Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Belleza

 
XI.
 
A BELLEZA.
 
Oh Belleza! Oh potencia invencivel,Que na terra despotica imperas;    Si vibras teus olhos    Quaes duas espheras,Quem resiste a seu fogo terrivel?
Oh Belleza! Oh celeste harmonia,Doce aroma, que as almas fascina;    Si exhalas suave    Tua voz divina,Tudo, tudo a teus pés se extasia.
A velhice, do mundo cançada,A teu mando resiste somente;    Porêm que te importa    A voz impotente,Que se perde, sem ser escutada?
Diga embora que o teu juramentoNão merece a menor confiança;    Que a tua firmeza    Stá só na mudança,Que os teus votos são folhas ao vento.
Tudo sei; mas si tu te mostraresAnte mim como um astro radiante,    De tudo esquecido,    Nesse mesmo instante,Farei tudo o que tu me ordenares.
Si até hoje remisso não ardeEm teu fogo amoroso meu peito,    De estoica dureza    Não é isto effeito;Teu vassallo serei cedo ou tarde.
Infeliz tenho sido até-gora,Que a meus olhos te mostras severa;    Nem gózo a ventura,    Que góza uma fera;Entretanto ninguem mais te adora.
Eu te adoro como o Anjo celeste,Que da vida os tormentos acalma;    Oh vida da vida,    Oh alma desta alma,Um teu riso sequer me não déste!
Minha lyra que triste resôa,Minha lyra por ti desprezada,    Assim mesmo triste,    Assim malfadada,Teu poder, teus encantos pregôa.
Oh belleza, meus dias bafeja,Em teu fogo minha alma devora;    Verás de que modo    Meu peito te adora,E que incenso offertar-te deseja.
Pariz, Março de 1836.