Vida Ociosa (2ª edição)/15
Pirata
Fechou-se a noite. Das margens empantanadas do rio sobe confusa vozearia de batrachios. Ha o tan-tan dos tanoeiros, encambulhado com silvos, grulhos, coaxos, ladridos de matilha solta respondendo-se de ponta a ponta dos atascadeiros, regougos graves, espaçados — vozes de experiencia e ponderação — guinchos, grunhidos, timbres innominaveis, bufidos extranhos, onomatopéas barbaras de todas as vozes animadas. E se se busca divisar, nos almargeaes alagados, as manadas sem numero de bestas apocalypticas, que em tal soada povoam os echos da noite, apenas se entrevê, fuscamente allumiado ao pallor do luar nevoento, o nivel palustre deserto e immoto, adormecido na calma da noite. Longe em longe vem da matta virgem um ulular soturno, voz de mysterio que coa nos nervos um arrepio de pavor. E՚ a vida nocturna que começa. Insulada a fazenda em terras despovoadas onde abateu a sombra, só, no desabrigo e no abandono, traz doce sensação de segurança e conforto o ver-se a gente nesse conchego amigo a taes horas avançadas. O velado da entoação das lentas phrases trocadas, o bruxoleio da lamparina empennachada de bulcões de fumo negro, o ambiente de "lar", mergulharam-me num sopôr agradavel, propicio ás dispersões frouxas do espirito.
Mais uma vez o ulular remoto encheu a calma da noite com seu lugubre echoar.
— Que significa esse uivo, sr. Prospero? perguntei.
Fazendo um gesto vago, o velho respondeu:
— Não sei. A matta é mysteriosa. Pode ser um pio de ave nocturna ou o urrar de uma féra. Ha certos sons indecifraveis, mesmo para os que estão familiarizados com a vida nas brenhas. D՚ahi as superstições, a crença no sobrenatural, tão commum entre os rusticos...
Rodeavamos, na varanda, uma bacia com brasas, uns no estrado, outros nas cadeiras. Olhavamos todos fixamente o lume, como hypnotizados.
— Mais uma historia de caça, sr. Prospero — disse eu, por fim, quebrando o silencio que se havia estabelecido.
O velho sorriu, já esperando o pedido; e reconcentrou-se, cabisbaixo, como quem puxa recordações e escolhe. A sua testa avincou-se, nessa introversão cogitativa. Via-se que seu espirito adejava longe. Levantou por fim a cabeça, e disse:
— Vou contar-lhe a historia da Pirata, a cadellinha onceira que tão tragicamente acabou. Uma figurinha de nada, pertencente ao Felicio, nosso primo segundo. Tinha elle posses a um quarto de legua d՚aqui, onde ainda se vêem, afundidos em ortigas, os restos dos alicerces da fazenda do Fundão.
Nesse tempo era a cidade meia duzia de ranchos esparsos. A matta inviolada alastrava por outeiros e gargantas, afogando as terras onde agora ondeia, na sazão das flores, o roxo furta-côr das invernadas. Onde se vê o rio escampo, aguas fluentes abertas ao céo que se remira nellas, era um trançado de retorsos troncos e galhadas em abobada, tapando o azul. Na meia luz diffusa do bojo da matta, a corrente sombria colleava em meandros as aguas rebalsadas, que apenas esboçavam em seu espelho torvo os zig-zagueantes elances das cordoalhas de cipós monstruosos, que se atiram em fugas loucas de rama em rama, espirrando de si esguichos de folhas tenras, e embalaçando-se em sanefas emmaranhadas sobre o veio dormente. Havia alli echos claustraes, extranhas sonoridades de nave deserta, que se fizeram hoje no flébil marulho das aguas murmurillantes ao sol. A caça abundava. Onças vinham urrar á noite ás portas dos curraes. Certa vez appareceu morta no Fundão uma novilha, victima de uma pintada. Felicio, exhaustinado de raiva, reuniu caçadores e camaradas para encalçar a féra. Os cachorreiros ajoujaram uma duzia de cães escolhidos d՚entre o melhor em varias fazendas. Promptos para a batida, Felicio guiou a matilha ao sitio onde se achava o corpo da novilha; e ahi disse á Pirata, apontando a "carniça":
— Mataram minha novilha, Pirata! Descubra quem fez isso, Pirata!
