Suspiros poéticos e saudades (1865)/O Mysterio

 
XII.
 
O MYSTERIO.
 
O sol empallidece, o céo se enlucta,O raio despedaça o véo do Templo,   Soltos trovões rebramam;De espanto, e horror a Natureza geme,Chora Jerusalem, tremem seus muros,   E estupefacto o povoEntre o riso e o terror sem tino vaga.
Que sublime mysterio o Eterno Padre   Revolve em sua mente? Que grande sacrificio o céo consumma?Quem é Esse que expira no Calvario   Entre dous criminosos,Nos braços de uma Cruz, com rosto brando,Como si o fel da morte não provasse?
O monte que supporta o peso ingenteSuspira a cada gota desse sangue,Que o rega, e cai-lhe dos feridos membros   Da victima sublime.Quem é Esse, de quem o céo, e os astros   A morte estão carpindo?Não, não é um mortal! — Razão altiva,Em vão procuras occultar seu nome!É o Filho de Deos, que sobre a terraEspalhou a Moral pura e celeste,   Aos homens ensinandoA verdade, o amor, e o soffrimento.Só o Filho de Deos na Cruz podiaSoffrer por nosso amor esse tormento.
   Homens degeneradosSem pejo aos pés de deoses se prostravam    Tão infames como elles:Corria humano sangue sobre as arasEm sacrificio á vil hypocrisia   De oraculo fingido;E as impias mãos de um impostor sagrado,Nas palpitantes visceras pousando,Iam depois queimar o incenso impuroAnte o altar do crime endeosado.
Tudo do engano as trevas encobriam;   Só despotas raivosos   A seu grado reinavam;E nas publicas praças, e nos circosSó escravos em ocio pão pediam.
Como de vaga em vaga repellidos   Os restos do naufragio,Vão na areia encalhar, tal pareciaQue a Humanidade ao fim tocado havia.
No meio desse horror eis que apparece,Como um iris de paz, do Eterno o Filho.   O erro confundido, Procura em vão luctar. Embalde se erguemFogueiras aos Christãos. EspavoridoVê o sedento algoz imbelles virgensCom os olhos no céo vencer a morte;E das tremulas mãos por terra caiem   A sangrentas bipennes;Os falsos deoses dos altares sáiem:E sobre o Capitolio a Cruz se eleva,Como o signal da redempção do mundo.   Victoria, os céos entoam,   Victoria á Humanidade!O Christo do Senhor descêo á terra,E aos homens ensinou a san verdade.
Roma, 17 de Abril 1835.