Vida Ociosa (2ª edição)/10
Tedio
Vagabundeei sem rumo pela casa, buscando algo em que me interessasse. Pesado e bamboleante fui ao negocio. Fóra o sol reverberava, dando offuscantes fulgurações de ouro á estrada poeirenta, onde rangia a intoleravel serrazina do guincho de um carro de bois. Fartamente assoalhados pelo chispante estendal de luz, os campos tambem modorravam somnolentos.
Nada ha tão vulgar como as horas dum dia de sol. O veneravel astro-rei, tenha paciencia, bem podia variar os seus processos de illuminação. São assaz estupidas essas reincidentes ondadas de ouro e mormaço, cegantes para e vista e atorporantes para o organismo. Não pensavam assim os altivolantes corvos, cujos remigios serenos se banhavam voluptuosamente no ar das alturas, refazendo, incansaveis, curvas enormes. Divisados de longe eram pequenos traços horizontaes, rudimentos de monoplanos, as asas ligeiramente arrebitadas na ponta. Arranquei-me á sua vista obsidente e relanceei o commodo. Nas prateleiras, meia duzia de mólhos de rapaduras, muitos feixinhos de canetas invendiveis, um litro de oleo de capivara, meia duzia de peixes fritos num prato esbeiçado e o garrafão de pinga. Um enxame de abelhas zumbia e rezumbia em torno das rapaduras, cujo cheiro enjoativo impregnava o ar. Em attitude correcta, o José copiava, em bella vertical, uma historieta do livro de leitura. Perto, Americo sorria enfiado, julgando-se sem perdão aos meus olhos pela sua grande ousadia de querer leccionar.
— Tambem ensina estas cousas? — perguntei-lhe, mostrando o caderno. — Suppuz que apenas transmittisse sciencia pura.
— O sr. sabe — desculpou-se elle — é preciso começar por essas ninharias. Não faz dois mezes que sahiu do abecedario...
— Aprendeu com você? — perguntei-lhe, admirado.
Fiz o negrinho ler, dictei algumas palavras, passei-lhe uma conta — era surprehendente como acertava. Maravilhado encarei no Americo. Estava alli um bom córte de professor primario. Revolvi no pensamento certa resolução secreta.
— E gosta do ensino? inquiri.
— Oh, sr. doutor! Se não fosse muita presumpção eu arranjaria uma escola para leccionar de graça os moleques destes lados; mas, afinal, como diz o caipira, cada um deve pendurar o chapéo onde a mão alcança — ou — quem tem perna curta não dá passo largo. Isso só para homens como V. Ex.ª
Sorri como "V. Ex.ª", e internei-me de novo para a varanda. Sentia¸ urgente necessidade de espichar-me em meu logar de repouso preferido. No meio d՚aquella pasmaceira sossobrante, a caixa antolhava-se-me como logar de eleição. Estendi-me com gozo na larga tampa, e, dobrando o cotovello, fiz do punho travesseiro.
— Já deu o ataque de preguiça, dr. Felix? casquinou da antesala siá Marciana, que auxiliava o velho.
— Já... Quantas redes promptas?
— Uma só, por emquanto...
Meu Deus, como era demorado! Aquella paciente tarefa ennervava-me, como se estivesse eu proprio a trabalhar. Penosissimo fardo é a ociosidade, algumas vezes!
No meu pouso não pude ainda cahir em beatitude. O tedio é um estado fecundo ás más suggestões. No meu cerebro o sr. Prospero trançava barbantes sem cessar e regyravam preguiçosas rondas de corvos. Cerrando os olhos eu via estrias e manchas verdes e escarlates, doloroso decalque impresso na retina pela offuscante visão das estradas e dos campos ensolados. Queria dispersar-me, devanear; puxei pontas de romances heroicos, cujo principal personagem era eu; mas o enredo apagava-se como um rio sem foz que se evapora no deserto e a dispersão concentrava-se no importuno vinco d՚aquellas impressões visuaes.
Uma cousa pulou na arca. Era a gata predilecta de siá Marciana, muito dada, esfregadeira, ronronante. Coçou as pulgas no meu pé, continuou a fricção perna acima, deixando na casemira um rastro de pêlos cahidiços. Achei adoravel aquella sencerimonia e, ajuntando paciencia, resolvi commigo:
— "Vamos ver até onde chega o atrevimento". Fez-me massagem abdominal, coçou-se no meu cotovello, encostou a bigodeira pruinte no meu rosto, rouquejando surdas catarrheiras; fez menção de beijar-me, foçou-me no ouvido...
