Vida Ociosa (2ª edição)/1
A estrada
Atravesso um longo trecho do povoado, que ainda dorme na penumbra. A orla do horizonte empallidece. Cantos roucos de gallos erguem-se de todos os quintaes. Arvoredos somnolentos debruçam-se sobre velhas cercas, sombrios e relentados, com um fulgor de diamante negro em cada folha. A aragem corta e ligeira nevoa adensa-se nas extremidades da rua. Sorvendo até o imo dos pulmões o ar humido e frio, sinto meu sangue reagir alvoroçadamente, dando-me uma doce impressão de bem estar.
A estrada. Um resto da melancolia da noite ainda se exprime no cricrilar transnoitado dos ultimos grillos; em compensação, o hesitante rangido com que as primeiras cigarras ensaiam a musica do dia, o crescendo de pios e gorgeios na grande matta do outro lado do rio, annunciam o dia que alvorece.
Essa hora exerce sobre mim effeitos contradictorios. A՚s vezes acabrunha-me, intumesce-me o coração com velhas recordações imprecisas; ha em minha alma o renascer de sensações antigas, e que de longinquas jaziam em lethargo, como mortas. Para despertal-as basta um quasi nada; um reflexo alvacento num alagadiço, um vôo ondulante de passaro, o sussurro da viração nas folhagens... De que me lembro? A que scenas deslembradas de minha vida se prendem essas fugidias sensações? Sabe-o apenas o subconsciente. Nesses instantes a alma tumultua-me; dentro de mim alguem debruça-se á janella do passado e alonga olhos nostalgicos para o que quer que seja que não distingo. Sim! Diviso ás vezes, nuns como toques imprecisos de paisagem entre nevoas, minha mãe que com o lenço me acena, certa madrugada de despedida; um perfil de companheiro de infancia, uma fita de fumaça immota no ar parado, desnovellando-se sem pressa, que o comboio ao longe continua a estirar, até o cabo de certa interminavel varzea, minha conhecida da infancia. Saudades, emfim, de pessoas e cousas velhas, ou de pessoas apenas, que as cousas dos antigos tempos como que se personificam e vivem, fitando-nos, como almas chorosas, do fundo de nosso passado.
Outras vezes causa-me um recrescer de vitalidade. Sinto-me germinar. Minh՚alma desabrocha em aspirações, e julgo-me forte para realizal-as. Parece que todos os triumphos dependem da minha simples vontade. Um "quero" equivale a um "fiat". Se estou enfermo, esqueço a lazeira physica, todo impessoalizado na consciencia da força. Não! meu coração não desequilibra seu rythmo, nem os pulmões arfam penosamente; não sou carne, não tenho besta sou uma idéa que quer, uma energia que actua.
O caminho segue a cavalleiro do rio, que deriva á minha direita, encoberto pela vegetação. A՚s vezes corre tão perto que, arremessando-se uma pedra em sua direitura, se ouve o grulhar das aguas deglutindo-a. Flue mysterioso e silente, apenas espaço a espaço trahindo sua presença o marulho da corrente arrufando-se em coivaras, ou um breve reflexo prateado numa entre-aberta das ramarias. E a estrada, sanguejante, com vincos de carros de bois e moldes de cascos de animaes, prolonga-se á minha frente, orlada de laçarias bambas de cipós florescidos. Em certo ponto, numa surpresa de colorido, surge uma sempre-lustrosa revestida de flores roxas, alto a baixo, tantas flores que não se lhe vê outra côr; e, no chão, onde roja as dobras da rica tunica, esgarça-se num rastro de petalas violaceas.
Nas vertentes o caminho abahula-se em facões. Não raro, ladeando a estrada, cruzes negras abrem os braços carcomidos; peciolos resequidos coroam o tope de uma ou outra, indicando que a creatura que alli tombou inda não está totalmente esquecida; e, achegadas aos seus pés, pia offerenda dos viandantes, morouços de pedras soltas.
Que alegre tintinabular me canta agora nos ouvidos? Que lyrico madrigal, cadente e argentino, vem carrilhonando estrada em fóra? Ah, é uma tropa. A՚ frente trota a madrinha, com um collar de campainhas por peitoral. Vem lepida, contente, estimulada pela doce musica que suas passadas ferem, orgulhosa talvez dos laços de baeta vermelha que a adornam, como rustica divindade de um culto primitivo. Até ao alto do pau do arrocho, enristado sobre as cargas como uma haste de bandeira, ondula a flammula ridente de duas tiras escarlates. Embala-me assim a alma com as suaves toadas de minha infancia, canta-me essa velha cantiga serrana, simples e sem lettra, ó doce apparição das estradas mineiras, poetica phantasia de tropeiros roidos de saudades, que, se á noite descantam nos arpejos da viola as suas melancolias de eternos desterrados, de dia sentem que o jornadear é mais suave embalado pelo teu carrilhão sonoro e jovial, doce encantamento para os ouvidos e refrigerio para a nostalgia.
E, repicando festiva, com o surdo acompanhamento do patear da tropa, a agreste harmonia perde-se a distancia.
Agora a vetusta porteira, de largos tabuões horizontaes. O coice é um tronco, mal falquejado, tendo ao topo uma abertura esculpida em cruz. Ao abrir, ella emitte um rangido prolongado e sonoro; e volta silenciosa, para fechar-se em baque poderoso sobre o moirão-batente, o qual retumba pelos grotões como um tiro de peça.
