S. Bernardo (1934)/Capítulo XXI
XXI
Pois, apesar das precauções que tomámos, do asbesto que usámos para amortecer os attritos, veio nova desintelligencia. Depois vieram muitas.
Pela manhã Magdalena trabalhava no escriptorio, mas á tarde sahia a passear, percorria as casas dos moradores. Garotos empalamados e beiçudos agarravam-se ás saias della.
Foi á escola, criticou o methodo de ensino do Padilha e entrou a amolar-me reclamando um globo, mappas, outros arreios que não menciono porque não quero tomar o incommodo de examinar ali o archivo. Um dia, distrahidamente, ordenei a encommenda. Quando a factura chegou, tremi. Um buraco: seis contos de reis. Seis contos de folhetos, cartões e pedacinhos de taboa para os filhos dos trabalhadores. Calculem. Uma dinheirama tão grande gasta por um homem que aprendeu leitura na cadeia, em carta de ABC, em almanaques, numa biblia de capa preta, dos bodes. Mas contive-me. Contive-me porque tinha feito tenção de evitar dissidencias com minha mulher e porque imaginei mostrar aquellas complicações ao governador quando elle apparecesse aqui. Em todo o caso era despesa superflua.
Assignei a duplicata, puz o chapeo e sahi. Ao passar pelo estabulo, notei que os animaes não tinham ração.
— Isto vai mal.
E gritei:
— Marciano!
Gritei em vão. Desci a ladeira, com raiva. Lá em baixo, á porta da escola, descobri Marciano escanchado num tamborete, taramelando com o Padilha.
— Já para as suas obrigações, safado.
— Acabei o serviço, seu Paulo, gaguejou Marciano perfilando-se.
— Acabou nada!
— Acabei, senhor sim. Juro por esta luz que nos alumia.
— Mentiroso. Os animaes estão morrendo de fome, roendo a madeira.
Marciano teve um rompante:
— Ainda agorinha os cochos estavam cheios. Nunca vi gado comer tanto. E ninguem aguenta mais viver nesta terra. Não se descança.
Era verdade, mas nenhum morador me havia ainda falado de semelhante modo.
— Você está se fazendo besta, seu corno?
Mandei-lhe o braço ao pé do ouvido e derrubei-o. Levantou-se zonzo, bambeando, recebeu mais uns cinco trompaços e levou outras tantas quedas. A ultima deixou-o esperneando na poeira. Emfim ergueu-se e sahiu de cabeça baixa, trocando os passos e limpando com a manga o nariz, que escorria sangue. Estive uns minutos soprando. Depois voltei-me para o Padilha:
— O culpado é você.
— Eu?
— Sim, você, que anda enchendo de folhas as ventas daquelle semvergonha.
Padilla defendeu-se, pallido:
— Não ando enchendo nada não, seu Paulo. É injustiça. Elle veio de enxerido, acredite. Não chamei, até disse: "Marciano, é melhor que você vá dar comida aos bichos". Não escutou e ficou ahi, lesando. Eu estava enjoado, por Deus do ceo, que não gosto da cara desse moleque.
Ia pregar-lhe uma descompostura, mas avistei Magdalena, que, no paredão do açude, se virava para as ruinas do Marciano. Fui ao encontro della, resmungando:
— Insolente! Dá-se o pé, e quer tomar a mão.
Mas a colera tinha desapparecido. O que agora me importunava eram as caixas com o material pedagogico inutil nestes cafundós. Para que aquillo? O governador se contentaria se a escola produzisse alguns individuos capazes de tirar o titulo de eleitor.
— Tomando fresca, hein? perguntei a Magdalena, que tinha a vista presa no telhado escuro do estabulo.
Não deu resposta. Puz-me a olhar o bebedouro dos animaes, o leito vazio do riacho alem do sangradouro do açude e, longe, na encosta da serra, a pedreira, que era apenas uma nodoa alvacenta. A mata ia ennegrecendo. Um vento frio começou a soprar. As ultimas cargas de algodão chegaram ao descaroçador. Houve um apito demorado e os trabalhadores largaram o serviço. Consultei o relogio: seis horas.
— É horrivel! bradou Magdalena.
— Como?
— Horrivel! insistiu.
— Que é?
— O seu procedimento. Que barbaridade!
Desproposito.
— Que diabo de historia...
Estaria tresvariando? Não: estava bem accordada, com os beiços contrahidos, uma ruga entre as sobrancelhas.
— Não entendo. Explique-se.
Indignada, a voz tremula:
— Como tem coragem de espancar uma criatura daquella fórma?
— Ah! sim! por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa seria. Assustou-me.
Naquelle momento não suppuz que um caso tão insignificante pudesse provocar desavença entre pessoas razoaveis.
— Bater assim num homem ! Que horror !
Julguei que ella se aborrecesse por outro motivo, pois aquillo era uma frivolidade.
— Ninharia, filha. Está você ahi se afogando em pouca agua. Essa gente faz o que se manda, mas não vai sem pancada. E Marciano não é propriamente um homem.
— Porque?
— Eu sei lá! Foi vontade de Deus. É um molambo.
— Claro. Você vive a humilhal-o.
— Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, já elle era molambo.
— Provavelmente porque sempre foi tratado a pontapés.
— Qual nada! É molambo porque nasceu molambo.
Magdalena calou-se, deu as costas e começou a subir a ladeira. Acompanhei-a, embuchado. De repente voltou-se e, com voz rouca, uma chamma nos olhos azues, que estavam quasi pretos:
— Mas é uma crueldade. Para que fez aquillo?
Perdi os estribos :
— Fiz aquillo porque achei que devia fazer aquillo. E não estou habituado a justificar-me, está ouvindo? Era o que faltava. Grande acontecimento, tres ou quatro muchicões num cabra. Que diabo tem você com o Marciano para estar tão parida por elle?
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
