Tratados da terra e gente do Brasil/1/4
Assi como este clima influe peçonha, assi parece influir formosuras nos passaros, e assi como toda a terra he cheia de bosques, e arvoredos, assi o he de formosissimos passaros, de todo genero de côres.
Papagaios. — Os papagaios nesta terra são infinitos, mais que gralhas, zorzais, estorninhos, nem pardaes de Espanha, e assi fazem gralhada como os sobreditos passaros; destruem as milharadas; sempre andão em bandos, e são tantos que ha Ilhas onde não ha mais que papagaios; comem-se e he boa carne, são de ordinario muito formosos e de muito varias côres, e varias especies, e quasi todos fallão, se os ensinam.
Arára.[1] — Estes papagaios são os que por outro nome se chamão Macaos: he passaro grande, e são raros, e pela fralda do mar não se achão; he huma formosa ave em côres, os peitos tem vermelhos como grau; do meio para o rabo alguns são amarellos, outros verdes, outros azues, e por todo o corpo têm algumas pennas espargidas, verdes, amarellas, azues, e de ordinario cada penna tem tres, quatro cores, e o rabo he muito comprido. Estes não põem mais de dois ovos, crião nas tòcas das arvores, e em rochas de pedras. Os Indios os estimão muito, e de suas pennas fazem suas galantarias, e empennaduras para suas espadas; he passaro bem estreado, faz-se muito domestico, e manso, e fallão muito bem, se os ensinão.
Anapurú.[2] — Este papagaio he formosissimo, e nelle se achão quasi todas as cores em grande perfeição, sc., vermelho, verde, amarello, preto, azul, pardo, côr de rosmaninho, e de todas estas cores têm o corpo salpicado, e espargido. Estes tambem fallão, e têm mais huma vantagem que he criar em casa, e tirar seus filhos, pelo que são de grande estima.
Ararúna.[3] — Este Macao e muito formoso; he todo preto espargido de verde, que lhe dá muita graca, e quando lhe dá o sol fica tão resplandescente que he para folgar de ver; os pés lem amarellos, e o bico e os olhos vermelhos; são de grande estima, por sua formosura, por serem raros, por não criarem senão muito dentro pelo sertão, e de suas peunas fazem seus diademas, e esmaltes.
Ajurucuráo.[4] — Esses papagaios são formosissimos: são todos verdes, têm hum barrete, e colleira amarella muito formosa, e em cima do bico humas poucas de pennas de azul muito claro, que lhe dão muito lustre, e graça; têm os encontros das azas vermelhos, e as pennas do rabo de vermelho, e amarello salpicadas de azul.
Tuim.[5] — Os tuins he huma especie de papagaios pequenos do tamanho de hum pardal; são verdes espargidos de outras varias cores, são muito estimados, assi pela sua formosura, como tambem porque fallão muito, e bem, e são muito domesticos, e tão mansinhos que andão correndo por toda huma pessoa, saltando-lhe nas mãos, nos peitos, nos hombros, e cabeça, e com o bico lhe esgravatão os dentes, e estão tirando o comer da bocca á pessoa que os cria, e fazem muitos momos, e sempre fallão, ou cantão a seu modo.
Guigrajúba.[6] — Chama-se este passaro Guigrajúba, sc., passaro amarello; não fallão, nem brincão, antes são muito malenconizados, e tristes, mas muito estimados, por se trazerem de duzentas, e trezentas leguas, e não se achão, senão em casas de grandes principaes, e têm-nos em tanta estima que dão resgate, e valia de duas pessoas por um delles, e tanto o estimão como os Japões as trempes, e panellas, e qualquer outros senhores alguma cousa de grande preço, como falcão, girifalte, &&.
Iapú.[7] — Este passaro he do tamanho de huma pêga, o corpo tem de hum preto fino, e o rabo todo amarello gracioso; na cabeça tem tres pennachosinhos, que não parecem senão cornitos quando os levanta; os olhos tem azues, o bico muito amarello; he passaro formoso, e tem um cheiro muito forte quando se agasta; são muito sollicitos em buscar de comer, não lhe escapa aranha, barata, grillo, &, e são grande limpesa de huma casa, e andão por ellas como pêgas, não lhes fica cousa que não corrão; he perigo grande terem-no na mão, porque arremettem aos olhos e tirão-nos.