A cadellinha fareja os restos, toma os ventos á roda, ensaia, affirma, e despede no cheiro da onça. Livre da trélla, a canzoada emenda após ella, em festiva alarida. Mal os seguem os caçadores. A féra está farta, pesada do cêvo, venceu de certo pouca distancia. Mesmo assim, adentram-se muito na floresta, é um andar sem tregoas o dia todo. A tardinha a cachorrada assanha-se ao longe. Os caçadores precipitam-se, "estumando-a" aos brados. Ganindo alto alguns cães retornam, fundamente alanhados das presas felinas. A՚ sua chegada, a onça, que ainda não trepou, embrenha-se para mais alem, salvando pirambeiras e barrocaes impérvios. Como cae a noite, é tarde para rodearem caminho até ella. Chamam a Pirata e reunem o resto da matilha. Houve dois cães de menos, que acham nas vizinhanças, ventres abertos alto a baixo, entornando os intestinos molles pela fenda. Mau começo... Os camaradas armam rancho, onde todos pernoitam. Não vinham preparados para tanta demora; mas o espirito de aventura tinha-se-lhes atiçoado de tal sorte, que, na ebriez da perseguição, pouco se lhes dava dos cuidados afflictos dos que esperavam. Fervia-lhes o sangue tumultuoso, e á noite foi o somno cortado de alertas somnambulicos. No outro dia a Pirata reacha o faro, e partem na abalada da caça. Vencem mais leguas penosas na matta sem termo. Já traz por fim cansativa obsessão o varar de cabeça baixa espinheiros obstructos, o metter-se de hombros em cerradas redouças que travam a passagem e o desfilar repisado dos grossos troncos acabellados de musgo e orchideas ridentes, que em cachos pensos se premem a cada dispartimento de ramos. Topam a onça, não acuada, ao fim do dia. Escapa-lhes ainda. Quatro cachorros de menos. Rancho, pernoite. No terceiro dia foi liquidado o resto da matilha, menos a cadellinha. Os melhores cães eram feitos em tassalhos sanguejantes, alguns ainda trementes, num persistir de vitalidade soffredora, que movia dó. Acabavam-n՚os os proprios donos, que mal reconheciam naquellas fórmas espostejadas os seus onceiros favoritos. E o odio entumecia-lhes o coração, encruecido ao ponto que, obstinados na batida, esqueciam familia e tudo. Tinham por pouco os soffrimentos que aturavam, de cansaço, contusões e fome. Porque um bocado para a bocca já montava a problema. E com a roupa em frangalhos, os pés tumentes rompendo o calçado, aprofundavam mais a selva, num entranhar-se desvariado e sem fim. Da matilha, apenas, lépida e sagaz, sobrevivia a cadellinha. Sob as presas da onça era uma esquiva gotta de azougue, a sumir-se num prompto, e a tornar, buliçosa, incansavel, ubiqua, torturando o colosso como o moscardo da fabula. Não havia bote que a colhesse. — Sim... colheu-a afinal a féra. Os caçadores ainda a encontraram arfando, e a revirar para o dono uns olhos lastimosos, que pareciam dizer-lhe: "Vê? Fiz tudo o que pude. Não me culpe!" Já empedernidos pelo exaspero da perseguição baldada, os caçadores olharam-na indifferentes. Felicio teve-lhe raiva de ser tão fragil, tão nervos, tão rudimento de cousa, que uma unhada canhestra bastava para levar-lhe o sôpro da vida. A noite amarrou-os alli. Nem conversavam, trancados em taciturnidade rancorosa, sentindo o queimôr interno da impotencia em revolta. Um suggeriu: "Ha mais de tres dias a onça não come... Virá procurar a cadella..." Era uma idéa. Engatilharam duas espingardas sobre o cêvo que se confrangia na ultima contractura de musculos, presos a elle os pinguélos por atilhos de embira, e desandaram a arranchar longe. A insomnia teve-os muitas horas febricitantes, o ouvido á escuta, naquelle lance supremo. Alta noite, detonação. Como foi tardio o alvorecer da manhã! Então, correm á armadilha. Lá estavam as espingardas, gatilhos cahidos, sobre a isca intacta. Mas ha um rastro de sangue — a bicha tomara chumbo! Seguem os