Suspiros poéticos e saudades (1865)/Um Passeio ás Tullerias
XIII.
UM PASSEIO AS TUILERIAS.
Eis-me no mundo!… Aqui presente o tenhoTodo, tal como elle é, em breve quadro!Aqui os homens o prazer procuram,E mil vezes aqui a dôr encontram.
Nestas ruas de flores,Confundidos os sexos, as idades,E o vicio confundido co’a virtude, Se encontram, se abalroam.Debaixo destas arvores em renques,Qu’inda ha pouco de gala se cobriam, E já empallidecem só co’o soproLonge do hinverno, como reis de um dia, O fido amante espera A retardía amada.Meditabundo aqui passeia o sabio, E inspirações recebe;Aqui o velho ao sol as cans aquece,E vê correr o infante após seu arco, Inquieto e afanado.Como após a Fortuna corre o adulto.
Aqui sobre esta pedra solitarioO candido Filinto repousava,Chorando a Patria, que lhe fôra ingrata,E, máo-grado a injustiça, amando-a sempre.Co’os Martyres nas mãos, n’alma a poesia, Aqui ao Luzo idiomaImmortal monumento erguêo glorioso,Que ao lado dos Lusiadas sublimes,Parelhas correrá co’a eternidade.
Que immenso é o Universo! que infinito!E tu, Senhor, tu só n’um volver de olhos Tudo vês, tudo alcanças!Como é este logar tão limitado!Entretando o que o seu recinto abrange Meus olhos não distinguem.
Esta columna d’agua impetuosa,Que compellida esguicha, e no ar se curva, Pelo vento açoutada,De um lado e de outro lado vacillante.Como um branco pennacho aos ares sôlto, E de poeira em fórmaCái, e tranquilla jaz no largo tanque;Representa, oh mortal, a historia tua! Assim humilde nasces,Da terra assim te elevas arrojado,Assim te agita das paixões a furia,Assim pendes, e em pó no commum fossoDescanças, té que sôe a voz terrivelDo Archanjo do Senhor, no eterno dia.
Desde que no horizonte o sol fulgura,Té que a noite, e o silencio se annunciam,Ondas de homens sobre ondas incessantes Este recinto invadem.De quatro lados sete portas francas;E um só não vejo em vestes que o trabalho,E a indigencia assignalem.
Tentais embalde entrar: — ide-vos, pobres,Ide-vos, homens ao trabalho afeitos.Ergueram vossas mãos estas muralhas,Vossas mãos estas portas fabricaram, Que hoje ante vós se fecham;Com o vosso suor foi amassadaA terra, que estas arvores sustenta,Mas gozar não podeis da sombra d’ellas;Vós deveis sementar; outros que fruam.Aqui vós não entrais: — ide-vos, pobres.
Como reproba assim por toda parteCom desprezo se expulsa a indigencia, Feio crime entre os homens!Aquelle hontem beijava o pó da terra,Hoje á custa de usura, e latrocinio,Envernizado com pomposo nome, Grande, nobre se ostenta!Tal a serpente em torcicollos chega Arrastando-se ao cume de alto monte,Que o brioso animal vingar nem tenta.O mundo é sempre assim, é sempre o mesmo;Os esforços, os bens da sociedadeSão sempre para quem menos carece.
Entre estes arvoredos lá diviso Do Gigante da terraA Columna immortal, e a estatua egregia,Qu’inda parece ameaçar o mundo.Alli vejo domado, e curvo o orgulho Dos despotas dos povos. Alli a LiberdadeSentada está no carro da victoria,De louros coroada, mas sombria.Alli vejo de Deos a omnipotencia,Que ergue, quando lhe apraz, do pó um homem,Para calcar dos Reis o sceptro, e o orgulho.Alli vejo o valor, vejo a justiça;Grecia, e Roma alli vejo n’um só Genio!Seu corpo tem por tumulo um rochedo,Onde continuamente o Oceano chora;Seu grande nome a terra toda o sabe.
O palacio aqui está, de um Rei morada.Quantas recordações m’elle desperta!Co’a mesma rapidez com que n’um sonho As sombras se succedem,Tal os fastos da historia se me antolhamScena por scena em quadros animados.
Aqui Paraguassû, filha dos bosques,Do esposo ao lado entrou extasiada,Vendo a grandeza da européa côrte.Um Rei lhe dêo a mão; e uma rainhaDa bocca sua ouvio as maravilhasDo seu caro Brasil, então deserto.Ah, saiamos daqui; que horriveis quadrosMe veem ora turbar a phantasia.
Marmoreos simulachrosDos divinos heroes da Grecia, e Roma,Descerrai vossos labios: pois que o genioDe bruta mole em homens convertêo-vos,Fallai, por Deos fallai; eu vos conjuro;Dizei-me si melhores do que os de hojeOs mortaes foram das passadas éras.Mas vós não respondeis; ficai, sois pedra
Esta escada subamos;Como silencioso se deslizaO outr’ora ovante Sena! Nem murmura!Como humilde atravessa estas arcadas!Não sois assim, da minha Patria oh ríos!Oh Paraná, oh tumido Amasonas! Eu já te vi, oh Sena,Altivo assoberbar estas muralhas;Hoje mesquinho nem banhal-as podes:Hoje o ousado menino a ti se lança.De um desthronado Rei és triste imagem;Sem pompa assim caminha desprezadoDos proprios seus, que os respeitaram, servos: Tudo assim é na terra!
No meio estou da capital do Mundo!Alli vejo dos sabios a morada[1], Aqui das leis o templo[2],Entre suas columnas vagueandoCom talhe ameaçador se me afiguraDo rival de Demosthenes o espectro. Deste lado o obelisco majestoso,Que á terra estranha os homens transplantaram,Como um filho grosseiro dos desertosEntre um povo que os seculos poliram.
Sabes tu que logar marcar vieste?Sabes tu essa côr o que nos mostra?Esta terra que ocupas foi outr’oraLogar do cadafalso! foi banhadaCo’ o sangue de Luiz, de um Rei co’ o sangue.
Mas o sol se retira,E já se enlucta o céo, e a Natureza.Porque todos alli vão reunir-se?Melodicos accentos de harmonia Meus ouvidos adoçam! Oh musica divina!És tu que attráis os homens, que dispersos Sem ordem vagueavam.Do céo foi inspirado quem primeiroUm som com outro som cadenciando,Poude dar o transumpto harmoniosoDe Deos, da Sociedade, e do Universo.
Já não vêdes, meus olhos; novas trevasEnvolvem do Senhor as maravilhas.De dia em dia assim, de noite em noite,Horas, annos, e seculos se abysmamNo seio da perpetua Eternidade. O homem nasce, e morre; Tu só, meu Deos, és grande.