Guainumbig.[8] — Destes passarinhos ha varias especies, sc., Guaracigá, sc., fructa do sol, por outro nome Guaracigoba, sc., cobertura do sol, ou Guaracigaba, sc., cabello do sol; nas Antilhas lhe chamão o passaro resuscitado, e dizem que seis mezes dorme e seis mezes vive; he o mais fino passaro que se póde imaginar, tem hum barrete sobre sua cabeça, a qual se não pode dar côr propria, porque de qualquer parte que a tomão mostra vermelho, verde, preto, e mais côres todas muito finas, e resplandescentes plandescentes, e o papo he tão formoso que de qualquer parte que o tomão, mostra todas as côres, principalmente hum amarello mais fino que ouro.
O corpo he pardo, tem o bico muito comprido, e a lingoa de dous comprimentos do bico; são muito ligeiros no voar, e quando voão fazem hum estrondo como abelhas, mais parecem abelhas na ligeireza que passaros, porque sempre comem de vôo sem pousar na arvore; assi como abelhas andão chupando o mel das flores; têm dous principios de sua geração: huns se gerão de ovos como outros passaros, outros de borboletas, e he cousa para ver, huma borboleta começar-se a converter neste passarinho, porque juntamente he borboleta e passaro, e assi se vac convertendo até ficar neste formosissimo passarinho; cousa maravilhosa, e ignota aos philosophos, pois hum vivente sem corrupção se converte noutro.
Guigranheengetá.[9] — Este passaro he do tamanho de hum pintasilgo, tem as costas, e azas azues, eo peito, e barriga de un amarello finissimo. Na testa tem um diadema amarello que o faz muito formoso; he passaro excellente para gaiola, por fallar de muitas maneiras, arremedando muitos passaros, e fazendo muito trocados e mudando a falla em mi maneiras, e atura muito em o canto, e são de estima, e destes de gaiola ha muitos e formosos, e de varias cores.
Tangará.[10] — Este he do tamanho de hum pardal: todo preto, a cabeça tem de hum amarello laranjado muito fino; não cunta, mas tem huma cousa maravilhosa que tem accidentes como de gotta coral, e por esta razão o não comem os Indios por não terem a doença; tem hum genero de baile gracioso, sc., hum delles se faz morto, e os outros o cercão ao redor, sallando, e fazendo hum cantar de gritos estranho que se ouve muito longe, e como acabão esta festa, grita, e dança, o que estava como morto se alevanta, e dá hum grande assovio, e grito, e então todos se vão, e acabão sua festa, e nella estão tão embebidos quando a fazem que ainda que sejão vistos, e os espreitem não fogem; destes ha muitas especies, e todos têm accidentes.
Quereiuá.[11] — Este passaro he dos mais estimados da terra, não pelo canto, mas pela formosura da penna; são d’azul claro em parte, e escuro, e todo o peito roxo finissimo, e as azas quasi pretas, são tão estimadas, que os Indios os esfollão, e dão duas e tres pessoas por huma pelle delles, e com as pennas fazem seus esmaltes, diademas, e outras galantarias.
Tucána.[12] — Este passaro he do tamanho de huma pêga; he todo preto, tirando o peito, o qual he todo amarello com hum circulo vermelho; o bico he de hum grande palmo, muito grosso e amarello, e por dentro vermelho, tão burnido e lustroso, que parece invernizado; fazem-se domesticos, e crião-se em casa, são bons para comer, e a penna se estima muito por ser fina.
Guigrapónga.[13] — Este passaro he branco, e sendo não muito grande, dão taes brados que não parece senão hum sino, e ouve-se meia legua, e seu cantar he ao modo de repique de sino.
Macucaguá.[14] — Esta ave he maior que nenhuma gallinha de Portugal; parece-se com faijão, e assi lho chamão os portuguezes, tem tres titellas huma sobre a outra, e muita carne, e gostosa, põe duas vezes no anno, e de cada vez treze ou quinze ovos; andão sempre pelo chão, mas quando vem gente se sobem nas arvores, e à noite quando se empoleirão como fazem as gallinhas. Quando se põem nas arvores, não põem os pés nos paos, mas as canellas das pernas, e mais da parte dianteira. Destas ha muitas especies, e multidão, e facilmente se frechão.