vestigios. Andam, pesquisam... e subito sae-lhes de cara, dum engrazado de taquary, uma desconforme pintada. Ha um grito de surpresa. O desenlace! Alçada sobre os pés trazeiros, as presas scintillando, a féra emitte um rugido e investe contra Prospero. Prospero mette-lhe pela guela o cano da espingarda. "Atirem!" grita. No mesmo instante uma descarga trôa, chamuscando o zagaieiro improvisado, e a bicha, ainda alçando-se mais, num esgar de morte bambeia e tomba pesadamente de costas. Afinal, encerrava-se aquelle capitulo palpitante. Os homens, tornados em féras durante a perseguição, restituem-se a sêres de pensar e sentimento. No coração desafogado canta-lhes o jubilo da victoria. Riem, rouquejam hurras, bebedos de alegria. E commovem-se então com a sorte da cadellinha, causa indirecta do successo. Querem mostrar ao cadaver a pelle da onça, pesada tunica felpuda. Voltam ao logar da armadilha e defronte o corpo sacodem o trophéo sangrento. E Felicio, chorando, toma a cadellinha nos braços, exclamando: "Pirata! minha Pirata! mesmo morta soubeste ser boa!"
— Nesse momento todos soluçamos, concluiu Prospero; abalados como estavamos de cansaço e emoções, não era difficil passar rapidamente do riso ás lagrimas. E estas justificavam-se. Só uma alma de caçador e numa conjunctura como aquella, pode entender uma affeição assim absurda por um irracional. E alli mesmo, á roda do cadaver, juramos não caçar mais onças em dias de nossa vida. Verdade é que nem todos cumpriram o juramento... Creio mesmo que nenhum de nós, á excepção do dono da Pirata. Dalli, andando sem parar, e tomando atalhos, levamos dia e meio para tornar a casa. Só á volta nos inquietamos com cuidados da familia. E eu com a "prima"... gorda, á espera qualquer hora... Por isso foi-me uma agonia o regresso. E, chegando á fazenda, encontro nascido o Americo.
O velho calou-se. Era, creio, a decima vez que me repetia essa historia. E, pela decima vez, todos mostravam os olhos marejados, commovidos da sorte da cadellinha, que vivia em suas recordações como creatura amada. Siá Marciana, como de costume, juntou então á narrativa a sua nota pessoal. Que interminavel angustia a dos cinco dias de espera! A demora alarmava a todos. As mulheres descabellavam-se, em desespero. Turmas de camaradas batiam as mattas derredor, tocando buzina e dando salvas. Afinal a chegada, os caçadores esfarrapados, estrompados e sêmi-mortos de fome...
A recordação ainda fumegou, em volta do brasido, numa ou noutra phrase solta, ao passo que as mãos instinctivamente se rentavam sobre as brasas veladas.
Fóra, uma harmoniosa serenidade baixara sobre a noite. Calara-se na matta o ulular mysterioso, voz lugubre de um sêr extranho, que turbava, com uma ameaça de drama, a quietude universal. A matinada das rans se ensurdecia, como se as ganhasse o torpor da noite. Em torno, o descampado, o deserto. Só, ilhados no ermo, como era doce o conforto daquelle abrigo, daquella rodinha de almas, banhados pelos dubios clarões da lamparina! Dava uma calidez de ninho ao corpo e á alma. Tambem a matta silenciosa, com a somnolencia de suas grandes frondes immoveis, parecia um carinhoso conchego de ramas sombrias. Alli embaixo, era só a paz, a calentura das tocas acolhedoras, a placidez dos ninhos, a segurança da vida. A natureza dormia e sonhava florações feéricas, fructescencias opímas; e o sonho dos brutos, adormecidos na paz, fluctuava brandamente sob as copas, como uma exhalação de bruma...
Subito, sobresaltei. Longe, de uma quebrada ignota, subiu um guincho agudo, torturado, espiralando para o infinito uma immensa angustia de victima que implora o céo, um ganir que se vocalizava em agudo crescente de agonia inenarravel, e que instantaneamente calou, apenas revivendo na machinal repetição dos echos perdidos...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