— "Vamos ver até onde vae!" trocadilhei, fulo de raiva. Foi a dez passos de distancia, pois sem chamar mais paciencia, appliquei-lhe um tabefe centrifugo: Siá Marciana não estava alli... Perto della é que eu tinha hypocrisias. Amimava o felino, tomava-o nas mãos, achava-o bonito e tudo o mais que agradasse á dona.
Escafedeu-se a gata aos pinchos e bufos pela janella do terreiro. Fez-me falta, porque então senti-me vazio. O vacuo pesava-me como chumbo.
— Quantas redes? perguntei.
— Quasi duas.
E eram dez, ao todo! Busquei alhear a attenção pensando em cousas da cidade. Evoquei a minha vida de homem civilizado...
O diabinho zombeteiro do tedio fez-me lembrar uma inquirição marcada para aquelle dia. Testemunhas de longe, crime sensacional, com advogados, accusador particular... Pulei da caixa. E eu que me havia esquecido! Maldicto azar!
Dias e dias que passo ás moscas em meu gabinete, sem uma petição, um auto a despachar, sem um depoimento, apenas a encabulação da visita do meirinho bexigoso, reverente e correcto, a perguntar-me inutilmente: "Sr. dr., tem alguma cousa para os cartorios?" — tão correcto que, ao chegarem as onze, já começo a enfezar: "Faltam cinco minutos... quatro, tres, dois...” e exaspero-me, apprehensivo, certo de que d՚ahi a um minuto bate delicadamente á porta e na curvatura respeitosa do costume me estribilha o quotidiano: "Sr. dr., tem alguma cousa..." — e espero que falte aquelle dia ao menos, que quebre aquelle habito de pontualidade acerbante, novo supplicio de Dâmocles — e passa o minuto, e ahi vêm as pancadas e a pergunta e a minha resposta impaciente: "Nada, nada, homem de Deus!" tantos dias assim vazios e, logo naquelle, destinado a uma excursão de visita aos velhos, a tal encravação do summario a berrar-me de longe a suggestão de um intoleravel remorso !
Numa crispação raivosa procurei perto a gata, para um segundo revez de desabafo. Nada! Havia-se de certo eclipsado para o fundo da horta, suicidara-se no rio ou fugira para o fim do mundo, a evitar segunda aventura. Senti-lhe a falta. Serzinho inestimavel, um bichano!
— Ora, que se arranjassem! Darme-iam como presente á inquirição, ou a deixariam para o dia immediato.
Estendi-me de novo na caixa. Mas já não tinha socego. O aborrecimento moral communicara-se ao physico: revolvia-me, remexia-me, voltava-me "como a porta em sua couceira".
Só via autos, num rór de papelada com estampilhas e um desfile interminavel de figuras de partes: este, rabula terrivel, que achava em artigos tudo que eu fazia “radicalmente nullo", por isso, por aquillo; uma rubrica mal gatafunhada, uns minutos de atrazo na audiencia, o porteiro que apregoou só uma vez o requerido, e já se enfileiravam os: Provará... E era tudo catado, depurado, num espiolhar implacavel; outro, figura manhosa e insinuante, a querer em palestras auferir conselhos ou previsões sobre o exito de tal feito; um terceiro, berrador e impulsivo, possesso com um indeferido, á clamar que o juiz é prevaricador e comprado -- uma procissão irritante de figuras irmanmente hostis, da surda hostilidade instinctiva de classe, que separa os postulantes e os julgadores, e os põe, a uns e outros, numa eterna e irritante defensiva. Via-os a todos gananciosos e rapaces, com as unhas que esfolam o constituinte promptas para agadanharem o juiz. Enxotava-os da mente e elles tornavam processionalmente, com as suas astucias e exigencias, protestando e recorrendo...
Por fim foi-se esfumando a turba vociferante, deixando apenas enfocados uns gordos autos de embargos por julgar, que estavam havia sessenta dias sobre minha mesa de trabalho.
Incoerciveis, os remorsos continuavam a pungir-me, com pontas aceradas.