Entre ellas ha huma das mais pequenas, iem muitas habilidades: adivinha quando canta a chuva, dá tão grandes brados que se não póde crer de passaro tão pequeno, e a razão he, por que tem a guella muito grande, começa na cabeça, e sac pelo peito ao longo da carne, e couro, e chega ao cesso, e fac volla, e torna-se a metter no papo, e então procede como aos outros passaros, e fica como trombeta com suas voltas. Correm após qualquer pessoa, ás picadas brincando como cachorrinho, se lhe deitão ovos de gallinha choca-os, e cria os pintainhos, e se vê as gallinhas com pintainhos tanto as persegue até que lhos toma e os cria.
Mutù.[15] — Esta gallinha he muito caseira, tem huma crista de gallo espargida de branco e preto, os ovos são grandes como de pata, muito alvos, tão rijos que batendo um no outro, tinem como ferro, e delles fazem os seus maracás, sc., cascaveis; todo cão que lhe come os ossos, morre, e aos homens nenhum prejuizo lhes faz.
Urú.[16] — Nesta terra ha muitas especies de perdizes que ainda que se não pareção em todo com as de Espanha, todavia são muito semelhantes na côr, e no gosto, e na abundancia. Ha nesta terra muitas especies de rolas, tordos, melros, e pombas de muitas castas, e todas estas aves se parecem muito com as de Portugal; e as pombas e rolas são em tanta multidão que em certos campos muito dentro do sertão são tantas que quando se levantão empedem a claridade do sol, e fazem estrondo, como de hum trovão; põem tantos ovos, e tão alvos, que de longe se vêem os campos alvejar com os ovos como se fosse neve, e com servirem de mantimento aos Indios não se podem desençar, antes dali em certos tempos parece que correm todas as partes desta provincia.
Nhandugoaçú.[17] — Nesta terra ha muitas Emas, mas não andão senão pelo sertão dentro.
Anhigma.[18] — Este passaro he de rapina, grande, e dá brados que se ouvem meia legua, ou mais; he todo preto, os olhos tem formosos, e o bico maior que de gallo, sobre este bico tem hum cornito de comprimento de hum palmo; dizem os naturaes que este corno he grande medicina para os que se lhe tolhem a falla, como já aconteceu que. pondo ao pescoço de um menino que não fallava, fallou logo.
Ha outras muitas aves de rapina, sc., aguias, falcões, açores, esmerilhões, francelhos, e outras muitas, mas são todas de ordinario tão bravas que não servem para caçar, nem acodem à mão.
Notas
- ↑ — Arara, nome commum aos Psittacideos maiores; o nome macao designa o Ara macao, Linn., também chamado arára-canga, arára-piranga e arára-vermelha. — Etymo duvidoso: se fôr tupi, pôde ser ará por guirá pássaro, exprimindo o frequentativo ará-ra pássaro grande, como acontece muitas vezes na lingua; mas note-se que no aymará arára significa fallador, palrador.
- ↑ — Anapuru, nome de Psiltacideo difficil de identificar. Não vem mencionado em G. Soares, nem em Piso e Marcgrav; mas Gandavo a elle se refere, dizendo que em commercio entre os indios valia cada um de dois a tres escravo.
- ↑ — Araruna, arára-úna, da familia dos Psittacideos (Anodorhynchus hyacinthinus, Lath.) — Em Marcgrav araraúna. — De arára, a ave, úna negra.
- ↑ — Ajurucuráo, ajurú-curáu, da mesma familia (Amazona amazonica, Linn.) — Em Marcgrav, aiurú-curau. — De ajurú, nome genérico tupi dos papagaios, e curáu que solta a lingua.], fallador, maldizente.
- ↑ — Tui, tuim, nome genérico dos Psittacideos pequenos. Em Gandavo, tuyns; em G. Soares, tuim; em Piso e Marcgrav, tui. — Talvez de tu por ti bico, e i pequeno.
- ↑ — Guigrajúba, guirajúba, guarajúba, guarúba, da familia dos Psittacideos (Conurus guarouba, Gm.) — De guirá pássaro, júba amarello. — Guarúba por agglutinaçâo.
