Triste do Trovador

TRISTE DO TROVADOR.

E ella era esbelta e bem proporcionada: sua alma era como a sensitiva, e suas palavras erão doces e tinhão um perfume, que se não póde comparar.

(Duas noites de luar.)

E ella era como a rosa matutina
Formosa e bella,
E como a estrella que á noite ao mar se inclina,
Saudosa era ella.

Seus olhos negros, vivos e rasgados,
Era delicias vel-os;
E co’a alvura do rosto contrastava
A cor dos seus cabellos.

Quando alguem lhe fallava, então fallava
Com voz macia,
Que triste dentro d’alma nos filtrava
Doce alegria.

E o seu timbre de voz movia as fibras
Do coração,
Como sons que a mudez da noite quebrão
Na solidão.

Seu mais leve sentir patenteava
No rosto ameno;
Nuvemzinha da tarde, que se encherga
Em céo sereno.

Topou-a acaso pensativa, errante,
O trovador:
«Feliz, disse elle, quem gozára os mimos
Do seu amor!»

E ella deu-lhe do seio uma saudade
Murcha, porém bella,
E elle um culto votou, scismando extremos,
Á pallida donzella.

Como fosse, porém, breve a sua vida
Como uma flor,
Em breves dias era mudo e triste
O trovador.

 

 

Se alguma vez cantava, — só dizia
Ao seu anjo do céo, que lá morava,
Que de ter junto delle só pedia
A vida sua, que tão erma estava.