Não sei porquê, é grande a força emotiva destes dois sons combinados; quando os ultimos echos se calam, inda noss՚alma está a vibrar, ferida profundamente em suas mais intimas cordas; e á bocca vem-nos aquelle mesmo resaibo de vaga saudade, uma melancolia de recordações longinquas; talvez porque suggerem, com a influição do meio, na paz bucolica da natureza, a lembrança de velhos fazendões semi-abandonados, onde as horas passam arrastadamente, apenas escandido o seu espesso silencio pelo baque das porteiras lá fóra e pelo fanho bater de horas do velho relogio, alto como um armario, empertigado a um canto do immenso salão de jantar.
Como toda a porteira de antigas estradas, esta é um monumento em que collaboram a mão do homem e a da natureza. Caracteristica e pittoresca. Para cima e para baixo, vallos divisorios colmados de um "betume" de raizadas, gramineas, trapoerabas de florinhas azues. A restinga de matta que orla em geral toda a beira de vallo, alli arqueia as ramagens em tunnel sobre a estrada. Unhas-de-vacca de folhas fendidas, angicos rendilhados, bicos-de-pato de bastas e miudas folhas crescem ao lado dos moirões, entremisturando ao alto as verdes galhadas obliquas, em tacito concerto para resguardar naquelle trecho uma pouca de sombra fresca e preciosissima.
Quando as soalheiras escaldantes zimbram as abundantes invernadas que margeiam o caminho, estorricando os capinzaes, subtilizando em ondadas de pó a terra vermelha das estradas, procurando haurir, indessedentaveis, até á ultima gotta de seiva da vegetação causticada, para aquelle que andou longo percurso á inclemencia do sol a porteira é uma surpresa e uma delicia. A urdidura das copas é impenetravel; das barrancas revestidas da verde cabellugem de avencas e musgos, poreja continuamente um pouco de humidade que não chega para empapar a terra mas sobeja para fazer da temperatura caricia e voluptuosidade para a epiderme. As proprias borboletas comprazem-se nessa nesga de sombra ilhada ahi providencialmente; quem passa vê-as no chão humido, aos enxames, pintalgando a terra, como petalas soltas espalhadas pelo vento, petalas de tonalidades vivas, com predominancia do amarello-canario e vermelho de fogo. A՚ chegada do viandante evolam-se e revoluteiam, como torturadas por um pé de vento; mas não fogem; e, esvoaçando ás tontas, esperam que o importuno se afaste, para, esthetas rusticas, quem sabe! deleitarem-se em bordar de novo, na grata penumbra, ingenuas phantasias coloridas.
Agora, pela manhã frigida, este bosque põe-me um arrepio á flor da pelle. As borboletas — preguiçosas! ainda para aqui não vieram, "a espairecer as suas borboletices". Das folhagens encharcadas, espaçadamente o orvalho gotteja, crivando o chão de pequeninos furos; e, ao estrondear da porteira no batente, precipita-se numa chuva ephemera, rumoreja largamente e cessa de improviso.
Seguem-se duzentas braças de campo. D՚aqui em deante vae-se sempre subindo, suavemente, por um chão apisoado e ennegrecido. O morro é todo encaroçado de cupins, a que as gramineas põem cerco, num sem conto de frageis pendões aprumados. Aqui e alli vingam escalar os comoros mais baixos, que abafam sob sua invasão, deixando apenas adivinharem-se as convexidades submersas. Quantas vezes, do eirado da velha fazenda do Corrego Fundo, que neste momento demando, durante a estiagem das primeiras chuvas, contemplei, neste campo, o êxodo ascensional das alleluias! Então, de mil furos invisiveis, via borbotar como vaporações turvas, cones de fumo vivo que subia e se espalhava, dando, ao raso do campo, um tom côr de fuligem, fino e vibratil, que observado de perto era o debater de myriades de asas minusculas. E divertia-me ver o alvoroço das gallinhas de siá Marciana, o pescoço esticado para o ar, cacarejando afflictas, a regalar-se do farto manná que lhes cahia do céo sob a fórma de insecto.
Já do oriente, tangenciando a lombada da serra, e premido sob uma nuvem rosa e ouro, filtra-se o primeiro raio de sol. Pelas barrancas sombrias da estrada, em moitas de barba-de-bode, rebrilha aqui e alem obliquo fio alvissimo. Recrudesce a vozearia dos passaros, e asas multiplicam-se nos ares, aos trinços, aos chilros e casquinadas de crystal.
Mais abaixo mostra-se emfim uma curva do rio, harmoniosa e suave como uma linha humana. A՚ superficie liquida desfilam nevoaças, aos esquadrões, sopradas pela aragem matinal. Do lado da estrada as aguas espraiam-se claras sobre areaes; do outro lado, alto e ininterrupto paredão de verdura, exuberante, selvatico, como se a correnteza delimitasse as terras habitadas do sertão bruto. E d՚aquelle tapume enredado com que a natureza parece entrincheirar-se contra a invasão dos pequeninos civilizados, d՚aquella exuberancia quasi aggressiva, do longe e confuso alarido dos seres da selva, do entrelaçado das copas, do perfume acre de matta virgem que em ondadas a viração traz, vem-me uma attracção conturbadora, a incutir-me o pezar de não ser féra ou jequitibá, para, integrado na natureza, viver a rude e mysteriosa vida da floresta.
Mas meus olhos fogem á vertigem e attentam numa figura humana acocorada, como um mocho, num cupim. E՚ o Americo, meu amigo, que me espera. Radiante acena-me uma saudação e precipita-se ao meu encontro; alegremente correspondo; e em pouco estreitamo-nos em reforçado abraço.
Mais uma centena de passos, e eis-nos chegados á fazenda do Corrego Fundo.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
