — sentenciou o velho.

Calamo-nos. Cada um passou a revolver seu proprio circulo de reflexões. Era esse cogitar mechanico das horas cansadas, quando as idéas se soltam como presos desalgemados, e se juntam e dissociam sem espirito de systema, aggregando-se vadiamente em simulácros de raciocinios, flúidos, inconsistentes... São as travessuras das pobres encarceradas, em momentos de folga. E՚ tambem o desaggregar do somno que começa. Nos olhos sêmi-cerrados a retina semelhantemente se emancipa, desfilando sem methodo as impressões do dia: agua a cahir, uma arvore, um xuxú, andorinhas tontas a luctar com o vento...

— Traz a sanfona e toca, Americo — diz Prospero.

O instrumento, que o sanfonista pousa sobre os joelhos, absorve o ar num prolongado accorde. A՚quella hora, soltas as idéas, a musica penetra-nos como um balsamo. Seu rythmo, assim doce e rustico, é a unica linguagem compativel com o nosso estado de espirito. Soam velhas melopéas de mutirões, gemidos de escravos melancholizados em cantigas, toadas de extinctos serões que a sanfona já sabe de cór, antiga como o são ellas e que saem automaticamente dos dedos habituados do Americo. Seu timbre anachronico resurge cousas remotas, esfumadas no passado. Cerrados os olhos, os velhos se impregnam desse odor ancestral, como se aspira o rescender a alfazema de alfaias antiquissimas. De quantos annos a sanfona do Americo espairece os serões da fazenda, com a sua voz fanhosa! Cada musica prende a uma epocha, ou recorda um morto amado; antigas seroadas alegres, tempos de angustia, tudo revive, gravado nos accordes dolentes, refazendo a historia de dias idos.

Eu achava encanto em vel-os, os tres, tão absorvidos, inhalando aquella revivescencia do passado. Tambem a musica influia sobre mim, mas o meu sonho era o sonho delles; buscava sentir o reflexo de suas cogitações, enxertar-me em seus pensamentos, como quinhoeiro delles. Não é que após mim não ficassem vinte e tantos annos de acervo proprio de recordações; mas só o passado dos outros parece-me interessante. E՚ o meu uma série de fragmentos desconnexos, um perpassar de silhuetas vagas, e tem o vinco preponderante das sensações desagradaveis; um mau romance truncado, sem interêsse, de que de bom grado me alijaria, se pudesse delil-o dos refolhos d՚alma, onde, por mal de peccados, se tatuou inapagavelmente. Esmaga-me a predominancia dos maus momentos soffridos; meu passado figura-se-me um rol de miserias cujo cruciar, quando o evoco, lateja sempre actual. Não sei que malevolo iman me constitue o nucleo da alma, que só attrae, limalha imprestavel, impressões sabendo a fel e pranto.

E, ao lado dessa, outras penurias. Sei de pessoas que, de uma excursão pequena, fazem uma narrativa longa, vendo em infimos nadas peripecias attrahentes. Creio que, o que nos torna a vida interessante, é sorvel-a com o appetite avido de todas as curiosidades, o qual, em torno de incidentes minimos, multiplica sugadores de polvo, bem como na mesa collabora o appetite no sabor das iguarias. Tenho viajado muito; mas em tanto correr terras não colhi uma anecdota, uma observação rara, como se desprende num canteiro o pedicel de uma flor. Tudo encinzeira-me tedio na alma e escancel-la-me a bocca em bocejos. Sou, talvez, um abortado da alma, inviavel para a vida normal. E՚ por isso que sinceramente invejo os que sabem ou podem viver. Oh, as simples creaturas, cujas almas se entreabrem como corollas para acolher o orvalho dos effluvios do passado! Que livro interessante não folheiam, ao rythmo da sanfona roufenha que ha tantos annos lhes acalenta os serões!

E a noite prolonga-se nessa beatitude sem fim — meus amigos todo recordações; eu, vampiro de nova especie, avoejando pela sua scisma.

Encorujado na placa, o papagaio dorme, com o bico aninhado nas pennas das costas.

 

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1930 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.