Tratados da terra e gente do Brasil/1/9

DAS ARVORES QUE SERVEM PARA MADEIRA (IX)

Neste Brasil ha arvoredos em que se achão arvores de notavel grossura, e comprimento, de que se fazem mui grandes canôas, de largura de 7, e 8 palmos de vão, e de comprimento de cincoenta e mais palmos, que carregão como huma grande barca, e levão 20 e 30 remeiros; tambem se fazem mui grandes gangorras para os engenhos. Ha muitos paos como incorruptiveis que mettidos na terra não apodrecem, e outros mettidos n’agua cada vez são mais verdes, e rijos. Ha pao santo,[1] de humas aguas brancas de que se fazem leitos muito ricos, e formosos. Pao do Brasil,[2] de que se faz tinta vermelha, e outras madeiras de varias côres, de que se fazem tintas muito estimadas, e todas as obras de torno e marcenaria. Ha paos de cheiro, como Jacarandá,[3] e outros de muito preço e estima. Achão-se sandalos brancos[4] em quantidade. Pao daquila[5] em grande abundancia que se fazem navios delle, cedros, pao d’angelim, e arvore de noz noscada; e ainda que estas madeiras não sejão tão finas, e de tão grande cheiro como as da India, todavia falta-lhes pouco, e são de grande preço, e estima.

Notas

  1. Páu-santo, da familia das Leguminosas, sub-familia das Cæsalpinaceas (Zoolernia paraensis, Hub.)
  2. Páu-brasil, das mesmas familia e sub-familia (Caesalpinea echinata, Lamk.) — Ibirapitanga é seu nome tupi, por ybyrá arvore, pau, madeira, pitanga vermelha.
  3. Jacarandá, nome commum a diversas especies da familia das Leguminosas, sub-familia das Papilionaceas.
  4. Sandalo branco, está nas mesmas condições do páu de aguilla. É originario do Sul da India, e não consta que tivesse sido importado para o Brasil.

    “Alli tambem Timor, que o lenho manda
    Sandalo salutifero, e cheiroso...”

    (Camões, Luziadas, canto X, estr. 134).

  5. Páu d’aquila, da familia das Aquilarinaceas (Aquilaria agallocha, Roxb. — O páu de aquila, ou páu de aguila é originario da Indo-China:

     “Vês, corre a costa que Champá se chama
    Cuja mata é do páu cheiroso ornada...”

    Camões, Luziadas, canto X, estr. 129).

    De sua occurrencia no Brasil parece que é informação singular a de Cardim. Segundo o Conde de Ficalho, em nota aos Colloquios de Garcia da Orta, o nome aguilla procede do hindi e deckani agar e aghir, e deu talvez tambem o maláyalam agil ou agila; essas palavras, adoptadas pelos portuguezes, foram por elles muito usadas nas fórmas aguila e páu de aguila; convertida por engano aguila em aquila, deram depois os nomes modernos francez inglez de bois d’aigle eagle-wood, sem que a madeira tenha a mais remota relação com as aguias.