Tratados da terra e gente do Brasil/1/8

DA ARVORE QUE TEM AGUA (VIII)[1]

Esta arvore se dá em os campos e sertão da Bahia em lugares aonde não ha agua; he muito grande e larga, nos ramos tem buns buracos de comprimento de hum braço que estão cheios de agua que não tresborda nem no inverno, nem no verão, nem se sabe donde vem esta agua, e quer della bebão muitos, quer poucos, sempre está em o mesmo ser, e assi serve não sómente de fonte, mus ainda de hum grande Rio caudal, e acontece chegarem 100 almas ao pé della, e todos ficão agasalhados, bebem, e lavão tudo o que querem, e nunca falta agua; he muito gostosa, e clara, e grande remedio para os que vão ao sertão quando não achão outra.

Notas

  1. VIII — Neste capitulo trata apenas o autor da arvore que tem agua.
     

    O phenomeno referido deve ser levado á conta de informações exageradas que tenham sido prestadas a Cardim. Nos sertões do Nordéste brasileiro vegeta, de facto, uma leguminosa, a Geoffroya spinosa, Linn., vulgarmente conhecida por umary, que dos olhos verte liquido em tal quantidade que, ás vezes, no inverno, chega a molhar o solo, o que para o sertanejo é bom signal de estação chuvosa; mas dahi á arvore fonte, ou arvore rio, que se descreve, vai mais prodigio do que verdade. — O vocabulo umary é tupi, contracção de y-mbo-ri-y, que exprime — arvore que faz que verta agua, segundo Th. Sampaio.