Oh, esses maldictos autos! Ter que meditar duzentas folhas ensebadas e arrear a livraria, procurar o caso nos praxistas, quando os praxistas prevêem todos os casos, menos o que nos interessa! Ante a enormidade da tarefa os embargos lá ficavam dormindo sobre a mesa o somno dos prazos interminaveis...
Afogado sob tanta culpa, tive uma reacção de desespero. Não! eu não era um mau juiz. Em mim sentia a massa dos julgamentos imparciaes. Mas, diabo! a justiça, como nós a comprehendemos, esse tonto catar de artigos e retalhos de accordãos, era excessivamente implexa. Em mim não faltava boa vontade para o trabalho nem amor acendrado ao monumento das leis; respeitava-as, admirando-lhes o alto espirito philantropico. Respeitava os bons juizes e as sábias sentenças. O diario official, por exemplo, transcrevia sempre os julgados de um dos mais sabedores de nossos Papinianos, onde cada paragrapho tinha farta cauda de citações ponderosas. Eram sentenças de peso e tutano, via-se bem. E com respeito immenso eu as cortava e colleccionava. Pode-se ser mais respeitoso? Não as lia, é verdade, mas, com mil raios! se não me faltava boa vontade para o trabalho, sobejava-me pouca para o começar e assim ficavam em perpetua esterilidade as minhas boas intenções. Que pena não estarmos na terra dos vizires autônomos e Salomões summarissimos, que numa phrase deslindam uma pendencia, sem inutil esbanjar de tinta e de praxistas!
A culpa não era minha, portanto. E, com esta convicção crescente, os gordos autos de embargos foram-se tambem reduzindo e esfumando a distancia.
— Tome um travesseiro, dr. Felix.
Agradeci a siá Marciana, que vinha de rematar com o velho a segunda rede e ageitei-o sob a cabeça. Boa e perspicaz velhinha! era de certo o que me faltava para calar a galhofa dos diabinhos do tedio. A cabeça azoinada achou-se bem naquelle aconchego de paina macia e a alma dilatou-se satisfeita, predisposta a cahir na beatitude de um longo cochilo.
Tudo começou a tornar-se em calma e incomparavel mansuetude. Os escrupulos das obrigações atamancadas e esquecidas, a hostilidade das figuras que á desfilada me traziam pungitivo anseio, o vinco luminoso do meio-dia ensoado, as repisadas orbitas dos corvos lentos, foram-se vaporando e dissipando no doce diluimento com que se esmaecia e se apagava no azul a nuvemzinha branca que nesse momento meus olhos contemplavam; até o concerto infindavel das redes, em vez de nervosismo, trazia-me a tranquilla certeza dum dia doce e sem fim. Parava o tempo, o mundo immobilisava-se na ultima postura das mãos e no derradeiro soído de voz, como no castello da princeza adormecida, suspendia-se a vida numa ultima emoção, o rythmo do coração numa diástole final, tudo passava ao estado de irrealidade e de sonho...
Benigna sésta beatificadora! Não era bem dormir mas apenas entreviver, fazer na alma um grande vacuo, dar-lhe uma varredura nas idéas e preoccupações, fazel-a uma cousa inerte e vegetativa que se abre ao sol e á vida com a passividade de uma fronde largamente espalmada na altura.
E, assim vazia, penetrava-a com suavidade o ambiente daquella quadra, o odor dos mangericões que viçavam á janella, sob as fuchsias que a emmolduravam. Entrava-me uma sensação de paz, de lar e bucolismo. Era como um retrocesso á infancia: sentia-me recuado vinte annos, tornava-me creança. E áquella hora nada me seria mais doce que uma cantiga materna á cabeceira:
"Dorme, dorme, meu filhinho,
Que o Tutú vem te pegar..."
Não ter a gente a vida toda quem assim nos embale, dando-nos a caricia de macia mão que nos alisasse os cabellos, a dizer-nos historias de fadas e principes encantados e a chamar-nos filho, uma asa immorredoura sob a qual nos pudessemos fazer pequeninos, encolhidos, escondidinhos...
Mal organisada, esta complicação dolorosa da vida!
Mas naquelle momento parecia-me quasi perfeita.
"Viver é bom!" murmurava somnolenta minh՚alma, dissolvendo-se.
Longe, na estrada, rangia ainda o carro, interminavelmente; e era como se o meio-dia se houvesse feito som e por essa voz atorporada e longa dissesse o desmaio voluptuoso dos grandes campos adormecidos ao sol...
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