- ↑ — Iapú, japú, da familia dos Icterideos (Ostinops decumanus, Pall.) O nome tupi explica-se por ya, demonstrativo, o que, aquelle que, pú soar, fazer rumôr: o que sôa, ou rumoreja, conforme Baptista Caetano.
- ↑ — Guainumdig, guainumbi, nome commum ás aves da familia dos Trochilideos (Beija-flores). — Gainambi, em G. Soares. — O nome tupi tem varias explicações. Das especies citadas, são correctas as etymologias do autor: guaracigá, ou guaraciá vem a ser fructo do sol, por coaracy sol, e á fructo; guaracigoba, ou guaracióba, cobertura do sol: óba é folha, mas implica o sentido de cobrir, o que cobre, a cobertura; guaracigaba, ou guaraciaba, cabello do sol: aba cabello. — São ingenuas as noções do autor sobre a metamorphose dessas aves.
- ↑ — Guigranheéngetá, guirá-nheengetá, da familia dos Tyrannideos (Taenioptera nengeta, Linn.) De guirá passaro, nheeng fallar, etá muito: passaro que falla, ou canta muito. O nome desappareceu para dar lugar a gronhatá ou grunhatá, por agglutinação. — Pombinha das almas e Maria-branca são tambem nomes populares dessa ave; nas republicas platinas chamam-na pepoasá, do tupi-guarani pepó aza, e açá atravessada, o que é accorde com o nome generico Taenioptera.
- ↑ — Tangará, nome commum a diversas aves da familia dos Piprideos, especialmente applicados à Chiroxiphia caudata, Sw., também chamada dançador. — A Goeldi parece que Linneu adoptou a palavra indigena tangará, empregando-a com inversão de letras para formar o nome Tanagra. De atá andar, carã em volta: o que anda aos saltos, o que dança aos saltos, o pulador, conforme Th. Sampaio.
- ↑ — Quereiuá, quiruá, da familia dos Cotingideos (Cotinga cincta, Kuhl). Em G. Soares, querejuá; Piso e Marcgrav guira-quereá. — Nome tupi difficil de explicar.
- ↑ — Tucána, tucano, nome commum a diversas aves da familia dos Rhamphastideos. Parece ter sido Thevet, nas Singularitez de la France autarctique, quem primeiro descreveu a ave, dando-lhe o nome indigena: “Sur la cosle de la marine la plus fréquente marchandise est le plumage d’un oyseau qu’ils appellent en leur langue toucant...” — Em G. Soares, tucano; em Marcgrav, tucan. — De ti dico, cang osseo? Baptista Caetano.
- ↑ — Guigrapónga, araponga, da familia dos Colingideos (Chasmorhynchus nudicollis, Vieill.) — Ferreiro, ferrador. — De guirá passaro, ponga sonante, que sôa.
- ↑ — Macucaguá, macaguá, da família dos FalconIdeos (Herpetotheres cachinnans, L.). – Em G. Soares, macucagoá; em Gandavo, com a primeira forma. – De má por ybá fruto, cugiguár por curihár que traga, tragador, comedor: comedor de frutos; ou ainda, preferivel, por accorde com o nome generico e com o instinto da ave, de mbói-acá-hár, aquele que briga com as cobras, conforme Baptista Caetano.
- ↑ — Mutú, mutum, nome generico das aves da familia dos Cracideos. Em Azara, mitú. De mytun por pytun ou pytuna, noite: escuro, negro, por extensão; originariamente qualificativo, dizendo passaro negro ou escuro.
- ↑ — Urú nome commum a duas especies de aves da familia dos Odontophorideos: Odontophorus guyanensis, Gm., O. capueira, Spix. — A primeira é peculiar á Amazonia; a segunda é a que o autor devia ter conhecido, por habitar o litoral.
- ↑ — Nhandugoaçú, nhanduguaçú, ema, chamada impropriamente avestruz, da familia dos Rheideos (Rhea americana, Linn.) Em Marxgrav nhandu-guaçu. — De nhan corre, tu estrepitante; ou nhan de correr, ub perna: corredora, a que corre; guaçú grande. Baptista Caetano. — De qualquer modo a idéa de correr é dominante.
- ↑ — Anhigma, anhuma, inhuma, da familia dos Palamedeideos (Palamedea cornuta, Linn.) — Anhima e anhyma, em Marcgrav e Piso. — De etymo difficil de explicar.