Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Velhice

 
X.
 
A VELHICE.
 
   Longa foi a viagem;Assás luctastes; descançai agora.
Depois de haver vingado alpestre monteDesde o albor da manhã, o peregrino   Afadigado desce,E envolto em trevas vai pousar no valle.
Por vós assás auroras madrugaram;Por vós luas assás alvas luziram;Assás de flores esmaltou-se a terra,E de fructos as arvores copadas.   Sim, sim, assás gozastes;Mas uma voz vos chama, e vos diz: — basta.
Basta! — A hora soou; abre-se a campa,   E o sopro do seu antro,Como o vapor da canica cavernaNas margens do sombrio Aniâno lago1,Da vida vos apaga a tenue flamma.
   Para vós basta, oh Velhice!   Inda o sol tem resplendores,   Inda a noite tem estrellas,   Inda a lua alvos fulgores.
   Inda os prados reverdecem,   E de florzinhas se arreiam;   Inda, suspensos nos ramos,   Os passarinhos gorgeiam.
   Inda o zephiro sereno,   Cheio de aroma e doçura,   Fruindo o nectar das flores,   Na madrugada murmura.
   Inda a cascata ruidosa   Entre seixos se despenha;   Inda o som da sua quéda   Resôa ao longe na brenha.
   Inda os regatos deslizam,   As feras nos bosques rugem,   E lambendo a branca areia,   Nas praias as ondas mugem.
   Tudo vida inda respira;   A terra não stá mudada;   Vós só marchais, oh Velhice.   Triste, debil e curvada.
   Vossos olhos se fecharam   Ao quadro da Natureza;   Em torno de vós só gyram   A morte, o horror, e a tristeza.
   Tudo em seu morno silencio   Agora vos annuncia   Que a noite só vos pertence,   Que para vós vai-se o dia.
A noite eterna vos estende os braços,Ah! preparai-vos para o somno eterno.
   Basta! — É hora das preces.Funéreo som no templo os bronzes vibram,E o echo seu parece dizer — morte!
Sob o peso da fronte encanecida,Já se curva e vacilla o vosso porte,Qual co’ os flocos de neve a fragil hastea;Entoastes o cantico da vida,Entoai vosso cantico de morte   Como o candido cysne,Que indo descer á escuridão do lago,Cantando diz-lhe adeos na fatal hora,Para nunca mais ver raiar a aurora.
Basta! — É hora das preces, oh Velhice!   Para o mundo acabastes.Vossa alma resgatai do barro impuro;O céo, que alma vos dêo, péde vossa alma,E a terra vosso corpo está pedindo;Ah! dai á terra o que vos dêo a terra!
   Mas ah, não choreis!   E porque chorais?   Si vós não sabeis   Nem o que ganhais,   Nem o que perdeis.Perdeis a terra, é certo; mas que importa,Si celeste esperança vos conforta!
   Viver é sonhar,   Sonhar é dormir;   Deveis acordar,   Para ao céo subir,   E no céo velar.Acordai; socegai o afflicto peito,Que ides deixar o amargurado leito.
   O pranto enxugai,   Bani o temor;   O Nome entoai   Do Eterno Senhor;   E a Elle voai.Vossa bençam lançai á Mocidade,Que vai na lucta entrar da Humanidade.
Pariz, Janeiro de 1836.
 

A VELHICE.
Nota. Pag. 84.

Como o vapor da cánica caverna,
Nas margens do sombrio Aniâno lago.

Á margem do lago de Agnano (Anianus lacus dos Romanos) jaz a gruta vulgarmente chamada do cão, pelas experiencias que alli se repetem perante os curiosos que a visitam, introduzindo n’ella um pobre cão, que logo cái asphyxiado em respirando o gaz carbonico que do chão d’ella se exhala, e no meio do qual se apaga a luz do archote. Neste caso especial, creio, merecerá desculpa o adjetivo cánica, que não vem nos diccionarios.